SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAO




                  HISTRIA ENSINO MDIO




 Este livro  pblico - est autorizada a sua reproduo total ou parcial.
                            Governo do Estado do Paran
                                  Roberto Requio

                          Secretaria de Estado da Educao
                            Mauricio Requio de Mello e Silva

                                    Diretoria Geral
                                Ricardo Fernandes Bezerra

                           Superintendncia da Educao
                           Yvelise Freitas de Souza Arco-Verde

                           Departamento de Ensino Mdio
                                  Mary Lane Hutner

                   Coordenao do Livro Didtico Pblico
                                Jairo Maral




Depsito legal na Fundao Biblioteca Nacional, conforme Decreto Federal n.1825/1907,
de 20 de Dezembro de 1907.


 permitida a reproduo total ou parcial desta obra, desde que citada a fonte.
SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAO
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80240-900 CURITIBA - PARAN


Catalogao no Centro de Editorao, Documentao e Informao Tcnica da SEED-PR




             Histria / vrios autores.  Curitiba: SEED-PR, 2006.  p.400

             ISBN: 85-85380-36-5

             1. Histria. 2. Ensino mdio. 3. Ensino de histria. 4. Relaes de trabalho. 5. Rela-
        es de poder. 6. Relaes culturais. I. Folhas. II. Material de apoio pedaggico. III. Mate-
        rial de apoio terico. IV. Secretaria de Estado da Educao. Superintendncia da Educa-
        o. V. Ttulo.

                                                                                 CDU 93/99+373.5




                                        .
                                       2 Edio
                                  IMPRESSO NO BRASIL
                                DISTRIBUIO GRATUITA
                         Autores
                       Altair Bonini
                Edilson Aparecido Chaves
                Fbio de Oliveira Cardoso
                Fabio Luciano Iachtechen
                      Juraci Santos
                     Marcelo Fronza
                     Marli Francisco
                  Ndia Maria Guariza
                        Sueli Dias
                    Vanderlia Canha

              Equipe tcnico-pedaggica
                Edilson Aparecido Chaves
               Fabio Luciano Iachetechen
                      Juraci Santos
                     Marcelo Fronza
                  Ndia Maria Guariza
                    Vanderlia Canha

     Assessora do Departamento de Ensino Mdio
              Agnes Cordeiro de Carvalho

Coordenadora Administrativa do Livro Didtico Pblico
               Edna Amancio de Souza

                Equipe Administrativa
                   Mariema Ribeiro
                 Sueli Tereza Szymanek

              Tcnicos Administrativos
              Alexandre Oliveira Cristovam
                   Viviane Machado

                    Leitura Crtica
            Hlio Sochodolak  UNICENTRO

                    Colaboradora
                   Maria Jos Teixeira

            Consultor de direitos autorais
              Alex Sander Hostyn Branchier

                    Reviso Textual
                    Renata de Oliveira

                Projeto Grfico e Capa
            Eder Lima / cone Audiovisual Ltda

                Editorao Eletrnica
                 cone Audiovisual Ltda

                          2007
  CartadoSecretrio
Este   Livro Didtico Pblico chega s escolas da rede como resultado
do trabalho coletivo de nossos educadores. Foi elaborado para atender
 carncia histrica de material didtico no Ensino Mdio, como uma
iniciativa sem precedentes de valorizao da prtica pedaggica e dos
saberes da professora e do professor, para criar um livro pblico, acessvel,
uma fonte densa e credenciada de acesso ao conhecimento.

A motivao dominante dessa experincia democrtica teve origem na
leitura justa das necessidades e anseios de nossos estudantes. Caminhamos
fortalecidos pelo compromisso com a qualidade da educao pblica e
pelo reconhecimento do direito fundamental de todos os cidados de
acesso  cultura,  informao e ao conhecimento.

Nesta caminhada, aprendemos e ensinamos que o livro didtico no 
mercadoria e o conhecimento produzido pela humanidade no pode ser
apropriado particularmente, mediante exibio de ttulos privados, leis
de papel mal-escritas, feitas para proteger os vendilhes de um mercado
editorial absurdamente concentrado e elitista.

Desafiados a abrir uma trilha prpria para o estudo e a pesquisa,
entregamos a vocs, professores e estudantes do Paran, este material de
ensino-aprendizagem, para suas consultas, reflexes e formao contnua.
Comemoramos com vocs esta feliz e acertada realizao, propondo,
com este Livro Didtico Pblico, a socializao do conhecimento e dos
saberes.

Apropriem-se deste livro pblico, transformem e multipliquem as suas
leituras.

                    Mauricio Requio de Mello e Silva
                     Secretrio de Estado da Educao
  AosEstudantes
                           Agir no sentido mais geral do termo significa tomar ini-
                      ciativa, iniciar, imprimir movimento a alguma coisa. Por
                      constiturem um initium, por serem recm-chegados e ini-
                      ciadores, em virtude do fato de terem nascido, os homens
                      tomam iniciativa, so impelidos a agir. (...) O fato de que o
                      homem  capaz de agir significa que se pode esperar de-
                      le o inesperado, que ele  capaz de realizar o infinitamente
                      improvvel. E isto, por sua vez, s  possvel porque cada
                      homem  singular, de sorte que, a cada nascimento, vem
                      ao mundo algo singularmente novo. Desse algum que 
                      singular pode-se dizer, com certeza, que antes dele no
                      havia ningum. Se a ao, como incio, corresponde ao fa-
                      to do nascimento, se  a efetivao da condio humana
                      da natalidade, o discurso corresponde ao fato da distino
                      e  a efetivao da condio humana da pluralidade, isto ,
                      do viver como ser distinto e singular entre iguais.


                                                                   Hannah Arendt
                                                              A condio humana



   Este  o seu livro didtico pblico. Ele participar de sua trajetria pelo
Ensino Mdio e dever ser um importante recurso para a sua formao.

    Se fosse apenas um simples livro j seria valioso, pois, os livros re-
gistram e perpetuam nossas conquistas, conhecimentos, descobertas, so-
nhos. Os livros, documentam as mudanas histricas, so arquivos dos
acertos e dos erros, materializam palavras em textos que exprimem, ques-
tionam e projetam a prpria humanidade.
   Mas este  um livro didtico e isto o caracteriza como um livro de en-
sinar e aprender. Pelo menos esta  a idia mais comum que se tem a res-
peito de um livro didtico. Porm, este livro  diferente. Ele foi escrito a
partir de um conceito inovador de ensinar e de aprender. Com ele, como
apoio didtico, seu professor e voc faro muito mais do que "seguir o li-
vro". Vocs ultrapassaro o livro. Sero convidados a interagir com ele e
desafiados a estudar alm do que ele traz em suas pginas.

    Neste livro h uma preocupao em escrever textos que valorizem o
conhecimento cientfico, filosfico e artstico, bem como a dimenso his-
trica das disciplinas de maneira contextualizada, ou seja, numa lingua-
gem que aproxime esses saberes da sua realidade.  um livro diferente
porque no tem a pretenso de esgotar contedos, mas discutir a reali-
dade em diferentes perspectivas de anlise; no quer apresentar dogmas,
mas questionar para compreender. Alm disso, os contedos abordados
so alguns recortes possveis dos contedos mais amplos que estruturam
e identificam as disciplinas escolares. O conjunto desses elementos que
constituem o processo de escrita deste livro denomina cada um dos tex-
tos que o compem de "Folhas".

    Em cada Folhas vocs, estudantes, e seus professores podero cons-
truir, reconstruir e atualizar conhecimentos das disciplinas e, nas veredas
das outras disciplinas, entender melhor os contedos sobre os quais se
debruam em cada momento do aprendizado. Essa relao entre as dis-
ciplinas, que est em aprimoramento, assim como deve ser todo o pro-
cesso de conhecimento, mostra que os saberes especficos de cada uma
delas se aproximam, e navegam por todas, ainda que com concepes e
recortes diferentes.
    Outro aspecto diferenciador deste livro  a presena, ao longo do tex-
to, de atividades que configuram a construo do conhecimento por meio
do dilogo e da pesquisa, rompendo com a tradio de separar o espao
de aprendizado do espao de fixao que, alis, raramente  um espao de
discusso, pois, estando separado do discurso, desarticula o pensamento.

    Este livro tambm  diferente porque seu processo de elaborao e
distribuio foi concretizado integralmente na esfera pblica: os Folhas
que o compem foram escritos por professores da rede estadual de en-
sino, que trabalharam em interao constante com os professores do De-
partamento de Ensino Mdio, que tambm escreveram Folhas para o li-
vro, e com a consultoria dos professores da rede de ensino superior que
acreditaram nesse projeto.

    Agora o livro est pronto. Voc o tem nas mos e ele  prova do valor
e da capacidade de realizao de uma poltica comprometida com o p-
blico. Use-o com intensidade, participe, procure respostas e arrisque-se a
elaborar novas perguntas.

   A qualidade de sua formao comea a, na sua sala de aula, no traba-
lho coletivo que envolve voc, seus colegas e seus professores.
  EnsinoMdio




Sumrio
                 Apresentao............................................................................10
Unidade Temtica I: TrabalhoEscravoetrabalholivre
                 Introduo..................................................................................18
          1  Relaesdetrabalho: Conceitodetrabalho..............................21
          2  Relaesdetrabalho: OMundodotrabalhoem
                   diferentessociedades..................................................................35
          3  Relaesdetrabalho: Aconstruodotrabalhoassalariado........52
          4  Relaesdetrabalho: Transiodotrabalhoescravopara
                   otrabalholivre:amo-de-obranocontextodeconsolidaodo
                   capitalismonasociedades:brasileiraeestadunidense.........................72
          5  Relaesdetrabalho: Otrabalhonasociedade
                   contempornea..........................................................................90


Unidade Temtica II: UrbanizaoeIndustrializao
                 Introduo................................................................................110
         6  Relaesculturais:AscidadesnaHistria...............................112
         7  Relaesdetrabalho:UrbanizaoeindustrializaonoBrasil...130
         8  Relaesculturais:Urbanizaoeindustrializao
                   nosculoXIX..........................................................................151
         9  Relaesculturais:Urbanizaoeindustrializao
                                           .
                   nasociedadecontempornea......................................................167
                                                                                                  Histria

       10  Relaesdepoder:UrbanizaoeindustrializaonoParan.....180
       11  Relaesdetrabalho:OPortodeParanagunocontexto
                                     .
              daexpansodocapitalismo.......................................................200


Unidade Temtica III: OEstadoeasrelaesdepoder
            Introduo................................................................................214
       12  Relaesdepoder:OEstadonosmundosantigoemedieval......217
       13  Relaesdepoder:OEstadoeasrelaesdepoder:
                                         .
              formaodosEstadosnacionais .................................................234
       14  Relaesdepoder:RelaesdepodereviolncianoEstado......252
       15  Relaesdepoder:OEstadoimperialistaesuacrise................274


Unidade Temtica IV: Movimentossociais,polticoseculturais
                     Relaesdedominaoeresistncia
            Introduo................................................................................294
       16  Relaesculturais:Relaesdedominaoeresistncia
              nassociedadesgregaeromananaantigidade:
              mulheres,plebeuseescravos......................................................296
       17  Relaesculturais:Relaesdedominaoeresistncia
              nasociedademedievaleuropia:camponeses,artesos,
              mulheres,heregesedoentes.......................................................314
       18  Relaesculturais:Relaesdedominaoeresistncianasocie-
              dadeocidentalmoderna.............................................................330
       19  Relaesdepoder:Relaesdedominaoeresistnciano
              mundodotrabalhonossculosXVIIIeXIX...................... 354
       20  Relaesculturais:Movimentossociais,
              polticoseculturaisnasociedadecontempornea:
              proibidoproibir?................................... 376
       EnsinoMdio

                             Todo ser humano tem conscincia do passado (definido como o perodo ime-
                        diatamente anterior aos eventos registrados na memria de um indivduo) em vir-
                        tude de viver com pessoas mais velhas. Provavelmente todas as sociedades que


            A           interessam ao historiador tenham um passado, pois mesmo as colnias mais inova-
                        doras so povoadas por pessoas oriundas de alguma sociedade que j conta com
                        uma longa histria. Ser membro de uma comunidade humana  situar-se em rela-



            p
                        o ao seu passado (ou da comunidade), ainda que apenas para rejeit-lo. O pas-
                        sado , portanto, uma dimenso permanente da conscincia humana, um compo-
                        nente inevitvel das instituies, valores e outros padres da sociedade humana.
                        O problema para os historiadores  analisar a natureza desse "sentido do passado"


            r           na sociedade e localizar suas mudanas e transformaes.
                                                                                    < Eric Hobsbawm. Sobre Histria.
                                                        < HOBSBAWM, Eric. Sobre histria. Traduo Cid Knipel Moreira.


            e
                                                          So Paulo: Companhia das Letras, 1998. (p.22)


                         Prezados professores e estudantes,


            s
                         Contam as pesquisas, recentemente feitas com 32.000 estudan-
                     tes em 26 pases da Europa Ocidental e Oriental, que os jovens tm
                     grande entusiasmo e interesse em aprender e conhecer a sua hist-
                     ria, de sua gente e do mundo, bem como se sentem fascinados pe-

            e        los contedos histricos. No entanto, estas mesmas pesquisas indicam
                     que este entusiasmo no se aplica, principalmente, aos manuais did-
                     ticos que tm sido adotados em suas aulas de Histria. O que nos per-

            n
                     mite afirmar que: apesar da Histria ser um conhecimento significati-
                     vo e atraente aos jovens, o saber histrico escolar, isto , a forma pela
                     qual este conhecimento  apresentado na escola, no tem sido mui-
                     to aprovado pelos alunos. Assim, estas pesquisas colocam a questo

            t        real e concreta de que os manuais de Histria sejam repensados pa-
                     ra se tornarem mais prximos queles que so seus verdadeiros des-
                     tinatrios: os jovens, neste caso, os alunos das escolas pblicas do es-

            a        tado do Paran.
                         Foi assim que um grupo de professores de Histria, de diferentes
                     regies do Estado do Paran, assumiu o desafio proposto pela Secreta-

            
                     ria de Estado da Educao para que estes professores se tornassem au-
                     tores de livros que seriam utilizados pelos alunos do Ensino Mdio, no
                     Paran. Assim, durante um perodo, estes profissionais saram de suas


            
                     salas de aula para continuar a construir suas aulas de Histria em ou-
                     tros espaos, tais como nas reunies com os companheiros, professo-
                     res-historiadores, nas bibliotecas, nos arquivos e na internet.
                         Acreditamos que a Histria  feita por todos ns, e que este livro

            o        que  fruto de sementes plantadas pelo trabalho cotidiano dos profes-
                     sores de Histria e que acreditam que, acima de tudo, vale a constru-
                     o da mudana.
                          Este livro foi organizado com o objetivo de colocar a disposio
                     de vocs um material alternativo de qualidade. Para que todos os pro-

10   Apresentao
                                                                                   Histria

fessores e estudantes do Ensino Mdio das Escolas Pblicas do Estado
do Paran tenham ao seu alcance contedos histricos focados atra-
vs de temas, discutidos amplamente pela historiografia e de relevn-
cia para a atualidade. A tematizao dos contedos da disciplina de
histria,  uma forma de organizao didtica, relativa aos atos de se-
lecionar, classificar, hierarquizar, problematizar e explicar os conte-
dos que devem ser investigados na sala de aula, com o objetivo de fa-


                                                                               H
cilitar aos alunos a compreenso de um tema mais abrangente e por
isso de maior significado. Nesta obra so apresentadas quatro Unida-
des Temticas:
1. Trabalho escravo e trabalho livre.


                                                                               I
2. Urbanizao e industrializao.
3. O Estado e as relaes de poder.
4. Movimentos sociais, polticos e culturais: relaes de dominao e resis-
     tncia.
     Estas unidades temticas foram discutidas de forma abrangente e
foram articuladas pelos procedimentos metodolgicos tempo e espao,
os quais possibilitaram a delimitao e a contextualizao das mesmas
conforme propem as Diretrizes Curriculares de Histria. Os conte-
                                                                               S
                                                                               T
dos estruturantes Relaes de Trabalho, Relaes de Poder e Relaes Cul-
turais balizam os campos de investigao do conhecimento histrico
de modo que esto presentes em todas as aes humanas e em todos
os perodos histricos, so interligados entre si e permitem uma anli-


                                                                               
se ampla dessas aes humanas.
     Cada unidade temtica  constituda por vrios Folhas que contem-
plam os temas acima destacados. Porm,  importante apontar que em
alguns Folhas so abordados mais de um contedo estruturante.


                                                                               R
     Partiu-se do princpio de que a Histria  um conhecimento cons-
trudo socialmente, que tem como objeto de estudo os processos his-
tricos construdos pelas aes e pelas relaes humanas (atividades,
experincias ou trabalhos humanos, entre outros aspectos) praticadas


                                                                               I
no tempo. Para isso,  necessrio fazer uso de um mtodo cientfico
especfico pautado na anlise e na interpretao de documentos deixa-
dos pelos sujeitos histricos do passado (fontes, provas ou evidncias).
So estes elementos que permitem aos historiadores a compreenso


                                                                               A
dos processos histricos e possibilitam a construo de uma narrativa
histrica (interpretaes e explicaes).
     Sendo assim, a histria pode ser entendida como uma interpretao
dos processos histricos do passado e no s como uma descrio dos
fatos, como acontecia no sculo XIX.
     Os Folhas iniciam-se com questes problematizadoras vinculadas
aos contedos e ao contexto scio-econmico, poltico e cultural .
Com isso, a prtica da investigao  estimulada, tornando-se um de-
safios estudantes e professores, os quais ao se perceberem enquanto


                                                                                              11
       EnsinoMdio

                     sujeitos histricos, podero reformular seus questionamentos sobre o
                     passado, para buscar explicaes e uma compreenso inteligvel so-
                     bre o mundo no qual esto inseridos. Este  o sentido da histria en-


            A
                     quanto cincia do passado, pois so essas indagaes que permitem
                     aos seres humanos, em diferentes pocas, construrem sua conscin-
                     cia histrica.
                         Alm da problematizao, os Folhas esto relacionados s abor-

            p        dagens contemporneas estabelecendo relaes entre o presente e o
                     passado, bem como a textos e a conceitos de outras reas do conhe-
                     cimento, de forma interdisciplinar, contribuindo para a construo da

            r        narrativa histrica. Os textos, imagens, msicas, etc, relativos s outras
                     disciplinas invariavelmente sero considerados neste livro como docu-
                     mentos que devem ser articulados a uma anlise historiogrfica.


            e
                         Procurou-se elaborar atividades que possibilitem a reflexo, prin-
                     cipalmente atravs da anlise de documentos escritos, iconogrficos,
                     materiais ou orais e de textos de historiadores. Privilegiou-se a pesqui-
                     sa e o incentivo para que os estudantes construam sua prpria narrati-

            s        va histrica com base em suas concluses.
                         O material didtico aqui apresentado abre caminho para que os
                     professores das escolas pblicas do Estado do Paran, possam iniciar

            e        um novo percurso em sua prtica pedaggica e, assim, elaborar seu
                     prprio material tornando-se agentes efetivos da produo pedaggi-
                     ca, ampliando os temas aqui desenvolvidos, os documentos e as ati-


            n
                     vidades.
                         Por fim, destaca-se que os Folhas no esto organizados de forma
                     fechada, ou seja, eles no seguem uma seqncia obrigatria, que de-


            t
                     ve ser seguida unidade a unidade. Esto articulados entre si atravs
                     dos contedos estruturantes e de uma organizao cronolgica a partir
                     de blocos histricos, permitindo aos professores e aos alunos que uti-
                     lizem este material didtico de formas variadas, complementando com

            a        outros livros, artigos de revistas e jornais.


                       Relaesdetrabalho
                        O trabalho expressa a relao que os seres humanos estabelecem
                     entre si e a natureza. A execuo do trabalho requer o emprego fsico

                    e mental. Esses esforos transformam elementos da natureza em bens
                     que satisfazem as necessidades humanas. Ao realizar as atividades de
                     transformao de elementos da natureza, os homens se relacionam en-

            o        tre si. As relaes de trabalho permitem diversas formas de organiza-
                     o do mundo do trabalho. Na sociedade capitalista, o trabalho assu-
                     miu uma forma muito especfica: o emprego assalariado. Para entender
                     como se construiu o modelo capitalista bem como suas conseqncias,
                     faz-se necessrio entender como as relaes de trabalho foram cons-
                     trudas historicamente.
12   Apresentao
                                                                             Histria

    A viso economicista e determinista da histria influenciou, por
muito tempo, o estudo das relaes de trabalho. Nessa concepo,
acreditava-se que a ao dos sujeitos era condicionada exclusivamen-
te pela organizao econmica de sua sociedade. Por exemplo, a so-
ciedade medieval foi explicada a partir do modo de produo feudal,
esse modelo era utilizado para explicar toda a Histria da Europa dos
sculos V ao XV; as especificidades de cada regio, mudanas e ruptu-
ras que ocorreram nesse perodo foram desconsideradas.
    Para o estudo das relaes de trabalho, so fundamentais as con-
tribuies dos historiadores da corrente historiogrfica Nova Esquerda
Inglesa, como Eric J. Hobsbawn e Edward P. Thompson, que, a par-
tir da concepo marxista, passaram a repensar a anlise histrica por
meio de conceitos, superando, assim, a viso economicista e determi-
nista do processo histrico.
    Para esses historiadores, o resgate da histria dos trabalhadores 
possvel quando o estudioso rene vrios documentos (inclusive aque-
les que a historiografia tradicional no aceitava como fonte histrica,
como, por exemplo, um boletim de ocorrncia), esses documentos de-
vem ser analisados a partir do conhecimento que se possu do objeto
para verificar se as informaes retiradas dos documentos correspon-
dem a esse conhecimento. Caso isso no ocorra, o historiador deve
construir uma nova explicao para o seu objeto de investigao.
     Ao estudar esse contedo estruturante, nos diferentes perodos his-
tricos, voc poder perceber que as relaes de trabalho so carre-
gadas de relaes de poder, estabelecidas entre grupos antagnicos,
sejam eles senhores ou escravos, patrcios versus patrcios, plebeus
versus plebeus, operrios versus operrios; burgueses versus burgue-
ses, e assim por diante.
    Os Folhas que compem esse contedo estruturante permitem o
estudo das relaes de trabalho no Ensino Mdio, os quais procuraram
contemplar diversos tipos de fontes histricos para que professores e
alunos posam, a partir de diferentes vises, perceber a histria para
alm dos documentos oficiais.
    Partindo dessa concepo, o estudo das relaes de trabalho de-
ve considerar: as esferas domstica; a prtica comunitria; as manifes-
taes artsticas e intelectuais e a participao nas instncias de repre-
sentaes: polticas; trabalhistas e comunitrias.



  Relaesdepoder
    O poder  aqui definido como a capacidade ou possibilidade de
agir ou de produzir efeitos e refere-se a indivduos e a grupos huma-
nos. O poder no possui forma de coisa ou de objeto, mas se manifes-
ta como relaes sociais e ideolgicas estabelecidas entre aquele que

                                                                                        13
       EnsinoMdio

                     exerce e aquele que se submete, portanto, o que existe so as rela-
                     es de poder.
                         O estudo das relaes de poder, na disciplina de Histria, concen-
                     trou-se por muito tempo, no campo da poltica. A proposta desse livro,
                     ao trabalhar as relaes de poder,  que voc, possa compreender que
                     essas relaes encontram-se tambm na dimenso econmico-social e
                     na dimenso cultural, ou seja, em todo corpo social. Exemplos disso
                     so as vrias formas de revolues e revoltas sociais, polticas e cultu-
                     rais, dominaes e resistncias ao longo do processo histrico.
                         Os historiadores da Nova Esquerda Inglesa criticam a historiografia
                     poltica tradicional, pois esta se limitou a explicar o poder tendo como
                     referncia somente o Estado. A Nova Esquerda Inglesa analisa as rela-
                     es de poder a partir da valorizao das condies materiais, das es-
                     truturas scio-econmicas, das classes e grupos sociais, dos movimen-
                     tos coletivos em geral e reintroduz a ideologia como categoria analtica
                     do discurso histrico.
                         Para a corrente historiogrfica Nova Histria Cultural, o estudo das
                     relaes de poder remete s esferas das representaes, do imaginrio
                     e das prticas sociais. Radicalizando esta idia, Michel Foucault optou
                     pela idia de "poderes". Esta concepo entende os saberes enquanto
                     poderes; poderes que so exercidos nas instituies, tais como: nas es-
                     colas nas prises, nos hospitais, nas famlias nas comunidades, nos es-
                     tados nacionais, nas igrejas e nos organismos internacionais polticos,
                     econmicos e culturais. Ele tambm valorizou a pluralidade das redes
                     de poder ou micropoderes e props o estudo das relaes entre as di-
                     ferentes prticas sociais discursivas.
                         O entendimento de que as relaes de poder so exercidas nas di-
                     versas instncias scio-histricas, como o mundo do trabalho, as polti-
                     cas pblicas e as diversas instituies, permite a voc, estudante, per-
                     ceber que essas relaes fazem parte de seu cotidiano. Assim, voc
                     poder identificar onde se localizam as arenas decisrias, porque de-
                     terminada deciso foi tomada e de que forma ela foi executada ou im-
                     plementada. Assim, voc compreender como, quando e onde reagir
                     a medidas de poder que vivenciamos.


                       Relaesculturais
                         Caro estudante, o contedo estruturante relaes culturais, propos-
                     to neste livro, parte do princpio de que a cultura  comum a todos os
                     seres humanos e  construda historicamente, ou seja, a cultura no 
                     algo natural, ao contrrio, ela  produto coletivo da vida humana. As
                     diferenas culturais existem devido s diversas interpretaes constru-
                     das por sujeitos histricos que esto inseridos em grupos sociais dis-
                     tintos na diviso social do trabalho.


14   Apresentao
                                                                           Histria

    Assim, na forma de organizar a vida poltico-econmica, as socieda-
des contemporneas no so to diferentes, pois so poucas as socieda-
des que destoam do padro cultural imposto pelo capitalismo contempo-
rneo. Em outras palavras, as classes dominadas existem numa relao
de poder com as classes dominantes, de tal modo que ambas partilham
um processo social comum, portanto, de uma experincia histrica co-
mum, produto dessa histria coletiva. No entanto, os benefcios produzi-
dos por esta sociedade e seu controle se repartem desigualmente.
    Este captulo privilegia o contedo estruturante relaes culturais
por entender que as aes e relaes humanas, as quais acontecem no
interior de uma sociedade, bem como na relao desta com as demais
sociedades, permitem que a cultura se torne um objeto de estudo da
disciplina de Histria.
    O estudo das relaes culturais deve considerar a especificidade de
cada sociedade e as relaes entre elas. O processo histrico constitu-
do na relao entre as diversas sociedades  o que pode ser chama-
do de cultura comum.
    As relaes culturais que ocorrem no interior de um grupo social
e entre uma sociedade e outra so carregadas de relaes de poder e
se estabelecem a partir das diferentes posies que os sujeitos histri-
cos ocupam na diviso social do trabalho. No podemos afirmar que
todos os membros de uma classe social possuem a mesma cultura, os
trabalhadores rurais, por exemplo, apresentam uma cultura diferente
do operrio do meio urbano, porque a regio onde eles vivem, as suas
origens e as experincias coletivas por quais passararam influenciam,
e muitas vezes, determinam a cultura deste grupo social.
    O estudo das relaes culturais tem sua importncia na medida em
que possibilita o questionamento dos padres culturais estabelecidos e
pode auxiliar no combate aos preconceitos, visto que ao conhecermos
as relaes culturais de determinado grupo social no contexto em que
ele foi produzido, deixamos de lado nossos prprios conceitos. Com
isso, poderemos entender por que determinado grupo social age desta
ou daquela forma estabelecendo, assim, uma possvel relao de res-
peito entre a nossa e as outras culturas.
    Os historiadores da Nova Esquerda Inglesa repensaram o conceito
de cultura a partir de sujeitos histricos antes ignorados pela histria
tradicional e passaram a valorizar uma "histria vista de baixo".
    Para o historiador ingls Thompson, o conceito de experincia his-
trica  o elemento articulador entre as relaes humanas, pois esta se
expressa na constituio de uma cultura ou costumes em comuns. As-
sim, este historiador afirmava que a cultura comum dos trabalhadores
urbanos e camponeses na Inglaterra do sculo XVIII estava "longe de
ter a permanncia rgida que a palavra `tradio' sugere, o costume era
um terreno de mudana e de conflito, um lugar onde interesses opos-
tos formulavam reivindicaes opostas." (1998, pp. 16-17).

                                                                                      15
       EnsinoMdio

                         Tambm o historiador ingls Hobsbawm entende que as tradies
                     culturais so inventadas dentro do contexto da luta de classes, intra-
                     classes e das relaes interclasses. Neste conflito, existem grupos do-
                     minantes que lutam por um consenso hegemnico, enquanto outros
                     grupos sociais resistem criando uma contra-hegemonia a partir de su-
                     as experincias e valores.
                          A proposta deste livro, ao trabalhar com relaes culturais  luz
                     da Nova Histria cultural,  de abordar estas relaes a partir de con-
                     ceitos que possibilitem superar a dicotomia entre a cultura de elite e
                     a cultura popular. O historiador francs Roger Chartier analisa a cul-
                     tura a partir das prticas, apropriaes e representaes culturais que
                     os sujeitos tm em relao aos artefatos culturais (literrios, visuais ou
                     mentais).
                          possvel entender a Historia universal a partir de um recorte local
                     estudando as aes e relaes de pessoas comuns, como de famlias,
                     comunidades. Esta abordagem  denominada de micro-histria ou mi-
                     croanlise e, a partir da mesma, voc poder, ampliar seu entendimen-
                     to da macroanlise, ou seja, a histria geral, como j comprovou o his-
                     toriador italiano Carlo Ginzburg atravs de suas obras como O Queijo
                     e os Vermes. Nos Folhas que compem este livro, so propostas ativi-
                     dades que permitem estabelecer esta relao.
                         Tanto os historiadores da Nova Esquerda Inglesa como os da Nova
                     Histra Cultural utilizam-se de documentos antes desvalorizados pe-
                     la historiografia tradicional, tais como: processos judiciais, interroga-
                     trios, boletins de ocorrncia, canes populares, relatos de tradies
                     orais, livros populares, etc. O uso dessas evidncias possibilitou aos
                     historiadores a construo de narrativas histricas que incorporavam
                     olhares alternativos em relao s aes dos sujeitos ao produzir e vi-
                     venciar o processo histrico de constituio da humanidade.

                        Bom proveito!




16   Apresentao
                                                                                              Histria

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                                                                                                         17
       EnsinoMdio




            I        z UNIDADETEMTICAI:Trabalhoescravoe
                       trabalholivre
            n           Tiro renda e boto renda
                        Fao renda na almofada

            t           Por causa de meu benzinho
                        No fao renda nem nada...

                        Estou fazendo esta renda


            r           Pra busc e ganh dinheiro
                        Pra compr um par de pente
                        Pra bot no meu cabelo



            o
                        Esta almofada me mata
                        Estes bilros me consome
                        Os alfinetes me mata
                        A renda me tira a fome...


            d           n ("Bendito o trabalho que se faz cantando". Cantos de trabalho das rendeiras de Guarapari recolhidos em agosto
                          de 1952. In: NEVES, Guilherme Santos. Folclore, dez. 1980).


                         Quando os turistas passeiam pelo litoral do estado do Esprito Santo


            u
                     encontram belas rendas para serem compradas. No entanto, poucos
                     deles levam em conta o esforo despendido pelas mulheres que
                     produzem esse belssimo artesanato. Sobre o que cantam as rendeiras
                     de Guarapari? Qual a relao entre essas trovas e a unidade temtica


            
                     aqui apresentada?
                         Cotidianamente defrontamo-nos com duas realidades comuns:
                     algumas pessoas que esto satisfeitas com as atividades que
                     desempenham no trabalho, sentem-se realizadas, e recebem bem pelo


            
                     que fazem, enquanto outras, insatisfeitas, em maior nmero, reclamam
                     que o trabalho  cansativo e recebem baixos salrios.
                         Historicamente, os seres humanos tm desenvolvido grandes
                     civilizaes atravs da organizao social do trabalho. Cada sociedade


            o
                     organizou seu mundo do trabalho de forma diferente. Algumas pessoas
                     realizavam as tarefas mais difceis, enquanto outras sustentavam-se
                     com muitos privilgios.




18   Introduo
                                                                             Histria




    Sendo assim, podemos questionar: a organizao do mundo do
trabalho nas sociedades passadas apresentam semelhanas e diferenas
com a nossa forma de trabalhar? Nas diferentes sociedades o trabalho
                                                                         H
                                                                         I
era realizado por quais grupos? O trabalho  uma atividade cansativa
e sem satisfao?  possvel haver satisfao com o trabalho? Como ele
 organizado socialmente?
    O estudo sobre o mundo do trabalho relacionado as diferentes


                                                                         S
sociedades torna-se importante para entendermos melhor estas e
outras questes.
    Para isso,  muito importante que se entenda o que  o trabalho
e por quais mudanas ele passou ao logo das diferentes sociedades.


                                                                         T
O ncleo dessa unidade temtica se refere s mudanas surgidas no
mundo do trabalho com a substituio dos trabalhos servil e escravo
pelas diferentes formas de trabalho assalariado. Portanto, quais os
significados que o mundo do trabalho vem adquirindo no decorrer da
histria? Para as sociedades atuais qual a importncia do trabalho?
    Muitos sujeitos histricos annimos trabalharam na construo das
sociedades em que viviam. Voc consegue identificar quais foram esses
trabalhadores e a posio social que ocuparam nas sociedades em que
                                                                         
viveram?
    Ser que sempre existiu salrio para o trabalho? Trabalho sempre
esteve relacionado com salrio?
    Perante as leis do Brasil somos trabalhadores livres. Mas, para
                                                                         R
                                                                         I
chegarmos a essa liberdade passamos por um processo de transio.
Afinal o que foi essa transio do trabalho? Podemos ter a certeza de
que ela foi de fato efetivada?
    No importa sua escolha profissional ou sua classe social! Voc j


                                                                         A
percebeu que um dos seus maiores desafios  a insero no mundo
do trabalho?




                                                                                        19
       EnsinoMdio




20   Relaesdetrabalho
                                                                                                                     Histria




                                                                                                            1
                                                              RELAES DE TRABALHO:
                                                                                 O conceito de trabalho
                                                                                                              n Altair Bonini1

                                               ertamente voc j ouviu                 Ora bolas
                                             essa msica sendo canta-                  No me amole
                                            rolada por a, ela expressa                Com esse papo
                                            uma opinio sobre o traba-                 De emprego, uuuuu
                                            lho. Por que ser que o au-                No t vendo
                                            tor diz que no quer saber                 No t nessa
                                            de emprego, conseqente-                   E o que eu quero 

                                            mente, de um trabalho ou                   Sossego... Sossego
                                                                                   n (Composio: Tim Maia [1942-1998], 1978).
                                            ocupao? O que significa o
                                            trabalho para ele? Acreditamos que a realidade hoje seja
                                            diferente. Talvez uma questo importante que ocupa gran-
                                            de parte do tempo dos jovens na atualidade seja a busca
                                            por um emprego, para, atravs deste, poder conquistar
                                            dignidade e respeito entre seus familiares e/ou comunida-
                                            de, adquirir mercadorias e produtos que julgue necessrio,
                                            entre tantas outras coisas que o trabalho proporciona. Para
                                            tanto, empenha-se em um longo perodo de preparao.
                                            Entretanto, os seres humanos vivem uma contradio, tan-
                                            to podem satisfazer-se pelo trabalho conquistando seus
                                            objetivos, quanto o trabalho pode significar sofrimento,
                                            cansao, a monotonia das atividades repetitivas ou a ex-
                                             plorao de suas capacidades fsicas e intelectuais.
                                                   Podemos pensar o que se entende por trabalho? Sem-
                                                          pre foi da forma como  realizado hoje? Quais os
                                                             significados que o trabalho vem adquirindo no
                                                                 decorrer da histria? Para as sociedades atuais,
1
 Colgio de Aplicao Pedaggico da Universidade Estadual
de Maring  Maring  UEM
                                                                     qual a importncia do trabalho?

                                                                                                  OConceitodetrabalho            21
        EnsinoMdio

                                     Oqueotrabalho?
                                       Parece tarefa fcil definir o que significa o termo trabalho. Entretan-
                                   to, quando ns iniciamos essa atividade, percebemos a complexidade
                                   do conceito, que pode ser visto sob vrios prismas e adquirir significa-
                                   dos diversos, desde o uso cotidiano, quando se fala "o trabalho da m-
                                   quina escavadeira" ou "a mulher entrou em trabalho de parto," at ex-
                                   plicaes filosficas, que procuram entender as dimenses do trabalho
                                   para o homem e para a vida em sociedade.
                                       A prpria palavra trabalho no  algo que tenha uma definio cla-
                                   ra. Em quase todas as lnguas europias existem mais de uma defini-
                                   o, em grego tem uma denominao para esforo e outra para fabri-
                                   cao. Em latim existe a separao entre labore, a ao, e operare, que
                                   corresponde  obra. Em outras lnguas existem pelo menos duas deno-
                                   minaes ligadas  realizao de um trabalho, por exemplo, em fran-
                                   cs existe a diferena entre travaillere e ouvrer; trabajar e obrar em
                                   espanhol como no ingls labour e work.
                                       Em nossa lngua, a palavra trabalho originou-se do latim tripalium,
                                   que era um instrumento agrcola utilizado pelos romanos para bater o
     No dicionrio Aur-           trigo, as espigas de milho ou o linho. Com o tempo, tripalium foi re-
     lio, a palavra "Trabalho"     lacionado com instrumento de tortura, juntamente com o verbo Tri-
     est relacionado  aplica-    paliare, que significa torturar. Desta forma, em portugus, a palavra
     o das foras e faculda-
                                   originou-se vinculada s idias de padecimento, sofrimento, esforo,
     des humanas para alcan-
                                   laborar e obrar.
     ar um determinado fim.
     Atividade coordenada, de          Na Filosofia, o conceito de trabalho  visto como a expresso das
     carter e/ou intelectual,     foras espirituais ou corporais em atividade, tendo em vista um fim
     necessria  realizao de    que deve ser alcanado. Mesmo que no se produza nada imediata-
     qualquer tarefa, servio ou   mente visvel (trabalho intelectual) como um resultado exteriormente
     empreendimento. O exer-       perceptvel, um produto ou uma mudana de estado (trabalho corpo-
     ccio dessa atividade co-     ral), pode existir uma separao entre o trabalho intelectual e o braal,
     mo ocupao, ofcio, pro-     e essas duas formas de trabalho encaixam-se nesta definio.
     fisso, etc.                      Mas ser que podemos separar trabalho intelectual e trabalho cor-
     (Adaptado de Novo di-         poral? O pedreiro no utiliza inteligncia e raciocnio para erguer uma
     cionrio Aurlio da           parede de tijolos? O escritor no tem desgaste fsico ao escrever um li-
     Lngua Portuguesa,            vro? Para pensadores, como Karl Marx (1818-1883),  por meio do tra-
     1986, p. 1695.)               balho que o homem modifica a natureza e o mundo para satisfazer as
                                   necessidades humanas (pessoais ou sociais) e assim transformar a na-
                                   tureza em objetos de cultura, ou seja, ao mesmo tempo em que a na-
                                   tureza  transformada, o mesmo ocorre com o homem.
                                       Saibamos que, para os filsofos que compartilham do pensamen-
                                   to de Marx, o que distingue o trabalho humano do dos animais  que
                                   naquele h conscincia e intencionalidade, enquanto os animais tra-
                                   balham por instinto, sem conscincia. Outra caracterstica do trabalho
                                   humano  que ele expressa a liberdade humana, visto que no pode-
                                   mos ser programveis como um rob, podemos realizar as tarefas de
                                   formas variveis e at nos realizarmos nelas.

22   Relaesdetrabalho
                                                                                                         Histria

   Desta forma, na linguagem diria no parece haver diferenas quan-
do utilizamos este termo ou conceito,  na linguagem cientfica que os
significados tornam-se mais complexos.  isto que vamos buscar en-




                                                                                                                      n Fonte: www.harley.com
tender neste Folhas.


    Documento 1
       Antes de tudo  um processo entre o homem e a Natureza, um pro-
 cesso em que o homem, por sua prpria ao, media, regula e controla seu         n Karl Marx  1818-1883.
 metabolismo com a Natureza. Ele mesmo se defronta com a matria natural            Karl Marx nasceu em 05
 como uma fora natural. Ele pe em movimento as foras naturais perten-           de maio de 1818, na anti-
 centes  sua corporalidade, braos e pernas, cabea e mo, a fim de apro-         ga Prssia Renana  compe
 priar-se da matria natural numa forma til para sua prpria vida. Ao atuar,      a atual Alemanha. De famlia
 por meio desse movimento, sobre a Natureza externa a ele, ao modific-la,         abastada e culta, estudou na
 ele modifica, ao mesmo tempo, sua prpria natureza. Ele desenvolve as po-         Universidade de Bona e de-
 tncias nela adormecidas e sujeita o jogo de suas foras a seu prprio dom-      pois na de Berlim, formou-se
 nio. No se trata aqui das primeiras formas instintivas, animais, de trabalho.    em Direito. Em 1841 termi-
 O estado em que o trabalhador se apresenta no mercado como vendedor               nou o doutorado em Filosofia.
                                                                                   Tentou a carreira universitria,
 de sua prpria fora de trabalho deixou para o fundo dos tempos primitivos
                                                                                   mas grande parte de sua vi-
 o estado em que o trabalho humano no se desfez ainda de sua primeira for-
                                                                                   da desenvolveu a funo de
 ma instintiva. Pressupomos o trabalho numa forma em que pertence exclu-
                                                                                   jornalista. Contava sempre
 sivamente ao homem. Uma aranha executa operaes semelhantes s do                com a ajuda do amigo ale-
 tecelo, e a abelha envergonha mais de um arquiteto humano com a cons-            mo F. Engels, com quem es-
 truo dos favos de suas colmias. Mas, o que distingue, de antemo, o            creveu obras como O mani-
 pior arquiteto da melhor abelha  que ele construiu o favo em sua cabea,         festo comunista (1848) e
 antes de constru-lo em cera. No fim do processo de trabalho obtm-se um          A ideologia alem (1845-
 resultado que j no incio deste existiu na imaginao do trabalhador, e, por-    46). Faleceu em 14 de maro
 tanto, idealmente. Ele no apenas efetua uma transformao da forma da            de 1883. Dentre suas obras,
 matria natural: realiza, ao mesmo tempo, na matria natural seu objetivo,        podemos destacar: A mis-
 que ele sabe que determina, como lei, a espcie e o modo de sua atividade         ria da filosofia (1847), O
 e ao qual tem que subordinar sua vontade. E essa subordinao no  um            capital (1867), Sobre a
 acontecimento isolado. Alm dos rgos que trabalham,  exigida a vonta-          crtica da economia po-
                                                                                    ltica (1859).
 de orientada a um fim, que se manifesta com ateno durante todo o tempo
 de trabalho, pelo prprio contedo e pela espcie e modo de sua execuo,
 atrai o trabalhador, portanto, quanto menos ele aproveita, como jogo de su-
 as prprias foras fsicas e espirituais. (MARX, 1985 [1867], pp. 149-150).




                 ATIVIDADE

 1. Comente os aspectos do pensamento de Marx, presentes no documento 1, que contribuem para
    entendermos melhor o que  o trabalho. Quais as caractersticas do trabalho humano que este pen-
    sador destaca?




                                                                                   OConceitodetrabalho                       23
                                   EnsinoMdio

                                                           Outraviso
                                                             Na linguagem bblica, a idia de trabalho est relacionada  maldi-
                                                         o divina, como castigo decorrente do pecado original, "Ganhars o
                                                         teu po com o suor do teu rosto" (Gnesis III, 19), tambm se relacio-
                                                         na com o pensamento de que aquele que no contribui com seu tra-
                                                         balho no tem direitos, uma vez que, "se algum no quiser trabalhar
                                                         no coma tambm." (II Tessal, 3, 8-10).  por meio de um esforo do-
                                                         loroso que o homem sobrevive na natureza. Mesmo assim, o homem
                                                         continua totalmente dependente de Deus, "pois sem ele todo esforo
                                                         no d nenhum resultado" (Sl. 127, 1). O trabalho realizado neste es-
                                                         prito sempre  recompensado por Deus "que um dia dar ao homem
                                                         o descanso por seus esforos" (Apc.14,13). Ento, pela Bblia, o traba-
                                                         lho pode significar o sofrimento, mas tambm a salvao.




                                                           Otrabalhoesuavalorizao
                                                                                      Durante boa parte da Histria, o trabalho foi
                                                                                  visto como atividade desvalorizada, considera-
                                                                                  do, pelos gregos antigos, como a expresso da
                                                                                  misria humana. Para Plato (428 - 347 a.C.) e
                                                                                  Aristteles (384-322 a.C.), o trabalho era aqui-
 n http://paginas.terra.com.br




                                                                                  lo que estava ligado  necessidade: de alimen-
                                                                                  tar-se, de cobrir-se, entre outras. Dessa forma,
                                                                                  a necessidade limita a liberdade do homem e,
                                                                                  assim, tudo que se destinava ao produzir e co-
                                                                                  mercializar, ficava a cargo dos escravos.
                                                                                      Para os romanos, que tambm era uma so-
                                 Documento 2             ciedade escravista, o trabalho era algo vil, oposto ao lazer e s ativida-
                                                         des intelectuais.
                                 Servos trabalhando,
                                 c. sculos XII a XIV.       Durante a Idade Mdia (sculos V a XV), seguiu-se o referencial re-
                                                         ligioso catlico do trabalho como castigo, sofrimento e penitncia do
                                                         homem, ou seja, dos servos, j que o nobre no deveria trabalhar, pois
                                                         a sociedade estava dividida em trs ordens com funes bem defini-
                                                         das: aos nobres cabia guerrear, ao clero orar e aos servos trabalhar.
                                                             Somente na modernidade (sculos XV ao XVIII), com mudanas
                                                         profundas pela qual a sociedade europia passou com o revigoramen-
                                                         to comercial e urbano, que o trabalho passou a ser valorizado. Neste
                                                         perodo, o trabalho foi idealizado como um smbolo de liberdade do
                                                         homem, de transformao da natureza, das coisas e da sociedade, as-
                                                         sumindo os anseios da burguesia nascente.



24                               Relaesdetrabalho
                                                                                                     Histria

     A valorizao do trabalho se deu, principalmente, com a difuso
das idias renascentistas e iluministas. No Renascimento (sculos XV
ao XVI), o trabalho passa a ser visto como um estmulo para o desen-
volvimento dos seres humanos, e como expresso da personalidade
humana ao se tornar um criador por sua atividade. Assim,  por meio
do trabalho que os seres humanos preenchem suas vidas e podem re-
alizar qualquer coisa.
    Mas, foi no Iluminismo, no sculo XVIII, que o trabalho foi exalta-
do ao lado da tcnica, quando o capitalismo se consolidava e surgiam
as primeiras fbricas. Com os estudos de economistas e filsofos, co-
mo John Locke (1632-1704), Adam Smith (1723-1790) e David Ricardo
(1779-1823), o trabalho passou a ser exaltado como fonte de toda a ri-
queza e valor sociais.


                 DEBATE

     Leia as frases de pensadores posteriores a Locke e Smith e discuta as semelhanas e diferenas
 sobre o conceito de trabalho apresentado at esse momento. Escreva suas concluses e apresente-
 as para sala.


    "O trabalho positivo, isto , nossa ao real e til sobre o mundo exterior, constitui necessariamente
     a fonte inicial de toda riqueza material". (Augusto Comte [1798-1857]: filsofo francs)


    "Produzindo seus meios de subsistncia, os homens produzem indiretamente sua prpria vida ma-
     terial". (Karl Marx [1818-1883]: filosfo alemo)


    " exatamente por meio do trabalho que o homem se torna livre, o trabalho domina a natureza: com
     o trabalho ele mostra que est acima da natureza". (KierKegaard [1813-1855]: filosofo dinamarqus)




                 ATIVIDADE

    Leia os documentos 3 e 4. Depois, escreva uma narrativa histrica sobre como estes pensadores
     entendiam o trabalho considerando a sua importncia para as sociedades em que viviam?
    Aps anlise dos documentos 3 e 4 e das frases presentes no debate, elabore uma definio de
     trabalho articulada com os contextos scio-histricos de sua produo.




                                                                                    OConceitodetrabalho         25
       EnsinoMdio


         Documento 3


          o trabalho, portanto, que atribui a maior parte do valor  terra, sem o qual dificilmente valeria algu-
     ma coisa;  a ele que devemos a maior parte dos produtos teis da terra, por tudo isso a palha, farelo e
     po desse acre de trigo valem mais do que o produto de um acre de terra igualmente boa, mas aban-
     donada, sendo o valor daquele o efeito do trabalho. No  simplesmente o esforo do lavrador, a labu-
     ta do ceifador e do trilhador e o suor do padeiro que se tm de incluir no po que comemos; o trabalho
     dos que amansaram os bois, extraram e prepararam os ferros e as ms, derrubaram as rvores e pre-
     pararam a madeira empregada no arado, no moinho, no forno ou em outros utenslios quaisquer, que
     so em grande parte indispensveis a esse trigo, desde que foi semente a plantar-se at transformar-se
     em po, ter de computar-se a conta do trabalho, e receber-se como efeito deste; a natureza e a ter-
     ra forneceram somente os materiais de menor valor em si. Seria estranho o "catlogo dos artigos que
     a indstria fornece e utiliza, com relao a cada po" antes de nos chegar s mos, se fosse possvel
     acompanh-los: ferro, madeira, couro, casca, tbuas, pedras, tijolos, carvo, cal, pano, tinturas, piche,
     alcatro, mastros, cordas e todos os materiais que se empregam nos navios que transportam qualquer
     dos artigos usados pelos operrios em qualquer parte do trabalho; contar todos eles seria impossvel
     ou, pelos menos, demasiado trabalhoso. (LOCKE, Carta da tolerncia [1689], 1983, p. 51).


         Documento 4


        O trabalho anual de cada nao constitui o fundo que originalmente lhe fornece todos os bens ne-
     cessrios e os confortos materiais que consome anualmente. O mencionado fundo consiste sempre na
     produo imediata do referido trabalho ou naquilo que com essa produo  comprado de outras na-
     es.
        Conforme, portanto, essa produo ou o que com ele se compra, estiver em proporo maior ou
     menor em relao ao nmeros dos que a consumiro, a nao ser mais ou menos suprida de todos
     os bens necessrios e os confortos de que tem necessidade.
         Essa proporo deve em cada nao ser regulada ou determinada por duas circunstncias dife-
     rentes: primeiro, pela habilidade, destreza e bom senso com os quais seu trabalho for geralmente exe-
     cutado; em segundo lugar, pela proporo entre o nmero dos que executam trabalho til e o dos que
     no executam tal trabalho. Qualquer que seja o solo, o clima ou a extenso do territrio de uma deter-
     minada nao, a abundncia ou a escassez do montante anual de bens de que dispor, nessa situ-
     ao especfica, depender necessariamente das duas circunstncias que acabamos de mencionar.
     (SMITH, 1985 [1776], p. 35).



                                      OMundodotrabalhocontemporneo
                                        Nas sociedades modernas, ocorre uma volta  idia de que todos
                                    tm que trabalhar e a constante represso  vadiagem. O trabalhador
                                    era impulsionado a exercer uma atividade, mesmo que por um sal-
                                    rio que mal pagava sua alimentao. Desse modo, o trabalho assalaria-
                                    do se impe como condio de existncia humana, na medida em que
                                    esta foi a forma de produzir instituda na sociedade contempornea.

26   Relaesdetrabalho
                                                                                                        Histria

Tem-se com isso um processo de disciplinari-
zao da fora de trabalho. Assim consolida-
do o capitalismo, a classe trabalhadora passou
a reivindicar para si, como direito, o emprego
remunerado. A partir deste momento, o traba-
lho passa a ser visto como parte da personali-
dade dos trabalhadores, o que podemos cha-
mar de conscincia profissional dos operrios,
assim, a luta por direitos civis, polticos e so-
ciais  intensificada.



  Adivisodotrabalho                                                              Documento 5
                                                                                  Linha de montagem
   Nas sociedades pr-industriais j existia uma diviso do trabalho              Divulgao: Cummins do Brasil
como repartio de tarefas necessrias  sobrevivncia de um grupo,
cujo objetivo era obter maior rendimento. A partir do surgimento da               Adam Smith nasceu em 05
sociedade industrial (na Inglaterra do sc. XVIII), a diviso do trabalho        de julho de 1723, no Rei-
aparece como algo significativo para seus sujeitos. Um dos primeiros             no Unido. Publicou sua obra
pensadores a falar sobre esse assunto foi Adam Smith, destacando su-             mais importante, A rique-
as vantagens para o sistema capitalista de ento.                                za das naes, em 1776.
                                                                                 Foi o prottipo do filsofo ilu-
                                                                                 minista: esperanoso porm
     Documento 6                                                                 realista, especulativo e, ao
                                                                                 mesmo tempo, prtico. Sem-
                                                                                 pre respeitador do passado
     Tomemos, pois, um exemplo, tirado de uma manufatura muito peque-
                                                                                 clssico, mas dedicado com
 na, mas na qual a diviso de trabalho tem sido muito notada: a fabricao
                                                                                 afinco  grande descober-
 de alfinetes. Um operrio no treinado para essa atividade (que a diviso de
                                                                                 ta de sua poca, o progres-
 trabalho transformou num indstria especfica) nem familiarizado com a utili-   so. Faleceu em 17 de julho
 zao das mquinas ali empregadas (sua inveno provavelmente tambm            de 1790.
 se deveu  mesma diviso do trabalho), dificilmente poderia talvez fabricar
 um nico alfinete em um dia, empenhando o mximo trabalho; de qualquer
 forma, certamente no conseguir fabricar vinte. Entretanto, da forma como
 essa atividade  hoje executada, no somente o trabalho todo constitui uma
 indstria especfica, mas ele est dividido em uma srie de setores, dos
 quais, por sua vez, a maior parte tambm constitui provavelmente um ofcio
 especial. Um operrio desenrola o arame, um outro o endireita, um terceiro
 o corta, um quarto faz as pontas, um quinto o afia nas pontas para a colo-
 cao da cabea do alfinete; para fazer uma cabea de alfinete requerem-
 se 3 ou 4 operaes diferentes; montar a cabea j  uma atividade diferen-
 te, e alvejar os alfinetes  outra; a prpria embalagem dos alfinetes tambm
 constitui uma atividade independente. Assim, a importante atividade de fa-
 bricar um alfinete est dividida em aproximadamente 18 operaes distin-
 tas, as quais, em algumas manufaturas, so executadas por pessoas dife-
 rentes, ao passo que em outras, o mesmo operrio executa 2 ou 3 delas. Vi


                                                                                 OConceitodetrabalho                27
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                             uma pequena manufatura deste tipo, com apenas dez empregados, e na qual alguns desses executa-
                             vam 2 ou 3 operaes diferentes. Mas, embora no fossem muito hbeis, e, portanto, no estivessem
                             particularmente treinados para o uso das mquinas, conseguiam, quando se esforavam, fabricar em
                             torno de 12 libras de alfinetes por dia. Ora, uma libra contm mais de 4 mil alfinetes de tamanho mdio.
                             Por conseguinte, essas 10 pessoas conseguiam produzir entre elas mais de 48 mil alfinetes por dia.
                             Assim, j que cada pessoa conseguia fazer 1/10 de 48 mil alfinetes por dia, pode-se considerar que
                             cada um produzia 4800 alfinetes diariamente. Se, porm, tivessem trabalhado independentemente um
                             do outro, e sem que nenhum deles tivesse sido treinado para esse ramo de atividade, certamente cada
                             um deles no teria conseguido fabricar 20 alfinetes por dia e talvez nem mesmo 1, ou seja: com certe-
                                                                   .                                 .
                             za no conseguiria produzir a 240 parte e talvez nem mesmo a 4800 parte daquilo que hoje so ca-
                             pazes de produzir, em virtude de uma adequada diviso do trabalho e combinao de suas diferentes
                             operaes. (SMITH, 1985 [1776], pp. 41-42).


                                                         Entretanto, para Marx, essa diviso do trabalho no trouxe van-
                                                      tagens aos operrios porque, ao "apertar apenas um parafuso", por
                                                      exemplo, perdem o controle e o conhecimento sobre o processo de
                                                      produo. Ao especializar-se em apenas uma pequena tarefa no con-
                                                      seguem mais perceber o conjunto da atividade em que seu esforo se
                                                      insere.

                                Documento 7


                                 Os conhecimentos, a compreenso e a vontade, que o campons ou arteso desenvolve mesmo
                             que em pequena escala, agora passam a ser exigidos apenas pela oficina em seu conjunto. As potn-
                             cias intelectuais ampliam-se por um lado, porque desaparecem por muitos lados. Esse processo de
                             dissociao comea na cooperao simples, desenvolve-se na manufatura, que mutila o trabalhador
                             convertendo-o em trabalhador parcial e se completa na grande indstria, que separa trabalho e cin-
                             cia. (MARX, 1983 [1867], p. 283).


                                                                           O socilogo francs mile Durkheim (1858-1917) ti-
                                                                       nha uma viso otimista do trabalho, apesar de reconhe-
                                                                       cer seus efeitos negativos. Segundo Durkheim, a espe-
                                                                       cializao servia para fortalecer a solidariedade social
                                                                       dentro das comunidades. Para este pensador, era pre-
                                                                       ciso estabelecer vnculos sociais que resultassem na so-
                                                                       lidariedade social. A diviso do trabalho deveria pro-
                                                                       porcionar a cooperao entre os indivduos e, assim,
                                                                       conseguir o bom funcionamento da sociedade.
 n www.newgenevacenter.org




                                                                    mile Durkheim nasceu em Epinal, Frana, em 15 de abril de 1858 e faleceu
                                                                    em 15 de novembro 1917. Dedicou sua vida  sociologia, tornando-a uma cin-
                                                                    cia autnoma, sendo ministrada no ensino superior francs e, depois, em todo o
                                                                    mundo. Escreveu, entre outras obras: Elementos da sociologia (1889), Da
                                                                    diviso do trabalho social (1893) e O suicdio (1897).

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                                                                                                    Histria

   Podemos pensar a diviso do trabalho sob vrios aspectos a partir
do pensamento de Durkheim e seus seguidores:

     Documento 8


     A diviso do trabalho , portanto, um resultado da luta pela vida, mas  um resultado suavizado. Gra-
 as a diviso do trabalho, com efeito, os rivais no so obrigados a se eliminarem mutuamente, mas po-
 dem coexistir uns ao lado dos outros. E tambm, a medida que ela se desenvolve, proporciona a um
 grande nmero de indivduos, que nas sociedades mais homogneas estariam condenados ao desapa-
 recimento, os meios de se manter e de sobreviver. Entre muitos povos inferiores, todo organismo mal-
 formado deveria perecer, pois no tinha utilidade em nenhuma funo. Nas sociedades mais avana-
 das, o que acontece  muito diferente. Um indivduo deficiente pode encontrar, nos quadros complexos
 de nossa organizao social, um lugar onde pode prestar servios  coletividade. (Aptadado de DURKHEIM
 apud ARON, 1982, p. 371-372).

   Ao analisar o mundo do trabalho, pode-se levar em considerao
vrias formas de diviso do trabalho conforme o aspecto que se est
privilegiando.
a) Diviso da produo social:  feita por setores ou ramos de trabalho,
   como: agricultura, indstria e comrcio.
b) Diviso tcnica do trabalho: cooperao entre trabalhadores para exe-
   cutar uma tarefa ou produzir uma mercadoria.
c) Diviso Internacional do trabalho: Ocorreu a partir do desenvolvimen-
   to do capitalismo. Os pases mais desenvolvidos tecnicamente espe-
   cializaram-se, primeiramente, em produtos manufaturados e, pos-
   teriormente, em tecnologia e bens de capital em geral (mquinas,
   equipamentos, instalaes, etc.). Os pases menos desenvolvidos
   tecnicamente, tambm denominados por socilogos contempor-
   neos de subdesenvolvidos, em desenvolvimento ou perifricos, fo-
   ram obrigados a especializar-se em exportar produtos primrios
   (agrcolas ou extrativos). Com isto, os trabalhadores do primeiro
   grupo de pases (EUA, pases da Europa Ocidental e Japo) reali-
   zam o trabalho melhor qualificado e remunerado; e os trabalhado-
   res do segundo grupo (pases latino-americanos, africanos e asiti-
   cos) realizam, em sua maior parte, trabalhos menos qualificados e
   mal remunerados.
d) Diviso sexual do trabalho:  a separao e distribuio das atividades
   de produo de acordo com o sexo dos indivduos. Nas socieda-
   des industriais, de modo geral, esperava-se que as mulheres ficas-
   sem reservadas ao mundo domstico privado, cuidando das crian-
   as, velhos e invlidos, realizando tarefas para o consumo do grupo
   familiar. Nestas mesmas sociedades, reservou-se aos homens as ati-
   vidades relacionadas ao mundo pblico, realizando tarefas de pro-
   duo social e de direo da sociedade. Sob essa lgica, o trabalho
   das mulheres foi, muitas vezes, marginalizado. Nos casos de guer-

                                                                                   OConceitodetrabalho         29
         EnsinoMdio

                                   ras, por exemplo, a presena feminina foi requisitada no mundo
                                   do trabalho; j em outros momentos, de progresso econmico seu
                                   acesso aos empregos foi limitado. Desta forma, a diviso sexual do
                                   trabalho estabeleceu para as mulheres as atividades mais difceis e
                                   de menor remunerao, os setores e postos de trabalho de maior
                                   prestgio e melhores salrios eram escassos, bem como, os cargos
                                   de chefia.

                       ATIVIDADE

         Produza uma explicao sobre os efeitos da diviso do trabalho para o trabalhador e para a socie-
          dade. Para isso compare as diferenas de concepo presentes nos documentos 1 e 7, de Karl
          Marx e no documento 8, de mile Durkheim.



                       DEBATE

         Organize um debate sobre a diviso sexual do trabalho. Consiga mais informaes em revistas e s-
          tios eletrnicos que falem sobre as questes referentes ao trabalho feminino. Elabore propostas pa-
          ra a diminuio da diferena entre os salrios entre homens e mulheres. Busque informaes sobre
          a vida de mulheres que conseguiram destaque nacional com seu trabalho.


                                  Omundodotrabalhovaiacabar?
                                   No contexto do mundo industrial e informatizado, o trabalho  um
                               esforo planejado e coletivo. Se quase tudo  produzido em indstrias
                               ou com a ajuda de equipamentos (mquinas), as pessoas certamente
                               iro em direo onde este modo de produzir se encontra, ou seja, pa-
                               ra os grandes centros.
                                    Contudo, com o avano do capitalismo, o desenvolvimento tec-
                               nolgico e uma grande quantidade de trabalhadores o desemprego
                               tornou-se uma realidade na maioria dos pases industrializados e em
                               quase todos os pases pobres. Ocorreu, portanto, uma reduo de em-
                               pregos. O que quer dizer ter um emprego?
                                   Quer dizer ter uma tarefa a ser feita, com um salrio fixo, mesmo
                               que essa remunerao no seja interessante. A esta noo podemos
                               acrescentar que o emprego significa contar com recursos (renda) para
                               ter, conseqentemente, condies de consumir. Ser que esta dimen-
                               so que o trabalho tomou nos ltimos anos no deixou o trabalho mais
                               montono e sem sentido?
                                   Atravs do que foi dito, podemos perceber que no  o trabalho
                               que vem diminuindo, mas sim o nmero de postos de trabalho, ou se-
                               ja, de empregos. Passamos por uma transformao no mundo do tra-

30   Relaesdetrabalho
                                                                                                 Histria

balho que no teve incio agora. A utilizao de equipamentos com
alta tecnologia no setor produtivo teve incio nas dcadas de 1960 e
1970.
    Ento, pode estar ocorrendo uma mudana na forma de trabalhar?
Ser que por estas razes o emprego estaria chegando a seu fim? Ana-
lisando o que foi dito at aqui, podemos perceber que o trabalho se
transforma e ganha significados diversos conforme o perodo e o lo-
cal que est sendo estudado, ou seja, a forma de trabalhar  dinmi-
ca, ela se altera como tudo na sociedade, est em constante mudana.
Podemos ver o futuro somente como pessimistas ou os seres huma-
nos (homens e mulheres) iro desenvolver alternativas e novas formas
de trabalho?



                DEBATE

    Debata essa questo com os colegas: A sociedade atual supervaloriza o trabalho ou apenas v nele
     questes negativas? Aps o debate, registre as concluses do grupo e apresente para a classe.




                ATIVIDADE

    Com base no documento 9, organizem-se em grupo e elaborem uma dramatizao sobre a cons-
     tante utilizao das mquinas na substituio do trabalho humano. Depois, apresentem para as sala.




                PESQUISA

    Apesar do pessimismo de alguns pesquisadores sobre a automao e a forma de produo nos l-
     timos anos, percebe-se que os empregos comearam a aparecer recentemente, como mostram
     notcias dos jornais Jornal da Tarde e O Estado de So Paulo presentes nos documentos 9 e
     10, respectivamente. Elabore uma pesquisa de opinio em sua escola, entre os alunos, professores
     e funcionrios, sobre as razes do aumento do nmero de novos postos de trabalho e o local que
     eles esto aparecendo.


     Documento 9
     A importncia das novas tecnologias para o desenvolvimento econmico  inquestionvel. Mas o
 seu impacto sobre o nvel de emprego  matria controvertida. Embora a maioria das tecnologias pro-
 duza uma economia de mo-de-obra, muitas delas geram novos mercados e novas oportunidades de
 trabalho.


                                                                                 OConceitodetrabalho        31
       EnsinoMdio


         A captao adequada dos efeitos negativos e positivos constitui um enorme desafio metodolgico.
     Cada tecnologia tem seus prprios impactos. Alm do mais, a sinergia entre elas gera efeitos compen-
     satrios  tambm de difcil apreenso.
        O nmero de robs, que era de 1.250, em 1980, saltou para 28.240, em 1990, e chegar a
     34.140, no ano 2000. De um modo geral, a introduo de robs ao longo do tempo resulta numa redu-
     o de emprego. Essa reduo  muito modesta no incio, mas se acelera rapidamente durante o pro-
     cesso de difuso. Sem os efeitos compensatrios, os robs reduziro 180 mil empregos no ano 2000.
     Com os efeitos compensatrios, isso cair, respectivamente, para 14 mil e 48 mil.
           A maior reduo de emprego ocorrer nos setores automobilstico, mecnico e eltrico. Os solda-
     dores, por exemplo, perdero 60 mil empregos at o ano 2000. Um outro grupo afetado  o de meta-
     lrgicas, operadores de mquinas e montadores. Os de maior risco so os trabalhadores de baixa qua-
     lificao. Por outro lado, a maior ampliao de emprego ocorrer nas indstrias que produzem e cuidam
     dos robs. Os eletricistas aumentaro em 14 mil e os mecnicos de manuteno em 16 mil.
         Em suma, os robs provocam mudanas dramticas no nvel e na estrutura do emprego. Mesmo
     assumindo os efeitos compensadores, a robotizao mais destri do que cria empregos. Os profissio-
     nais de baixa qualificao sofrem mais. Os mais qualificados tm uma grande chance de se beneficiar
     da nova tecnologia.
         A antecipao dessas tendncias  de fundamental importncia para se traar uma poltica de for-
     mao de mo-de-obra. Isso vale para qualquer pas, at mesmo para o Brasil. Tendo em vista a im-
     possibilidade de se estancar a incorporao das novas tecnologias nos processos produtivo e admi-
     nistrativo, s nos resta montar sistemas de formao de mo-de-obra voltados para o futuro  e no
     para o passado. Conhecimento e agilidade so caractersticas essenciais para se poder educar, trei-
     nar, reciclar e reconverter a nossa fora de trabalho. (PASTORE, 1997, pp. 54-55. / Texto publicado no Jornal da Tar-
     de em 31, jan. 1996).



         Documento 10
         Emprego formal cresce 15,3%.
         Em agosto, so criadas 135.460 vagas com carteira assinada.
        A queda vertiginosa da abertura de novos postos de trabalho formais na indstria  que passou de
     72.168 vagas em agosto de 2004 para s 18.173 em agosto deste ano  no impediu que a gera-
     o de empregos com carteira assinada apresentasse um saldo lquido positivo, no ms passado, de
     135.460 novas ocupaes em todo o Pas.
        O resultado foi 15,3% superior ao verificado em julho, quando foram criados 117.473 empregos,
     embora bem inferior ao de agosto de 2004, quando o mercado de trabalho foi capaz de criar 229.757
     novas ocupaes.
         Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) foram divulgados ontem
     pelo ministro do Trabalho, Luiz Marinho, que admitiu a perda de velocidade na gerao de empregos
     com carteira assinada, mas argumentou que o emprego continua em alta, s que em ritmo menor do
     que em 2004.
         Em agosto, os setores que mais contriburam para a gerao de empregos foram servios (mais
     70.181 postos de trabalho), comrcio (43.353) e construo civil (18.285). A agropecuria, que atra-
     vessa o perodo de entressafra no Centro-Sul do pas, eliminou 20.541 postos de trabalho. (Adaptado de :
     O Estado de So Paulo, 22 de Setembro de 2005, p. B1).


32   Relaesdetrabalho
                                                                                          Histria

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 PASTORE, J. A agonia do emprego. So Paulo: LTR, 1997.
 SMITH, A. A riqueza das naes. 2. ed. So Paulo: Nova Cultura, 1985.
 Jornal O Estado de So Paulo, 22 de Setembro de 2005, p. B1.
 Jornal da Tarde, 31 de janeiro de 1996.


 ObrasConsultadas:
 ALBORNOZ, S. O que  trabalho? So Paulo: ed. Brasiliense, 1986.
 JAPIASS, H. Dicionrio bsico de filosofia. 3. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1996.
 NABUCO, M. R.; CARVALHO NETO, A. Relaes de trabalho contemporneos. Belo Horizonte:
 IRT/PUC-MG, 1999.




                                                                           OConceitodetrabalho       33
       EnsinoMdio




34   Relaesdetrabalho
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                                                                                                       2
                                                                     RELAES DE TRABALHO:
                                         O mundo do trabalho em diferentes sociedades
                                                                                            n Fbio de Oliveira Cardoso1


                                                              erguntas de um Operrio Letrado
                                                          Quem construiu Tebas, a das sete portas?
                                                       Nos livros vem o nome dos reis,
                                                       Mas foram os reis que transportaram as pedras?
                                                   Babilnia, tantas vezes destruda,
                                                   Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
                                                   Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
                                                   No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
                                                   Foram os seus pedreiros? A grande Roma
                                                   Est cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
                                                   Triunfaram os Csares?
                                                   Em cada pgina uma vitria.
                                                   Quem cozinhava os festins?
                                                   Em cada dcada um grande homem.
                                                   Quem pagava as despesas?

                                                   Tantas histrias
                                                   Quantas perguntas.

                                                                                       (Adaptado de BRECHT, 1976, p.66)
                                                         O poema de Bertold Brecht (1898-1956) faz questio-
                                                         namentos sobre os annimos que construram as di-
                                                         ferentes sociedades. Voc consegue identificar quais
                                                         foram esses trabalhadores e a posio social que ocu-
                                                         param nas sociedades em que viveram? Qual a re-
                                                            lao entre o poema e o trabalho em diferentes
                                                                sociedades: antigidade, pr-colombianas e
                                                                    feudal?
1
 Colgio Estadual Tania Varela Ferreira  Maring  PR


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         EnsinoMdio

                                         Omundodotrabalhonassociedadesteocrticas
                                         Egitoantigo
                                           No Egito, por volta do ano 3100 a.C., Mens, governante do Alto
                                       Egito, fez a unificao dos reinos: do Alto Egito (regio ao sul, com ex-
                                       tenso vale no rio Nilo) com o Baixo Egito (ao norte em torno do delta
                                       do Rio Nilo). Ento, Mens tornou-se fara do Egito.
                                           Foi no Egito antigo, localizado no nordeste do continente africano,
      Teocracia: O termo Teo-          que desenvolveu-se um tipo de sociedade teocrtica. O Fara era consi-
     cracia designa um ordena-         derado monarca de origem divina e proprietrio de todas as terras. A so-
     mento poltico pelo qual o po-    ciedade egpcia compunha-se de altos funcionrios do governo, sacerdo-
     der  exercido em nome de         tes e governadores de provncias ou nomos (os nomarcas), que tinham
     uma autoridade divina por ho-     como base do regime de produo a servido coletiva dos camponeses.
     mens que se declaram seus             O fel (campons) constitua a maioria da populao. Estes trabalhado-
     representantes na Terra, quan-    res das aldeias cultivavam as terras e pagavam pelo seu uso em quantida-
     do no uma encarnao sua.
                                       des determinadas de cereal. Os camponeses tambm prestavam servios
     Bem caracterstica do sistema
                                       ao Estado nas construes de canais de irrigao, diques, templos, palcios
     teocrtico  a posio pree-
     minente reconhecida  hierar-
                                       e tmulos. Recebiam por esse perodo de trabalho apenas alimentos.
     quia sacerdotal, que direta ou        Outros trabalhadores tambm possuam uma vida difcil como a
     indiretamente controla toda vi-   dos fels, eram eles: pedreiros, mineiros, escultores, marceneiros, etc.
     da social em seus aspectos            Os escravos no Egito resultavam das conquistas dos faras na N-
     sacros e profanos. A Teocra-      bia, na Lbia e na Sria, principalmente nos sculos XV e XIII a.C. Fo-
     cia etimologicamente significa    ram utilizados nos servios domsticos e nas grandes obras pblicas.
     `Governo de Deus'.
                                       A condio de escravo domstico era mais suave do que a dos escra-
     (Adaptado de BOBBIO e outros,     vos utilizados nas grandes obras pblicas, pelo rigor do trabalho exi-
     1986, p.1237).                    gido nestas ltimas.
                                           Ser que existiam outros tipos de trabalhadores no Egito?


                                            Texto 1
                                             Alm da mo-de-obra ocasional fornecida pelos camponeses na poca
                                        da inundao, quando os trabalhos agrcolas se paralisavam, as obras p-
                                        blicas empregavam tambm trabalhadores permanentes, remunerados em
                                        espcie. A arqueologia revelou verdadeiras `cidades operrias' (por exem-
                                        plo, na necrpole de Tebas e em Tell el-Amarna). A escravido teve certa
                                        importncia econmica nas minas e pedreiras estatais e, no Reino Novo,
                                        tambm nas terras reais e dos templos. Houve igualmente tropas militares
                                        auxiliares constitudas de escravos, e existiam escravos domsticos, s ve-
                                        zes numerosos. A economia egpcia, no entanto, nunca foi `escravista' no
                                        sentido em que o foi na Grcia clssica e helenstica e a da Roma de fins de
                                        Repblica e do Alto Imprio. (Adaptado de CARDOSO, 1982, p. 41)




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                                                                                                      Histria



                 ATIVIDADE

     Leia a definio de teocracia proposta pelo cientista poltico italiano Norberto Bobbio (1909-2004) e o
     texto 1. Faa uma narrativa histrica destacando como eram as relaes de trabalho no Egito Antigo.



  SociedadesPr-colombianas
    Outros exemplos de sociedades teocrticas ocorreram na Amrica,
entre as civilizaes pr-colombianas. A religio possua grande impor-
tncia para essas organizaes sociais, o que tornou possvel a forma-
o de uma poderosa classe sacerdotal. O governo foi constituindo-se
em uma teocracia centralizada, sendo as civilizaes: Asteca (Mxico),
Maia (Amrica Central e Mxico) e Inca (Peru), os exemplos mais sig-
nificativos devido ao seu alto grau de organizao social. Os grupos
sociais mais privilegiados nestas sociedades eram os sacerdotes, gover-
nantes e guerreiros, enquanto a maioria da populao dividia-se entre
camponeses livres e escravos. Voc consegue imaginar como era orga-
nizado o trabalho nestas sociedades?


  OsAstecas
    Ocuparam a regio do lago Texcoco, no vale do Mxico, por volta
do ano 1325. A sociedade asteca teve seu processo de destruio em
meados do sculo XVI com a chegada dos espanhis.
    Esta sociedade teve como base econmica as comunidades aldes,
ou calpulli, que formavam uma Confederao Asteca.
    Nestas comunidades a posse da terra e o trabalho eram coletivos, ca-
da famlia recebia um lote de onde retiravam sua subsistncia e pagavam
tributos. Esses camponeses ainda trabalhavam nas terras da nobreza.
    Outro grupo numeroso foi o dos "criados perptuos", chamados de
escravos pelos cronistas espanhis. Este segmento social constitua-se
por aqueles que no queriam se casar ou cultivar a terra que lhes per-
tencia, perdiam seus meios de subsistncia e seus direitos. Pertenciam
tambm a esse grupo os condenados por algum crime, sendo ofereci-
dos para trabalhar para outras pessoas ou colocados  venda. Enten-
dia-se como venda somente a fora de trabalho do indivduo e no
sua pessoa, de modo que seus filhos continuavam livres; portanto, es-
sa prtica era diferente de outras formas de escravido, como a greco-
romana e a colonial moderna.




                                                           OMundodoTrabalhoemDiferentesSociedades                37
       EnsinoMdio

                            OsMaias
                              Surgiram na pennsula de Iucat, no Mxico, aproximadamente no
                          ano 700 a.C., e por volta do sculo IV d.C., os Maias ocupavam as re-
                          gies que hoje so os pases do Mxico, Belize e Guatemala. A desin-
                          tegrao desta sociedade ocorreu durante a chegada dos espanhis de-
                          vido a um processo contnuo de urbanizao que destruiu seus meios
                          de subsistncia agrcolas.
                              Na sociedade Maia, os mazebualob, ou seja, classe inferior, eram
                          os que produziam a riqueza. Realizavam o trabalho na agricultura e na
                          construo das cidades. No perodo que no havia colheita, desenvol-
                          viam atividades de artistas, pintores, escultores, etc. Moravam nas pe-
                          riferias das cidades e trabalhavam em lugares cada vez mais distantes,
                          conforme as novas terras eram cultivadas.
                              No Antigo Imprio Maia, nem todos os escravos destinavam-se 
                          produo; mas no Novo Imprio Maia, as constantes guerras transferi-
                          ram os trabalhadores do campo para as atividades blicas e os escra-
                          vos foram utilizados nas construes militares. As lutas por escravos
                          foram suspensas devido a chegada dos espanhis (sculo XVI), dos
                          quais tiveram que se defender. Neste caso, a escravido provinha de
                          prisioneiros de guerra, filhos de escravos, rfos de pai e me ou ad-
                          quiridos por troca ou compra.


                            AcivilizaoInca
                              Desenvolveu-se na Amrica do Sul, prximo da cordilheira dos An-
                          des, em regies onde formam os atuais pases do Peru, Chile, Equador
                          e Bolvia. Foi a partir do sculo XII que os Incas estabeleceram-se na
                          cidade de Cuzco, chefiados por Manco Capac, onde iniciou-se a cons-
                          truo de um grande imprio. Por volta do ano de 1531, o imprio In-
                          ca foi destrudo pelos espanhis.
                              Entre os povos Incas, os llacta-runa, trabalhadores das comunida-
                          des aldes, ayllu, dedicavam-se a extrair da terra o alimento necessrio
                          a sua subsistncia, ainda tinham que trabalhar nas Terras do Sol, do In-
                          ca e dos kurakas (antiga nobreza local que representava o Estado).
                              Numa escala social inferior, encontravam-se os yanaconas, cuja ori-
                          gem deu-se na revolta da cidade Yanayku contra Tupac Yupangui
                          (1438  1471). Sendo os yanaconas vencidos por este, foram conde-
                          nados pelo Inca  servido perptua, estendendo-se aos seus descen-
                          dentes. Os yanaconas realizavam diversos servios, como: domsticos,
                          carregadores, limpeza dos templos, etc. Conforme o Estado determina-
                          va, os criminosos, os prisioneiros de guerra, os membros de um ayllu
                          ou rebelados podiam ser transformados em yanaconas.


38   Relaesdetrabalho
                                                                                                 Histria

    No Imprio Inca tambm existia a mita. Essa compreendia uma
obrigao de prestao de servio gratuito e obrigatrio, que durava
em torno de dois a trs meses por ano. Esta obrigao recaa sobre to-
das as pessoas casadas. O Estado requisitava, atravs da mita, grande
nmero de mo-de-obra para realizao dos servios pblicos, como:
a construo de caminhos, fortalezas, centros urbanos, canais de irriga-
o, etc. Alm disso, esses trabalhadores cuidavam do cultivo das ter-
ras e rebanhos do Inca, do Sol e dos Kurakas.
    E os Astecas desenvolviam as mesmas atividades de trabalho que
os Incas?


     Texto 2
     Astecas
      Quanto ao trabalho rural, existiam quatro tipos bsicos de trabalhado-
 res: 1) os calpuleque ou membros do calpulli (comunidade residencial com
 direitos comuns sobre as terras e uma organizao interna de tipo adminis-
 trativo, judicirio, militar e fiscal), que trabalhavam as terras deste para suprir
 suas prprias necessidades, pagar o tributo, e estar permitido alugar par-
 tes do solo do `barro'; 2) os teccaleque eram tambm membros de um cal-
 pulli, com a nica diferena de que o resultado do seu trabalho servia para
 sustentar a corte, alm de suprir as prprias necessidades; 3) Os arrenda-
 trios, que lavravam Terras alheias (de nobres ou de comunidades), dispon-
 do ou no do uso de outras parcelas a ttulo pessoal; 4) os mayeque, ca-
 mada inferior da populao rural, igualmente arrendatrios (vitalcios)  eram
 a mo-de-obra dependente que trabalhava nas terras do rei, dos nobres e
 outros particulares.
                                               (Adaptado de CARDOSO, 1986, pp. 77 e 79)



     Texto 3
     Incas
      O ciclo da vida agrcola estava baseado na ajuda mtua (ayni), ou seja,
 em intercmbios de trabalho entre as famlias para a semeadura e a colhei-
 ta, bem como para outros fins (construo de casas, por exemplo). A divin-
 dade ou fetiche tutelar do ayllu (aldeia habitada por diversas famlias nucle-
 ares vinculadas pelo parentesco formando uma comunidade), a waka, e o
 chefe, ou kuraka, recebiam prestaes de trabalho da comunidade; no ha-
 via, porm, qualquer forma de tributos in natura alm das prestaes de tra-
 balho. O kuraka centralizava, atravs de tais trabalhos forados (mita), mais
 riqueza -- representada em especial por bens raros, como: a coca, a bebi-
 da fermentada de milho, certos tipos de vestimentas, etc.
                                               (Adaptado de CARDOSO, 1986, pp. 99-100.)




                                                                OMundodoTrabalhoemDiferentesSociedades      39
         EnsinoMdio



                       ATIVIDADE

          Com base nos textos 2 e 3, compare as diferenas e semelhanas na diviso social do trabalho en-
          tre os povos pr-colombianos. Leve em conta os seus respectivos contextos scio-histricos: As-
          tecas e Incas. Anote suas concluses.
          Por que no podemos classificar as sociedades Astecas e Incas como escravistas? Faa sua argu-
          mentao por escrito.
          O mundo do trabalho nas sociedades pr-colombianas tinha a mesma organizao que no Egito An-
          tigo? Discuta com seus companheiros e redija uma narrativa histrica sobre este tema.


     Documento 1
                                                         Trabalhoeartenassociedades
                                                         pr-colombianas
                                                            As sociedades pr-colombianas, alm de possurem
                                                         um regime teocrata, destacaram-se tambm por outra
                                                         caracterstica marcante de sua existncia: a representa-
                                                         o artstica, sendo a arquitetura um de seus maiores le-
                                                         gados.
                                                            Os templos foram monumentos de grande impor-
                                                         tncia para esses povos, construdos com o esforo da
                                                         maior parte da populao, eles representavam o status
     n Templo das Inscries em Palenque, Mxico.        dos sacerdotes.
                                                            Voc pode observar, no documento 1, o Templo das
     Documento 2                          Inscries em Palenque e, tambm, no documento 2, o palcio do go-
                                          vernador em Uxmal, ambos localizados na provncia de Iucat, no M-
                                          xico. Nestas duas imagens  representado o estilo de construo destes
                                          povos com motivos retangulares, o que nos possibilita perceber seu co-
                                          nhecimento tambm na matemtica. Tanto a pirmide quanto o palcio
                                          apresentam estas formas, trabalhadas em relevo, com uma ngreme es-
     n Palcio do Governador em Uxmal. cadaria que corta um dos lados da pirmide e d acesso ao templo.
       Iucat Mxico.                          Juntamente com a arquitetura, o trabalho artstico Maia manifestou-
                                          se tambm na escultura a partir de objetos de decorao dos templos.
                                          O documento 3 apresenta um objeto que prope uma representao
                                          do sagrado para esta sociedade Maia.
                                               Com as pesquisas da arqueologia, descobriu-se que a cultura Maia
                                          foi uma das poucas sociedades em que os artistas escreviam seu no-
                                          me nas obras. Esta  uma particularidade importante, pois, na maioria
                                          das sociedades antigas, o trabalho do artista era annimo, a servio da
                                          coletividade, dos ritos sagrados, caracterizado, muitas vezes, como um
                                          trabalho escravo.
40    Relaesdetrabalho
                                                                                                         Histria
                                                          Documento 3
   A arquitetura  tambm um dos aspectos sur-
preendentes da cultura Inca. Possua simplicidade
e imponncia em suas portas ornamentais em for-
ma de trapzio. A cidade de Machu Pichu  que
melhor documenta a concepo arquitetnica e ur-
banstica dos Incas. Existem vrias hipteses para
explicar o significado da construo desta cidade
perdida, at a dcada de 1940, nos Andes peruano.
Mas, pouca coisa se sabe sobre os motivos que le-
varam os Incas a transportar, com rduo trabalho,
pedras e gua para construir uma cidade atualmen-
te muito visitada, cujas eternas testemunhas foram
antes apenas o sol, as estrelas e o vento.
                                                                                  n Cidade de Machu Picchu. In:
                                                                                    BOND, Rosana. A civilizao Inca.
    Documentrio em vdeo:                                                          So Paulo: tica, 2003, p. 39.
    Machu Picchu: na trilha dos Incas, 1990, Coordenao de Silvio Martins.
    O documentrio relata uma viagem pelas antigas cidades incas.




                ATIVIDADE

     Procure assistir ao documentrio sobre a cidade de Machu Picchu. Relate sobre os contextos s-
 cio-histricos que determinaram as transformaes e permanncias em relao aos respectivos modos
 de vidas dos Incas pr-colombianos e de seus descendentes nos sculos XX e XXI.




                PESQUISA

     Em livros de Histria da Arte, de Histria, na Internet e em revistas como National Geografic, so-
 bre a arte dos Maias, Incas e Astecas. Procure perceber em que se aproximam e em que se distanciam
 quanto  forma,  temtica, aos materiais e  funo. Apresente suas concluses para a classe.


    Sugesto de leitura
    Livros:
    MILLARD, Ane. O mais belo livro das Pirmides. So Paulo: Melhoramentos, 1999.
    PORTELA, Fernado; MINDLIN, Betty. Viagem pela Geografia. A questo do ndio. So Paulo: tica, 1991.
    Revistas:
    AZEVEDO, Cristina. O Egito muito alm das Pirmides. Geogrfica universal. Rio de Janeiro: Blo-
    ch Editores. n. 274, p. 4-19, nov. 1997.
    CANTO, Rachel; SCHLEIFER, Steve. Nos Pueblos da Guatemala. Geogrfica Universal. Rio de
    Janeiro: Bloch Editores. n. 274, p. 60-71, nov. 1997.

                                                          OMundodoTrabalhoemDiferentesSociedades                    41
        EnsinoMdio

      Periodizao histrica
     da Grcia antiga:
                                      Omundodotrabalhonassociedadesda
       Pr-Homrico                   antigidadeclssica:GrciaeRoma
       (sculos XX  XII a.C.);
                                       Algumas das civilizaes da antigidade baseavam-se em sistemas
       Homrico
       (sculos XII  VIII a.C.);
                                    escravistas, apesar da existncia de outras formas de trabalho. Em ca-
                                    da sociedade essa relao de trabalho foi instituda visando a objetivos
       Arcaico                      e a justificativas diferenciadas.
       ( sculos VIII  VI a.C.);
       Clssico
       ( sculos V  IV a.C.).        Grciaantiga
                                       Para os gregos dos sculos VI a IV a.C., a condio de escravo es-
                                    tava ligada  concepo de poltica que a sua sociedade desenvolveu,
                                    principalmente em Atenas.
                                       Na Grcia, o cidado, para participar ativamente das discusses dos
                                    problemas da plis (cidades-estado), bem como se dedicar  elabora-
                                    o de leis e aos cargos pblicos, necessitava do cio - tempo livre -
                                    para exercer essas funes. Leia o texto do filsofo Will Durant (1885-
                                    1981) e analise a viso dele em relao ao trabalho.

          Texto 4
           Aristteles o olhava com desprezo do alto da filosofia, como prprio de homens sem inteligncia, co-
      mo indicado apenas para escravos e como apenas preparador de homens para a escravido. O traba-
      lho manual, acreditava ele, entorpece e deteriora a mente, no deixando tempo nem energia para a in-
      teligncia, para a poltica.
                                                                                   (Adaptado de DURANT, 2001. p. 80)

                                        Apesar da sociedade grega ser voltada para as cidades e  vida ur-
                                    bana, a agricultura constitua-se na principal atividade econmica, ou
                                    seja, eram livres os camponeses que retiravam da terra seus prprios
                                    meios de subsistncia. Por isso, possuir terra tinha grande importn-
                                    cia para esta sociedade. Na maioria das cidades gregas dos sculos VI
                                    e V a.C., s os cidados podiam ser proprietrios. No entanto, em suas
                                    poucas faixas de terras frteis, os homens gregos tentavam subtrair do
                                    solo fraco: frutas, leguminosas, trigo, cevada e, em maior escala, azei-
                                    te de oliva e vinho. A escassez de terras facilitou a formao de ncle-
                                    os urbanos independentes.
                                        Mas, para manter a estrutura das cidades, conseguir tempo livre pa-
                                    ra dedicar-se a sua administrao e produzir riqueza, foi necessrio
                                    que generalizasse o trabalho escravo. Portanto, o escravismo tornou-
                                    se o modo de explorao econmico que sustentava a cidade e o cam-
                                    po e que proporcionava privilgios s elites gregas.
                                        A escravido na antigidade originou-se, principalmente, da guer-
                                    ra ou das dvidas, sendo esta ltima forma abolida na Grcia por vol-

42    Relaesdetrabalho
                                                                                                          Histria

ta do sculo V a.C. A grande maioria dos escravos destinava-se ao tra-
balho agrrio, no entanto, realizavam todo o tipo de trabalho, seja nas
minas, nas oficinas, nas residncias e para o Estado.
    Mas o que era ser escravo na Grcia Clssica?
    Ser escravo nas plis significava no poder participar da vida polti-
ca, ser excludo de parte das festas religiosas, ser desprovido de direi-
tos e da educao para jovens cidados.
    Assim, o que restava ao escravo?

     Texto 5
      Para um escravo tornar-se adulto no implicava um salto qualitativo ou uma preparao gradual, co-
 mo acontecia com os filhos dos cidados livres. Se o adjetivo andrpodon, homem-pr, usado para de-
 signar o escravo, tendia a identific-lo com a condio dos quadrpledes, tetrapoda, o termo pais (rela-
 tivo a criana), pelo qual era freqentemente chamado, realava a sua eterna condio de menoridade.
 Como diz Aristfones nas Vespas ` justo chamar pais a quem apanha pancada, mesmo que seja ve-
 lho'. Em Atenas, s se podia aplicar castigos fsicos a escravos e a crianas, no a adultos livres. Talvez
 s os escravos pedagogos, que acompanhavam os filhos do senhor  casa do mestre,  que podiam
 aprender indiretamente a ler e a escrever, assistindo s lies. Mas, por princpio, a nica instruo que
 um escravo podia receber estava associada ao tipo de trabalho que desempenhava na casa do patro,
 numa gama que ia dos menos duros servios domsticos ao trabalho durssimo nas minas, reservado
 exclusivamente aos escravos e em que tambm se utilizavam crianas, no s nas minas da Nbia, de
 que nos fala Diodoro Sculo, mas tambm, nas minas atenienses do Lurio.
                                                                     (CAMBIANO apud BORGEAUD et al., 1994, p. 79)




                 ATIVIDADE

     Analise os textos 4 e 5 e construa sua narrativa histrica sobre como era a condio da escra-
 vido grega.



  RomaAntiga
   Assim como na Grcia, em Roma a escravido foi praticada por
vrios sculos. Na Pennsula Itlica, no final do sculo III a.C., havia
grandes massas de escravos, mas foi a partir do sculo I a.C. que ge-
neralizou-se a escravido.
   A escravido provinha principalmente dos prisioneiros de guerras,
resultado das conquistas realizadas por Roma a partir de meados do
sculo III a.C., como as Guerra Pnicas (Roma contra Cartago).
   Os romanos diferenciavam os escravos de acordo com o traba-
lho que realizavam. Os escravos destinados ao trabalho no campo in-


                                                           OMundodoTrabalhoemDiferentesSociedades                    43
        EnsinoMdio

                                         tegravam  famlia rstica, pesava sobre eles severa disciplina, sub-
                                           metidos s ordens do vilicus (feitor, arrendatrio). No ano 160 a.C.,
                                            Marcus Porcius Cato, tambm chamado de Cato, o Velho (243-143
                                              a.C.), recomendava que sobrecarregasse os escravos com os ser-
                                               vios, sem importar-se com o tempo ou dias de feriado, pois a
                                                 produo agrcola constitua-se na base econmica da socieda-
                                                  de romana.
                                                         Nas cidades romanas, os escravos pertencentes aos ri-
                                                     cos senadores ou plebeus faziam parte da "famlia urba-
                                                       na", dependendo diretamente dos seus senhores ou de
                                                        outros escravos. Esses escravos desempenhavam servios
                                                         domsticos e profissionais, como: arquitetos, msicos e
                                                           gramticos. Os escravos tambm desenvolviam servios
                                                           como: nas pedreiras, fbricas de tijolos e nos moinhos.
                                                                Sendo assim, os romanos distinguiam os escravos en-
                                                            tre especializados em determinados ofcios e os escravos
                                                            de servios mais penosos.
                                                                Merecem destaque alguns aspectos do direito ro-
                                                          mano, em relao  condio dos escravos. Estes no
                                                          tinham direito de contrair matrimnio legtimo, a unio
                                                         entre escravo e escrava era o contubernium, ou seja,
                                                         no reconhecida legalmente. Os filhos de escravos per-
                                                         tenciam ao senhor. Portanto, os escravos eram vistos co-
                                                         mo "coisa", ou um instrumento  instrumentum vocale,
                                                         um grau acima do gado, considerados instrumentum se-
                                                        mi-vocale , isto , propriedades de um senhor.
                                                           O escravo romano podia adquirir sua liberdade pela
                                                     concesso de seu dono, vontade do prncipe ou pelo bene-
                                                      fcio da lei, como no caso da venda de um escravo com a
                       n www.sxc.hu                   clusula de ser manumitido (liberto) em determinado pra-
                                         zo, quando vencido esse prazo, o escravo estava livre.



                                              Aristteles (384-322 a.C.), juntamente com Plato,  o filsofo mais in-
                                          fluente da tradio filosfica ocidental. Aristteles nasceu em Estagira, na
                                          Macednia, filho de Nicmaco, mdico da corte do rei Macednio Amin-
                                          tas II. Aos 17 anos entrou para a Academia, em Atenas, onde permane-
                                          ceu at a morte de Plato, quando na Academia se voltou para os estudos
                                          matemticos e especulativos. Entre as principais obras de interesse filo-
                                          sfico esto: obras da lgica (que constituem o rganon): Categorias;
                                          Da interpretao; Primeiros analticos; Segundos analticos; T-
                                          picos; Refutaes sofsticas; e obras sobre tica: tica a Nicma-
                                          co; tica a Eudemo; Magna moralia; Poltica; Retrica e Potica.
                                          (BLACKBURN, 1997, P.94-95)
     n Fonte: roman.mainer.de/elysion/
       aristoteles.jpeg


44   Relaesdetrabalho
                                                                                                       Histria

  Filosofiaeescravido
    Por volta dos sculos VI e V a.C., a filosofia teve incio na Grcia.
Esta dimenso do conhecimento humano possui grande importncia
para a sociedade contempornea, pois tem contribudo na discusso
de temas relacionados  poltica,  tica,  moral,  liberdade e outros.
O conhecimento da filosofia s foi possvel para os cidados gregos
porque possuram tempo reservado para dedicarem-se a reflexo, a ci-
dadania e ao governo. Enquanto os escravos realizavam atividades no
reflexivas, de transformao da natureza, consideradas inferiores pela
sociedade grega. Portanto, a diferena social entre os homens era con-
siderada "natural", no havia, para os gregos, contradio entre a divi-
so do trabalho manual e intelectual, sendo assim, o comando de uma
parte e a obedincia de outra.
    Na poca de Aristteles (sculo IV a.C.), discutia-se que havia ho-
mens feitos para liberdade e outros para a escravido, isto significava
que, todo aquele que no tinha nada de melhor para oferecer do que
o uso de seu corpo e a fora fsica, estavam condenados  escravido
por natureza.


      Lcio Aneu Sneca (4 a.C.  65 d.C.). Estadista romano e vigoroso divulgador
 do estoicismo. Seus principais escritos ticos so as Epistolae morales (Cartas
 morais), uma das primeiras exploraes literrias da forma epistolar. Teve uma
 carreira turbulenta, que incluiu sua expulso para a Crsega por adultrio com Jlia
 Lvia, sobrinha do imperador Cludio. Seu suicdio forado constituiu um modelo
 influente de estoicismo na prtica." (BLACKBURN, 1997, P.355)
                                                                                   n FONTE: http://www.stoics.
                                                                                     com/why_stoics.html




                 ATIVIDADES

      Leia os documentos que contm fragmentos produzidos pelos filsofos Aristteles (Grcia) e Sne-
  ca (4 a.C.- 65 d.C.) (Roma) e analise como eles pensavam sobre a escravido.



     Documento 4
      Os instrumentos podem ser animados ou inanimados, por exemplo: o timo do piloto  inanimado,
  o vigia  animado (pois o subordinado faz s vezes de instrumento nas artes). Assim tambm os bens
  que se possui so um instrumento para a vida, a propriedade, em geral, uma multido de instrumentos,
  o escravo um bem animado e algo assim como o instrumento prvio aos outros instrumentos. Se to-
  dos os instrumentos pudessem cumprir seu dever obedecendo s ordens de outro ou antecipando-se



                                                         OMundodoTrabalhoemDiferentesSociedades                   45
        EnsinoMdio

      a elas, como contam das esttuas de Dcalo ou dos tridentes de Hefesto, dos que diz o poeta que en-
     travam por si s na assemblia dos deuses, se as lanadeiras tecessem ss e os plectos tocassem sozi-
     nhos a ctara, os maestros no necessitariam de ajuda, nem de escravos os amos.
         O que  chamado habitualmente de instrumento, o  de produo, enquanto que os bens so instru-
     mentos de ao; a lanadeira produz algo  parte de seu funcionamento, enquanto que a roupa ou o lei-
     to produzem apenas seu uso. Alm disso, como a produo e a ao diferem essencialmente e ambas
     necessitam de instrumentos, estes apresentam necessariamente as mesmas diferenas. A vida  ao,
     no produo, e por isso o escravo  um subordinado para a ao. Do termo propriedade pode-se falar
     no mesmo sentido que se fala de parte: a parte no somente  parte de outra coisa, seno que perten-
     ce totalmente a esta, assim como a propriedade. Por isso o amo no  do escravo outra coisa que amo,
     porm no lhe pertence, enquanto que o escravo no s  escravo do amo, como lhe pertence por com-
     pleto. Daqui deduz-se claramente qual  a natureza e a funo do escravo: aquele que, por natureza, no
     pertence a si mesmo, seno a outro, sendo homem, esse  naturalmente escravo;  coisa de outro, aque-
     le homem que, a despeito da sua condio de homem,  uma propriedade e uma propriedade sendo, de
     outra, apenas instrumento de ao, bem distinta do proprietrio.
                                                                   (Adaptado de ARISTTELES apud PINSKY, 2000, p.14).


         Documento 5
           louvvel mandar em seus escravos com moderao. Mesmo no que diz respeito s nossas pos-
      ses humanas, cumpre perguntar-se constantemente, no apenas tudo aquilo que podemos faz-los
      sofrer sem sermos punidos, mas tambm o que permite a natureza da eqidade e de bem, a qual or-
      dena poupar mesmo os cativos e aqueles que se compra com dinheiro. Quando se trata de homens li-
      vres de nascena, honrados,  mais justo trat-los no como material humano, mas como pessoas que
      esto sob tua autoridade e que te foram confiadas, no como escravos, mas como pupilos. Aos escra-
      vos,  permitido refugiarem-se junto a uma esttua. Embora tudo seja permitido para com um escravo,
      existem coisas que no podem ser autorizadas em nome do direito comum dos seres animados. Quem
      podia ter para com Vdio Plio um dio maior que seus escravos? Ele engordava morias com sangue
      humano e mandava jogar quem o ofendia num lugar que no era seno um viveiro de serpentes.
                                                                                  (SNECA apud PINSKY, 2000, p.12).




                      ATIVIDADE

      a) Depois de analisar os documentos 4 e 5 sobre como os filsofos pensavam a escravido, indique
         as permanncias e as mudanas em relao aos respectivos contextos scio-histricos da produ-
         o dos mesmos.
      b) Faa um quadro comparativo, caracterizando o trabalho para os gregos e romanos. Depois discuta
         em equipe e apresente para a classe suas concluses.
      c) Depois da apresentao deste quadro comparativo, construa uma narrativa histrica levando em
         conta as especificidades das relaes de trabalho na Grcia e em Roma.




46    Relaesdetrabalho
                                                                                                               Histria

  Omundodotrabalhonasociedadefeudal
                                                                           Documento 6
    Na Europa Ocidental, durante o feudalismo (sculos
IX  XII), o setor predominante da economia era a produ-
o agrcola. As classes governantes eram constitudas pe-
lo clero e nobreza, que controlavam as terras, a produo
e o poder poltico. A Igreja Catlica detinha o monop-
lio espiritual, enquanto a nobreza encarregava-se da pro-
teo militar. Mas quem realizava o trabalho na sociedade
feudal para manter estas classes?
    Havia os artesos que andavam de uma regio para
outra, produzindo o artesanato, em troca de casa, comida
                                                            n Calendrio campons, miniatura de um manuscrito fran-
e algumas moedas, pois quase todo senhorio possua sua        cs do sculo XV. Voc pode observar as diversas tare-
produo de artesanato.                                       fas dos servos realizadas ao longo do ano. So algumas
                                                              delas: plantar e colher, fabricar vinhos. FONTE: Muy his-
    A imagem presente no documento 6  um calendrio          toria, n. 1, p. 7, set.-out. 2005.
que representa os camponeses que trabalhavam extrain-
do da terra o sustento para viver, ainda que, de forma miservel. Cerca
                                                                                      Lagar: Espcie de tanque
de dois ou trs dias por semana, exerciam seus servios nas terras do
                                                                                     onde se espremem e se re-
senhor, sem serem pagos pelo trabalho, sendo uma obrigao feudal a duzem a lquido certos frutos,
corvia. Os camponeses estavam obrigados a realizar o cultivo primei- especialmente as uvas.
ramente nos campos do senhor, depois cuidavam dos seus. Entrega-
                                                                                     (Dicionrio Aurlio Bsi-
vam parte do que produziam ao senhor do manso, a talha. Pagava tam- co da Lngua Portuguesa,
bm as banalidades para utilizar o moinho, o forno e o lagar.                        1994-1995, p. 383)



                   ATIVIDADE

      Observe a imagem do documento e descreva o trabalho realizado pelos servos. Procure relacion-
  lo com a economia feudal.


    O campons servil era um escravo?
    O escravo podia ser comprado ou vendido em qualquer tempo, co-
mo ocorreu na antigidade e na frica da poca moderna. O servo ti-
nha o status legal de homem livre, embora os senhores procurassem
mant-los presos s suas terras por meio de obrigaes feudais. Por-
tanto, os servos no eram escravos, nem trabalhadores livres.
    A servido era uma relao de trabalho no qual uma pessoa (servo)
devia obrigaes a outra (senhor). Estas obrigaes geralmente eram
pagas em forma de tributos, em troca de um pedao de terra para pro-
duzir, de proteo e de segurana militar fornecidas por seus senho-
res feudais. Como os escravos, os servos deviam obedincia e lealda-
de ao seu senhor.
    Mas o que caracterizava um servo?

                                                                 OMundodoTrabalhoemDiferentesSociedades                   47
       EnsinoMdio

                                  O servo no podia entrar para ordens religiosas, no podia denun-
                              ciar homens livres na justia, nem dispor livremente de seus bens, no
                              participava do exrcito (defesa), nem podia deslocar-se livremente.
                              Havia, entretanto, diferenas nas condies de servo?
        Texto 6
         Por mais pesadas que estas obrigaes pudessem parecer, num certo sentido, eram a anttese da
     escravatura, pois supunham a existncia de um verdadeiro patrimnio nas mos do devedor. Na sua
     qualidade de foreiro, o servo tinha os mesmos direitos que qualquer outro, a sua posse j no era pre-
     cria e o seu trabalho, uma vez satisfeitos os tributos e os servios, s a ele pertencia.
                                                                            (Adaptado de BLOCH, 1987 p. 273-279).


        Texto 7
        Havia os `servos dos domnios', que viviam permanentemente ligados  casa do senhor e trabalhavam
     em seus campos durante todo o tempo, no apenas por dois ou trs dias na semana. Havia camponeses
     muito pobres, chamados `fronteirios', que mantinham pequenos arrendamentos de um hectare, mais ou
     menos,  orla da aldeia, e os `aldees', que nem mesmo possuam um pequeno arrendamento, mas ape-
     nas uma cabana, e deviam trabalhar para o senhor como braos contratados, em troca de comida.
          Havia os `vilos' que, ao que parece, eram servos com maiores privilgios pessoais e econmicos.
     Distanciavam-se muito dos servos na estrada que conduz  liberdade, gozavam de maiores privilgios e
     menores deveres para com o senhor. Uma diferena importante, tambm, est no fato de que os deve-
     res que realmente assumiam eram mais preciosos que os dos servos. Isso constitua grande vantagem,
     porque, ento, os vilos sabiam qual a sua exata situao. Alguns vilos estavam dispensados dos `dias
     de ddiva' e realizavam apenas as tarefas normais de cultivo. Outros simplesmente no desempenha-
     vam qualquer tarefa, mas pagavam ao senhor uma parcela de sua produo. Ainda outros no trabalha-
     vam, mas faziam seu pagamento em dinheiro. Alguns vilos eram quase to abastados como homens
     livres, e podiam alugar parte da propriedade do senhor, alm de seus prprios arrendamentos. Assim,
     havia alguns cidados que eram proprietrios independentes e nunca se viram obrigados s tarefas do
     cultivo, mas pura e simplesmente pagavam uma taxa a seu senhorio.
                                                                               (Adaptado de HUBERMAN, 1986, P. 7)

                                  E o escravo, desapareceu do cenrio feudal?
                                  A escravido reduziu, na Europa ocidental,  medida que aumen-
                              tava a servido. Na Inglaterra do sculo XII, os escravos realizavam
                              trabalhos domsticos, na Frana, ao norte do Loire, quase no ti-
                              nham importncia numrica. Ento, os escravos no desapareceram
                              na poca feudal; gregos e muulmanos capturados por mercadores,
                              ao longo da costa do mar Negro, sia ocidental, frica do Norte, fo-
                              ram vendidos e utilizados no trabalho do campo, domstico seja co-
                              mo eunucos, concubinas ou prostitutas. A escravido adquiriu certa
                              importncia na Itlia, devido a proximidade com os pases muulma-
                              nos, o que possibilitou o comrcio de escravos da regio do mediter-
                              rneo e da frica continental.
                                  Entretanto, predominava na sociedade feudal trs ordens definidas:
                              clero, nobreza e servos. Esses grupos sociais deveriam conviver em
                              harmonia, cada um desempenhava funes determinadas.
48   Relaesdetrabalho
                                                                                                                                                     Histria

                                       Documento 8                                          O bispo Adalberon de Laon ( 1031/1031 ), do sculo
                                                                                        XI, relata que:


                                                                                            Documento 7
                                                                                              O domnio da f  uno, mas h um triplo estatuto na Or-
                                                                                         dem. A lei humana impe duas condies: o nobre e o servo
               n www.cyberpadres.com




                                                                                         no esto submetidos ao mesmo regime. Os guerreiros so
                                                                                         protetores das igrejas. Eles defendem os poderosos e os fra-
                                                                                         cos, protegem todo mundo, inclusive a si prprios. Os ser-
                                                                                         vos por sua vez tm outra condio. Esta raa de infelizes no
                                                                                         tem nada sem sofrimento. Quem poderia reconstituir o esfor-
                                       n Pirmides de Quops, Qufren e Miquerinos,      o dos servos, o curso de sua vida e seus inumerveis traba-
                                         no deserto de Giz (sculo XXVII  XXVI a.C.
                                                                                         lhos? Fornecer a todos alimento e vestimenta: eis a funo de
               Documento 9                                                               servo. Nenhum homem livre pode viver sem eles. Quando um
                                                                                         trabalho se apresenta e  preciso encher a despensa, o rei e
                                                                                         os bispos parecem se colocar sob a dependncia de seus
                                                                                         servos. O Senhor  alimentado pelo servo que ele diz alimen-
                                                                                         tar. No h fim ao lamento e s lgrimas dos servos. A casa
                                                                                         de Deus que parece una , portanto, tripla: uns rezam, outros
                                                                                         combatem e outros trabalham. Todos os trs formam um con-
                                                                                         junto e no se separam: a obra de um permite o trabalho dos
                                                                                         outros dois e cada qual por sua vez presta seu apoio aos ou-
                                                                                         tros.
                n Runas do Coliseu. Iniciado no reinado de Vespasiano
                                                                                                                 (ADALBERON apud FRANCO JUNIOR, 1985, p. 34)
                  e terminado em 82 d.C. pelo imperador Domiciano. O
                  grande anfiteatro tinha capacidade para 40 mil pesso-
                  as sentadas e mais 5 mil em p.                                       Documento 10.
n www.sxc.hu




                                         n Castelo medieval.




                                                                                                         OMundodoTrabalhoemDiferentesSociedades                 49
        EnsinoMdio


     Sugesto de leitura
     MacDONALD, Fiona. Co-
                                               DEBATE
     mo seria sua vida na
     Idade Mdia? So Pau-          D sua opinio sobre o relato do bispo Adalberon de Laon presen-
     lo: Scipione, 1996.        te no documento 7, em relao  harmonia das trs ordens: clero, no-
                                breza e servo. Escreva sua argumentao e debata com a sala.




                      ATIVIDADE

         Utilizando-se dos textos 6 e 7, voc ir construir um quadro destacando as diferenas entre as ca-
         tegorias de servos feudais. Depois construa uma narrativa histrica sobre as relaes de trabalho
         medievais.
         Caracterize e compare o trabalho nas sociedades escravista e feudal. Analise como as relaes de
         trabalho nestas sociedades fundamentam diferenas scio-econmicas.
         Em diferentes sociedades, os seres humanos construram monumentos de magnfica arquitetura,
         que ainda hoje encantam pessoas do mundo inteiro. Destacam-se, entre estes, as construes das
         Pirmides egpcias, o Coliseu de Roma e tambm os Castelos Medievais. Observe as imagens re-
         presentadas nos documentos 8, 9 e 10. Depois produza uma narrativa histrica destacando como
         foi possvel a construo destes monumentos, considerando a tecnologia dos perodos expressos,
         bem como o trabalho empregado na construo destes monumentos.



       RefernciasBibliogrficas
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50    Relaesdetrabalho
                                                                                             Histria

 HUBERMAN, Leo. Histria da riqueza do homem. Rio Janeiro: Guanabara, 1986.
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 ObrasConsultadas
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 BRECHT, B. Poemas. Lisboa: Presena, 1976, p.66.
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                                                      OMundodoTrabalhoemDiferentesSociedades            51
       EnsinoMdio




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                                                                                        3
                                                         RELAES DE TRABALHO:
                                                     A construo do trabalho assalariado
                                                                                       n Siumara Sagati1




                                                                  timologicamente a palavra sal-
                                                                rio vem de sal. Na antiguidade,
                                                                 como no havia moeda como
                                                                 instrumento de valorao e troca,
                                                         usava-se a pitada de sal como expresso
                                                         de valor.
                                                         Ser que sempre existiu salrio para o tra-
                                                         balho?
                                                         Trabalho sempre esteve relacionado com sa-
                                                         lrio?




Colgio Estadual Jos de Anchieta  Apucarana  PR
1




                                                                    AConstruodoTrabalhoAssalariado       53
       EnsinoMdio

                               Deartesosindependentes
                               atarefeirosassalariados
                                A partir dos sculos XII e XIII, com o progresso das cidades na
                            Europa e o uso do dinheiro, os artesos tiveram a opo de abandonar
                            a agricultura e viver de seu ofcio. O sapateiro, o padeiro, o fabricante
                            de mveis, etc., foram para as cidades europias, dedicando-se aos
                            negcios, no mais para satisfazer somente s suas necessidades como
                            faziam antes, mas sim para atender  procura e abastecer um mercado
                            pequeno e em construo.
                                Neste momento, a produo era de carter familiar. Nela o
                            arteso possua os meios de produo (era o proprietrio da oficina
                            e das ferramentas) e trabalhava com a famlia em sua prpria casa,
                            realizando todas as etapas da produo, desde o preparo da matria-
                            prima at o acabamento final; ou seja, no havia diviso do trabalho
                            ou especializao. Em algumas situaes, o arteso tinha consigo um
                            ajudante, porm no assalariado, que desenvolvia o mesmo trabalho
                            pagando uma "taxa" pela utilizao das ferramentas.
                                Com a expanso das cidades e a mudana de grande parte da
                            populao para os centros urbanos, aumentou o nmero de artesos.
                            Estes, que antes dominavam todas as tcnicas de fabricao de um
                            produto, passaram a ter mais ajudantes, os quais se tornavam aprendizes
                            de um ofcio, recebendo um pagamento por isso (em alimentos ou
                            dinheiro), at poder obter sua prpria oficina.
                                Concludo o perodo de aprendizado, caso no tivesse condies
                            de abrir sua prpria oficina, o aprendiz podia tornar-se jornaleiro e
                            continuar trabalhando para o mesmo mestre, recebendo um salrio, ou
                            tentar conseguir emprego em outra oficina.
                                Nos sculos XII e XIII, a produo artesanal estava sob o controle
                            das corporaes de ofcio, que eram associaes econmicas que
                            buscavam promover e proteger os interesses de uma determinada
                            categoria profissional. Os trabalhadores passaram a agregar-se por
                            especialidades nas corporaes de ofcio, que possuam regulamentos
                            quanto  hierarquia,  formao e ao treinamento de profissionais, s
                            horas de trabalho, salrios, preos a serem cobrados pelos prprios
                            produtos, alm de proteger os artesos contra a concorrncia de outras
                            cidades ou pases.



                     ATIVIDADE

        Havia espao para contestao nas Corporaes de Ofcio? Justifique sua resposta.



54   Relaesdetrabalho
                                                                                                 Histria

    Com a expanso das atividades comerciais, principalmente a
partir do sculo XV, devido ao alargamento do comrcio tanto rumo
ao Oriente quanto em direo  Amrica, houve a necessidade de
aumentar a produo de mercadorias. Tornaram-se mais numerosas as
pequenas oficinas. A produo passou a ser direcionada a um mercado
em crescente expanso, permanecendo, porm, os lucros nas mos
dos comerciantes. Com uma maior utilizao da moeda, a ampliao
das relaes comerciais e o fortalecimento dos mercados nas cidades,
tornou-se mais comum a utilizao da mo-de-obra assalariada.
    No sculo XVI, com o incremento da economia mercantil, o
exclusivismo das corporaes foi abalado. Ocorreu a ingerncia
dos comerciantes na distribuio de matria-prima, na concesso de
instrumentos de trabalho e na ampliao de mercados. Eles comearam
a fornecer a matria-prima aos trabalhadores fora da jurisdio das
corporaes e a controlar a comercializao do produto final. Surgia o
sistema que ficou conhecido como putting-out, no qual aparecia a figura
do comerciante capitalista, isto , o intermedirio entre a produo e
a comercializao. Para atender a crescente procura por mercadorias,
tais intermedirios levavam matria-prima no apenas aos membros
das corporaes que, nas cidades, estavam dispostos a trabalhar para
eles, mas tambm para os homens, mulheres e crianas das aldeias.


     Putting-out - pr-fora / produo dispersa
     Putting-out system - sistema de diviso parcelada do trabalho
     Putter-out - aquele que faz realizar um trabalho fora (patro)
                                                        (MARGLIN, 2001, p. 41-56)



    A matria-prima distribuda era transformada na prpria casa pelo
mestre arteso e os jornaleiros por ele empregados, tal como no sistema
de corporaes, mas com uma diferena importante: os mestres j no
eram independentes; tinham ainda a propriedade dos instrumentos de
trabalho e, embora dominassem o processo de produo, dependiam,
para ter a matria-prima, de um empreendedor que se interpusesse
entre eles e o consumidor. Passaram a ser simplesmente tarefeiros
assalariados, sendo-lhes vetado o acesso ao mercado, tanto para a
obteno das matrias-primas indispensveis para a produo como
para a comercializao de seus produtos.
    Ainda que o intermedirio no modificasse a tcnica de produo,
buscou reorganiz-la com o objetivo de aumentar a produtividade. J
percebia, por exemplo, as vantagens da especializao, da diviso do
trabalho para acelerar a produo. No que sob o sistema corporativo
a diviso do trabalho fosse inexistente. A produo txtil, por exemplo,
era dividida em tarefas separadas, cada uma controlada por especialistas.
Nesse caso a diviso profissional do trabalho foi substituda pela diviso
                                                                      AConstruodoTrabalhoAssalariado      55
       EnsinoMdio

                            tcnica do trabalho, isto , a exclusividade profissional dominante nas
                            oficinas de artesanato foi substituda pela distribuio de funes nas
                            oficinas de manufaturas modernas.


                     DEBATE

        Do sculo XVI ao XVIII, os artesos independentes tendem a desaparecer, e em seu lugar
     surgem os assalariados, que cada vez dependem mais do comerciante-capitalista-intemedirio.
        Que fatores colaboraram para tal situao?


                               Os chamados enclosures ou cercamentos (principalmente na
                               Inglaterra), que consistiam na expulso em massa dos arrendatrios
                               e na transformao das terras de cultivo em pastagens para ovelhas,
                               arrancaram grandes massas humanas de seus meios de subsistncia.
                               Essa situao ajuda a entender a prontido de muitos camponeses
                               em aceitar o trabalho em domiclio como "tarefeiros assalariados".
                               Dispondo em geral de poucas terras, a situao dos camponeses era
                               precria. Muitos tinham que complementar seus ganhos agrcolas
                               trabalhando por salrios ou enviando seus filhos s cidades para se
                               empregarem nas manufaturas.
                               Nas cidades as corporaes fechavam-se na sua posio monopolista
                               e excluam os recm-chegados, o que dava margem ao surgimento
                               de mercados ilcitos, abastecidos por mestres e jornaleiros
                               clandestinos, que trabalhavam ilegalmente. Na maioria das vezes,
                               sem a oportunidade de exercer autonomamente seu ofcio, esses
                               mestres e jornaleiros preteridos tornaram-se dependentes de quem
                               se dispunha a lhes comprar a fora de trabalho.
                               Nos sculo XVI e XVII, tanto devido aos enclosures ou cercamentos,
                               como devido s numerosas e prolongadas guerras religiosas que
                               devastaram o continente europeu, muitas pessoas foram arrancadas
                               de seu modo costumeiro de vida e no conseguiram enquadrar-se
                               na disciplina da nova condio, convertendo-se em uma multido
                               de esmoleiros, assaltantes, vagabundos. A soluo encontrada pelos
                               governos da poca para essa situao foi usar a fora para induzir
                               essa multido a vender sua fora de trabalho. Da ter surgido em
                               toda a Europa Ocidental uma legislao contra a "vagabundagem".

        Documento 1
        Na Inglaterra essa legislao comeou sob governo de Henrique VII.
        - Henrique VIII, 1530:
        Esmoleiros velhos e incapacitados recebem uma licena para mendigar. Em contraposio,
     aoitamento e encarceramento para os vagabundos vlidos.


56   Relaesdetrabalho
                                                                                                         Histria


    - Eduardo VI, 1547:
    Estabelece que, se algum se recusa a trabalhar, dever ser
 condenado a se tornar escravo de quem o denunciou como
 vadio.
                                n Adaptado de MARX, 1984 [1867], v. 1. tomo 2, p. 275-276.




               ATIVIDADE

    Analise e comente os valores defendidos na legislao no documento 1. Registre suas principais
 impresses.


    O lento processo de ruptura das relaes feudais promoveu a
separao gradativa do trabalhador dos meios de produo, no campo
e nas manufaturas. O campons, aos poucos expropriado, e como o
artfice, transformado em trabalhador livre, viu-se obrigado a vender
sua fora de trabalho para sobreviver. Enfim, o domnio burgus do
trabalho percorreu uma trajetria que se iniciou no crescimento das
populaes municipais no fim da Idade Mdia, alimentado pela expanso
dos mercados internacionais. O interior da Europa modificou-se com
os resultados dessa expanso: a manufatura substitui o artesanato,
a diviso do trabalho corporativo desapareceu diante da diviso do
trabalho nas oficinas e, mais tarde, nas fbricas.


  Aconstituiodosistemadefbricas
   No sculo XVIII, simultaneamente ao
processo de assalariamento, surgem inovaes
tcnicas para a produo (mquinas a vapor,
teares mecnicos, etc.).
   O trabalho que antes era desenvolvido em
pequena escala, no ambiente domstico e nas
pequenas oficinas, passou a ser realizado em
grande escala, num espao maior destinado
especialmente a ele - a fbrica.




                            n Mquina de fiar de Hargreaves

                                                                              AConstruodoTrabalhoAssalariado      57
           EnsinoMdio

                                                           O dono da fbrica tornou-se tambm proprietrio da
                                                       matria-prima e das ferramentas para a fabricao dos
                                                       produtos; o trabalhador passou a vender sua fora de trabalho
                                                       e no mais o produto acabado como no trabalho artesanal.
                                                       Alm de se separar dos meios de produo, no sistema
                                                       fabril, o trabalhador, que antes dominava todo o processo
                                                       de elaborao de um produto, passou a ocupar um posto
                                                       fixo nesse processo, consolidando assim a diviso tcnica do
     n Mquina a vapor de Watt FONTE: www.paginas.     trabalho.
       terra.com.br/.../grandes/watt.htm acesso: 30-
       08-05

                                                   Texto 1
                                                 O fundamental na passagem da produo manufatureira  produo
                                             industrial  que nesta o trabalho no  mais realizado pelo homem, mas pela
                                             mquina. A funo do homem no  mais produzir, mas alimentar, vigiar,
                                             manter e reparar a mquina que tomou o seu lugar. Isso tem, naturalmente,
                                             conseqncias muito importantes. O que aqui nos interessa, sobretudo, 
                                             a mudana produzida no papel do operrio no processo produtivo. Esse
                                             papel de ativo torna-se essencialmente passivo. So outras, portanto, as
                                             habilidades requeridas.
                                                                                             (Adaptado de SINGER, 1994, p. 31).



                                               Mas o que originou realmente o sistema de fbricas? O que
                                           determinou a reunio dos artesos num mesmo espao, embaixo do
                                           mesmo teto?
                                               Para alguns pesquisadores, o incio do sistema fabril e a diviso de
                                           trabalho que nele se instaurou no se deveram somente s inovaes
                                           tecnolgicas. O que determinou a reunio dos trabalhadores artesos
                                           em um mesmo espao foi a necessidade de control-los em seu ritmo
                                           de trabalho e seu saber tcnico.
                                               O putting-out system, baseando-se na disperso dos trabalhadores
                                           domsticos, criava muitas vezes situaes incertas e problemticas.
                                           Surgiram vrios conflitos, devido ao desvio de parte da produo, a
                                           falsificao dos produtos, a utilizao de matrias-primas de qualidade
                                           inferior quelas fornecidas, ociosidade e atraso no pagamento e na
                                           entrega de mercadorias, etc. Na perspectiva dos mercadores capitalistas
                                           era "sabotagem"; j do ponto de vista dos trabalhadores domsticos,
                                           essas aes, muitas vezes, significavam uma forma de "resistncia" 
                                           perda do prprio controle do processo de trabalho.
                                               Na inteno de organizar e disciplinar o trabalho por meio de uma
                                           sujeio completa da figura do prprio trabalhador, surgiu o sistema de
                                           fbricas. O que estava em jogo era justamente a ampliao do controle
                                           e do poder por parte dos capitalistas sobre o conjunto de trabalhadores
                                           que ainda conservavam para si os conhecimentos tcnicos e impunham
                                           a dinmica do processo produtivo.

58     Relaesdetrabalho
                                                                                                 Histria


     Texto 2:
      E nesse sentido, o sistema de fbrica representou a perda desse controle
 pelos trabalhadores domsticos. Na fbrica, a hierarquia, a disciplina, a
 vigilncia e outras formas de controle tornaram-se tangveis a tal ponto que
 os trabalhadores acabaram por submeter-se a um regime de trabalho ditado
 pelas normas dos mestres e contramestres, o que representou, em ltima
 instncia, o domnio do capitalista sobre o processo de trabalho.
                                                             (DECCA, 1981, p. 24)



     Texto 3:
     A especializao parcelada, caracterstica do putting-out system, fez
 desaparecer s um dos dois aspectos do controle operrio da produo:
 o controle sobre o produto. O controle operrio do processo de trabalho
 ainda continuava total: o trabalhador era livre para escolher as horas e a
 intensidade do trabalho. Essa liberdade s lhe foi tirada pela fbrica.
      Assim a tese que vamos defender ser: a concentrao de operrios nas
 fbricas foi uma conseqncia lgica do putting-out system... O segredo do
 sucesso da fbrica, o motivo de sua adoo,  que ela tirava dos operrios
 e transferia aos capitalistas o controle do processo de produo. Disciplina
 e fiscalizao podiam reduzir custos...
                                                       (MARGLIN, 2001, pp. 56-58)



   Neste sistema os trabalhadores, reunidos em galpes, passaram
a ser vigiados e controlados por meio de uma rgida disciplina que
impunha horrios de entrada e sada, prazos para cumprirem tarefas,
maior diviso das etapas de trabalho e severa hierarquia.



                 ATIVIDADE

    Identifique a temtica dos textos 2 e 3. Em seguida, escreva uma narrativa sobre as modificaes
 nas condies de trabalho com a implementao do sistema de fbrica.




   A constituio do sistema de fbricas e o desenvolvimento da diviso
do trabalho nela institudo foram relacionados a um acontecimento
de ordem tecnolgica principalmente para os pensadores no sculo
XIX, quando predominava a crena positivista de que a tecnologia
resolveria todos os problemas da humanidade. Durante o sculo XIX,
a Escola Positivista (liderada na Frana por August Comte) acreditava
que, com o progresso tcnico, os homens seriam, necessariamente,

                                                                      AConstruodoTrabalhoAssalariado      59
       EnsinoMdio

                          mais racionais em todos os campos de atividade: na poltica, na tica,
                          nos negcios, nas relaes entre as naes, etc.

                               Texto 4
                              Entre os autores que comungavam a crena positivista, podemos
                           destacar:
                                                        Saint-Simon: (1760-1825)
                                                        (...) em sua viso, a nova poca era a do
                                                    industrialismo, que trazia consigo a possibilidade
                                                    de satisfazer todas as necessidades humanas e
                                                    constitua a nica fonte de riqueza e prosperidade.
                                                    Acreditava tambm que o progresso econmico
                                                    acabaria com os conflitos sociais e traria segurana
                                                    aos homens.
                               August Comte: (1798-1857)
                               (...) admitia Comte que algumas reformas
                           poderiam ser introduzidas na sociedade 
                           mudanas que seriam comandadas pelos
                           cientistas e industriais  de tal modo que o
                           progresso constituiria uma conseqncia suave e
                           gradual da ordem.
                                              Adaptado de MARTINS, 1982, p. 39-46.




                             Desde ento, as avaliaes sobre o papel da tecnologia oscilaram
                          entre uma postura simplista, em que se acreditava piamente nos
                          benefcios do progresso, e uma postura pessimista, que considerava a
                          tcnica nociva  humanidade.
                             Voltando  constituio do sistema de fbricas, no se trata de negar
                          a importncia das mudanas tecnolgicas que se deram desde o incio
                          do sculo XVIII, mas h de se considerar que muito da essncia da
                          fbrica est na disciplina e nas possibilidades de direo e coordenao
                          do trabalho que oferece.


                               Texto 5
                               Sistema familiar
                              Os membros de uma famlia produzem artigos para seu consumo e
                           no para a venda. O trabalho no se fazia com o objetivo de atender ao
                           mercado.
                                                                                 (HUBERMAN, 1986, p. 104-105).




60   Relaesdetrabalho
                                                                                                       Histria


    Texto 6
    Sistema de Corporaes
     Produo realizada por mestres artesos independentes com dois ou trs empregados, para o
 mercado, pequeno e estvel. Os trabalhadores eram donos da matria-prima que utilizavam, como das
 ferramentas com que trabalhavam. No vendiam o trabalho, mas o produto do trabalho.
                                                                                 (HUBERMAN, 1986, p. 104-105)

    Texto 7
    Sistema domstico
     Produo realizada em casa para um mercado em crescimento. Era desenvolvida pelo mestre
 arteso com ajudantes, tal como no sistema de corporaes, porm com uma diferena importante 
 os mestres j no eram independentes. Eles tinham ainda a propriedade dos instrumentos de trabalho,
 mas dependiam para a matria-prima de um intermedirio empreendedor que se interpusera entre eles
 e o consumidor.
                                                                                 (HUBERMAN, 1986, p. 104-105)

    Texto 8
    Sistema fabril
    Produo para um mercado cada vez maior e oscilante, realizada fora de casa, nos edifcios do
 empregador e sob rigorosa superviso. Os trabalhadores perderam completamente sua independncia.
 No possuam a matria-prima, nem os instrumentos de trabalho. A habilidade deixou de ser to
 importante, devido ao maior uso da mquina.
                                                                                 (HUBERMAN, 1986, p. 104-105)




                 ATIVIDADE

    possvel a convivncia dessas diversas formas de produo citadas nos textos 5, 6, 7 e 8 em um
 mesmo tempo e espao? Exemplifique.
    SUGESTES: Voc pode escolher um perodo, sculo XV- XVIII, na Europa por exemplo,ou observar
 sua cidade, regio, estado e pas na atualidade.
     Escreva uma narrativa histrica a partir dos fragmentos presentes nos textos 5, 6, 7 e 8. Pesquise,
 use outras fontes histricas para ajud-lo a construir os argumentos de sua narrativa. Procure informaes
 relacionadas, tambm, com aspectos da temtica na histria de nosso pas.



  Aorganizaodotempodotrabalho
   Com o advento do sistema fabril, alm do controle no interior das fbricas, os valores
capitalistas foram disseminados fora deste espao. Uma situao onde pode se verificar este
controle com clareza diz respeito  noo de tempo que passou por grandes transformaes.
Observe com ateno o que a historiografia diz sobre as concepes de tempo.

                                                                     AConstruodoTrabalhoAssalariado             61
       EnsinoMdio


        Texto 9
         Na Idade Mdia, alm dos tempos naturais e sociais de natureza leiga, eram fortemente sentidos os
     tempos ligados  religio  como aqueles do dia monstico, que prev cotidianamente os servios para
     as laudes, a prima, a tera, a sexta, a nona, as vsperas e as completas.
        No incio da modernidade, o tempo da Igreja, marcado pelo sino, entrou em conflito com o tempo
     do mercador, marcado pelo relgio.
          Se de fato ao campons bastava dividir o seu tempo segundo as luas e as estaes, tornadas
     imprecisas pela demarcao apagada entre calor e frio, sol e chuva, dia e noite; se ao monge bastava
     dividir as horas, segundo, os sete perodos da prpria liturgia cotidiana, marcadas aproximadamente
     pelo relgio de sol, pela clepsidra e pelo sino, ao mercador  que faz tesouro do tempo que decorre
     entre a compra e a venda, pagamentos e recebimentos, transferncia de mercadorias e maturao de
     interesses   necessria uma medida muito mais precisa das horas e dos dias. Ainda mais precisa
      a medida do tempo necessria aos qumicos, aos fsicos e aos filsofos que conduzem os seus
     experimentos nas universidades.
         Se antes interessava apenas a salvao na vida eterna, agora interessa tambm o ganho na vida
     terrena. E os negcios so coligados ao tempo: no decorrer de algumas semanas, podiam mudar as
     sortes de um mercador ou de um banqueiro, assim como hoje, no decorrer de poucos minutos, podem
     decidir-se fortunas de quem joga na bolsa.
                                                                             (Adaptado de DE MASI, 2000, p. 97-101).



        Texto 10
         J em 1700, estamos entrando na paisagem familiar do capitalismo industrial disciplinado e podemos
     examinar rapidamente a tentativa de se impor o "uso econmico do tempo" nos distritos manufatureiros
     domsticos. Quase tudo o que os mestres queriam ver imposto pode ser encontrado nos limites de um
     nico folheto. Friendly advice to the poor (Conselho amigvel dos pobres), do rev. J. Clayton, escrito
     em 1755: "se o preguioso esconde as mos no colo, em vez de aplic-las ao trabalho; se ele gasta
     o seu tempo em passeios, prejudica a sua constituio pela preguia, e entorpece o seu esprito pela
     indolncia...", ento ele s pode esperar a pobreza como recompensa. O trabalhador no deve flanar
     na praa nem perder tempo fazendo compras. Clayton reclama que "as igrejas e as ruas apinhadas
     de inmeros espectadores" nos casamentos e funerais, "os quais apesar da misria de sua condio
     faminta... no tem escrpulos em desperdiar as melhores horas do dia s para admirar o espetculo..."
     Clayton reclamava que as ruas de Manchester viviam cheias de "crianas vadias e esfarrapadas, que
     esto no s desperdiando o seu tempo, mas tambm aprendendo hbitos de jogo", etc. Ele elogiava
     as escolas de caridade por ensinarem o trabalho, a frugalidade, a ordem e a regularidade.
          Muito antes de o relgio porttil ter chegado ao alcance do arteso, Baxter e seus colegas ofereciam
     a cada homem o seu prprio relgio moral Interior. Em seu Christian directory (Guia Cristo), apresenta
     muitas variaes sobre o tema de Redimir o Tempo: "empregar todo o tempo para o dever""Lembrai-
     vos que redimir o tempo  lucrativo no comrcio ou em qualquer negcio; na administrao ou qualquer
     atividade lucrativa, costumamos dizer, de um homem que ficou rico com o seu trabalho, que ele fez bom
     uso do seu tempo".
                                                                          (Adaptado de THOMPSON, 1998, p. 291-295)




62   Relaesdetrabalho
                                                                                                                             Histria


    Texto 11
     Em um pas aps o outro, os europeus incentivaram, quando no obrigaram, os habitantes locais a
 pensar em termos do tempo do relgio ocidental, considerado bom para a disciplina do trabalho, e na
 diviso dos "sculos" em antes ou depois de Cristo. A hora de Greenwich, adotada na Gr-Bretanha
 em 1848, chegou aos Estados Unidos em 1873, ao Japo em 1888 e ao Brasil em 1914. Esse breve
 relato da divulgao do tempo ocidental e dos relgios ocidentais para o resto do mundo vem tratando
 a "cultura do tempo" europia como se fosse homognea. Se examinarmos um pouco melhor a Europa,
 porm, logo descobriremos que no era o caso. Um dos pioneiros nesse campo, o historiador francs
 Jacques Le Goff, escreveu sobre um conflito entre duas culturas do tempo na Europa medieval: "O
 tempo da igreja" e o "tempo dos mercadores". A igreja enfatizava o tempo sagrado e o ano litrgico,
 enquanto os mercadores viam o tempo de maneira mais secular. Eles gostavam de dizer que "tempo 
 dinheiro", que o tempo pode ser calculado, usado sabiamente ou desperdiado.
    Outros tempos
     Esse contraste entre dois tipos de tempo  esclarecedor, mas certamente  necessrio pensar em
 termos de ainda mais variedades, incluindo o "tempo campons", o tempo do ano agrcola. Tambm
 existe o "tempo industrial", no apenas a extenso do tempo do mercador s fbricas, primeiramente na
 Inglaterra e depois em todo o mundo, mas tambm a padronizao do tempo seguindo o surgimento
 de novas formas de transporte. O estabelecimento de uma rede de carruagens pblicas na Europa do
 sculo 18 dependia de um "horrio", um sistema de organizao que mais tarde se estendeu s viagens
 de trem e avio. Hoje, nosso "tempo livre", "feriados" e lazer, assim como nossas horas de trabalho, so
 governados pelo relgio e pelo horrio.
        (Adaptado de BURKE, Peter. Uma histria cultural do tempo. In: Folha de So Paulo. So Paulo, 13 de out. 2002, Caderno Mais).




                   ATIVIDADE

    Em conjunto com os colegas de sala de aula, procure fazer uma anlise dos textos registrando por
 escrito as suas observaes sobre:
    As transformaes histricas na forma de medir o tempo;
    As relaes entre as religies e as medidas de tempo;
    As relaes entre as transformaes na medida do tempo e o comrcio;
    As permanncias e mudanas de significado das medidas de tempo na sociedade
    contempornea.
    Escreva uma narrativa histrica sobre o tema abaixo relacionado:
    "O sistema fabril imps ordem, controle e disciplina dentro e fora das fbricas"


  Trabalhoinfantil:umdosmaisexplorados
   Toda a criana possui plena dignidade como ser humano. Esta  uma verdade inquestionvel
inscrita no texto da Conveno sobre os Direitos da Criana, adotada em 1989 pela ONU,
que reconhece a todas as pessoas, com menos de 18 anos de idade, os direitos humanos
fundamentais como: a vida, a liberdade, a sade, a assistncia, a educao e a proteo.

                                                                                     AConstruodoTrabalhoAssalariado                   63
          EnsinoMdio

                                             O Brasil tem assumido compromissos formais decorrentes da
                                         assinatura de tratados de extenso internacional, obrigando-se, por
                                         fora da Constituio e de leis especficas  como, por exemplo, o
                                         Estatuto da Criana e do Adolescente (ECA) , a dar prioridade e soluo
                                         s questes voltadas para a garantia dos direitos fundamentais da
                                         criana. No entanto, h um abismo entre o compromisso assumido no
                                         plano legal e a realidade que se percebe nos espaos tanto urbanos
                                         quanto rurais de nosso pas.
                                             Tem-se constatado em todas as regies do pas, principalmente na
                                         zona rural, crianas envolvidas no trabalho domstico, na plantao e
                                         na colheita de cana-de-acar, do fumo, do algodo, sisal, frutas; nas
                                         atividades de cermica, pedreiras, casas de farinha, carvoarias, dentre
                                         outras.
                                             No setor urbano, encontra-se o trabalho de crianas no ramo da
                                         tecelagem, produo artesanal, na produo de calados, em atividades
                                         desenvolvidas no espao pblico como vendedores, engraxates,
                                         catadores de lixo, jornaleiros, e, pior, inseridas nos domnios da
                                         criminalidade (drogas e prostituio).

                                                Documento 4
                                              Trabalho infantil  o maior em 18
                                           meses e Rio lidera casos; da Folha
                                           Online de 19 nov. 2003.
                                               Confira abaixo a evoluo do
                                           trabalho infantil desde maro de 2002
                                           em So Paulo, Rio de Janeiro, Recife,
                                           Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre
                                            as seis regies metropolitanas
                                           pesquisadas pelo Instituto Brasileiro
                                           de Geografia e Estatstica (IBGE) em
                                           sua pesquisa mensal de emprego:

                                                                                        n FONTE: Folha Online acesso: 04/09/2005
     TABELA 1
       Incidncia do Trabalho Infantil, segundo a natureza da atividade (agrcola, ou no agrcola),
                                           por Grandes Regies
      Percentual de Pessoas de 5 a 15 anos, ocupadas na semana de 21 a 27/09/2003, segundo a natureza
                                       da atividade, por Grandes Regies
                                        Agrcola (%)                 No Agrcola (%)                     Total (%)
             Brasil                          54,3                          45,7                            100,0
             Norte                           24,1                          75,9                            100,0
          Nordeste                           67,1                          32,8                            100,0
       Centro-Oeste                          29,5                          70,5                            100,0
           Sudeste                           34,1                          65,9                            100,0
               Sul                           63,1                          36,9                            100,0
     n Fonte: DAM/SAGI/MDS, a partir dos microdados da PNAD 2003

64     Relaesdetrabalho
                                                                                                                                Histria

     claro que a misria e a pobreza, responsveis pela excluso social e transformadas em
tristes smbolos que envergonham os pases em desenvolvimento, esto na base do problema
do trabalho infantil. Entretanto, um olhar mais atento na questo, tem demonstrado outras
causas geradoras da insero indevida de crianas no trabalho, destacando-se a infeliz herana
de uma cultura que defende a idia de que o trabalho "dignifica" a criana, desenvolvida
com a Revoluo Industrial e incrementada significativamente a partir das ondas da expanso
capitalista.
    Embora atualmente se faa sentir, por meio de denncias, movimentos de proteo, estatutos,
etc., uma crescente preocupao com as precrias condies da infncia, tal problemtica no 
nova. Atravs de alguns escritos sobre a legislao fabril inglesa do sculo XIX, pode-se perceber
que a explorao da criana das classes populares, a inexistncia da infncia isenta de violncias,
do trabalho, de responsabilidades do mundo adulto no so questes apenas da atualidade.
Observe este fragmento da obra "O capital" do filsofo alemo Karl Marx (1818-1883):

       Documento 5
      A comisso de inqurito de 1840 tinha feito revelaes to terrveis e revoltantes e provocado tanto
  escndalo em toda a Europa que o Parlamento foi obrigado a salvar sua face, promulgando a lei sobre
  o trabalho nas minas (Mining Act) de 1842, que se limitava a proibir o trabalho embaixo da terra das
  mulheres e crianas com menos de 10 anos. Em 1860 foi promulgada a lei de inspeo das minas que
  previa a fiscalizao delas por funcionrios especialmente nomeados para esse fim e proibia o emprego
  nelas de menores entre 10 e 12 anos, excetuando-se os que possussem um certificado escolar ou
  freqentassem a escola durante um certo nmero de horas.
                                                                                                                (MARX, 1985, p. 566).

    De acordo com Marx, apesar da aparente pobreza que apresentavam em seu conjunto, as
disposies da lei fabril fizeram da instruo primria condio indispensvel para o emprego
de crianas. Naquela poca, isso representou um avano, pois nela se propunha proteger a
criana da explorao tanto dos donos das fbricas, como dos pais ou outras pessoas que
tinham sob sua vigilncia a criana ou extraiam vantagens diretas do trabalho delas.
    Marx salienta que apesar desse pequeno avano em termos de legislao, essa lei ficou
sendo letra morta devido ao pequeno nmero de inspetores nomeados para fiscalizar as minas
e aos escassos poderes que lhes foram concedidos, entre outras causas. Muitos enriqueceram
s custas de uma fora de trabalho gil, dcil, facilmente manipulvel, que no sabe reivindicar
ou organizar-se. Veja alguns exemplos dessa forma de explorao na histria:
Documento 6                                                        Documento 7




n Fbrica Nacional de Tecidos Juta, 1931 Fonte: Fundao Getlio   n Oficina de Latoeiro, Rio de Janeiro 1908. FONTE: Arquivo Nacional
  Vargas- CPDOC

                                                                                      AConstruodoTrabalhoAssalariado                     65
        EnsinoMdio


         Texto 12
           Na medida em que a mecanizao nivelava por baixo a habilidade necessria dos trabalhadores,
      tornava-se possvel incorporar, com facilidade, trabalho feminino e infantil. Isto significava tambm baixar
      o custo de remunerao do trabalho. A tecelagem exigia pouca fora muscular e os dedos finos das
      crianas adaptavam-se, perfeitamente,  tarefa de atar os fios que se quebravam em meio  trama. Sua
      debilidade fsica era garantia de docilidade, recebendo apenas 1/3 e 1/6 do pagamento dispensado
      ao homem adulto e, muitas vezes, recebiam apenas alojamento e alimentao. A maior parte destes
      infelizes era contratada nas parquias, junto aos responsveis pelas casas assistenciais, que livravam-
      se, por este meio, das despesas de sustento, diminuindo os encargos.
          A descrio da vida destes pequenos trabalhadores  dantesca. Trabalhavam at 18 horas por dia,
      sob o ltego de um capataz que ganhava por produo. Os acidentes de trabalho eram freqentes, m
      alimentao, falta de higiene, de ar ou sol, imoralidade e depravao nos alojamentos. As faltas eram
      punidas com castigos.
                                                                                      (Adaptado de ARRUDA, 1991, p. 69)

     Documento 8

                                                               Pense em crianas de dois e trs anos
           Distribuio das crianas empregadas,
        segundo a idade:                                   trabalhando!!!
           Idade ____ N de crianas empregadas                Ser isso um relatrio sobre o sistema domstico
            2  3 anos _____________________ 2             entre os sculos XVI e XVIII? Na verdade, no. Qual a
            3  4 anos _____________________ 2             poca e o local das condies acima descritas?
            4  5 anos _____________________ 8
            5  6 anos _____________________ 2                 poca: Agosto de 1934.
            6  7 anos _____________________ 7                 Local: Connecticut, Estados Unidos.
            7  8 anos ____________________ 13
            8  9 anos ____________________ 15
            9 10 anos ___________________ 19
           10-11 anos ___________________ 23
           11-12 anos ___________________ 21
           12-13 anos ___________________ 40
           13-14 anos ___________________ 26
           14-15 anos ___________________ 29
           15-16 anos ___________________ 35
           Desconhecida __________________ 4
           TOTAL _______________________ 246
                                                          n FONTE: HUBERMAM,1986, p.107




                      ATIVIDADE
         Analise historicamente os documentos 6, 7 e 8 e o texto 12, seguindo o roteiro indicado:
         identificar o tipo de documento; a data da produo; o tema;a finalidade do documento;
         identificar o contexto histrico;
         estabelecer relaes entre as temticas dos documentos e do texto historiogrfico;
         posicionar-se sobre a relevncia histrica dos documentos e do texto historiogrfico.

66    Relaesdetrabalho
                                                                                                  Histria



                PESQUISA

    Sob a orientao do professor (a), forme equipes para o seguinte trabalho:
 I  Procure descobrir se no bairro, cidade ou regio onde vocs moram existem casos de emprego de
      mo-de-obra infantil. Consulte fontes como jornais, revistas, Internet, panfletos, etc...
 II  Busque colher depoimentos de pessoas que trabalharam quando crianas. Veja algumas
     sugestes:
    Por que trabalhavam?- Que idade tinham?
    Em que setor trabalhavam?- Quais eram as condies de trabalho?
 III  Busque tambm colher depoimentos de jovens trabalhadores que tenham entre 10 e 15 anos.
      Sugestes:
    Qual a sua idade e desde quando trabalha?
    Qual o tipo de trabalho que faz atualmente?
    J fez outros tipos de trabalho? Cite quais.
    Quantas horas trabalha por dia?
    Que significado o trabalho tem para voc?
    Estuda?
    Tem tempo para outras atividades e para o lazer?
 IV  Faa uma pesquisa sobre a legislao e as garantias aos Direitos da Criana e do Adolescente.
     Fontes interessantes de pesquisa so os seguintes sites: www.unicef.org/brazil / www.oitbrasil.org.
     brwww.andi.org.br / www.fundabring.org.br, sites acessados dia: 04/09/05.
 V  Discutam as informaes obtidas e montem um painel para ser colocado na parede mostrando o
     trabalho infantil no presente e no passado.



  Otrabalhofeminino
    A condio da mulher trabalhadora no processo histrico  objeto de
estudo para muitos historiadores. Ela foi se incorporando ao mercado
externo de trabalho sem desobrigar-se, no entanto, de suas funes no
"lar". Observe o que a historiografia diz a respeito:


     Texto 13
      O trabalho mais rduo e prolongado de todos era o da mulher do trabalhador na economia rural.
 Parte desse trabalho era orientado pelas tarefas domsticas. Outra parte se dava nos campos, de onde
 ela retornava para novas tarefas no lar. Como Mary Collier reclamou:
     (...) e quando chegamos em casa,
     Ai de ns! Vemos que o nosso trabalho mal
     comeou; tantas coisas exigem a nossa ateno,


                                                                   AConstruodoTrabalhoAssalariado          67
       EnsinoMdio


                             Tivssemos dez mos, ns a usaramos todas.
                             Depois de pr as crianas na cama,
                             com o maior carinho
                             Preparamos tudo para a volta dos homens ao lar:
                             Eles jantam e vo para a cama sem demora.
                             E descansam bem at o dia seguinte;
                             Enquanto ns, ai! S podemos tirar um pouco de sono
                             Porque os filhos teimosos choram e gritam


                             Em todo o trabalho (ns) temos nossa devida parte;
                             E desde o tempo em que a colheita se inicia
                             At o trigo ser cortado e armazenado,
                             Nossa labuta  todos os dias to extrema
                             Que quase nunca h tempo para sonhar.
                                                                  (Adaptado de THOMPSON, 1998, p. 287-288).




                             Texto 14
                              A partir do sc XI, como se tratava de uma poca de expanso e
                          crescimento econmico, a mulher teve pleno acesso ao mundo do trabalho.
                          Encontravam-se praticamente em todos os ofcios, todavia no ramo txtil e
                          relacionado  alimentao, sua presena era mais significativamente mar-
                          cante. Os ofcios exclusivamente femininos se organizaram em corporaes,
                          como os masculinos, embora no usufrussem a mesma autonomia. O livre
                          exerccio de um ofcio por parte da mulher no era bem visto pelos homens
                          que censuravam seu acesso s corporaes. Era admitida somente em
                          situaes muito raras, em funo de ser esposa ou viva de mestre arteso.
                          Todavia, era praticamente impossvel que fosse reconhecida como mestra
                          do seu ofcio, muito embora, no raramente, atuasse como se assim fosse:
                          contratava os aprendizes, comprava matrias-primas e vendia o produto por
                          ela elaborado.
                                                                        (Adaptado de BAUER, 2001, p. 41-62).




68   Relaesdetrabalho
                                                                                                 Histria
Tabela 2  Trabalho feminino
                                                              1835
                           1787                                           Empregados
                                      Ativas          Paradas
                                                                        Masc.       Fem.        Total
       Berkshire               2         -                -               -            -             -
        Cheshire               8        109               7             15516       15996       31512
      Cumberland               -         13               -             626         1032        1638
       Derbyshire              22        93               3             4705        6880        11585
        Durhan                 -         1                -               9           24          33
      Lancarshire              41       683              32             60151       62264      122415
     Leicestershire            -         6                -              325         267         592
       Middlesex               -         7                -              217         133         350
   Nottinghamshire             17        20               -              481        1242        1723
     Staffordshire             -         13               -              749        1299        2098
     Westmorland               5         -                -               -            -             -
       Yorkshire               11       126               -             5487        5724        11211
  Resto da Inglaterra          6         -                -               -            -             -
   Total da Inglaterra     119         10171             42             88266       94861      183127
      Isle of Man              1         -                -               -            -             -
         Gales                 4         5                -              452         699        1151
        Esccia                19       159               -             10529       22051       32580
Total da Gr-Bretanha      143         1235              42             99267      117611      216858
         Irlanda               -         28               -             1639        2672        4311
         TOTAL             143         1263              42            100886      129283      221169




                   ATIVIDADE

     Que informaes podem ser obtidas a partir da anlise da tabela 2?
     Estabelea relaes entre as temticas dos textos 13, 14 e da tabela 2. Registre por escrito.




                   PESQUISA

     Organize com o professor (a) um roteiro de pesquisa sobre o contexto histrico do surgimento das
 fbricas no Brasil e a utilizao de mo-de-obra infantil e feminina nessas fbricas. Faa uma sntese
 sobre o tema.




                                                                     AConstruodoTrabalhoAssalariado       69
       EnsinoMdio

      RefernciasBibliogrficas
      ARRUDA, J. J. de. A Revoluo Industrial. So Paulo: tica, 1991.
      BAUER, C. Breve histria da mulher no mundo ocidental. So Paulo: Xam/ Edies Pulsar,
      2001.
      BURKE, P. Uma histria cultural do tempo. In: Folha de So Paulo. So Paulo, 13 de out., 2002,
      Caderno Mais.
      DECCA, E. S. de. O nascimento das fbricas. So Paulo: Brasiliense, 1984.
      DE MASI, D. O futuro do trabalho: fadiga e cio na sociedade ps-industrial. Rio de Janeiro: Jos
      Olympio, 2000.
      HUBERMAM, L. A histria da riqueza do homem. Rio de Janeiro: LTC/Livros Tcnicos e Cientficos
      Editora, 1986.
      MARGLIN, S. Origem e funes do parcelamento das tarefas (Para que servem os patres?). In: Gorz,
      A. Crtica da diviso do trabalho. So Paulo: Martins Fontes, 2001, p.37-77.
      MARTINS, C. B. O que  Sociologia. So Paulo: Brasiliense, 1982.
      MARX, K. O Capital. So Paulo: Abril Cultural, 1984, v.I, tomo 2.
      ______. O Capital. So Paulo: Difel, 1985.
      SINGER, P. A formao da classe operria. So Paulo: Atual, 1994.
      THOMPSON, E. P. Costumes em comum. So Paulo: Cia das Letras, 1998.


      ObrasConsultadas
      DOBB, M. H. A Evoluo do Capitalismo. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983.
      HOBSBAWM, E. J. A Era das Revolues. So Paulo: Paz e Terra, 1982.
      LE GOFF, J. Para um novo conceito de Idade Mdia. Lisboa: Estampa, 1980.
      OLIVEIRA, C. R. de. Histria do Trabalho. So Paulo: tica, 1987.


      DocumentosConsultadosOnline
      www1.folha.uol.com.br Acesso em 04 set. 2005
      www.unicef.org/brazil; Acesso em: 04 set. 2005.
      www.oitbrasil.org.br; Acesso em: 04 set. 2005.
      www.andi.org.br; Acesso em: 04 set. 2005.
      www.fundabring.org.br; Acesso em: 04 set. 2005.
      www.projetomemoria.art.br/.../ operarios.htm ; Acesso em: 04 set. 2005.




70   Relaesdetrabalho
                                       Histria



ANOTAES




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       EnsinoMdio




72   Relaesdetrabalho
                                                                                                                                Histria




                                                                                                                     4
                                                                       RELAES DE TRABALHO:
                                                       Transio do trabalho escravo para o
                                               trabalho livre: a mo-de-obra no contexto de
                                               consolidao do capitalismo nas sociedades
                                                                  brasileira e estadunidense
                                                                                            n Marli Francisco1, Vanderleia Canha2




                                                                   "Trabalho escravo atinge 25 mil no Brasil."
                                                                                                n Folha de Londrina, 02 abr. 2004, p. 7.



                                                                   A colonizao do Brasil foi baseada na
                                                                   explorao do trabalho escravo. No sculo
                                                                   XIX, essa forma de organizao do trabalho
                                                                   no atendia s demandas de um mundo
                                                                   capitalista. Como ocorreu a substituio da
                                                                   mo-de-obra escrava pela mo-de-obra livre?
                                                                   Quais relaes de trabalho foram produzidas
                                                                   nesse processo? Quais os sujeitos histricos
                                                                   desse processo?




1
 Colgio Estadual Chateaubriandense  Assis Chateaubriand  PR
1
 Colgio Estadual Arlinda Ferreira Creplive  Quatro Barras  PR

Transiodotrabalhoescravoparaotrabalholivre:amo-de-obranocontextodeconsolidaodocapitalismonassociedadesbrasileiraeestadunidense        73
         EnsinoMdio

                                       OsEuropeuseasEtniasdoNovoMundo
                                         Voc deve estar se perguntando: escravido hoje, em pleno scu-
                                     lo XXI? Surpreso? A utilizao do trabalho forado em nosso pas vem
                                     do perodo colonial, sculo XVI, perodo este em que a escravido foi
                                     a alternativa encontrada para solucionar o problema de escassez de
                                     mo-de-obra para colonizar o Brasil. O condicionamento da economia
                                     brasileira,  base da grande lavoura, resultou em certas caractersticas
                                     que permaneceram inalterveis durante todo o perodo colonial e so-
                                     breviveram a ele. Entre essas caractersticas, destacamos a utilizao de
                                     mo-de-obra escrava que prevaleceu (aceita e incentivada pelo Esta-
                                     do) at parte do sculo XIX.
                                         Quando os portugueses iniciaram a explorao do Brasil, no in-
                                     cio do sculo XVI, havia, aqui, mais de 5 milhes de indgenas dividi-
       Escravo: que ou aque-         dos em vrias etnias com usos e costumes diferentes. Havia diferen-
     le que, privado da liberdade,   as e conflitos entre essas etnias, o que poderia resultar em guerras. A
     est submetida  vontade ab-    historiografia tem dificuldades em definir em que condies viviam os
     soluta de um senhor, a quem     prisioneiros dessas guerras. Talvez estes prisioneiros fossem submeti-
     pertence como proprieda-        dos a alguma espcie de escravido nas aldeias indgenas. Entretanto,
     de. (Adaptado de HOUAISS e      os escravos se submetiam  toda comunidade e no a um senhor in-
     VILLAR, 2001, p. 1210).         dividual.
                                         O projeto de expanso martima europia, ocorrido a partir do s-
                                     culo XV, permitiu que os europeus encontrassem novas terras e socie-
                                     dades com diferentes modos de vida, dentre elas, os povos que j ha-
                                     bitavam o continente que passou a ser chamado de Amrica. A parte
                                     central do continente (1492) foi o primeiro alvo dessa apropriao, a
                                     medida que a notcia do descobrimento corria mundo afora, europeus
                                     de diversas nacionalidades chegavam para demarcar seu territrio (in-
                                     gleses, franceses, holandeses) e o Novo Mundo (Amrica) aos poucos
                                     foi sendo desbravado pelo Velho Mundo (Europa).
                                         O novo continente (Amrica) continha caractersticas tnicas, lin-
                                     gsticas e culturais to variadas quanto as dos povos que habitavam a
                                     Europa naquele perodo.
                                          Alm da apropriao e explorao dessas novas terras pelos eu-
                                     ropeus, ocorreu um processo que levou a destruio de vrias etnias
                                     indgenas, eliminao de aldeias inteiras por meio de matana, escra-
                                     vizao e doenas, alm da formao de um organizado sistema co-
                                     mercial que foi montado em todo continente ao longo do domnio co-
                                     lonizado.
                                         Em relao ao Brasil, os portugueses perceberam, nos primeiros
                                     contatos, que nada da produo indgena poderia reverter em gran-
                                     des lucros na Europa, pois seria preciso implantar seu prprio estilo de
                                     produo e suas relaes de trabalho. Recorreram primeiro  comer-



74    Relaesdetrabalho
                                                                                                                            Histria

cializao de pau-brasil e usaram do trabalho indgena para o corte e
transporte desta madeira  por meio de escambo (troca) de produtos,
que variavam de espelhos e perfumes a alimentos e bebidas europias.
A explorao e a crueldade contra os indgenas no demorou a acon-
tecer, o que antes era feito voluntariamente, passou a ser feito obriga-
toriamente atravs da escravido.
    Essas alteraes no relacionamento entre os europeus e os indge-
nas ficam claras a partir de 1534, quando o governo metropolitano ini-
ciou a efetiva ocupao e colonizao do Brasil. Com a deciso de in-
troduzir a cultura da cana-de-acar (sculo XVI), houve a necessidade
contnua do trabalho na lavoura de tal modo que a principal mo-de-
obra utilizada, em 1540 a 1620 aproximadamente, foi a indgena. O go-
verno portugus usou de duas formas para escravizar os indgenas de
suas terras: a primeira consistia na escravido pura e simples; a segun-
da, atravs das ordens religiosas, usando como argumento a f. Havia
divergncias com relao a essas duas polticas, as ordens religiosas
protegiam os indgenas atravs das redues ou misses, transforman-
do-os, por intermdio do ensino, em "bons cristos".
    Essa mudana no estilo de vida dos indgenas da Amrica foi absor-
vida por vrias etnias, independente do colonizador ou regio do con-
tinente. O fato dos indgenas trabalharem o necessrio para sua sobre-
vivncia chocou-se com o trabalho intensivo e compulsrio imposto
pelo colonizador nas lavouras de cana-de-acar, a questo da produ-
tividade era estranha a eles, alm da disciplina rgida. Pela dificuldade
de adaptao  cultura, muitos indgenas fugiam, morriam de melan-
colia e cometiam suicdio das mais diversas formas, alm de promover
revoltas contra os colonizadores.
    A presso da Igreja Catlica junto  Coroa portuguesa reivindican-
do leis que impedissem a escravizao indgena tambm era outro in-
conveniente.


        Texto 1
       Os Jesutas subordinaram os ndios a uma semi-servido disfarada que
   no correspondia ao que a servido tem de especfico, mas ao mesmo
   tempo, no era trabalho livre ou a escravido na sua pureza conceptual.
   Contriburam ainda para o abastardamento cultural do ndio, destruindo os
   seus padres de valores. Esses padres eram fruto da experincia adquiri-
   da atravs de longo processo de adaptao ao meio. Os jesutas substitu-
   ram esses padres por outros aquilatados e impostos segundo esteritipos
   e julgamentos morais que eram inteiramente estranhos aos ndios. Esta de-
   fasagem levou a que a populao indgena fosse marginalizando progressi-
   vamente do processo produtivo. (MOURA,1981, pp. 24-26).




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        EnsinoMdio



                      ATIVIDADE

      1. Tendo como fonte de pesquisa o texto 1, analise o seguinte questionamento:
         a) Por que o autor do texto 1 coloca a subordinao dos indgenas em trs aspectos: semi-servi-
            do, no trabalho livre e tampouco a escravido na sua total pureza?
         b) Por que a Igreja Catlica, naquele contexto histrico, lutava por leis que abolissem o trabalho es-
            cravo indgena?


         Documento 1
         Em 1570, D. Sebastio proibiu a escravido indgena, a no ser daqueles hostis ou an-
      tropfagos.
          Fao saber aos que esta lei virem, que sendo informado dos modos ilcitos que se tm nas partes
      do Brasil em cativar os gentios das ditas partes, e dos grandes inconvenientes que disso nascem, as-
      sim para as conscincias das pessoas que os cativam... mando que em diante se no use nas ditas
      partes do Brasil dos modos que se at ora usou em fazer cativos os ditos gentios... salvo aqueles que
      forem tomados em guerra justa... ou aqueles que costumam saltear os portugueses e os outros gen-
      tios para os comerem... (BEOZZO, 1983, p. 16).




     Documento 2 2
                                                 ATIVIDADE

                                    No documento 1, aparece o termo antropfago. O que vem a ser an-
                                     tropofagia? Como ela poderia intervir nas aes dos colonizadores em
                                     relao aos indgenas?
                                    Leia o documento 1 e responda: Qual era a posio do Rei de Portu-
                                     gal em relao  escravido indgena?




                                                      Texto 2
                                                        A mo-de-obra indgena  a princpio voluntria e carac-
                                                  terizadamente interesseira; subordinada em seguida, a re-
                                                  gime escravista  foi o que permitiu aos portugueses que
                                                  mais rapidamente dessem incio  tarefa preliminar de reco-
                                                  nhecimento territorial e explorao econmica do Brasil, fa-
                                                  cilitando-lhes a fixao e os meios de subsistncia na nova
                                                  colnia. (HOLANDA, 2004, p. 183).


                                                n JEAN-BAPTISTE DEBRET. ndios Guaianases, c. 1834. Litogravura, Estampa 15,
                                                  Prancha 13. DEBRET, 1989 [1834].

76    Relaesdetrabalho
                                                                                                                            Histria



                      ATIVIDADE

      Ao observar o documento 2 e ler o texto 2, voc notou que as relaes entre os colonizadores e
       os indgenas no foram representadas como tranqilas.
       a) Como Debret representa os indgenas nesta imagem?
       b) A partir do texto 2, indique quais eram os interesses dos indgenas ao ajudarem os colonizado-
          res e os bandeirantes e vice-versa.
       c) Aps a leitura do texto 2, analise o documento 2 e descreva que forma de trabalho indgena
          est representado nessa imagem.


    Com tantas dificuldades, os indgenas deixaram de ser o centro do
escravismo e, a partir de 1758, a coroa portuguesa concedeu a legal-
mente libertao definitiva dos indgenas em sua colnia. Como fica-
ram os indgenas que enfrentaram este choque cultural? Voltaram pa-
ra o seu antigo modo de vida e se desvincularam da cultura europia?
Ou mesmo aps a introduo de africanos em grande escala, os ind-
genas, por serem mo-de-obra mais barata, continuaram a ser empre-
gados ainda durante muitos anos, no perodo colonial? Ser que isto
ocorreu em regies mais distantes do Nordeste aucareiro e em na re-
gio amaznica?


    AInstituiodaEscravidoAfricanano
    ContinenteAmericano
    Como Portugal, outras naes, como a Inglaterra que tambm colo-
nizou o Novo Mundo e fez uso da mo-de-obra escrava, tambm en-
frentaram diversos problemas. Quando comeou a escassear a fora do
trabalho indgena por causa da poltica de extermnio e da fuga dos in-
dgenas, os colonizadores europeus passaram a encarar duas opes:
a mo-de-obra europia ou a africana.
    Por que, de modo geral, os colonizadores europeus optaram pela
escravido dos africanos?
    Engajados nesse lucrativo negcio chamado Amrica, os estados
europeus permitiam monoplios comerciais, assim os traficantes brasi-
leiros, portugueses, espanhis, ingleses, franceses e holandeses se uti-
lizaram do comrcio de escravos africanos para solucionar o problema
da mo-de-obra nas colnias americanas. Esse contato com a escravi-
do africana no era novidade para os portugueses que, desde 1441,
capturavam negros na costa atlntica da frica. Entre os sculos XVI e
XIX, de 10 a 12 milhes de africanos foram transferidos, na condio
de escravos, para o continente americano.

Transiodotrabalhoescravoparaotrabalholivre:amo-de-obranocontextodeconsolidaodocapitalismonassociedadesbrasileiraeestadunidense    77
        EnsinoMdio

          A costa atlntica africana, entre o Senegal e Angola, concentrou as principais regies de
     origem dos escravos. At o ano de 1600, cerca de 900 mil escravos desembarcaram nas Am-
     ricas. No sculo seguinte, cresceu o pedido europeu por acar. Holandeses, franceses e in-
     gleses competiam pelo mercado. Em 1700, mais de 2.750.000 africanos haviam deixado o seu
     continente.
         Do ponto de vista numrico, o trfico alcanou seu auge entre o final do sculo XVIII e me-
     ados do sculo XIX. As culturas exportadoras de algodo nos Estados Unidos, cana-de-acar
     no Caribe e caf no Brasil foram responsveis pelo aumento do comrcio escravista. Entre 1810
     e 1820, calcula-se que a populao africana tenha atingido quase 3 milhes no Caribe, cerca de
     2,5 milhes no Brasil e 2 milhes a 2,5 milhes nos Estados Unidos.
         Os escravos eram obtidos com a captura feita pelos povos africanos por meio de guerras
     entre os reinos, estes que eram vendidos a comerciantes at o sculo XVIII, quase exclusiva-
     mente portugueses, seguidos de holandeses, franceses e ingleses, alm de colonos baianos e
     fluminenses. O comrcio era feito por meio da troca de mercadorias nas parcerias firmadas en-
     tre comerciantes e lderes africanos. Os principais produtos de troca eram: aguardente, tabaco,
     tecidos, os quais eram considerados pelos guerreiros africanos como bens de prestgio social,
     mas eram comercializados tambm em menor quantidade alimentos, armas e munies.
         Vindos de diversas regies, sobretudo da Guin, Angola, Congo e Moambique, eram dei-
     xados em cativeiros na prpria frica, at a chegada do comerciante europeu para serem trans-
     portados. Uma vez embarcados nos navios negreiros, conhecidos como tumbeiros, os novos
     escravos eram tratados com violncia. Nus e mal alimentados, eram castigados e expostos a to-
     dos os tipos de doenas e humilhaes desde o cativeiro no continente africano.
          Finalizada a travessia martima (verdadeiro martrio que poderia estender-se de 33 a 165
     dias) e uma vez em terra firme, o escravo era exposto em armazns onde funcionavam os mer-
     cados de "escravos novos" e ento comercializados e distribudos para as diversas regies da
     Amrica. O mapa 1 mostra como era feito o trajeto do lucrativo comrcio de escravos negros
     entre a Amrica e frica.
                       Mapa 1  Rotas do comrcio de escravos negros entre a Amrica e a frica




78    Relaesdetrabalho
                                                                                                                            Histria


        Texto 4
         medida que se aproximava o final do sculo, os negros comearam a chegar em grande nme-
   ro s colnias do sul. O clima e a fertilidade do sol tornaram possvel a produo agrcola comercial em
   grande escala: tabaco na Virgnia e na Carolina do Norte, ndigo e arroz na Carolina do Sul e Gergia. A
   mo-de-obra branca podia dar conta do trabalho, mas nenhum homem livre queria faz-lo. Servos con-
   tratados eram obrigados a trabalhar apenas por um tempo limitado, e alguns fugiam para a fronteira an-
   tes mesmo de terminar o contrato. Os plantadores voltaram-se inevitavelmente para o trabalho forado,
   barato, totalmente controlado e cativo a vida toda. Na frica encontraram o que queriam. No comeo
   do sculo XVII - e por mais 150 anos -, a escravido negra foi fundamento sobre o qual os fazendeiros
   do sul e os mercadores do norte construram sua riqueza. (MELTZER, 2004, p. 346).


        Texto 5
       O sistema escravista, caracterizado pela opresso e pela explorao sobremodo selvagens, trans-
   formou os escravos em vtimas. Mas, os seres humanos vitimados no se conformaram com tal si-
   tuao; lutaram para tornar a vida tolervel e para viv-la com o mximo possvel de alegria. De certa
   maneira, at os senhores mais rgidos os ajudaram. A lgica da escravido requeria que os senhores
   enfraquecessem o esprito de seus escravos e os transformassem numa extenso de sua prpria von-
   tade: objetos que no pensam e no sentem; mas os escravos resistiram  desumanizao, e por is-
   so os senhores se viram forados a fazer certas concesses para conseguirem o trabalho que deseja-
   vam. (GENOVESE, 1988, p. 477).


        Texto 6
       O Brasil no se limitou a recolher da frica a lama de gente negra que lhe fecundou os canaviais e
   os cafezais; que lhe amaciou a terra seca; que lhe completou a riqueza da manchas de massap. Vie-
   ram-lhe da frica "donas de casa" para seus colonos sem mulher branca; tcnicos para as minas; art-
   fices em ferro; negros entendidos na criao de gado e na indstria pastoril; comerciantes de panos e
   sabo. (FREYRE, 2004 [1933], p.391).




                      ATIVIDADE

      A partir da leitura do mapa 1 e dos textos 4, 5 e 6, escreva uma narrativa histrica sobre o desti-
       no dado aos escravos e as atividades econmicas predominantes nessas regies.


    OTrabalhoescravononovomundo
     difcil imaginar que seres humanos possam ter sido tratados des-
sa forma, porm a escravizao dos africanos no continente americano
no aconteceu sem resistncias e conflitos. Desde o incio, os africanos
no aceitaram ser escravos e, entre o perodo de 1690 a 1845, h rela-
tos de pelo menos 55 revoltas de escravos a bordo dos navios. Entre

Transiodotrabalhoescravoparaotrabalholivre:amo-de-obranocontextodeconsolidaodocapitalismonassociedadesbrasileiraeestadunidense    79
           EnsinoMdio

                                          1750 e 1788, as revoltas aumentaram, mas no intimidaram os merca-
                                          dores, que continuaram por muito tempo o lucrativo comrcio de se-
                                          res humanos.
                                              Nas 13 colnias inglesas do norte do continente, os escravos s co-
                                          mearam a ser utilizados em massa na ltima parte do sculo XVII. A
                                          mo-de-obra usada no incio da colonizao nas 13 colnias inglesas
                                          da Amrica era dos servos contratados, vindos da Inglaterra, entre eles,
                                          desempregados, criminosos, prostitutas, prisioneiros de guerra, alm
                                          dos perseguidos por questes religiosas. Os senhores estabeleciam as
                                          horas e condies de trabalho, alm de determinarem as punies por
                                          desobedincia. Quando seus contratos terminavam, esses servos geral-
                                          mente mudavam-se para pequenas fazendas.
     Documento 3




     n JEAN-BAPTISTA DEBRET. Bar-
       beiros ambulantes, c. 1834.
                                              Entre escravos e servos, havia tambm os trabalhadores livres no
       Litogravura, Estampa 61, Prancha   mundo colonial das 13 colnias inglesas do norte da Amrica, exer-
       11. DEBRET, 1989 [1834].           cendo as mais variadas atividades, como: corretores, comerciantes va-
                                          rejistas, quitandeiros, advogados, escrives, mestres do acar, feitores,
                                          ferreiros, mdicos, vendedores ambulantes, capites do mato, vaquei-
                                          ros, militares, lavradores, padres, artesos, lavadeiras, administrado-
                                          res, cirurgies-barbeiros, arquitetos, dentistas, escultores, cozinheiros,
                                          msicos, acrobatas de circo e instrutores de meninos brancos, enfim,
                                          eram pessoas especializadas em suas funes, compondo a sociedade
                                          escravista colonial do novo mundo. Esta situao se repetia na Amri-
                                          ca Portuguesa.


80     Relaesdetrabalho
                                                                                                                            Histria

    Os africanos e seus descendentes desempenharam as mais diver-
sas tarefas: trabalharam na lavoura, nos engenhos, nas minas, no trans-
porte de cargas de pessoas e de dejetos malcheirosos e na indstria da
construo. Os escravos africanos participaram ativamente da constru-
o da riqueza brasileira e as demais riquezas do Novo Mundo.
    O trabalho escravo encheu os anos do perodo colonial do Brasil e,
como prolongamento, os anos do imprio. Comeou no Nordeste da
cana-de-acar, caminhou para o centro, na minerao, e prosseguiu
para o centro-sul, na expanso do caf.
     Apesar do tratamento desumano, a sociedade escravista do Brasil
e das 13 colnias da Amrica do Norte no se resumiu apenas em ca-
tivos e senhores. Havia escravos alugados para a prestao de servios
a terceiros e escravos de ganho. Os senhores permitiam que os escra-
vos fizessem seu ganho, prestando servios ou vendendo mercadorias,
em troca dessa permisso, recebiam de seus cativos uma quantia fixa
por semana ou por dia.
    Humilhados e submetidos diariamente a vexames e aos castigos
corporais, os negros africanos, sempre que puderam, reagiram ao es-
cravismo: fugindo, assassinando, suicidando-se, rebelando-se, como
na Revolta dos Mals, ocorrida em Salvador em 25 de janeiro de 1835.
Jamais aceitaram pacificamente a sua condio de escravo. O negro
"foi um bom trabalhador e um mau escravo". (LOPEZ, 1988, p.43).




        Texto 7
                            Jean Baptiste Debret (1768-1848).
                                 Era filho de um modesto funcionrio pblico. Na sua famlia existiam alguns ar-
                             tistas, o que facilitou o seu processo de formao como pintor e desenhista. Es-
                               teve particularmente ligado ao pintor e lder revolucionrio Jacques-Louis David,
                                 que era seu primo. Este tornou-se o mais importante pintor encarregado de re-
                                   tratar Napoleo. Debret, protegido por seu primo, tornou-se pintor histrico e
                                      oficial do imperador.
                                          Quando Napoleo foi derrubado, em 1815, Debret pensou em deixar
                                     a Frana.
                               O Brasil era famoso por um vero que durava o ano inteiro e encontrava-
   se numa fase de grandes transformaes desde a chegada da Corte portuguesa, em 1808. Essas con-
   sideraes levaram Debret a escolher o Brasil e a participar da chamada Misso Francesa, que a servi-
   o do governo portugus, devia realizar vrios trabalhos artsticos e arquitetnicos, alm de criar, no Rio
   de Janeiro, uma academia de belas artes.
       Depois de permanecer no Brasil durante quinze anos, Debret retornou  Frana em 1831, levando
   os seus desenhos, que foram transformados em litografias e publicados em lbum. Ele havia observa-
   do e retratado: a natureza, o mundo oficial, vrios fatos relativos ao processo de independncia, o Rio



Transiodotrabalhoescravoparaotrabalholivre:amo-de-obranocontextodeconsolidaodocapitalismonassociedadesbrasileiraeestadunidense    81
          EnsinoMdio


      de Janeiro, a ento pequena cidade de So Paulo, os sertes e as fazendas do Sul do pas, os negros,
      as casas, as ruas, ndios mestios e brancos.
                Documento 4                                                       Documento 5




                n JEAN-BAPTISTE DEBRET. Vendedor de palmitos  Vende-             n JEAN-BAPTISTE DEBRET. O Colar de Ferro (casti-
                  dor de samburs, c. 1834. Litogravura, Estampa 65, Prancha        go dos fugitivos), c. 1834. Litogravura, Estampa 89,
                  17. DEBRET, 1989 [1834].                                          Prancha 42. DEBRET, 1989 [1834].

                            Documento 6




                            n JEAN-BAPTISTE DEBRET. Negros no Tronco, c. 1834. Litogravura, Estampa 92, Prancha 45.
                              DEBRET, 1989 [1834].
          O autor revela, em vrias passagens, um pensamento eurocntrico. Mesmo assim, a maior parte da
      obra pictrica e textual desse artista francs continua a ser um dos mais importantes documentos so-
      bre um perodo crucial da histria do Brasil. (Adaptado de CAMPOS, 2001, pp. 19-21).

        As gravuras, do artista Debret, que esto neste Folhas foram produzidas por meio da tcni-
     ca da litografia, que consiste na gravao a partir de pedra ou metal. Voc pode pesquisar mais
     sobre o uso dessa tcnica artstica e sobre artistas que fizeram uso dela.



                         ATIVIDADE
          A partir da anlise dos documentos 3, 4, 5, 6 e 7, responda:
           a) Quais so os personagens retratados nessas obras de Debret?
           b) Como eles so retratados?
           c) Em que cenrios esto retratados?
           d) Quais eram as intenes do artista ao retratar esses personagens?
           e) A partir desses documentos, o que voc pode afirmar sobre o negro no Brasil naquele contexto
              histrico?

82    Relaesdetrabalho
                                                                                                                             Histria

   No caso das fugas coletivas, quase sempre os escra- Documento 7
vos se escondiam em locais de difcil acesso, onde ter-
minavam por se fixar, fundando pequenas comunidades
conhecidas como quilombos, que acabavam se tornan-
do a forma mais significativa de luta do negro contra a
sua condio de escravo. O quilombo no era um sim-
ples refgio de escravos ou mero acampamento. Ele
Documento 8

                                                                                  n HERCULE FLORENCE, Engenho de Cana - So Carlos,
                                                                                    1840, aquarela, c.i.d. 21 x 31,5 cm.

                                                                    tinha a sua prpria organizao social e eco-
                                                                    nmica, e contava com uma estrutura poltica
                                                                    que fazia dele um pequeno Estado. O mais fa-
                                                                    moso e conhecido foi o de Palmares, na Serra
                                                                    da Barriga, em Alagoas. No Brasil, havia cen-
                                                                    tenas de quilombos espalhados por todas as
                                                                    regies.
                                                                 n JJEAN-BAPTISTA DEBRET. Negros serradores de tbuas, c. 1834. Lito-
                                                                   gravura, Estampa 66, Prancha 18. DEBRET, 1989 [1834].



                      ATIVIDADE

       a) Relacione o contexto scio-histrico da produo das imagens presentes nos documentos 6 a
          8 com os contedos das mesmas. Quais as representaes das relaes de trabalho so pro-
          postas por Hrcules Florence (1804-1879) e por Jean-Baptiste Debret, respectivamente?
       b) Estas representaes possibilitam que voc perceba o motivo das vrias revoltas escravas ocor-
          ridas no Brasil e no resto da Amrica neste perodo? Por qu?



    AAboliodaescravidonosEstadosUnidos
    daAmricaenoBrasil
   O processo de abolio da escravido no continente americano faz
parte das transformaes que ocorreram na organizao poltica e eco-
nmica e que marcaram a industrializao mundial.
   Nos pases que passaram pelo processo de industrializao, em es-
pecial a Inglaterra, predominava o trabalho assalariado. Numa conjun-
tura de expanso do capitalismo, a permanncia do trabalho escravo
nas colnias americanas no estava articulada com os interesses eco-
nmicos dos pases industrializados. Dessa forma, a Inglaterra, no s-
culo XIX, com amparo legal, passou a combater militarmente o trfi-
co de escravos.

Transiodotrabalhoescravoparaotrabalholivre:amo-de-obranocontextodeconsolidaodocapitalismonassociedadesbrasileiraeestadunidense     83
       EnsinoMdio

                                   Nesse contexto de desenvolvimento industrial ocorreu a abolio
                              da escravido nos Estados Unidos. As treze colnias inglesas na Am-
                              rica do Norte foram colonizadas com propsitos diferentes. Disso de-
                              correm divergncias polticas e econmicas que se acentuaram depois
                              da Independncia dos Estados Unidos da Amrica. Os Estados do Nor-
                              te, predominantemente industrializados, e os Estados do Sul, com sua
                              economia voltada para a agricultura, discordavam principalmente so-
                              bre a questo da mo-de-obra escrava.
                                  A eleio do Presidente Abrahan Lincoln (1809-1865), em 1860,
                                         apoiado pelo norte, agravou as divergncias entre os Estados
                                          do Norte e do Sul, os ltimos se separam dos Estados Uni-
                                          dos formando os Estados da Confederao da Amrica, do
                                         qual faziam parte: Carolina do Sul, Carolina do Norte, Flri-
                                         da, Alabama, Mississipi, Texas e Georgia. Em 1861, teve in-
                                        cio uma Guerra Civil entre os Estados do Sul e do Norte. Os
                                        Estados do Norte que no aceitaram a separao (secesso).
                                        Aps quatro anos de luta, essa guerra foi vencida em 1865
                              pelos Estados do Norte. O resultado deste conflito manteve o pas uni-
                              ficado politicamente.
                                   nesse contexto que acontece a abolio da escravido nos Estado
                              Unidos. A mo-de-obra escrava foi utilizada, principalmente, nos Es-
                              tados do Sul que tinham uma produo de monocultura (no caso dos
                              EUA, o produto era o algodo) escravista e latifundiria voltada para o
                              mercado externo nos moldes do pacto colonial. Em 1863, o Presidente
                              Lincoln declarou o fim da escravido nos Estados do Sul.


        Texto 8
         Ku Klux Klan (tambm conhecida como KKK)  o nome de vrias organizaes racistas dos Estados
     Unidos que apiam a supremacia branca e o protestantismo (padro conhecido tambm como WASP)
     em detrimento a outras religies. A KKK, em seu perodo mais forte, foi localizada principalmente na re-
     gio sul de tal pas.
         A primeira KKK foi fundada por veteranos do exrcito dos Estados Confederados da Amrica em
     1866. A Ku Klux Klan lutava pelo restabelecimento do poder dos Estados do Sul e contra as reformas
     impostas pelos Estados do Norte, como o fim da escravido. A primeira Ku Klux Klan foi extinta pelo pre-
     sidente Ulysses S. Grant (1822-1885).
         O segundo grupo que utilizou o mesmo nome foi fundado em 1915 (alguns dizem que foi em funo
     do lanamento do filme O Nascimento de uma Nao, naquele mesmo ano), em Atlanta, por William J.
     Simmons (1880-1945). Este grupo foi criado como uma organizao fraternal e lutou pelo domnio dos
     brancos protestantes sobre os negros, catlicos, judeus e asiticos, assim como outros imigrantes. Es-
     te grupo ficou famoso pelos linchamentos e outras atividades violentas contra seus "inimigos". Chegou
     a ter 4 milhes de membros na dcada de 1920, incluindo muitos polticos. A popularidade do grupo
     caiu durante a Grande Depresso e durante a Segunda Guerra Mundial.
                                                                                    n (http://pt.wikipedia.org/wiki/KKK).




84   Relaesdetrabalho
                                                                                                                          Histria

     Em 1850, o Brasil, por presso da Inglaterra, aprovou uma Lei que
determinava o fim do trfico de escravos. A diminuio da entrada
de escravos no pas fez com que o trfico interprovincial aumentasse,
bem como o preo dos escravos. Apesar da luta dos abolicionistas, a
extino da escravido ocorreu lentamente, atendendo s presses po-
lticas dos conservadores. A Lei do Ventre Livre determinava que os fi-
lhos das escravas nascidos a partir da data da aprovao da lei, 28 de
setembro de 1871, seriam livres. A Lei dos sexagenrios, aprovada em
1884, determinava que os escravos com mais de 65 anos seriam liber-
tados. Na dcada de 1880, tomou forma um movimento de luta contra
a escravido. O movimento abolicionista expressou suas idias em jor-
nais, comcios e organizou fundos para a emancipao dos escravos.
Intelectuais, que participavam desse movimento, defendiam o fim da
escravido. O processo da abolio da escravido chegou ao fim ofi-
cialmente com a assinatura da Lei urea, em 13 de maio de 1888.

      Documento 10
      Fundamentos Gerais do Abolicionismo (1883)
      Joaquim Nabuco condena a escravido entre outros pelos seguintes motivos:
       Porque a escravido, assim como arruina economicamente o pas, impossibilita seu progresso
        material, corrompe-lhe o carter, desmoraliza-lhe os elementos constitutivos, desonra o trabalho
        material, retarda a apario de indstrias.
       Porque s com a emancipao total podem concorrer para a grande obra de uma Ptria co-
        mum, forte e respeitada. (Adaptado de NABUCO, 2000, p. 81-82).

    A to sonhada liberdade foi conquistada, tanto pelos negros brasi-
leiros quanto pelos norte-americanos e os ex-escravos e seus descen-
dentes. Como ficou a situao desses ex-escravos? Onde foram morar?
Onde foram trabalhar?
    Os registros nos mostram que tanto nos Estados Unidos como no
Brasil a competio pelo mercado de trabalho j era de longe acirra-
da, grande parte das profisses eram igualmente desempenhadas por
libertos e por livres. Porm, havia proibies em empregar negros em
certa profisses. Um decreto, de 25 de junho de 1831, proibia a admis-
so de escravos como trabalhadores ou como oficiais das artes nas es-
taes pblicas da provncia da Bahia.
    Desde o incio da colonizao, a diviso de trabalho j acontecia,
tanto entre os escravos, como tambm entre os libertos e a socieda-
de branca.
    Alm dos problemas internos do trabalho, os ex-escravos e os li-
vres tiveram que enfrentar o grande nmero de pessoas: os imigrantes
europeus e asiticos que chegavam todos os anos. Eram alfaiates fran-
ceses, maquinistas ingleses, mdicos alemes, relojoeiros suos, lavra-
dores, comerciantes, enfim, pessoas de todas as partes do mundo. Es-
ses chegaram s aps a abolio? Quais os fatores que justificam essa
vinda? De onde vieram?
Transiodotrabalhoescravoparaotrabalholivre:amo-de-obranocontextodeconsolidaodocapitalismonasociedadeBrasileiraeEstadunidense    85
       EnsinoMdio



                     ATIVIDADE

           Por que os Estados do Norte e do Sul dos Estados Unidos da Amrica divergiam quanto  utili-
            zao da mo-de-obra escrava?
           Vrios so os decretos e as leis que antecedem a lei maior, a Lei urea (1888). Desenvolva uma
            pesquisa sobre as leis que foram assinadas no Brasil em favor da abolio da escravatura. De
            posse dessa pesquisa, organize um debate sobre os interesses que levaram  lentido do pro-
            cesso de abolio.
           Explique os motivos pelos quais Joaquim Nabuco condena a escravido  luz do contexto do
            desenvolvimento do capitalismo do sculo XIX.



                                Nabagagem,esperanaesonhos...
                                 A nova mentalidade poltica e econmica, consolidando as relaes
                             capitalistas, e uma diviso internacional do trabalho, do sculo XVIII
                             em diante, auxiliaram na transio do trabalho escravo para o traba-
                             lho livre. No Brasil, a lavoura cafeeira e novas possibilidades de inves-
                             timento no setor da indstria e comrcio tornaram o trabalho escravo
                             um investimento menos vantajoso.  importante tambm relembrar as
                             presses e a dependncia do Brasil ao capital internacional que pre-
                             tendia alargar seu mercado.
                                 No Brasil, devido s presses internas e externas, manter a escra-
                             vido estava difcil, principalmente aps o fim do trfico negreiro. A
                             produo do acar comeou a enfrentar problemas a partir de 1654,
                             quando o produto passou a ser cultivado por holandeses, franceses e
                             ingleses nas Antilhas (Amrica Central), tornando-se um forte concor-
                             rente. Foi necessrio encontrar um produto to ou mais lucrativo que
                             o acar, e a partir do sculo XVIII, uma nova cultura passou a fazer
                             parte da economia brasileira: o caf.
                                 A produo de caf necessitava de grande quantidade de mo-de-
                             obra. Com a proibio do trfico de escravos, faltaram braos para a la-
                             voura. Buscou-se, ento, a soluo para esse problema no uso da mo-
                             de-obra do imigrante europeu.
                                 Na Europa, o avano do capitalismo modificava as relaes sociais
                             fazendo com que o excedente de trabalhadores se tornasse incmodo
                             para a sociedade. Tanto nos pases em que ocorreu o avano da indus-
                             trializao quanto nos pases onde o capitalismo modificava as rela-
                             es de produo no campo houve um incentivo para que a mo-de-
                             obra excedente emigrasse para outras naes.




86   Relaesdetrabalho
                                                                                                                            Histria

    O fluxo imigratrio para o Brasil acontece desde a independn-
cia do pas. Na regio Sul teve como objetivo o povoamento de regi-
es pouco habitadas. Porm,  no contexto da produo do caf que
a chegada dos imigrantes se relaciona com a transio da mo-de-obra
escrava para a mo-de-obra livre .
    Os primeiros imigrantes que foram para as fazendas de caf tinham
as despesas relativas  viagem e aos gastos de instalao pagos pelos
fazendeiros. Os imigrantes se comprometiam a reembolsar o fazendei-
ro com seu trabalho. Na prtica e at pela mentalidade dos escravocra-
tas, o tratamento ao imigrante no se diferenciava do tratamento dis-
pensado aos escravos.

        Texto 9
       Muitos eram os imigrantes que chegavam ao Brasil. Os italianos formaram o maior grupo (38%),
   seguido pelos portugueses com (29%), os espanhis tambm alcanaram uma grande porcentagem
   (14,6%), japoneses, alemes, srios, libaneses, poloneses, judeus, finlandeses, chineses, coreanos vie-
   ram residir e fazer histria em nosso pas. As duas grandes guerras (1914-1918 e 1938-1945) tambm
   colaboraram para engrossar o fluxo migratrio para a Amrica.
                                                                                                                     n (Os autores).


        Texto 10
       Os antigos escravos, cuja explorao implicava um recurso sistemtico e direto  violncia, esto
   entre os trabalhadores menos adaptados ideologicamente s formas superiores de dominao do ca-
   pital. Nos pases como o Brasil, dadas as possibilidades de auto-subsistncia ou integrar-se as formas
   pr-capitalistas de produo predominantes no campo, os antigos escravos "escapavam" mais ou me-
   nos facilmente ao trabalho assalariado. Mesmo os antigos escravos, que estavam nas cidades das regi-
   es mais desenvolvidas e a permaneciam , submetiam-se dificilmente  disciplina prpria da produo
   capitalista. Sabe-se que os preconceitos raciais encontram, muitas vezes, as suas origens na escravi-
   do. (SILVA, 1986, p. 40).

    Esse sistema foi condenado pelos pases de origem desses imigran-
tes, que chegaram a proibir a continuidade do processo imigratrio.
Como o problema de falta de mo-de-obra para a cafeicultura persistia,
foi necessrio que o setor se adaptasse a mo -de- obra assalariada.
    Se os proprietrios brasileiros estavam h tempo enfrentando os
movimentos em favor da abolio, enfrentariam tambm as reivindi-
caes dos imigrantes europeus e asiticos, que desde o tempo colo-
nial estavam chegando, apesar de lento e gradual, o fluxo migratrio
j existia no tempo do Brasil colonial.
     bom lembrar que o trabalhador assalariado existia no Brasil des-
de o perodo colonial, o que mudaria eram as relaes de trabalho,
alm da quantidade e os tipos variados de pessoas que iriam compor
essa recente sociedade.




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         EnsinoMdio

                                  Aescravidonomundocontemporneo.
                                   Hoje, milhes de trabalhadores tm seus direitos reconhecidos por
                               lei, pois, ao longo do processo de transio, as conquistas foram sen-
                               do alcanadas. No caso do Brasil, temos a CLT (Consolidao das Leis
                               do Trabalho, criada em 1943), que regulamenta esses direitos. Organi-
                               zaes internacionais, como a OIT (Organizao Internacional do Tra-
                               balho), tambm legislam a favor do trabalho livre e contra a escravi-
                               do e a explorao humana.
                                   Por meio de documentrios, reportagens em jornais e revistas do
                               mundo globalizado, percebe-se que essa transio do trabalho escra-
                               vo para o livre no foi por completo efetivada. Num relatrio de 1991
                               sobre formas contemporneas de escravido, o Centro de Direitos Hu-
                               manos das Naes Unidas sustenta que, alm da escravido tradicio-
                               nal e do trfico de escravos, esses abusos incluem a venda de crianas,
                               prostituio infantil, explorao do trabalho infantil, trfico de pesso-
                               as, pornografia infantil, prticas em regimes colnias, etc.
                                   No sculo XX, precisamente no ano de 1948, a ONU (Organizao
                               das Naes Unidas) adota a Declarao Universal dos Direitos do Ho-
                               mem, o texto estabelece os direitos naturais de todo ser humano, inde-
                               pendente de nacionalidade, cor, sexo, orientao religiosa, poltica ou
                               sexual. O Artigo I do texto afirma: "Todos os homens nascem livres e
                               iguais em dignidade e direitos. So dotados de razo e conscincia e
                               devem agir em relao uns aos outros com esprito de fraternidade."


                       ATIVIDADE

         Construa uma narrativa histrica apontando a relao entre o processo de transio do trabalho es-
          cravo para o trabalho assalariado no Brasil. Para isso, considere:
          a) as permanncias e as mudanas nas relaes de trabalho dos afro-brasileiros aps a escravi-
             do nas lavouras de caf e nas cidades;
          b) a introduo dos imigrantes europeus e asiticos nas lavouras cafeeiras ainda no perodo escra-
             vista.



                       PESQUISA

         Pesquise a mo-de-obra usada nas primeiras indstrias brasileiras. Quem eram os trabalhadores?
          Imigrantes? Ex-escravos? A sua pesquisa confirma as argumentaes do texto?
         Em grupo, pesquise sobre a escravido no mundo contemporneo, monte um painel e apresente
          para sua escola.



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    RefernciasBibliogrficas:
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     1983.
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     FREYRE, G. Casa-grande & senzala. So Paulo: Global, 2004.
     GENOVESE, E. D. A Terra prometida: o mundo que os escravos criaram. So Paulo: Paz e Terra,
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     da civilizao brasileira. Rio de Janeiro: Bertand Brasil, 2004.
     HOUAISS, A.; VILLAR, M. de S. Dicionrio Houaiss da Lngua Portuguesa. Rio de Janeiro: Obje-
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     MELTZER, M. Histria ilustrada da Escravido. Rio de Janeiro: Ediouro Publicaes, 2004.
     MOURA, C. Histria do negro brasileiro. So Paulo: tica, 1994.
     NABUCO, J. O abolicionismo. So Paulo: Nova fronteira, 2000.
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    ObrasConsultadas
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     DURKHEIM, . A diviso do trabalho. So Paulo: Abril Cultural, 1978.
     FURTADO, C. Formao econmica do Brasil. So Paulo: Companhia Nacional, 1997.
     LOPEZ, L. R. Histria do Brasil colonial. Rio Grande do Sul: Mercado Aberto, 1988.
     PINSKY, J. A escravido no Brasil. So Paulo: Contexto, 1988
     SILVA, S. Expanso cafeeira e origens da indstria no Brasil. So Paulo: Editora Alfa-Omega,
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       EnsinoMdio




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                                                                                                    5
                                                        RELAES DE TRABALHO:
                                                O trabalho na sociedade contempornea
                                                                                                       n Sueli Dias1




                                                                                   em-vindo  maioridade!!
                                                                                   Quais as suas expectativas?




                                                                                                                    visual
                                                                                                                neaudio
                                                                                                                  : ico
                                                                                                           n Foto
                                                                             ual
                                                              : iconeaudiovis
                                                       n Foto


                                                           No importa sua escolha profissional ou
                                                           sua classe social! Voc j percebeu que
                                                           um dos seus maiores desafios  a inser-
                                                           o no mundo do trabalho?
                                                           Para enfrent-lo,  preciso conhec-lo.
                                                           Ento, vamos l! Bom Trabalho!




1
 Colgio Estadual Nilo Cairo  Apucarana  PR


                                                                          OTrabalhonaSociedadeContempornea                  91
       EnsinoMdio

                            Otrabalhoassalariado:algumasconsideraes
                              Em sua formao escolar, voc j compreendeu que o capitalismo
                          consolidou-se como sistema, no sculo XVIII, com a Revoluo Indus-
                          trial, iniciada na Inglaterra. No sculo XIX, na Inglaterra, Frana, Ale-
                          manha, Itlia, Blgica e EUA, a industrializao intensificou-se e ex-
                          pandiu-se de maneira imperialista: neste processo, o trabalho tambm
                          consolidou-se mercadoria, ou seja, quem no detinha nenhum meio de
                          produo (terra, fbrica ou mquina), possua apenas a sua fora de
                          trabalho, que podia ser vendida em troca de salrio para garantir a sua
                          subsistncia.
                              Para entender o mundo do trabalho contemporneo,  necessrio
                          que alguns conceitos sejam retomados. Karl Marx (1818-1883), filso-
                          fo socialista que escreveu O capital, obra em que analisa a sociedade
                          capitalista, utilizou-se de alguns conceitos, como: lucro, valor de tro-
                          ca, mais valia.
                              O lucro, como explica Karl Marx, se realiza na produo e resulta
                          da diviso do trabalho e do tempo socialmente necessrio para a pro-
                          duo de um produto.
                              O valor de um produto, no capitalismo,  determinado por seu va-
                          lor de troca e no pelo seu valor de uso. O valor de uso se articula com
                          a necessidade de uso que o sujeito tem em relao ao produto. J, pe-
                          lo valor de troca, o produto  transformado em mercadoria, ou seja,
                          passa a ser determinado pelo custo total da produo: custo da mat-
                          ria-prima, dos instrumentos de trabalho, dos conhecimentos tcnicos
                          e dos salrios, bem como o custo do tempo necessrio para a produ-
                          o das mercadorias.
                              Por fim, a mais-valia pode ser entendida como a forma especfica
                          da explorao do capitalismo. O trabalhador vende ao capitalista sua
                          fora de trabalho por determinado tempo. A produo resultante desse
                          tempo de trabalho serve para pagar o salrio do trabalhador e o exce-
                          dente da produo, o qual  apropriado pelos capitalistas. Esse exce-
                          dente de produo  o que Marx chama mais-valia. Ento, se um traba-
                          lhador vende oito horas de trabalho, parte da produo desse perodo,
                          por exemplo, trs horas, paga o seu salrio; a produo nas outras cin-
                          co horas trabalhadas torna-se a mais-valia expropriada pelos patres.
                              A interveno no processo de produo, tendo como objetivo que
                          os trabalhadores produzam cada vez mais no mesmo tempo, gera uma
                          mais-valia maior e, portanto, mais lucro aos capitalistas.
                              Para atingir a maior produtividade com menor custo, surgiram teorias
                          e mtodos de controle do tempo e do trabalhador. Muitas destas teorias
                          so analisadas por vrios cientistas, entre eles, tambm os gegrafos ao
                          abordar o desenvolvimento econmico-industrial no sculo XX.



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                                                                                                      Histria

   Entre as teorias mais empregadas pelo sistema capitalista, especial-
mente no Brasil, esto as idias dos estadunidenses: Frederick Wins-
low Taylor e Henry Ford.
    a) Taylorismo
    Frederick Winslow Taylor (1856-1915), nascido em famlia rica na
Filadlfia, trabalhou como mecnico em fbricas de produo de ao
e graduou-se em engenharia. Revolucionou o mundo do trabalho com
seu livro Princpios da Administrao Cientfica, uma espcie de bblia pa-
ra os administradores e patres que procuravam aumentar a produo
sem contratar novos trabalhadores. Taylor analisou matematicamen-
te a funo dos trabalhadores, calculou nmero de passos, movimen-
tos, repetio de gestos e, finalmente, apresentou a tese de que, para
maior produtividade, deve existir planejamento das tarefas e aprovei-
tamento do tempo.
    Voc pode perceber que o Taylorismo aumentou a produo da f-
brica, mas aumentou tambm a explorao sobre o trabalhador, obri-               n Frederick Winslow       Taylor
gando-o a produzir mais em menos tempo.                                            (1856-1915)

    A teoria de Taylor dominou o ritmo do trabalho no sculo XX e foi
complementada pelas idias de Henry Ford.
   b) Fordismo
   Henry Ford (1863-1947), nascido em Michigan, trabalhou como me-
cnico e, em 1886, construiu seu primeiro carro. No incio do sculo
XX, fundou a Ford Motors Company e tornou-se o maior empresrio
do ramo de produo de automveis. Racionalizou o processo de pro-
duo criando, em 1909, a linha de montagem, onde uma esteira con-
duzia os veculos e as ferramentas at os trabalhadores.
   Documento 1




                                                                                n Henry Ford (1863-1947)




                                                                              n Fbrica de motores.

                                                             OTrabalhonaSociedadeContempornea                      93
        EnsinoMdio

                                Ford consolidou a indstria automobilstica e barateou os preos
                             dos carros.
                                Criou um sistema de controle, que ia desde o controle da produo
                             da matria-prima, ferramentas, energia, transportes, at a formao da
                             mo-de-obra; tudo para obter diminuio dos custos e elevao da
                             margem de lucros. At o controle sobre a vida dos trabalhadores foi
                             maior; pensava em pag-lo melhor, especializ-lo e dar-lhe mais tem-
                             po livre, mas este tempo seria usado como tempo de consumo e retor-
                             naria em lucro ao prprio patro.
                                Este padro de produo pode explicar as condies de vida e
                             consumo nos pases desenvolvidos, por exemplo, os Estados Unidos,
                             no incio do sculo XX?
                                               A partir da dcada de 1950, o governo brasileiro foi
     Mapa 1
                                           incentivando gradativamente a implantao de inds-
                                           trias. A utilizao de capital estatal ou privado permitiu
                                           a formao de parques industriais que se utilizavam da
                                           teoria do fordismo e produziam para a substituio das
                                           importaes. Em vista do crescimento industrial, espe-
                                           cialmente na regio sudeste para So Paulo, Rio de Ja-
                                           neiro e Minas Gerais, ocorreu um intenso e direcionado
                                           movimento migratrio, do Nordeste para o sudeste. Es-
                                           te movimento contribuiu com a formao de metrpo-
                                           les nacionais, como Rio de Janeiro e So Paulo, e pode
                                           ser considerado conseqncia da reorganizao econ-
                                           mica do pas, pois segundo dados do IBGE, a atividade
                                           agrcola cresceu, no Brasil, 3,7%, no perodo de 1900 
                                           1980; enquanto neste mesmo perodo a indstria brasi-
                                           leira cresceu 7,1%.




                      DEBATE

          No mapa 1,  possvel demonstrar o processo de migraes entre as regies brasileiras, num
      perodo de grande industrializao e crescimento econmico - a dcada de 1970. Que razes po-
      dem explicar o deslocamento de pessoas nesse perodo? Discuta com seus colegas.


                                 Retomando as consideraes sobre o Taylorismo e o Fordismo, leia
                             uma sntese sobre as principais prticas destas teorias no setor de pro-
                             duo. Existe alguma semelhana com o trabalho em algumas inds-
                             trias atuais?



94    RelaesdeTrabalho
                                                                                                               Histria


    Caractersticas do Taylorismo            Caractersticas do Fordismo
    Separao das tarefas de planejar            Racionalizar as operaes dos operrios para produzir
    e executar o trabalho: os que pen-           em massa e assim reduzir os custos de produo.
    sam X os que fazem  o trabalha-             Seguindo a tradio taylorista, desqualificar o oper-
    dor operador das mquinas (peo)             rio, reduzindo-o a repetidor de um nmero limitado de
    deve apenas executar ao ritmo da             gestos, executados ao infinito durante sua jornada de
    mquina.                                     trabalho.
    Tarefas devem ser subdivididas en-           Unificar e regular o trabalho dos operrios atravs da
    tre os trabalhadores.                        esteira rolante, que cria a linha de montagem, contro-
    O tempo de cada tarefa do trabalho           lada pela direo da empresa.
    deve ser aproveitado sem desperd-           Controlar outras fbricas que produzem peas para
    cio (cronometrado).                          criar um padro e agilizar o trabalho do operrio no
    Prmio de incentivo para o trabalha-         processo de montagem.
    dor que produz mais.                         Automatizao da produo



  Os resultados da aplicao da teoria de Taylor e as adaptaes de Ford, a partir de 1909,
podem ser assim exemplificados:

    Texto 1
     A antiga organizao da produo precisava de 12h:30min para montar um veculo. Com o taylo-
 rismo, ou seja, apenas com o parcelamento das tarefas, a racionalizao das operaes sucessivas e
 a estandartizao dos componentes, o tempo cai para 5h:50min. Em seguida, graas ao treinamento,
 para 2h:38min. Em janeiro de 1914, Ford introduz as primeiras linhas automatizadas. O veculo  pro-
 duzido em 1h:30min, ou seja, pouco mais de oito vezes mais rpido que no esquema artesanal usado
 pelos concorrentes. Ford conquista o mercado americano e mundial. Em 1921, pouco mais da metade
 dos automveis do mundo (53%) vinha das fbricas Ford.
                                                                                (Adaptado de GOUNET,1999. p. 19 e 20.)


     c) Toyotismo
     A recesso do capitalismo, que ocorreu a
partir de 1973, proporcionou uma transforma-
o no processo de acumulao capitalista. O
avano tecnolgico, representado pela robti-
ca, microeletrnica e automao, ao lado das
novas formas de gesto, fez surgir outros pro-
cessos produtivos, em especial o toyotismo.
     O modelo de produo toyotista se origi-
nou no Japo, na empresa Toyota. A indstria
automobilstica japonesa precisava ser compe-
titiva em relao s empresas norte-americanas
e procurou aplicar os princpios fordistas, de      n Taiichi Ohno - criador do Toyotismo
acordo com a realidade de seu pas. A produ-
o em srie no seria rentvel dadas as con-

                                                                   OTrabalhonaSociedadeContempornea                      95
       EnsinoMdio

                            dies japonesas. Ento, a exemplo dos supermercados, a produo
                            se dava de acordo com a demanda. O consumo  que condicionaria
                            a produo. O trabalho na fbrica foi dividido em etapas: transporte,
                            produo propriamente dita, estocagem e controle de qualidade. Foi
                            necessrio que essas etapas funcionassem com fluidez e que o tempo
                            fosse aproveitado ao mximo.

        As principais caractersticas do Toyotismo so:
        Produo atravs de tecnologia avanada.
        Automatizao da produo.
        Terceirizao de alguns setores da produo.
        Nmero reduzido de trabalhadores, sendo estes, especializados na tecnologia empregada.
        Introduo de estratgias colaborativas, como: controle de qualidade, produo just in time
        (adequadas s vendas, sem grandes estoques) e kanban (cartes para orientar a comunicao
        visual sobre falta de peas, atraso ou adiantamento da produo e diminuir utilizao de pa-
        pis).


                                d) Ps-fordismo e acumulao flexvel
                                A evoluo de teorias sobre a reestruturao produtiva permitiu a
                            manuteno do sistema capitalista; o toyotismo serviu diretamente ao
                            perodo neoliberal.
                                O iderio Neoliberal surgiu na dcada de 1940, enquanto teoria
                            criticava o Estado intervencionista ou de Bem-Estar Social. O Estado
                            de Bem-Estar Social predominou na Europa Ocidental e nos Estados
                            Unidos durante o Ps- Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O capi-
                            talismo, durante esse perodo, passava por uma relativa estabilidade e
                            crescimento. Nesse contexto, as idias neoliberais no tiveram espao,
                            restringindo-se  algumas instituies acadmicas.
                                Na dcada de 1970, o modelo econmico do ps-guerra entrou em
                            crise: baixas taxas de crescimento e inflao. O neoliberalismo expli-
                            cava as causas da crise e apresentava um receiturio para super-la:
                            diminuio da inflao, aumento acentuado e incentivado dos lucros,
                            diminuio dos conflitos sindicais, diminuio dos dficits pblicos go-
                            vernamentais e privatizao das empresas pblicas.
                                Nos anos 1980, o neoliberalismo ganha espao nos pases de eco-
                            nomia avanada: como na Inglaterra com Margareth Thatcher (1925- ),
                            nos Estados Unidos com Ronald Reagan (1911-2004) e, posteriormen-
                            te, no restante da Europa. Na Amrica Latina e no Leste Europeu assu-
                            mem governos neoliberais durante a dcada de 1990.
                                O neoliberalismo, assim como o liberalismo econmico do scu-
                            lo XVIII e XIX, defende a liberdade econmica e a ao do Estado nas
                            reas de interesse coletivo que no seja lucrativo para as empresas pri-
                            vadas, ou seja, defende que o Estado seja mnimo.


96   RelaesdeTrabalho
                                                                                                 Histria

   Em pases como Inglaterra, Alemanha, Itlia e Estados Unidos, a             Neste novo processo de
organizao da produo adotou estratgias do toyotismo e renovou            produo, entre outras estra-
o fordismo, chamado de ps-fordismo. Isso levou  formao do que            tgias, empresas buscam a
muitos socilogos chamam, atualmente, de processo de produo de             certificao da Qualidade To-
acumulao flexvel, ou seja, flexibilizao tornou-se a palavra de or-      tal (ISO 9000, ISO 14000),
dem para a produo:                                                         para facilitar as relaes de
                                                                             competitividade, importao
   flexibilizao do trabalho com a utilizao da automao (compu-          e exportao. So normas e
   tadores, robs e mquinas tecnologicamente avanadas);                    procedimentos no local de
   flexibilizao da produo (implantao de Crculo de Controle de         trabalho e no processo de
   Qualidade [CCQ], Controle de Qualidade Total [CQT], Gesto Parti-         produo que envolvem des-
   cipativa [GP], entre outros).                                             de o diretor da empresa ao
                                                                             peo de cho de fbrica.
   Flexibilizao do mercado de trabalho: como a produo est con-
   dicionada pelo consumo, a empresa mantm um quadro mnimo
   de funcionrios que de acordo com a necessidade, trabalham horas
   extras e, se houver interesse, complementa-se o quadro de funcio-
   nrios com trabalhadores temporrios ou subcontratados.


                DEBATE

    Quais as vantagens e benefcios destas certificaes?
    Organize um debate sobre o assunto.




                ATIVIDADE

 1. Entreviste algum que esteja empregado no setor industrial segundo o roteiro de sugestes de
    perguntas.
    Sugestes de perguntas:
        Quantas horas trabalha por dia neste emprego?
        Que funo desempenha?
        O que produz?
        Como  o organograma da empresa?
        Supervisiona algum?
         supervisionado?
        Recebe por produo?
        Desenvolveu algum problema de sade devido ao tipo de trabalho que realiza? Qual ou Quais?
        Trabalha em linha de montagem?
        Como?
        Usa placas e cartes de sinalizao em seu setor de produo?

                                                            OTrabalhonaSociedadeContempornea                97
                         EnsinoMdio


                      2. Faa uma narrativa histrica sobre a posio dos governos neoliberais frente a flexibilizao do mun-
                         do do trabalho.

                                                                                        A cincia e a tecnologia tornaram-se fundamentais para o desempe-
                      O que  globalizao?                                         nho da produo. A biotecnologia, atravs da robtica, da engenharia,
                     Podemos consider-la como                                      da mecnica, e de outras reas do conhecimento, que devem engran-
                     relaes de interdependn-
                                                                                    decer o patrimnio cultural e cientfico da humanidade, serve tambm
                     cia e internacionalizao que
                                                                                    para a melhoria da produo e para o aumento do consumo.
                     superam fronteiras; neste ca-
                     so, adaptemos este concei-                                         Que conseqncias esta reorganizao da produo est trazendo
                     to  forma de produzir e con-                                  para o trabalho nos dias de hoje?
                     sumir mercadorias. Exemplo:                                        Formou-se um padro de produo, trabalho e consumo, para diferen-
                     Coca-Cola, MacDonald's, f-                                    tes pases, condio considerada "natural" em pocas de globalizao.
                     bricas de carros...
                                                                                        O nmero de trabalhadores das fbricas decresce  medida que as
                                                                                    condies descritas acima so aplicadas em empresas de todo mundo.
                                                                                    Os postos de trabalho tornam-se precrios, subcontratados e terceiriza-
                     Documento 2                                                    dos. A diminuio e a incerteza quanto aos postos de trabalho refletem
                                                                                    negativamente nas relaes trabalhistas, do ponto de vista dos traba-
                                                                                    lhadores. Os trabalhadores ocasionais so demitidos quase sem custos.
 n Foto: J. Maral




                                                                                    Resta, ento, o trabalho na economia informal, setor que no pra de
                                                                                    crescer e no qual o trabalhador no possui muitos direitos garantidos.
                                                                                    O aumento do desemprego  outra conseqncia da flexibilizao da
                                                                                    produo capitalista.
                                                                                         medida que acontece a precarizao do mundo do trabalho e
                                                                                    principalmente, a diminuio dos direitos trabalhistas, a competitivi-
                                                                                    dade para preencher os poucos postos de trabalho que restam se tor-
                                                                                    na acirrada. A competitividade vai exigir do trabalhador novas espe-
                                                                                    cializaes.
                                                                                        A substituio dos homens pela mquina e o descarte de quem no
                              n 185,2 MILHES = 6,3%


                                                       n 184,7 MILHES = 6,1%




                                                                                    oferece mo-de-obra especializada tm gerado desemprego em escala
                                                                                    internacional. Segundo o relatrio de 1997, da Organizao Internacio-
                                                                                    nal do Trabalho (OIT)  O Emprego no Mundo  30% da fora de traba-
                                                                                    lho mundial, aproximadamente 1 bilho de pessoas, esto desempre-
                                                                                    gadas ou subempregadas.
                                                                                        Observe o quadro ao lado, especificamente, os dados do desempre-
                                                                                    go mundial.
                                                                                        Apesar desta pequena reduo nos ndices entre 2003 para 2004, 184,7
                                                                                    milhes de pessoas, no mundo, esto oficialmente desempregadas.

                                                                                PESQUISA

                          Pesquise sobre as exigncias do mercado de trabalho na sua regio, voc pode, por exemplo, usar
                      classificados de jornais, entrevistas com setor de recursos humanos de uma empresa ou com a Agn-
                      cia do Trabalhador mais prxima. Debata com seus colegas sobre essas exigncias e o atual contex-
                      to do mercado de trabalho.

98                    RelaesdeTrabalho
                                                                                                   Histria



                 ATIVIDADE

    Faa uma narrativa histrica sobre a posio dos governos neoliberais frente  flexibilizao do mun-
 do do trabalho.




  MundodotrabalhonoBrasil:inciodosculoXX
    Voc se lembra que, na primeira fase da Repblica brasileira (1889-
1930), a elite cafeeira liderava o mercado no pas e controlava o gover-
no? O Brasil tinha uma economia basicamente agrria com emprego
de mo-de-obra livre por assalariamento ou arrendamento, e um setor
industrial comeando a se desenvolver.
    Havia, desde 1888 (poca da assinatura da Lei urea, que abolia a
escravido), por parte das elites brasileiras, a preocupao em dissemi-
nar o valor do trabalho como fonte de riqueza, ordem e progresso so-
cial, contra a vadiagem e a desocupao  as quais eram interpretadas
pelas elites como atitudes comuns nas grandes cidades devido  heran-
a dos tempos da escravido.
    Os parlamentares brasileiros, do final do sculo XIX, tentavam im-
primir na sociedade a idia do trabalho como pagamento da dvida do
cidado para com a sociedade que lhe garante a honra, a segurana,
os direitos individuais; trabalho como reconstruo moral da socieda-
de que j fora escravista.
    Leia o que o texto 2 diz a respeito. Depois veja o que o documen-
to 3 representa:


     Texto 2
     O projeto de represso  ociosidade de 1888, elaborado pelo ministro
 Ferreira Viana, afirmava que a liberdade do cativeiro no significava para o li-
 berto a responsabilidade pelos seus atos, e sim a possibilidade de se tornar
 ocioso, furtar, roubar, os libertos no tinham a ambio de fazer o bem e de
 obter um trabalho honesto, no eram civilizados para se tornarem cidados
 plenos em poucos meses. Era necessrio evitar que os libertos comprome-
 tessem a ordem, havia de se reprimir seus vcios. Esses vcios seriam venci-
 dos atravs da educao, e educar libertos significava criar o hbito do tra-
 balho atravs da represso, da obrigatoriedade.
                                                        (CHALHOUB, 1986, p. 40-42).




                                                                    OTrabalhonaSociedadeContempornea         99
                                    EnsinoMdio

                              Documento 3
                                                                                                                  Com a ecloso da Primeira Guerra Mun-
                                                                                                              dial (1914-1918), os pases dependentes, co-
                                                                                                              mo o Brasil, foram estimulados a desenvolver
                                                                                                              setores de produo na rea de transportes,
                                                                                                              siderurgia e energia. Este estmulo no garan-
                                                                                                              tia autonomia da produo brasileira em de-
                                                                                                              trimento da produo estrangeira. Era apenas
                                                                                                              uma fase, enquanto potncias de tradio in-
 n http://www2.fiemg.com.br




                                                                                                              dustrial, como Inglaterra, Alemanha e Estados
                                                                                                              Unidos, estavam envolvidos com a guerra e
                                                                                                              davam prioridade para a produo de armas e
                                                                                                              importao de gneros de primeira necessida-
                                                                                                              de, como alimentos.
                              n Aspectos da Escola de Aprendizes e Artfices do Estado do Esprito Santo em
                                1910. Arquivo Nacional.
                                                                         Nesse contexto, surgiram novas fbricas no Brasil, especialmente
                                                                      nas cidades de So Paulo e Rio de Janeiro. Para essas cidades o fluxo
                                                                      migratrio, em busca do trabalho nas indstrias, foi constante em to-
                                                                      do o sculo XX.

                              Documento 4                                                                     Documento 5




                                                                                                                                                                                          n http://www2.fiemg.com.br
  n www2.fiemg.com.br




                              n Trabalho feminino na Mina de Morro Velho. Reproduo fotogrfica. Acer-       n Fbrica de Massas Martini. Reproduo fotogrfica. Acervo Centro de Me-
                                vo Centro de Memria.                                                           mria.




                                                        ATIVIDADE

                                      Observe as fotografias representadas pelas documentos 4 e 5:
                                      a) Que pessoas vemos desempenhando o trabalho?
                                      b) Como eram representados os locais de trabalho?



100 RelaesdeTrabalho
                                                                                                             Histria


      Analise os contextos scio-histricos a que se referem o texto 2 e a imagem presente no docu-
      mento 3. Compare a representao que as elites faziam a respeito das classes trabalhadoras no
      Brasil republicano com as que os trabalhadores faziam de si.
      Podemos comparar as fbricas brasileiras com as fbricas que empregavam teorias de produo de
      Taylor e Ford nos Estados Unidos, neste mesmo perodo? Justifique sua resposta.

     Quanto s condies de trabalho, no Bra- Documento 6
sil, do incio do sculo XX, no havia nenhu-
ma regulamentao: as jornadas eram de mais
de 14 ou 16 horas por dia, mulheres ganha-
vam menos que homens, e as crianas, ainda
menos que as mulheres. Os locais eram insalu-




                                                                                                                                            n www.assis.unesp.
bres: sem iluminao nem ventilao e no ha-
via lei para o salrio.
     Estas condies de trabalho levaram os tra-
balhadores a se organizarem em sindicatos,
promoverem greves e manifestaes. Obser- n So Paulo : Greve geral de 1917. Fonte: PINHEIRO, Paulo Srgio & HALL,
ve algumas realizaes do movimento oper-       Michael M. A classe operria no Brasil: Documentos (1889-1930).

rio na Repblica Velha.

      Em 1908, fundou-se a Confederao Operria Brasileira (COB);
      Circulavam vrios folhetins e peridicos para os operrios das fbricas (inclusive em espanhol e ita-
      liano, demonstrando a presena marcante do imigrante);
      Muitos sindicatos defendiam o anarquismo e se definiam como anarco-sindicalistas;
      Realizou-se a grande greve geral de 1917;
      A defesa do socialismo levou  fundao do Partido Comunista do Brasil (PCB) em 1922.


  Omundodotrabalhonapolticadesenvolvimentista
    brasileira:EraVargas                                             Documento 7

    A quebra da bolsa de valores de Nova York, em
1929, provocou mudanas na organizao econmi-
                                                                                                                   n http://www2.fiemg.com.br



ca do Brasil.
    O governo de Getlio Vargas, a partir de 1930, de-
vido  falncia do modelo agro-exportador da lavou-
ra cafeeira no Brasil, criou estruturas para a instalao
de novas indstrias no pas. Alm das empresas do
setor privado, investiu em empresas estatais, como: a
                                                          n Inaugurao da Companhia siderrgica Nacional. 1946.
Companhia Vale do Rio Doce (CVRD-MG  1942), F-
brica Nacional de Motores (FNM-RJ  1943), Hidrel-
trica do Vale do So Francisco (1945) e Companhia Siderrgica Nacio-
nal (CSN-RJ  1946).


                                                                       OTrabalhonaSociedadeContempornea 101
                     EnsinoMdio

       Documento 8                                        Quanto ao trabalhador, Getlio Dornelles Vargas (1882-1954) de-
                                                      cretou a organizao da jornada de trabalho, instituiu o Ministrio do
                                                       Trabalho, criou a Lei de Sindicalizao, o salrio mnimo em 1940; fo-
                                                         ram concesses que criavam a imagem do Estado disciplinando o
                                                           mercado de trabalho em benefcio dos assalariados. Essa concep-
                    visual




                                                             o disfarava uma das faces controladoras da legislao traba-
              Audio




                                                               lhista, inspirada na Carta del Lavoro de 1927, do ditador fascista
                                                                italiano Benito Mussolini (1883-1945).
        Icone




                                                                   Entretanto, no se pode esquecer que os avanos desta lei
  Foto:




                                                       j estavam nos programas dos movimentos anarquistas brasileiros dos
                    n




                              n A carteira de tra-
                                                      anos 1910 e 1920 e, principalmente, no estatuto do Partido Comunis-
                                balho foi criada em   ta do Brasil (fundado em 1922). Portanto, as conquistas obtidas pelos
                                1932                  trabalhadores, junto ao governo Vargas, eram reivindicadas pelo movi-
                                                      mento operrio desde a Primeira Repblica.



                                         PESQUISA

                         Visite a biblioteca de sua escola e pesquise sobre Benito Mussolini e a legislao trabalhista contida
                         na Carta del Lavoro:
                         Organize uma descrio dos principais tens da Carta del Lavoro.




                                         ATIVIDADE

                         Procure reconhecer o corporativismo implcito na legislao italiana de 1927, a partir deste fragmento:

                             Documento 9
                             II - O trabalho, em todas as suas formas de organizao e execuo, intelectuais, tcnicas, ma-
                                  nuais,  um dever social. Por isso, e somente por isso,  tutelado pelo Estado. Do ponto de
                                  vista nacional, o conjunto da produo  unitrio; os seus objetivos so unitrios e se resu-
                                  mem no bem estar individual e no desenvolvimento do poder.
                                                                                                        (Carta del Lavoro, 1927)



        Entre as muitas crticas a respeito das leis trabalhistas do governo Vargas, esto aquelas so-
     bre o controle do governo em relao ao movimento sindical. Leia a citao de um historia-
     dor:
                         Texto 3
               Os operrios no precisavam mais fazer nada, lutar por nada, controlar nada, decidir sobre nada: tu-
            do est cientfica e rigorosamente determinado por especialistas altamente competentes.
                                                                                                            (MUNAKATA, 1981, p. 31).

102 RelaesdeTrabalho
                                                                                                                  Histria

   Leia tambm estes fragmentos de documentos:

     Documento 10
     Itlia/1927 - Carta del Lavoro
     III - A organizao sindical ou profissional  livre. Mas, s o sindicato legalmente reconhecido e su-
 bordinado ao controle do Estado tem direito de representar legalmente toda a categoria dos empre-
 gadores ou dos trabalhadores, em virtude da qual  constitudo; de defender seus interesses perante
 o Estado e s demais associaes profissionais; de celebrar contratos coletivos de trabalho obrigat-
 rios para todos os membros da categoria; de impor a eles contribuies e de exercer, com respeito aos
 mesmos, funes delegadas de interesse pblico.
                                      (Carta del Lavoro, 1927 in. http://www.cbpro.org.br/cartalavoro.pdf Em 23/09/2005).


     Documento 11
     Brasil/1943 - CLT  Art. 513. So prerrogativas dos Sindicatos:
    d) colaborar como Estado, como rgos tcnicos e consultivos, no estudo de soluo de proble-
 mas que se relacionam com a respectiva categoria ou profisso liberal.
                                                                    (Consolidao das Leis Trabalhistas, 1953).



                 ATIVIDADE

     Observe as consideraes presentes no texto 3 e nos documentos 9, 10 e 11 a respeito dos
 sindicatos. Depois, construa uma narrativa histrica sobre os objetivos do Estado italiano, em 1927, e
 do Estado brasileiro, na dcada de 1930, para os mesmos.


   Os benefcios do governo Vargas aos trabalhadores foram sistemati-
zados pelo Decreto-Lei n 5452; entraram em vigor no dia 1 de maio
de 1943, e se estendem aos dias de hoje. Estamos nos referindo  CLT
 Consolidao da Leis Trabalhistas.

 Observe algumas deliberaes da CLT:
        Regulamentao da jornada de trabalho  8 h/d.
        Descanso de um dia semanal, remunerado.
        Regulamentao do trabalho e salrio de menores.
        Obrigatoriedade de salrio mnimo como base de salrio.
        Direito a frias anuais.
        Obrigatoriedade de registro do contrato de trabalho na carteira do trabalhador.

    Provavelmente voc ter sua vida profissional, se  que j no a
tem, regida pela CLT, mesmo que reformada, pois a reforma da legis-
lao trabalhista  uma das pautas nas discusses sobre o mundo do
trabalho na atualidade. Existe a necessidade de adaptar tais leis  res-


                                                                       OTrabalhonaSociedadeContempornea 103
                            EnsinoMdio

                                                          truturao produtiva e  flexibilizao das relaes entre patres e em-
                                                          pregados, para gerar mais postos de emprego e garantir a seguridade
                                                          ao trabalhador.
                                                              Muitos patres se agarram  crtica de que as leis trabalhistas no
                                                          Brasil precisam ser mais flexveis, os encargos sociais precisam dimi-
                                                          nuir e a responsabilidade social do Estado para com o trabalhador de-
                                                          ve ser aumentada. Entre os trabalhadores, ressaltam-se s crticas sobre
                                                          a falsa proteo do Estado, a interveno nos sindicatos e a inadequa-
                                                          o s necessidades do trabalhador diante das teorias de reestrutura-
                                                          o produtiva.


                                             PESQUISA

                             Procure conhecer melhor os direitos dos trabalhadores: a CLT  um documento acessvel. Traga-a
                         para a escola e pesquise sobre trabalho noturno, jornadas de meio perodo, horas-extras, sade e se-
                         gurana no trabalho, entre outros artigos relativos ao mundo do trabalho. Compare os respectivos con-
                         textos scio-histricos de produo da CLT e o contemporneo.


                                                              As deliberaes da CLT priorizaram, em 1943, as relaes do traba-
                                                          lhador urbano, praticamente ignorando o trabalhador rural, sendo es-
                                                          te, uma grande maioria, pois os centros industrializados eram restritos
                                                          a algumas capitais e cidades maiores, sobretudo, da regio sudeste.
                                                              O Brasil mantinha-se basicamente agrrio. At a dcada de 1980, se-
                                                          gundo dados do IBGE, cerca de 30% da populao brasileira era rural
                                                          e muitos dos que viviam na zona urbana trabalhavam no campo como
                                                                       bias-frias, como acontece ainda hoje. Porm, no houve le-
                                                                       gislao que protegesse o trabalhador rural ou lhe facilitas-
                                                                       se o acesso  terra. Mantiveram-se as relaes de arrenda-
                                                                       mento e as dirias. Os poucos trabalhadores assalariados do
                                                                       campo cumpriam funes especializadas.
                                                                           Para organizar os trabalhadores rurais, desde a dcada
                                                                       de 50, surgiram movimentos sociais como as Ligas Campo-
                                                                       nesas, as Associaes de Lavradores e Trabalhadores Agr-
                                                                       colas, at o mais estruturado destes movimentos, o MST,
                                                                       nascido nos encontros da CPT- Comisso Pastoral da Ter-
                                                                       ra, em 1985, no Paran.
                                                                           O mito da prosperidade no trabalho fabril, aliado  cres-
                                                                       cente desigualdade da distribuio da riqueza, reforou o
 n Foto: Arquivo MST




                                                                       xodo rural e a migrao para centros urbanos industriais,
                                                                       como So Paulo. Porm, poucos conseguiram se estabele-
                                                                       cer e muitos contriburam para a formao dos bolses de
                                                                       misria.
                       n Plenrio do 1 Congresso Nacional dos Sem-Terra,
                         Curitiba-PR, janeiro de 1985

104 RelaesdeTrabalho
                                                                                                   Histria



                PESQUISA

    Pesquise sobre o xodo rural e sua influncia na formao de sua cidade. Organize sua pesquisa
 em painis e exponha-a na escola.



  Otrabalhocomogarantiadoprogressobrasileiro?
    Um dos smbolos do desenvolvimento e da Documento 12
modernidade, no Brasil, aps 1960, foi o auto-
mvel. E um dos smbolos relativos ao mundo
do trabalho, foi a fbrica de automveis.
    De 1955 a 1960, o perodo de governo de
Juscelino Kubitschek de Oliveira (1902-1976)
incentivou a instalao destas fbricas no Bra-




                                                                                                              n http://ruralwillys.tripod.com
sil, e com elas implantaram-se tambm suas
novas teorias de produo. Pois, um carro, que
tem no mnimo mais de vinte mil peas,  fru-
to de um complexo e interligado sistema pro-
dutivo. Sua produo tem grande valor na eco-
nomia de um pas, alimenta a competitividade, n Fbrica de automveis.
cria teorias sobre a estrutura produtiva, expan-
dindo-as para outros setores.  um smbolo do desenvolvimento capi-
talista no sculo XX.
    Este ritmo de produo atingiu outros setores, como o setor txtil.
O ritmo adotado para a produo, a mecanizao e a especializao do
trabalho, aliado aos estudos da Organizao Internacional do Trabalho
(OIT), levou o Estado brasileiro a aprofundar a legislao trabalhista
sobre sade e segurana no trabalho.

     Texto 4
     H muito tempo se sabe que o trabalho, quando executado sob determinadas condies, pode
 causar doenas, encurtar a vida, ou mesmo matar os trabalhadores.  histrico o nexo entre trabalho e
 sofrimento explcito. Mais recente, e ainda em processo de construo,  a percepo de que o traba-
 lho pode gerar formas mais sutis  at invisveis, mas no menos graves  de corroso da sade.
                                                                                 (FERNANDES, 1995, p.191).

    As principais doenas causadas pelo trabalho so genericamente
conhecidas por Leso por Esforo Repetitivo (LER) ou Doenas Orteo-
musculares Relacionadas ao Trabalho (DORT): tenossinovite, tendini-
te, bursite, trauma cumulativo, entre outras. Apesar de conhecidas h
mais de 100 anos, costumam ser diagnosticadas pelos mdicos somen-
te aps a investigao da vida funcional do paciente, do nvel de es-
tresse, da m postura e do excesso de trabalho.
                                                              OTrabalhonaSociedadeContempornea 105
       EnsinoMdio

                                Observe um grfico do Ministrio do Trabalho sobre os acidentes
                             de trabalho no Brasil, no ano de 2003.

                               Documento 13
                               Nmero de Acidentes de Trabalho Analisados por Estado
                               Janeiro a Dezembro de 2003




                                                 n http://www.mte.gov.br Fonte: SFIT - Sistema Fe-
                                                   deral de Inspeo do Trabalho/ Acidentes Analisa-
                                                   dos/ DRT. Total de Acidentes Analisados no Pero-
                                                   do: 1736




                     DEBATE

         Voc est lembrado da entrevista que fez com o trabalhador? Retome-a e analise as condies de
     trabalho e os riscos a que ele est exposto. Relate e exponha aos seus colegas.




      ReestruturaoprodutivanoBrasilnadcadade1990
        Documento 14
        Desemprego e Informalidade
         O desemprego, o subemprego e o fantasma da informalidade so problemas endmicos que asso-
     lam o Pas h muito. No Brasil, h 8,5 milhes de pessoas desempregadas e 79,3 milhes trabalhan-
     do. Destas, apenas 31,7 milhes (40%) esto na formalidade. Os restantes, 47,5 milhes, esto na in-
     formalidade (60%), em empregos de baixssima qualidade, sem nenhuma proteo previdenciria.  um
     nmero assustador, maior do que muitas populaes de pases da Europa e Amrica Latina.
                                                                              (Jornal do Brasil  RJ, 29 de junho de 2005.)




106 RelaesdeTrabalho
                                                                                                          Histria

   No Brasil, o desemprego seguiu os ritmos mundiais e aumentou,
sobretudo em conseqncia das polticas neoliberais, da mundializa-
o do capital, dos contratos de risco da Ditadura Militar (1964 a 1985),
da recesso econmica, da abertura de mercados da Era Collor, em
1990. Para sobreviver  crise da perda gradativa do salrio, o trabalha-
dor manteve-se no mercado informal ou nas relaes flexveis de tra-
balho temporrio, sem registro.

    Veja as conseqncias do neoliberalismo, atuais para quase todo o mundo, e no Brasil, sobretudo
 aps os anos 90, com o governo de Collor de Mello e sua poltica de abertura ao capital estrangeiro:
        Promoveu a eliminao das barreiras alfandegrias nacionais, incentivando a globalizao dos
        mercados de consumo num transparente favorecimento para as grandes potncias;
        Desregulamentou a legislao que limita o crescimento da explorao capitalista e do trabalha-
        dor;
        Promoveu a privatizao das empresas estatais para fornecer setores de investimento oriundos
        da funo social do Estado  iniciativa privada;
        Manteve a acumulao e capital nas mos de poucos burgueses e grandes empresas multina-
        cionais,
        Dificultou a sobrevivncia de pequenas e mdias empresas;
        Intensificou a desigualdade na distribuio da riqueza produzida;
        Intensificou o avano cientfico e tecnolgico a servio do capital.

   Observe as taxas de desemprego medidas pelo Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatstica (IBGE), no Brasil, entre 1998-2002.

                   %
            9,0
            8,0
            7,0
            6,0
            5,7
            4,0
            3,0
            2,0
            1,0
            0,0
                  1998        1999             2000             2001                2002
                             Total              Homens                   Mulheres

                         n Fonte IBGE ww.ibge.gov.br/brasil_em_sintese

    Alm do IBGE, o Departamento Intersindical de Estudos Scio-Eco-
nmicos (DIEESE) organizou um levantamento de dados sobre A Situ-
ao do Trabalho no Brasil, em 2001, em seis regies metropolitanas: So
Paulo, Belo Horizonte, Distrito Federal, Porto Alegre, Salvador e Reci-
fe. Eis os pontos mais relevantes:
    Os anos de 98 e 99 demonstraram acentuado declnio do emprego.
    A procura de emprego se estendeu por mais de um ano nas regi-
    es estudadas.
    Verificou-se um elevado crescimento do desemprego para jovens,
    cnjuges e trabalhadores com menor nvel de instruo;

                                                                               OTrabalhonaSociedadeContempornea 107
                                                           EnsinoMdio

                                                                                       Aumentou o ndice de desemprego entre os mais qualificados.
                                                                                       Cresceram as contrataes flexveis, sem carteira assinada, terceiri-
                                                                                       zada e de trabalho autnomo.
                                                                                       Elevou-se a proporo dos que trabalham acima da jornada de 44
                                                                                       horas semanais.
                                                                                       Verificou-se grande concentrao de trabalhadores na base da pir-
                                                                                       mide do mercado de trabalho, cerca de 80% dos assalariados, rece-
                                                                                       bendo at 5 salrios mnimos/ms.
                                                                                                                     Quanto s desigualdades entre o trabalho feminino e
                                                       Documento 15
                                                                                                                 o masculino, houve, na dcada de 1990, uma maior inser-
                                                                                                                 o da mulher no mercado de trabalho, porm a mulher
                                                                                                                 ainda mantm maior ndice de desemprego, trabalha em
                                                                                                                 postos mais vulnerveis e em funes no-qualificadas,
                                                                                                                 mais do que os homens. Quando na mesma funo que o
   n (foto Mrcio Brigatto) http://www2.fiemg.com.br




                                                                                                                 homem, recebe em mdia 65% do que ele recebe.
                                                                                                                     Da mesma forma que a mulher  preterida no atu-
                                                                                                                 al mercado de trabalho, situao muito parecida ocorre
                                                                                                                 com o negro e o jovem. O negro, independente de sua
                                                                                                                 escolaridade, est mais sujeito ao desemprego, permane-
                                                                                                                 ce nesta condio por mais tempo, e quando emprega-
                                                                                                                 do, tem acesso aos postos de menor qualidade, status e
                                                                                                                 remunerao.
                                                                                                                     Para os jovens de 16 a 24 anos que se encontram no
                                                                                                                 mercado de trabalho, 60% est em situao precria, ou
                                                       n   Fbrica da Mercedes-Benz em Juiz de Fora- MG. Monta-
                                                                                                                 seja, sem contrato de trabalho e proteo da legislao
                                                           gem bruta, onde trabalham cerca de 300 colaboradores,
                                                           13% so mulheres e 40% robs nas atividades ergono- trabalhista, recebendo, em mdia, entre 38,3% e 55,6%
                                                           micamente desfavorveis.                              menos que os demais trabalhadores.
                                                                                                                     Sobre o panorama do trabalho no Brasil, na ltima
                                                                                            dcada, uma pesquisa do DIEESE:

                                                            Texto 5
                                                             Aponta para um quadro de agravamento do mercado de trabalho, indicando um srio processo de
                                                       aprofundamento das desigualdades sociais no pas. Fruto tanto das polticas macroeconmicas que
                                                       vem orientando o processo de reestruturao produtiva como das estratgias empresariais da compe-
                                                       titividade, esse quadro revela um grande processo de regresso social, difcil de ser revertido no cur-
                                                       to prazo.
                                                                                                                                                    (LEITE, 2003, p.110).




                                                                         ATIVIDADE

                                                   Leia as concluses do texto 5 sobre o mundo do trabalho no Brasil. Depois, faa um debate em sala
                                                de aula apontando solues que poderiam reverter a regresso social.


108 RelaesdeTrabalho
                                                                                         Histria

 RefernciasBibliogrficas
 CHALHOUB, S. Trabalho, Lar e Botequim. So Paulo: Brasiliense, 1986.
 FERNANDES, R. O Trabalho no Brasil no limiar do sculo XXI. So Paulo: LTR, 1995.
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 LEITE, M. de P. Trabalho e Sociedade em Transformao: mudanas produtivas e atores sociais.
 So Paulo: Fundao Perseu Abramo, 2003.
 MUNAKATA, K. A legislao Trabalhista no Brasil. So Paulo: Brasiliense, 1981.
 Jornal do Brasil, RJ, 29 de junho de 2005.


 ObrasConsultadas
 ALVES. G. O novo (e precrio) mundo do trabalho. So Paulo: Biotempo, 2000.
 ANTUNES, R.; SILVA, M. A. M. (orgs). O Avesso do Trabalho. So Paulo: Expresso Popular, 2004.
 CARMO, P. S. A ideologia do Trabalho. So Paulo: Ed. Moderna, 1992.
 CARMO, P. S. Histria e tica do trabalho no Brasil. So Paulo: Moderna, 1998.
 FURTADO, C. Formao Econmica do Brasil. 26. ed. So Paulo: Cia. Editora Nacional, 1997.
 GERAB, W. J. e ROSSI, W. Indstria e Trabalho no Brasil: Limites e desafios. So Paulo: Atual,
 1999.
 HUBERMAN, L. Histria da Riqueza do homem. 21. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1986.
 MENDONA, S. A industrializao brasileira. So Paulo: Ed. Moderna, 1997.
 SCHAFF, A. A Sociedade Informtica. So Paulo: Unesp/Brasiliense, 1991.


 DocumentosConsultadosOnline
 www.dieese.org.br ; Acesso em: 26 jul. 2005.
 www.ibge.gov.br ; Acesso em: 26 jul. 2005.
 www.mte.gov.br ; Acesso em: 26 jul. 2005.
 www.oit.org ; Acesso em: 26 jul. 2005.




                                                         OTrabalhonaSociedadeContempornea 109
       EnsinoMdio




                     z UNIDADETEMTICAII:Urbanizaoe
            I          Industrializao


            n
                         A Cidade
                         O sol nasce e ilumina
                         as pedras evoludas
                         que cresceram com a fora


            t
                         de pedreiros suicidas
                         Cavaleiros circulam
                         vigiando as pessoas
                         No importa se so ruins


            r
                         nem importa se so boas

                         A cidade se apresenta
                         centro das ambies


            o
                         para mendigos ou ricos
                         e outras armaes
                         Coletivos, automveis,
                         motos e mtros



            d
                         Trabalhadores, patres,
                         policiais, camels

                         A cidade no pra


            u
                         a cidade s cresce
                         O de cima sobe
                         e o de baixo desce
                         A cidade no pra



            
                         a cidade s cresce
                         O de cima sobe
                         e o de baixo desce

                         A cidade se encontra


                        prostituda
                         por aqueles que a usaram em busca de sada
                         Ilusria de pessoas
                         de outros lugares,


            o            a cidade e sua fama
                         Vai alm dos mares No meio da esperteza
                         internacional...
                     n (Chico Science [1966-1997]. A Cidade/Boa Noite Do Velho Faceta. CD Da lama ao caos, faixa 3, Chaos/Sony Music,
                       1994).



110 Introduo
                                                                                Histria




                                                                            H
   Voc j conhece esta msica? Ela fala da vida nas grandes cidades
da atualidade, espaos de contradies: do luxo e da misria, do
grande e do pequeno, o lugar que historicamente tornou-se o habitat
de milhares de pessoas. Nesta unidade temtica vamos falar sobre a


                                                                            I
urbanizao e a industrializao. Talvez a primeira pergunta a ser feita
sobre esse assunto  por que "a cidade no pra"? Outra questo a
pensar: por que tantas pessoas foram e continuam sendo atradas para
as cidades?



                                                                            S
   Estas questes podem estar relacionadas com o desenvolvimento da
industrializao, iniciada no sculo XVIII, na Europa. Uma das principais
caractersticas deste fenmeno foi a transferncia de populaes
do campo para as cidades, aumentando assim, o crescimento das



                                                                            T
cidades, tanto em extenso como em populao. Efeito espetacular
para populaes que at pouco tempo atrs viviam no campo cercado
por plantaes ou em vilarejos onde a percepo do tempo estava
associada aos elementos da natureza.



                                                                            
    Durante muitos sculos as paisagens sofreram poucas alteraes e
as pessoas seguiam as tradies seculares deixadas por seus familiares.
Com processo de industrializao, ocorreram transformaes
econmicas e tecnolgicas que alteraram a vida em sociedade, pois
no foi s o jeito de produzir que sofreu modificaes, mas tambm a
paisagem rural e urbana.
   Mas, ser que somente com a industrializao que surgiram
grandes cidades? Em pocas distantes como: na antiguidade Ocidental,
                                                                            R
no Oriente islmico, ou na Europa medieval, existiram cidades com
caractersticas semelhantes as atuais cidades? E no Brasil, quais fatores
contriburam para o processo de urbanizao e industrializao? As
cidades no Paran na sua maioria so de pequeno e mdio porte. A
origem destas est relacionada a quais atividades econmicas?
                                                                            I
   So estas questes e outras inquietaes que voc poder estudar
nesta unidade temtica.
                                                                            A

                                                                                           111
       EnsinoMdio




112 Relaesculturais
                                                                                                                                       Histria




                                                                                                                              6
                                                                               RELAES CULTURAIS:
                                                                                              As cidades na Histria
                                                                                                                   n Fbio Oliveira Cardoso1


                                                 O canto da cidade
                                                 A cor dessa cidade sou eu                             O toque do afox
                                                 O canto dessa cidade  meu                            E a fora de onde vem
                                                 A cor dessa cidade sou eu                             Ningum explica
                                                 O canto dessa cidade  meu                            Ela  bonita
                                                 O grito a rua f                                      O grito a rua f
                                                 Eu vou saindo a p                                    Eu vou saindo a p
                                                 Pela cidade                                           Pela cidade
                                                 Bonita                                                Bonita ..
                                                        n (Composio: Daniela Mercury http://www2.uol.com.br/cante/lyrics/Daniela _
                                                          Mercury_-_O_canto_da_cidade.htm; Acessado em: 05/10/2005).



                                                   s cidades tm inspirado vrios artistas, exemplo
                                                  disso, voc pde perceber no tema da msica
                                                    O canto da cidade, da cantora Daniela Mercury
                                                   (1965 -). Por outro lado, as cidades despertam
                                            o interesse de muitos pesquisadores, entre eles os
                                            arquelogos, os historiadores, os gegrafos, os arquitetos,
                                            os quais buscam explicar as caractersticas prprias das
                                            cidades em determinadas sociedades. Mas, como surgiram
                                              as cidades? Como era viver nas cidades neolticas, gregas,
                                                  romanas, pr-colombianas, islmicas e medievais? A
                                                      vida nestas cidades tinha o mesmo significado
                                                         que tem nas cidades contemporneas?

Colgio Estadual Tania Varela Ferreira  Maring  PR
1




                                                                                                                 AsCidadesnaHistria 113
       EnsinoMdio

                          Ascidadesneolticas:ocasodeatalhyk
                            Por volta de 10.000 a 7.000 a.C., surgiram os primeiros ncleos
                        urbanos na regio do vale do rio Indo, na atual ndia, e tambm na
                        regio do Crescente Frtil (atual Oriente Mdio) devido ao processo
                        conhecido como revoluo agrcola. As cidades foram construdas  beira
                        dos rios com a finalidade de centralizar a administrao da economia
                        ligada s terras e aos produtos agrcolas tal como ocorria em Harappa,
                        Mohenjo Daro e Lothal, no vale do rio Indo, Jeric, na Palestina e
                        atalhyk, na atual Turquia. Essa ltima cidade parece trazer algumas
                        evidncias descobertas por arquelogos contemporneos de que talvez
                        no tenha havido um matriarcado no incio do perodo Neoltico,
                        como acreditavam os adeptos de uma longa tradio do pensamento
                        europeu, nem a instituio generalizada de um patriarcado, mas sim
                        uma possvel igualdade dos sexos tanto na vida material como na
                        espiritual dos seus habitantes.
                            Em 8000 a.C., atalhyk ("chah-tahl-HU-yook"), a maior cidade
                        do Neoltico, teve aproximadamente 8000 habitantes e 2000 casas.
                        Como esta cidade no tinha ruas, seus habitantes se movimentavam
                        pelos telhados e entravam nas casas por meio de escadas a partir
                        do teto. Essas habitaes eram decoradas com esculturas e pinturas
                        que representavam, principalmente, touros, leopardos, cervos, abutres
                        e seres humanos. Seus moradores produziam ferramentas de pedra
                        polida, domesticavam ovelhas e cultivavam cereais.
                            Entretanto, o que faz esta cidade importante para os pesquisadores 
                        que os vestgios descobertos pela arqueologia contempornea apontam
                        para uma relao igualitria entre mulheres e homens do Crescente
                        Frtil nos milnios que vo de 10000 a 5000 a.C. Restos de alimentos
                        como carne, por exemplo, provam que no havia disparidade entre a
                        dieta de homens e mulheres. Os tmulos so igualmente adornados.
                        Em atalhyk, seguindo uma ampla tradio dos povos agrcolas do
                        Crescente Frtil, eram cortadas as cabeas de algumas pessoas notveis
                        aps a sua morte, para serem utilizadas em cerimnias religiosas; tanto
                        homens quanto mulheres eram igualmente homenageados por meio
                        desta prtica.
                            O excesso de carbono encontrado nas costelas dos corpos femininos
                        e masculinos demonstra que ambos trabalhavam, inalando imensa
                        quantidade de fumaa durante muito tempo, prximos aos fornos
                        ou lareiras das suas casas, as quais possuam pouca ventilao. Isso
                        significa que os homens no passavam mais tempo fora de casa do
                        que as mulheres. Se havia alguma diviso de trabalho, provavelmente
                        eram as mulheres que preparavam o alimento, mas os restos de cinzas
                        encontrados nas proximidades das ferramentas de pedra apontam que
                        tanto os homens quanto as mulheres podem t-las confeccionado.


114 Relaesculturais
                                                                                                                      Histria

    Somente nas representaes simblicas e na arte os homens
tinham uma certa preponderncia ao serem desenhados caando
ou provocando animais selvagens, enquanto poucas representaes
femininas foram produzidas, geralmente colhendo plantas, ou como
estatuetas ligadas  fertilidade.
    Aparentemente, atalhyk se sustentava a partir da domesticao
de animais e da caa com sua alimentao complementada pela
agricultura. Essa s aumentou de importncia a partir de 6000 a.C.,
perodo no qual a produo de estatuetas femininas voltadas para
a fertilidade da terra e das mulheres aumentou sensivelmente. Leia,
no texto 1, o que a historiografia relata sobre esta cidade e seus
habitantes.

    Texto 1
      complexa a situao dos homens e das mulheres em atalhyk. Essa complexidade ecoa algumas
 das concluses a que chegaram os antroplogos em relao  alocao de poder entre os sexos. No
 estamos diante de um matriarcado ou de um patriarcado. O que talvez seja algo mais interessante: uma
 sociedade na qual, em muitas reas, a condio sexual no determina a vida em que se vive.
      Tanto homens como mulheres podiam desempenhar uma srie de papis e ocupar vrias posies:
 da elaborao de ferramentas  moagem de gros, do cozimento de alimentos  chefia da casa. As
 representaes de rituais comemorativos indicam que os homens dominavam essa rea. Mas, no
 encontramos indcios de que tenham influncia predominante em outra esferas da vida. Seja como for,
 esse predomnio masculino passou a ser contestado quando, vrios milnios aps a domesticao dos
 cereais, a agricultura adquiriu papel maior na vida da comunidade. Nesse perodo, mulheres e plantas
 esto conectadas na arte, mas, mesmo aqui,  preciso esperar por novos estudos cientficos antes de
 determinar se o predomnio das mulheres na agricultura teve impacto sobre outros aspectos da vida.
 Em particular, temos menos informaes sobre os nveis superiores da cidade, onde encontramos as
 estatuetas das "mulheres gordas" e os amplos fornos, que sobre os nveis mais antigos e inferiores da
 mesma, cujos ossos e dentes foram analisados. Somente quando a escavao dos nveis superiores for
 feita, poderemos decifrar o desenrolar da histria da emergncia das imagens de mulheres poderosas.
                 (Adaptado de HODDER. Homens e mulheres em atalhyk. Scientific American Brasil. N. 21, p. 73, fev. 2004.).




                ATIVIDADE

    A partir do texto 1, aponte a relao entre as evidncias arqueolgicas encontradas na cidade de
 atalhyk e a revoluo agrcola ocorrida no Crescente Frtil entre 10000 a 5000 a.C.



  Ascidadesantigas:urbanismoemGrciaeRoma
   Voc consegue imaginar como eram as cidades antigas na Grcia e Roma? Nestas sociedades,
elas poderiam ser associaes de cunho religioso, poltico e familiar, ou lugar de reunio, de
domiclio e do santurio.

                                                                                                 AsCidadesnaHistria 115
       EnsinoMdio

                                                                a) Cidades na Grcia: Os gregos denominavam
          Cidade-estado: forma de organizao pol-
                                                                as cidades de polis, elas eram cidades-estado,
     tica que se desenvolveu no perodo clssico
                                                                possuam autonomia poltica, religiosa e
     da civilizao grega. Consistia na disposio
                                                                econmica. Atenas foi a mais importante
     soberana e autnoma de um pequeno territrio
                                                                cidade grega, seguida por Esparta, que
     (polis); de populao concentrada, entre muros
                                                                exerceu sua hegemonia poltico-militar na
     ou fortificaes defensivas, e clara distino entre
                                                                Grcia entre 404 - 371 a.C., devido ao seu
     os seus cidados membros (poliitai) e os no-
                                                                forte exrcito.
     cidados ou estrangeiros. As cidades-estado
     possuam os atributos e funes de um Estado                   Localizada no sul da Grcia, na tica,
     Nacional, diferindo deste quanto  extenso                Atenas diferenciou-se por ter desenvolvido
     territorial e por coexistirem com outras cidades-          uma vida urbana mais dinmica. Durante o
     estado em rea contgua; tinham em comum o                 sculo V a.C., chegou a ser a maior cidade
     uso da lngua, as origens tnicas e a formao             grega. Possua uma economia voltada para
     cultural, mantendo rgida separao de governo,            o comrcio martimo com outras cidades e
     territrio e cidadania.                                    colnias na Pennsula Itlica, mediterrneo
                                                                ocidental, sia Menor e na Costa do Mar
                        (ENCICLOPDIA sculo XX, 1972, p. 524.)
                                                                Negro. Foi conhecida por ter desenvolvido a
                                                                democracia, sistema poltico que possibilitava
                                maior participao dos cidados (teve incio com Clstenes [570-507
                                a.C.], a partir do ano 508 a.C.).
                                     Neste perodo, Atenas tornou-se o maior centro intelectual e cultural
                                do ocidente (conhecida como a escola de Hlade), contava com um
                                grupo admirvel de escritores, artistas, cientistas e filsofos, muitos
                                destes, mesmo que no oriundos desta cidade, sentiam-se atrados
                                por ela. A maioria das grandes personalidades de relevo cultural da
                                Grcia estava ligada a Atenas entre os anos de 500 e 300 a.C., (poca
                                do apogeu de Atenas). Essas personalidades tinham liberdade para
                                pensar, expressar-se e ensinar nesta cidade-estado.
                                     No incio da Guerra do Peloponeso (entre Esparta e Atenas, em
                                431-404 a.C.), cerca de um tero dos cidados de Atenas viviam na
                                rea urbana. Somava-se, ainda, a esta populao os no-cidados livres
                                (artesos, estrangeiros) e os escravos. De terreno com solo pouco frtil,
                                pedregoso e montanhoso, Atenas no comportava um crescimento
                                populacional to grande como ocorreu com as cidades do Oriente
                                Mdio. Foram necessrias reformas urbanas, exemplo disso ocorreu
                                no governo de Pricles (495-429 a.C.), no qual foram construdos os
                               Documento 1




                               n O Partenon, na colina da Acrpole; /wiki/Imagem:Atenas.jpg; Acesso em: 02 out. 2005.


116 Relaesculturais
                                                                                                        Histria

propileus (escadas da Acrpole) e o Paternon (o templo da deusa
Atena, documento 1).
   A maioria dos cidados urbanos eram ricos proprietrios que
desenvolviam suas atividades econmicas ligadas  agricultura, de
onde obtinham seus rendimentos e tambm investiam em escravos.
A base econmica dos no-cidados era o comrcio, a fabricao de
armas, de cermicas, etc., ou o emprstimo de dinheiro.
   No sculo V a.C., a riqueza de Atenas provinha principalmente
dos tributos cobrados sobre as cidades da Liga de Delos (coligao
martima-militar de cidades, lideradas por Atenas a partir de 478 a.C.),
das trocas comerciais e da prata extrada das minas do Lurio (cidade
grega, situada na tica). Estas fontes de recursos possibilitaram o
desenvolvimento econmico para a sustentao da democracia em
Atenas, bem como a manuteno dos cidados e de outros habitantes,
alm da construo de grandes obras.

     Texto 2
     A cidade tornara-se a capital da Hlade e os cidados estavam cnscios disso. No sexto sculo
 a.C., a cidade, embora grande, crescera irregularmente; seu centro religioso situava-se na Acrpole,
 que outrora fora ocupada pelo palcio fortificado dos reis e agora era consagrada a Atena, a deusa
 protetora de Atenas, e o local do seu modesto templo construdo com pedra local. Pisstrato muito fez
 por Atenas. Construiu um grande e conveniente mercado central, melhorou o abastecimento d'gua,
 abriu uma estrada majestosa para a Acrpole, onde ergueu um novo templo central para a deusa
 Aten. Tudo isso foi destrudo pela invaso persa. A partir de 479 a.C., o trabalho de restaurao da
 destruio prosseguiu ativamente. Cimon foi notvel nessa tarefa. Reconstruiu a cidade, particularmente
 o mercado que tambm servia como bolsa e clube social e era o local onde se efetuavam alguns
 negcios polticos.
     Todavia a Acrpole ainda estava em runas. Pricles, o dirigente e organizador do Imprio Ateniense,
 empreendeu a tarefa da sua restaurao. Atenas gastou milhes para transformar a Acrpole numa das
 mais perfeitas produes arquiteturais, adornadas com todo um museu de obras-primas em pedra de
 cor. Em suas faldas no havia residncias particulares ou lojas; somente alguns santurios, inclusive o
 de Asclpio, davam vida s encostas ngremes da colina.
      direita est o majestoso Partenon, o lar de Aten Partenos, um grande templo drico.
      Assim era o centro de Atenas, o resto da cidade era feio e insignificante, com ruas estreitas e
 tortuosas, casas modestas, lojas e oficinas, barulho, poeira e lama. Alm disso, os homens de Atenas
 no passavam muito tempo em casa. O mercado, o Pnix, onde a assemblia popular se reunia, os
 tribunais e a cmara do conselho eram os lugares onde as classes altas passavam o seu tempo. As
 classe baixas trabalhavam nas docas e nos armazns do Pireu, ou em suas lojas e oficinas.
                                                                    (Adaptado de ROSTOVTZEFF, 1986, p.173-178.)


    b) A cidade de Roma: localizada na Pennsula Itlica, representava
para os romanos um ambiente de vida em sociedade, o centro da vida
civil. Entretanto, a cidade de Roma cresceu sem planejamento. A maior
parte da cidade possua casas altas e pouco desenvolvidas, as ruas eram
tortas e estreitas e dificultavam as construes centrais de finalidade

                                                                                     AsCidadesnaHistria 117
       EnsinoMdio

                              poltica. Muito embora os romanos tivessem sido construtores de
                              cidades, enfrentaram dificuldades para melhorar a estrutura de Roma,
                              a exemplo das colnias latinas da Pennsula Itlica: Alba Fucens (303
                              a.C.) e Cosa (273 a.C.), cujo estilo arquitetnico predominava com as
                              formas de retngulos e ruas planas.
                                  Mesmo assim, podem ser evidenciados alguns aspectos urbanos
                              na arquitetura da cidade de Roma. O cimento passou a ser utilizado
                              nas construes romanas a partir do sculo II a.C., o que propiciou
                              construes bastante slidas. Neste mesmo perodo, a primeira baslica
                              foi construda por Cato, o Velho (243-143 a.C.), a Baslica Porcia.
                              Na baslica faziam-se reunies, passeios e negcios. No apogeu de
                              Roma (sculo I d.C.), no Forum, realizavam-se as festas religiosas e
                              manifestaes cvicas. Entre os monumentos comemorativos, consta-
                              vam os "Arcos de Triunfo", criados no final do sculo I d.C., em diante,
                              era uma espcie de porta monumental, exemplos: o Arco de Tito
                              (Titus Flavius Vespasianus [39-81]), de Stimo Severo (Lucius Septimius
                              Severus [146-211]) e o de Constantino, o Grande (Flavius Valerius
                              Constantinus, [272-337]).
                                  Para voc entender melhor os aspectos urbanos nas cidades de
                              Roma, analise como alguns historiadores tratam esta questo.

        Texto 3
         A audcia de Nero [37-68 d.C.], depois do incndio no ano de 64 d.C., tinha consistido em aproximar
     essa fronteira da cidade, invadindo os bairros construdos at ento. A sua Casa de Ouro (esse foi o
     nome dessa verdadeira vila urbana) continuava diretamente o palcio imperial do Palatino, comeado
     por Calgula [12-41 d.C.], e punha-o em comunicao com os clebres jardins de Mecenas [70 a.C.-
     8 d.C.], no Esquilino. No centro, ele mandou escavar um grande lago e rode-lo de um campo em
     miniatura: aldeias, florestas, pastagens, nada a faltava. Um prtico monumental ia do Forum at a
     entrada do palcio. Depois de sua morte, o parque da Casa de Ouro foi desmembrado. Assim que
     o lago foi seco, no seu local, se construiu o anfiteatro de Flvio conhecido desde a Antiguidade sob
     o nome de Colosseum, o Coliseu. Sobre as vertentes do Clio, a norte do anfiteatro, Tito edificou um
     grande estabelecimento de banhos, as termas que tm o seu nome. Os banhos deixam de ser um
     anexo da palestra ou ginsio, ou um simples estabelecimento de higiene, e transformam-se num local
     de prazer, simultaneamente "caf", crculo de reunies e de jogo.
                                                                            (Adaptado de GRIMAL, 1981, p.108-110.)

        Texto 4
         Era uma cidade de altos edifcios e ruelas, nas quais os pobres alugavam apartamentos abarrotados
     de gente e onde os senhorios engordavam. O barulho,  noite, era terrvel; os colapsos, freqentes, e
     os incndios uma constante ameaa em razo das construes de madeira e da iluminao a leo. A
     comear com Augusto [63 a.C. - 14 d.C.], os Imperadores tomaram srias providncias para limitar o
     seu desenfreado crescimento e melhor-la. Novos aquedutos foram construdos e se multiplicaram as
     fontes pblicas; havia ento um policiamento rigoroso e bombeiros, armados de bombas manuais e
     abafadores midos tudo agora a expensas do Estado. Os imperadores assumiram a responsabilidade
     pelo abastecimento de milho da cidade; o proletariado urbano cresceu cada vez mais parasitariamente,


118 Relaesculturais
                                                                                                       Histria


 alimentado pela fartura estatal de milho, depois de po e vinho, at que, por volta do sculo III, um
 prefeito pretorano exclamasse amargamente: `S lhe falta servir galinha'. Mas donativos e espetculos
 nada mais eram que paliativos para o que Juvenal chamou graficamente de vida de competio da
 misria.
                                                           (Adaptado de FREDERIKSEN apud BALSDON, 1968, p. 15)




                ATIVIDADE

    Identifique, nos textos 3 e 4, as diferenas existentes nos espaos urbanos da cidade de Roma.
 Depois comente por escrito a utilizao pelos cidados romanos destes espaos.
    Em equipe, retome a leitura dos textos 2, 3 e 4. Depois organize um quadro com as diferenas e
 semelhanas entre as cidades de Atenas e de Roma.




                DEBATE

     Discuta com os colegas as caractersticas das cidades de Atenas e de Roma, comparando
 com alguma cidade atual que voc conhece. Considere os seus respectivos contextos scio-
 histricos.
     Analise a distribuio dos espaos urbanos destas cidades em relao ao centro da cidade,
 aos bairros de moradia, ao acesso aos prdios pblicos, etc. Anote sua anlise e debata com a
 sala.



  OIslo:civilizaourbana
    Quando voc pensa nas cidades rabes, imagino que logo lhe vem
a mente a idia do sulto, as mulheres que fazem a dana do ventre,
as grandes mesquitas, conforme aparecem na maioria dos filmes sobre
a cultura islmica. Seria isso mesmo?
    Desde o incio das conquistas dos califados rabes, por volta do
ano 632 d.C., as cidades rabes comearam a ganhar importncia
para as comunidades muulmanas. Nesse perodo, antigas cidades,
como Damasco, Alexandria, Alepo e outras, foram dominadas pelos
islmicos. Com a expanso rabe, as cidades tornavam-se sedes de
dinastias, como foi o caso de Bagd (762) e do Cairo (criada pelos
fatmidas [dinastia xiita, que governou o Egito de 969 a 1171] no ano
de 969).
    Na poca da dinastia abssida (749-1258), a cidade de Bagd tornou-se
residncia do califa al-Mansur (754-775) em 762, a qual foi transformada

                                                                                    AsCidadesnaHistria 119
                                   EnsinoMdio

                             Documento 2                                                                no primeiro entreposto comercial do Oriente
                                                                                                        Mdio, possua intensa vida intelectual e
                                                                                                        era o grande centro do mundo islmico.
                                                                                                            Cairo, a cidade dos califas, desde o
                                                                                                        ano de 973, foi sede das universidades de
                                                                                                        Al-Azhar, e de Fustat; no sculo XII, teve
 n http://pt.wikipedia.org




                                                                                                        toda a sua volta cercada por muralhas,
                                                                                                        construdas na poca de Saladino (Salah
                                                                                                        al-Din Yusuf, 1138-1193). Essa cidade
                                                                                                        tornou-se um centro comercial, industrial
                                                                                                        e intelectual e, atualmente, atrai milhares
                                                                                                        de turistas do mundo inteiro (documento 2).
                             n Cidade do Cairo, capital do Egito;                                       Mas como  a cidade do Cairo hoje? Voc
                                                                                                        pode ficar sabendo mais lendo o texto
                                                                                                        jornalstico expresso no documento 3.


                                    Documento 3
                                  Por um lado, a capital do Egito sofre dos problemas comuns a todas as cidades que cresceram
                               em ritmo acelerado sem terem recursos para acompanhar a exploso demogrfica e urbana. Por outro,
                               tem uma vibrao nica. Que  sentida com mais nfase aps o anoitecer, quando seus habitantes se
                               encontram para bater papo e namorar nas pontes sobre o Nilo e nos calades s suas margens. O
                               som das rezas nas mesquitas une-se ao rudo incessante das buzinas dos carros e  msica estridente
                               dos barcos-boates que sobem e descem o rio para tornar as noites frenticas.
                                  O centro da cidade foi construdo na metade do sculo 19 por Khedive Ismail, um monarca francfilo
                               que se inspirou nas ruas retas e planejadas de Paris. Mas, aos poucos,  o incrvel passado longnquo
                               da cidade que se torna cada vez mais presente, com todas as suas contradies.
                                   Essa herana est em vrias igrejas, como a Suspensa, construda sobre as fundaes de uma
                               fortaleza romana, exemplo nico da arquitetura, da decorao e dos smbolos religiosos coptas.
                                   H o Cairo islmico, que se espalha por uma grande rea e tem inmeras mesquitas, tumbas,
                               palcios e, claro, a Cidadela e o bazar Khan al Khalili. Das dezenas de mesquitas, trs se destacam. A
                               do sulto Hassan, erguida entre 1356 e 1363, durante o imprio mameluco,  um dos maiores edifcios
                               islmicos do mundo.
                                    Chama a ateno pela imponncia arquitetnica em especial do ptio central, cercado por quatro
                               madrassas (escolas), dedicadas s quatro vertentes do pensamento islmico dominantes no Cairo na
                               poca. O mausolu do sulto tem uma cpula altssima, onde a orao do imame local (ministro da
                               religio muulmana) ecoa com uma beleza nica.
                                   J a mesquita Al Azhar, construda em 970,  considerada a mais antiga universidade do mundo.
                               As opinies de seus chefes religiosos so ouvidas com ateno em todo o mundo muulmano, motivo
                               pelo qual ela  chamada de Vaticano do islamismo.
                                   Finalmente, h a mesquita de Ibn Tulun, erguida em 879 no estilo arquitetnico caracterstico do
                               Iraque, inclusive com um minarete em formato de zigurate (templo babilnio antigo em forma de torre
                               piramidal, com uma escada externa em espiral).
                                        (Adaptado de CAIRO  um caleidoscpio de sensaes. Folha de S.Paulo online. 29/03/2004 - 02h41. Turismo. http://www1.
                                                                              folha.uol.com.br/folha/turismo/noticias/ult338u3962.shtml  Acessado em: 02/10/2005).


120 Relaesculturais
                                                                                                          Histria



                ATIVIDADE

    Sintetize, por escrito, os aspectos urbanos da cidade do Cairo que mais lhe despertaram ateno.
 Compare as permanncias e as mudanas entre a Cairo medieval e a atual, conforme apontado no
 documento 3.


                                                                 Documento 4
    Outra importante cidade para os povos islmicos tem
sido Meca, na Arbia Saudita. Nesta cidade nasceu o
profeta Maom (570-632), fundador da religio muulmana
ou islamismo. No ano 630, essa cidade foi conquistada
por Maom, que imps sua religio aos rabes. Desde
ento, Meca tornou-se a "cidade santa", o lugar para onde




                                                                                                                   n http://www6.estadao.com.br
destinam-se caravanas de fiis, pois l encontra-se a Caaba
(santurio da religio muulmana).
    Alm de sua importncia religiosa, a cidade desen-
volveu-se como centro comercial. Ainda hoje, Meca
atrai seguidores de vrias partes do mundo, conforme
demonstra o documento 4.
     Voc poder conhecer mais sobre algumas dessas              n A Caaba na cidade de Meca , sendo visitada
                                                                   muulmanos.
cidades, analisando os textos da historiografia.

     Texto 5
     Bagd
     Um palcio e uma mesquita que al-Mansur mandou construir no lado oriental do rio motivaram a
 o desenvolvimento de um rico bairro que ficou ligado  cidade por duas pontes de barcos. Do centro
 real dos dois lados do Tigre, ruas estreitas e tortas, assim feitas para evitar o sol, apresentam suas
 ruidosas lojas at as proximidades dos distritos dos ricos. Cada negcio tinha a sua rua ou mercado:
 perfumistas, cesteiros, cambistas, teceles de seda, livreiros, etc. Acima e alm das lojas ficavam as
 casas do povo. Com exceo das residncias dos ricos, todas as casas eram de tijolo cru, feitas para
 o curso de uma vida, no mais. Harun reconstruiu e ampliou uma primitiva mesquita de al-Mansur e al-
 Mutadid reconstruiu e ampliou essa mesquita de Harun.
     Dentro ou perto de Bagd ergueram-se milhares de esplndidas manses, vilas, palcios simples
 por fora, porm no interior nada seno ouro e azul.
                                                                           (Adaptado de GIORDANI, 1976, p. 216.)


     Texto 6
     A iluminao pblica, quando existia, era feita por lmpadas de petrleo (no Ir e na Mesopotmia)
 ou lmpadas de azeite (na Sria e no Egito). A grande mesquita de Damasco era profusamente iluminada
  noite, o que atraa grande nmero de habitantes para um passeio noturno. Nas localidades em que
 no existia iluminao pblica, os transeuntes movimentavam-se levando consigo lanternas.



                                                                                      AsCidadesnaHistria 121
       EnsinoMdio


        As cidades muulmanas estavam providas de hospitais onde mdicos e enfermeiros cuidavam
     de dezenas de doentes. Todos esses estabelecimentos prestavam assistncia gratuita, pois sua
     manuteno era assegurada pelo Estado ou por ricos benfeitores.
        Uma das caractersticas das cidades muulmanas era a existncia de estabelecimentos de banho
     pblico (hammms) reservados para as mulheres, outros para os homens.
                                                                        (Adaptado de GIORDANI, 1976, p. 217.)



                     ATIVIDADE

        Em grupo, analise os textos 5 e 6. Converse com os colegas e expresse sua opinio. Depois
     organize suas idias e escreva uma narrativa histrica sobre as cidades muulmanas.



                              AscidadesnaAmricapr-colombiana
                                Voc sabia que nas civilizaes Asteca (Amrica do Norte), Maia
                            (Amrica Central) e Inca (Amrica do Sul), embora possussem uma
                            economia agrcola, parte da populao vivia nas cidades? Ento, como
                            seriam estas cidades?
                            a) Cidades astecas: Entre as cidades astecas, destacou-se a de
                                Tenochtitln, a qual comeou a ser construda em 1325, fundada
                                numa ilha do lago de Texcoco, no Vale do Mxico (hoje, norte da
                                Cidade do Mxico), famosa pelos templos, em forma de pirmides,
                                do sol e da Lua. A principal cidade dos Astecas foi ampliada em 1476,
                                com anexao da cidade de Tlatelolco. Com a sua extenso pelas
                                terras pantanosas, a cidade possua canais (em 1449, o imperador
                                Montecuhzoma I [1390-1469] construiu diques contra inundaes),
                                ruas e praas, com mais ou menos 500 mil habitantes e 100 mil
                                domiclios. Tlatelolco tornou-se o principal centro comercial.
                                    Na praa, cercada por arcos, funcionava o mercado, que circulava
                                cerca de 20 mil a 25 mil pessoas, onde trocavam-se mercadorias
                                como: tecidos, peles, madeira, tabaco, jias, etc.. Havia tambm
                                lojas de boticrios, cabeleireiros e outros. A polcia cuidava da
                                segurana do tianquiztli (mercado), juntamente com um tribunal de
                                trs magistrados procurava resolver os problemas de ordem. O rei
                                Nezaualcoyt mandou construir um palcio com mais de 300 peas,
                                com jardins ornamentados, na cidade de Texcoco. A hegemonia de
                                Tenochtitln deu-se da aliana com os tepanecas de Atzcapotzalco
                                e, depois, com as cidades de Texcoco e Tlacopan (Trplice Aliana,
                                1434), que consolidou-se com o rei Motecuzohma ou Montezuma I.
                                Quando os espanhis chegaram s cidades astecas (1519), estes
                            povos tinham como imperador: Motecuzohma ou Montezuma II (1466-

122 Relaesculturais
                                                                                                           Histria

1520). A cidade de Texcoco era a capital intelectual, literria e sede do
tribunal superior, que regulava assuntos pendentes.
    Leia a narrativa histrica presente no texto 7 e conhea mais sobre
a cidade de Tenochtitln.

     Texto 7
     O centro da cidade fixou-se sobre a ilha rochosa, onde o grande sacerdote Quauhcoatl, respondendo
 ao apelo de deus, erigira o principal santurio Uitzilopochtli. Ali se erguia o Teocalli, pirmide cujo topo
 se alcanava por meio de trs escadarias de 120 degraus, encimada pelos santurios gmeos de
 Uitzilopochtli e de Tlaloc. Sucessivamente ampliada pelos soberanos, esse templo fora inaugurado no
 ano de `Oito-Cana' (1487) pelo imperador Auitzotl. Ao seu redor, no interior de um vasto cinturo recortado
 por seteiras decorado com cabeas de serpentes, eleva-se o templo arredondado de Quetzalcoatl, o
 templo de Tezcatlipoca, o da deusa terrestre Ciuacoatl, o de Coacalco, panteo consagrado ao culto
 de deuses estrangeiros, o do Sol e inmeros outros santurios, casas de orao, campos de jogo ritual
 de bola, os calmecac (monastrios-colgios), o Mecatlan (escola de msica), e tambm os arsenais
 (cochcalli) confiados a uma guarnio de elite. Era, em suma, verdadeira cidade santa, guarnecida de
 pirmides e torre, que dominava (no atual bairro de Zocalo, onde se eleva a catedral de Mxico e o palcio
 do presidente da Repblica) a praa central, ao lado dos palcios imperiais edificados por Axaycatl,
 Auitzotl e Motecuhzoma II. Este ltimo palcio, situado em um quadriltero de aproximadamente 200m
 de lado, apresentava-se como um vasto conjunto de edifcios com um ou dois andares, agrupados
 em torno de jardins interiores. Ali se penetrava tanto por terra como de barco, atravs dos canais que
 o recortavam. A um tempo residncia do soberano e centro poltico e administrativo, o palcio era
 composto de apartamentos, sala de reunio, tribunais, depsitos do tesouro, escritrios dos coletores
 de impostos.
     O prprio Uitzilopochtli ordenara aos Astecas que dividissem a cidade em quatro grandes bairros: a
 leste, Teopan (`o bairro do templo'); a oeste, Aztacalco (`casa das graas reais'); ao norte, Cuepopan (`l
 onde desabrocham as flores'); ao sul, Moyotlan (`lugar de mosquito'). Esses quatro bairros abrigavam
 as fratrias territoriais ou calpulli, cada qual fornecendo um contingente de guerreiros. Por sua vez, cada
 calpulli possua seu templo e sua `casa dos jovens', colgio de nobres, cujo luxo se aproximava tanto
 quanto possvel dos palcios imperiais, as casas mais modestas dos negociantes e dos artesos e
 as casas dos simples cidados situavam-se ao longo das ruas e canais. Por toda parte, a gua do
 lago murmurava, por entre as casas, e as canoas deslizavam silenciosamente pela cidade. Todos os
 transportes eram feitos por meios de embarcaes.
                                                                          (Adaptado de SOUSTELLE, 1987, p. 47-48.)


b) Cidades maias: foram centros urbanos com fins religiosos e
   administrativos. Entre as cidades que mais destacaram-se esto:
   Tikal, Copan, Palenque. A cidade mais antiga do imprio Maia,
   Tikal (na Guatemala), possua edifcios pblicos e residncias.
c) Cidades incas: A cidade de Tiahuanaco, hoje composta por um
   pequeno povoado, ao sul do lago de Titicaca, foi um dos centros
   do imprio Inca, da mesma forma que Chavn de Huantar ou
   Tenochtitln foram centros religiosos dos imprios Maia e Asteca,
   respectivamente. Os peregrinos que se dirigiam a essa cidade eram
   utilizados como mo-de-obra para levantar as pirmides de Puma-

                                                                                       AsCidadesnaHistria 123
       EnsinoMdio

                               puncu, os palcios dos sacerdotes e a Porta do Sol, no templo de
                               Kalasasaya (talhada em bloco macio de pedra).
                               A cidade de Chan-Chan possua um conjunto de 18 km de superfcie,
                            divididos em 10 bairros separados por muros. Dos povos Chimus, os
                            Incas adaptaram o sistema de comunicao com homens em lugares
                            preestabelecidos, o que possibilitou maior contato entre a capital e
                            outras localidades.
                               Cuzco era a capital do imprio, destacou-se por seus palcios e
                            templos (do Sol, Viracocha, Virgens do Sol, etc.). Entre as construes
                            existiam casas feitas com pedras, eram blocos poligonais, ajustados
                            sem cimento e tetos de palha. Havia outras casas, todas de madeira,
                            entre ruas longas e estreitas. Os Incas tambm tiveram outras cidades,
                            como: Machu Picchu, Tumipampa, Cajamarca, Huari, etc.


                     PESQUISA

         Pesquise sobre as caractersticas das cidades pr-colombianas. Depois, troque idias com seus
     colegas e expresse sua opinio por escrito.




                     ATIVIDADE

         Faa uma narrativa histrica apontado as semelhanas e diferenas entre as cidades dos povos
     astecas e incas.



                               AexpansourbananaEuropados
                               sculosXIXIII
                               Voc sabia que, desde a Idade Mdia, as catedrais destacavam-se
                            por sua imponncia nas cidades?
                               Na Europa Ocidental, a partir do sculo XI, houve um desen-
                            volvimento de ncleos urbanos. Estas cidades desenvolveram-se em
                            torno dos castelos ou palcios episcopais, com limites determinados
                            por muralhas que protegiam seus habitantes. Formava-se, assim, de
                            um lado a cidade e, de outro, os burgos da periferia. O governo das
                            cidades era exercido por um senhor leigo (um conde) ou por um
                            bispo, no caso das cidades episcopais. Sobre seu territrio, a cidade
                            passou a exercer o poder de cobrar taxas. Nelas viviam guerreiros
                            (defensores das cidades), burgueses (garantiam a prosperidade dos
                            negcios comerciais), padres, artesos, mestres e outros.


124 Relaesculturais
                                                                                                    Histria

   Na Europa, a partir do sculo XII, as relaes sociais presentes Documento 5
nas cidades medievais reforaram o sentimento cristo. A inquietude
com a salvao da alma contribuiu para as construes de catedrais.
Para tanto, os burgueses ricos contriburam com doaes em dinheiro,
os mercadores e as corporaes de ofcio com a oferta de vitrais e
materiais de construo, como foi o caso da construo da catedral de
Chartres (1145). Foi intenso o movimento urbano e suburbano do clero
catlico, a religio catlica influenciou a vida das pessoas nas cidades
e no campo. Desta forma, a importncia da moral religiosa catlica,
expressava-se na arquitetura das grandes catedrais do sculo XII, com
o estilo romnico, apontando mudanas para o estilo gtico.


  Cidadesecatedrais:romnicaegtica                                             n Catedral de Pisa com seu
                                                                                  campanrio (1063-1272) -
                                                                                  PROENA, 2003, p. 60.
     Na catedral de Pisa, na Itlia, manifestou-se a arquitetura
                                                                 Documento 6
romnica. Em 1063, iniciou-se a construo do prdio da
catedral, a planta era em formato de cruz, com uma cpula
no encontro dos braos, a frente era em forma de fronto,
caractersticas dos templos gregos.
    O edifcio mais conhecido do conjunto foi o campanrio.
Trata-se da famosa Torre de Pisa, inclinada porque o
terreno cedeu. A construo da Torre de Pisa foi iniciada
no ano de 1174. O elemento que mais chamava ateno
foi a superposio de delgadas colunas de mrmore, que n Catedral de Notre-Dame de Paris (iniciada em
                                                                   1160). PROENA, 2003, p. 66.
formavam sucessivas arcadas ao redor de todos os andares
do edifcio, conforme voc pode observar no documento 5.
    A arte romnica predominou at o incio do sculo XII, quando
mudanas como a expanso do comrcio contriburam para uma
revoluo da arquitetura. Essa nova arquitetura foi chamada de gtica.
Esse estilo seguiu a verticalidade romnica, que, devido  religiosidade,
refletia o desejo de ascenso espiritual.
    A catedral de Notre-Dame de Paris, na Frana,  a que melhor
expressa o estilo gtico. Teve sua construo iniciada no ano de 1160.
Foram empregados novos recursos tcnicos para esta construo, feita
com arcos ogivais, abbada e verticalidade. Nas aberturas laterais,
foram colocadas janelas com lindos vitrais. Seu comprimento  de
150,20 metros e suas principais abbadas esto a 32,50 metros do
cho, conforme voc pode verificar no documento 6.
    Mas como caracterizar especificamente os estilos de arquitetura
romnica e gtica das catedrais?

     Documento 7
    A caracterstica mais importante da arquitetura gtica  a abbada de nervuras; ela difere muito da
 abbada de arestas da arquitetura romnica, porque deixa visveis os arcos que formam sua estrutura.


                                                                                 AsCidadesnaHistria 125
       EnsinoMdio


         O que permitiu a construo desse novo tipo de abbada foi o arco ogival, diferente do arco pleno
     do estilo romnico. A conseqncia imediata do emprego dos arcos ogivais foi a possibilidade de
     construir igrejas mais altas. Alm disso, o alto acentua a impresso de altura e verticalidade.
          Outro recurso arquitetnico usado no estilo gtico foram os pilares, chamados tecnicamente de
     suportes de apoio, dispostos em espaos bem regulares. A conseqncia esttica mais importante
     desse ponto de apoio da construo foi a substituio das slidas paredes com janelas estreitas, de
     estilo romnico, pela combinao de pequenas reas de paredes com grandes reas preenchidas por
     vidros coloridos e trabalhados.
                                                                                           (PROENA, 2003, p. 64.)



                     ATIVIDADE

        Aps observar os documentos 5 e 6, leia o documento 7. Depois organize um quadro comparativo
     das diferenas nos estilos arquitetnicos das catedrais romnica e gtica.

      Voc pode saber mais sobre as cidades medievais discutindo os textos que a historiografia
   nos apresenta.
        Texto 8
          Em Limoges, existia no sculo XIII, a Claustre (o mercado dos trigos), mercados de peixes, de
     legumes, e dois mercados de carne. Uma rua era destinada aos cambistas, a rue des taules [ruas
     das mesas]. Havia uma feira em 30 de junho em Saint-Martial, coincidindo com uma peregrinao s
     relquias do santos, e outra em Saint-Graud, em 13 de outubro.
          Em Bourges, havia trs feiras propriamente ditas na praa do Mercado Velho: no Natal, no dia de
     Santo Ambrsio (18 de outubro, mas tambm a 29 de junho, o dia dos santos Pedro e Paulo) e no
     de Santo Ursino, esta confirmada por Lus VII [1120-1180] em 1157. A estas se acrescentavam vrias
     pequenas feiras que eram antes mercados: a feira de Saint-Martin, a feira de Saint-Oustrille, feira dos
     carneiros gordos em maio, a feira das Cinzas ou `feira magra' ou `feira das ameixas secas' na Quarta-
     feira de Cinzas e trs feiras dos aros e da aduela, Saint-Laurent (no cemitrio de Saint-Bonnet), Saint-
     Barthlemy e Saint-Ladre.
                                                                                 (Adaptado de LE GOFF, 1992, p. 69.)


        Texto 9
         Florena  indiscutivelmente a cidade italiana onde os ofcios se destacam mais vivamente e onde os
     seus diversos papis so mais evidentes. Os diversos ofcios, ou "artes", desenvolveram-se e criaram
     a sua fora de maneira progressiva. O primeiro passo importante foi dado em 1267, quando os sete
     ofcios mais ricos se constituem como fora econmica e tambm poltica de primeira ordem. A Arte di
     Calimala (composta por grandes mercadores de tecidos), a de Seta (grandes negociantes de seda), a
     da Lana (fabricantes de lanifcios), a arte dos peleiros, a arte dos merceeiros, negociantes de miudezas
     e remdios, a arte do cmbio e a dos juizes e notrios  as sete "artes maiores" - formam o popolo
     grosso; estas sete "artes" dominam, de incio sozinhas e depois na companhia das outras artes que
     quase sempre se mantiveram como suas subordinadas, a grande cidade de Lis.
                                                                                         (FOURQUIN, 1991, p. 265.)

126 Relaesculturais
                                                                                                        Histria


   Texto 10
   Com Georges Chevrier, observamos o prefeito de Dijon no sculo XIII. Ele  eleito todos os anos no
cemitrio de Saint-Beningne, na vspera do dia de So Joo, por todos os homens inscritos na lista
da parquia. Estes se apresentam um depois do outro perante o escabino mais antigo, que detinha a
guarda dos Evangelhos, e ditavam ao escriba o nome de seu candidato, que este inscrevia na margem
da lista. Recolhidos os sufrgios, o guarda dos Evangelhos proclamavam o novo eleito e depois o
apresentava ao bailio de Dijon. Em procisso solene, o novo eleito dirigia-se a Notre-Dame, igreja da
comuna, onde prestava juramento de fidelidade ao duque e jurava conservar as prerrogativas do duque
e os privilgios da cidade.
                                                                                        (LE GOFF, 1992, p. 91.)


   Texto 11
    Um xito retumbante foi a Paris, de Filipe Augusto [1165-1223] e de Filipe VI [1293-1350], que
tornou-se capital. A Cit, cidade episcopal e monrquica,  margem direita, resultado de um brilhante
sucesso econmico;  margem esquerda, com a formao de uma cidade escolar e universitria onde
apareceu um novo poder, o studium, os intelectuais, ao lado do sacerdotium e do regnum, a Igreja e
a realeza, presentes em toda parte, mas que o estavam simbolicamente, e mais ainda, na Cit, e a
burguesia, poderosa sobretudo na margem direita, continuou sendo mais uma potncia de fato que de
direito. O primeiro ato decisivo foi a instaurao e o desenvolvimento por Lus VI (1123 e 1137) de um
`novo mercado' nos Champeaux. Felipe Augusto transferiu para os Champeaux a feira de Saint-Lazare
ou Saint-Ladre, que ele comprara aos leprosos (1181), e fez construir dois grandes mercados (1183)
para mercadorias finas, tecidos, armarinho, pele.
    Na altura de 1186, Filipe Augusto, incomodado, ao que parecia, pelo mau cheiro levantado pelas
janelas de seu palcio, ordenou aos burgueses que mandassem pavimentar todas as ruas da cidade,
o que se fez em blocos de arenito. A muralha de 1190 reuniu, numa nica `cidade', o `bairro de greve',
o bairro do porto fluvial e da contratao de mo-de-obra, e o `bairro dos balles', bairro do comrcio.
Finalmente, por um acordo com o bispo de Paris e o captulo, a forma pacis de 1222 definiu e limitou
os direitos da Igreja de Paris no interior da cidade, que pde, sob o controle e a proteo do rei,
desenvolver sua atividade econmica.
                                                                      (Adaptado de LE GOFF, 1992, p. 135-136.)




               ATIVIDADE

    Utilizando-se das leituras dos documentos 8, 9, 10 e 11, organize suas idias em um quadro,
comparando as caractersticas de cada cidade medieval. Discuta em grupo e apresente o quadro para
a sala.
   No final, anote suas concluses e construa uma narrativa histrica comparando as cidades medievais
com cidades que existiam na mesma poca em outros locais.




                                                                                   AsCidadesnaHistria 127
       EnsinoMdio

      RefernciasBibliogrficas
       ENCICLOPDIA Sculo XX. Rio de Janeiro: Jos Olympio, Expresso e Cultura, v.2, 1972, p. 524.
       FOURQUIN, G. Histria econmica do ocidente medieval. Rio de Janeiro: Edies 70, 1991, p.
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       FREDERIKSEN, M. W. Cidades e Habitaes. In:BALSDON, J. P. V. (org.). O mundo romano. Rio de
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128 Relaesculturais
                         Histria



ANOTAES




            AsCidadesnaHistria 129
       EnsinoMdio




130 RelaesdeTrabalho
                                                                                                   Histria




                                                                                           7
                                                             RELAES DE TRABALHO:
                                                      Urbanizao e industrializao no Brasil
                                                                                          n Siumara Sagati1




                                                                      omo se deu o processo de or-
                                                                      ganizao do espao urbano
                                                                     brasileiro? Como as atividades
                                                                     econmicas interferiram neste
                                                                   processo?




1
 Colgio Estadual Jos de Anchieta  Apucarana  PR


                                                                     UrbanizaoeIndustrializaonoBrasil 131
       EnsinoMdio

                                   AtividadeseconmicasnoBrasilcolonial
                                   As primeiras atividades manufatureiras no Brasil colonial (sculo
                                XVI a XIX) foram a fabricao do acar em engenhos e a minerao
                                de ouro, ambas utilizando tcnicas bastante rudimentares. Visto que
                                o pas era uma colnia destinada a fornecer ao comrcio europeu so-
                                mente alguns gneros agrcolas tropicais, que tinham grande expres-
                                so econmica, ou minrios de alto valor, todas as outras atividades
                                produtivas assumiram um carter secundrio e serviram apenas para
                                dar subsdios ao objetivo principal, que era a exportao.
                                   Sobre este tema, observe o que diz a historiografia:


         Texto 1
         Durante os trs primeiros sculos de nossa histria, as atividades industriais (aqui entendidas no
     sentido genrico do termo) reduziram-se, praticamente,  fabricao do acar nos engenhos e na mi-
     nerao. As tcnicas utilizadas em ambos os casos eram bastante rudimentares, havendo pouca di-
     ferena entre o processo de fabricao do acar e da aguardente no sculo XVI e no incio do scu-
     lo XIX.
         Durante esse perodo colonial uma srie de outras atividades foram desenvolvidas, porm todas
     com um carter de atividade acessria. Por exemplo, a produo de tecidos data dos primeiros anos
     da colonizao. O algodo, que j era conhecido e utilizado pelos indgenas, continuou a ser cultivado
     pelos portugueses em certas capitanias, dando origem a uma produo txtil domstica de certa im-
     portncia, principalmente no Par e no Maranho, que chegou a exportar tecidos para o Reino. Tam-
     bm no Cear e em So Paulo e, algum tempo depois, em Minas Gerais, desenvolveu-se muito a pro-
     duo de tecidos.
         A construo naval foi a atividade industrial que reuniu, junto com os engenhos, o maior nmero de
     trabalhadores por unidade de produo durante a colnia. No incio, eram servios de assistncia aos
     navios em trnsito, quando necessitados de reparo. Essa indstria naval estimulou o aparecimento de
     vrias outras manifestaes manufatureiras nos sculos XVII e XVIII: confeco de cordas, velas, cabos,
     estopas e leos.
          Alm das atividades acima mencionadas, ainda poderamos lembrar a produo de charque (no Sul)
     e de gneros alimentcios, a preparao de fumo de corda, a fabricao do anil, a extrao do sal, a
     produo de azeite de baleia  usado na iluminao pblica , a confeco de mveis, construo ci-
     vil (casas, pontes, aquedutos), como manifestaes de atividades industriais e manufatureiras no Bra-
     sil-colnia. Sem falar na atividade artesanal que era exercida, tanto nos engenhos e fazendas como nas
     cidades, por ferreiros carpinteiros, seleiros, ourives, sapateiros, alfaiates, serralheiros, latoeiros, curtido-
     res, oleiros e outros.
                                                                                  (Adaptado de HARDMAN, 1991, p.23-26.)



                                   A enumerao de todas essas atividades no deve fazer voc esque-
                                cer um dos aspectos essenciais da colonizao brasileira, que foi o de
                                uma colnia destinada a fornecer ao comrcio europeu alguns gne-
                                ros tropicais e de grande expresso econmica.

132 RelaesdeTrabalho
                                                                                                                Histria


    Texto 2                                                                   Documento 1




                                                                                                                          n www.cliohistoria.hpg.ig.com.br
    A fbrica, na Europa, e o engenho de acar, nas colnias, no
foram resultados imediatos de um desenvolvimento crucial das ba-
ses tcnicas de produo, mas, ao contrrio, representaram formas
peculiares de organizao social do trabalho para a obteno, sob
garantia absoluta, do lucro do capitalista, e ambas se figuraram pe-
la concentrao em um mesmo lugar de trabalho, e em larga esca-
                                                                               n HENRY KOSTER (1784-1819). Engenho
la, de trabalhadores despossudos de meios de produo e de sa-
                                                                                 de cana, 1816. Litogravura, BMSP, KOS-
ber tcnico.                                                                     TER, [1816] 1942.
    Ao nos aproximarmos dos textos de viajantes e de habitantes de
colnia que descreveram em pormenores o universo do engenho,                   Documento 2




                                                                                                                          n www.cliohistoria.hpg.ig.com.br
o nosso espanto pode ser grande, j que inadvertidamente pode-
mos confundi-los com qualquer descrio das fbricas do perodo
de Revoluo Industrial. Todo o universo infernal das "satnicas fbri-
cas escuras" descritas por Engels, em 1844, em sua obra A situao
da classe trabalhadora na Inglaterra, pode encontrar correspondn-
cia num extraordinrio sermo do Padre Vieira, datado de 1633, que
anuncia assustadoramente a sua viso do engenho de acar:
                                                                               n HERCULE FLORENCE (1804-1879). Enge-
    " verdadeiramente quem via na escuridade da noite aquelas for-        nho de Cana - So Carlos, 1840. Aquare-
nalhas tremendas perpetuamente ardentes; as labaredas que esto            la, c.i.d. 21 x 31,5 cm.
saindo aos borbotes de cada uma pelas duas bocas ou ventas, por
onde respiram o incndio; os etopes, ou ciclopes banhados em su-
or to negros como robustos que subministram a grossa dura matria ao fogo, e os forados com que
o revolvem e atiam; as caldeiras em lagos ferventes, com os canhes sempre batidos e rebatidos, j
vomitando espumas, exalando nuvens de vapores, mais de calor que de fumo, e tornando-se a cho-
ver para outra vez o exalar; o rudo das rodas, das cadeias, da gente toda de cor da mesma noite, tra-
balhando vivamente e gemendo tudo ao mesmo tempo, sem momento de trguas, nem de descanso;
quem vir enfim toda a mquina e aparato confuso e estrondoso, no poder duvidar, ainda que tenha
visto o Ethnas e Vesvios, que  uma semelhana do inferno." (Adaptado de DECCA, 1984, p. 7-49.)



    Texto 3
     A partir de princpios do sculo XVIII, no centro do que hoje se constitui o Estado de Minas Gerais,
se fazem as primeiras grandes descobertas de jazidas aurferas. A minerao do ouro ocupar duran-
te trs quartos de sculo o centro das atenes de Portugal.Vejamos um aspecto da indstria minera-
dora: como se organiza e funciona a explorao das jazidas. Encontramos a dois tipos de organizao:
o primeiro  o das lavras, que se emprega nas jazidas de certa importncia. As lavras so estabeleci-
mentos de algum vulto, dispondo de aparelhamento especfico, e onde sob direo nica e trabalhan-
do em conjunto, renem-se vrios trabalhadores. Ope-se  lavra, a pequena extrao realizada por
indivduos isolados que no empregam seno uns poucos instrumentos rudimentares. So os chama-
dos faiscadores.
                                                                              (Adaptado de PRADO JR. 1984, p.56-59.)




                                                                       UrbanizaoeIndustrializaonoBrasil 133
        EnsinoMdio



                          ATIVIDADE

        A partir da leitura dos textos 1, 2 e 3, o que seria possvel afirmar sobre as atividades industriais do
     Brasil no perodo colonial?



                                          AscidadesnahistriadoBrasil
     Salvador foi fundada em               A economia colonial apresentava-se segmentada em uma srie de
    29 de maro de 1549. Foi           regies, cada uma vinculada  economia da metrpole (ou  economia
    a capital brasileira de 1549 a     dos pases industrializados). Estas regies tinham por plo, geralmen-
    1763. A posio estratgica        te, um ncleo urbano que desempenhava, em relao ao todo, funes
    da "Baa de Todos os Santos"       comerciais, administrativas, religiosas, etc.
    criou ligaes entre Portugal,         Veja como a historiografia discute a formao deste ncleos urbanos.
    Brasil e frica. As condies
    naturais, que propiciavam              Erguida no alto de uma escarpa, entre a Baa de Todos os Santos
    aos navegadores portugue-          e os morros, Salvador foi a primeira cidade planejada do Brasil, cons-
    ses a parada segura de suas        truda nos moldes das cidades portuguesas, com ruas estreitas, curvas
    embarcaes, foram decisi-         e dispostas perpendicularmente umas s outras. A exigncia de defe-
    vas na sua escolha como lo-        sa determinou nos primeiros anos a predominncia de muralhas. A ci-
    cal para a primeira capital do     dade cresceu e "na passagem do sculo XVII para o XVIII, Salvador j
    Brasil. Seu desenvolvimen-         reunia 100.000 moradores". (SANTOS, 1994, p.20)
    to se deveu  primeira ativi-          Na vida urbana da economia colonial, as funes no-econmicas
    dade agrcola de peso, a ca-
                                       (administrativas, religiosas, militares), via de regra, superavam, em im-
    na-de-acar, no Recncavo
                                       portncia, as econmicas, que se reduziam quase s ao comrcio. A ci-
    Baiano e tambm na Zona da
                                       dade colonial era o entreposto das mercadorias destinadas  exporta-
    Mata do Nordeste.
                                       o e das mercadorias importadas.
    Documento 3                                                            Documento 4




   n A cidade de Salvador, ainda murada, em 1625. Desenho. VERSSIMO et.   n Pelourinho, Salvador. Fotografia. Fonte: http://cienciahoje.uol.com.br.
     all., 2001.

                                            no que se resumia, por exemplo, a vida econmica de Recife at
                                       o fim do sculo XIX: escoava o acar dos engenhos e o algodo e dis-
                                       tribua os artigos estrangeiros importados.
134 RelaesdeTrabalho
                                                                                                                   Histria




                                                                                                                               n www.sitededicas.com.br
    Em 1630, os holandeses empreenderam a conquista de Pernambu- Documento 5
co, a mais rica colnia aucareira de Portugal. O fato teve grande sig-
nificado para a histria de Recife, que, a partir deste momento, tornou-
se o centro de todo Nordeste aucareiro.
    Os holandeses resolveram fortificar-se em Recife, ampliaram as
                                                                                           n FRANZ POST (1612-1680). Vis-
construes, fizeram aterros na bacia do Beberibe e construram, no
                                                                                                ta da Cidade Maurcia e
lugar em que antes havia apenas um porto e um pequeno povoado,                                  Recife, 1657. leo sobre ma-
uma verdadeira cidade, que contaria ento com cerca de 2.000 casas
e 8.000 habitantes. Os holandeses no procuraram Documento 6
intervir na cultura nem na fabricao do acar. In-
teressava-lhes mais assegurar o seu comrcio. Da
o carter nitidamente urbano da colonizao ho-
landesa, que diferenciava-se da colonizao portu-
guesa, cuja nfase estava na ocupao agrria.
    A urbanizao de Recife se iniciou em 1637




                                                                                                                               n www.sitededicas.com.br
com um plano bem traado pelos holandeses pa-
ra melhoramento da cidade, priorizando um sis-
tema defensivo, construo de pontes para viabi-
lizar as comunicaes e at um Jardim Botnico.
Em meados do sculo XVII, Recife era possivel-
mente a segunda cidade brasileira e uma das mais n EMIL BAUCH (1823  c. 1890). Ponte Maurcio de Nassau, s-
modernas do continente do ponto de vista urba-            culo XIX. litografia aquarelada. S/l.
nstico. Veja o que o historiador diz:

      Texto 4
       Esse progresso urbano era ocorrncia nova na vida brasileira, e ocorrncia que ajuda a melhor dis-
  tinguir, um do outro, os processos colonizadores de "flamengos" e portugueses. Ao passo que em todo
  o resto do Brasil as cidades continuavam simples e pobres dependncias dos domnios rurais, a metr-
  pole pernambucana "vivia por si". Ostentavam-se nela palcios monumentais como o de Schoonzicht e
  o de Vrijburg. Seus parques opulentos abrigavam os exemplares mais vrios da flora e da fauna indge-
  nas. Neles  que os sbios Piso e Macgraves iam encontrar a mo material de que precisavam para a
  sua Historia Naturalis Brasilae e onde Franz Post se exercia em transpor para a tela as cores mag-
  nficas da natureza tropical. Institutos cientficos e culturais, obras de assistncia de toda a ordem e im-
  portantes organismos polticos administrativos (basta dizer que em 1640 se reunia em Recife o primeiro
  Parlamento de que h notcia no hemisfrio ocidental) davam  sede do governo da Nova Holanda um
  esplendor que a destacava singularmente no meio da misria americana. Para completar o quadro, no
  faltavam sequer os aspectos escuros, tradicionais da vida urbana de todos os tempos: j em 1641, a
  zona do porto de Recife constitua, para alguns, verdadeiro "antro de perdio".
                                                                                       (Adaptado de HOLLANDA, 1995, p.63.)

    A ocupao do solo mineiro, regio mais central do Brasil, esteve
ligada diretamente aos descobrimentos aurferos do fim do sculo XVII
e incio do sculo XVIII, que atraiu milhares de pessoas, as quais fo-
ram responsveis pela formao dos primeiros ncleos urbanos na re-
gio das minas.

                                                                             UrbanizaoeIndustrializaonoBrasil 135
                              EnsinoMdio

                                                               A produo mineira estava geograficamente condicio-
                      Documento 7                            nada  localizao das jazidas aurferas e os ncleos ur-
                                                               banos  que surgiram em funo desta atividade  ad-
                                                                quiriram, geralmente, carter especializado de lugar
                                                                  de moradia dos mineradores e da comercializao de
                                                                   produtos. A importncia de cidades mineiras, como
                                                                    Mariana, Ouro Preto, Sabar, So Joo Del Rei, Tira-
                                                                    dentes, etc., limitava-se  quantidade de ouro que
                                                                     podia ser extrada em suas proximidades.
                                                                         Todas as cidades vinculadas puramente  mine-
                                                                     rao, mostraram-se desligadas daquelas qualidades
                                                                    de posio e situao que eram de tamanha impor-
                                                                    tncia para outras cidades. Aspectos como uma lo-
                                                                    calizao centralizada, acessibilidade, terrenos favo-
                                                                   rveis para ruas e edifcios foram considerados, pelas
                                                                   elites coloniais, como de menor valor.
                                                                       Essas cidades preservaram construes que cons-
                                                                 tituem parte do patrimnio artstico, histrico e cultu-
                                                                ral brasileiro. Ao conhec-las, voc ir deparar-se com
                                                               verdadeiras obras de arte que expressam toda a rique-
                                                              za da arquitetura, da pintura e da escultura do estilo
                                                              barroco.
                                                                  De acordo com o funcionamento especializado da
                                                            economia mineira, o ouro se escoava para as regies que
                                                            abasteciam a rea de minerao. Desde o sculo XVII, es-
                                                            tabeleceram-se vnculos comerciais entre zonas de mine-
                                                            rao e a Bahia, So Paulo e, principalmente, Rio de Ja-
                                                             neiro  o grande escoadouro do metal precioso e o mais
                                                             importante porto de importao dos produtos alm-mar
                                                              consumidos pelas populaes mineiras.
                                                                    As necessidades de escoamento e de fiscalizao da
                                                               produo mineral deram ao Rio de Janeiro  que se tor-
                                                               nou a segunda capital da colnia, em 1763  as con-
                                                                dies de desenvolvimento, ampliadas com a chegada
                                                                da famlia real portuguesa, em 1808.
                                                                       A vinda da Corte Portuguesa para o Brasil esti-
                                                                  mulou o crescimento da cidade do Rio de Janeiro. A
                                                                   populao aumentou, surgiram novos prdios, e o
                                                                   comrcio se tornou mais variado. As terras vizinhas
  n Foto: Icone AudioVisual




                                                                    passaram a se desenvolver, com melhoramentos ur-
                                                                    banos. Transferiram-se para o Brasil todos os rgos
                                                                    da Administrao Pblica e da Justia; criaram-se
                                                                    academias, hospitais, quartis, a Biblioteca Real, a
                                                                     Academia de Belas Artes e o Jardim Botnico, tor-
                                            n Ouro Preto.


136 RelaesdeTrabalho
                                                                                                                                           Histria

                            nando-se tambm o Rio de Janeiro ponto de partida de inmeras ex- Documento 8
                            pedies cientficas.
                                Mas, apesar do aparente desenvolvimento os habitantes do Rio de
                            Janeiro enfrentavam muitas dificuldades, relativas ao saneamento b-
                            sico, as quais podiam ser verificadas tambm em vrias cidades do
                            Brasil colonial.
                                A produo dos espaos pelos que ali habitavam se deu de forma n Igreja de Bom Jesus do Matosi-
                                                                                                       nho. Congonhas do Campo.
                            precria, muitas vezes comprometendo a qualidade de vida e o am-
                            biente natural. As ruas no pavimentadas recebiam o lixo atirado das Documento 9




                                                                                                                                                      n w w w. b n d .
                            residncias. A situao era agravada, porque escravos mortos eram ati-
                            rados nos monturos de lixo e as chuvas torrenciais enchiam as ruas de
                            lama. Nas praias, rios e lagoas, dejetos eram depositados pelos "tigres"
                            (escravos que tinham a pele listrada pelos detritos que escorriam dos
                            cestos de palha carregados s costas).                                   n JEAN-BAPTISTE DEBRET. Aceita-
                                                                                                       o provisria da constituio de
                                Sem saneamento, seus habitantes sofriam de algumas epidemias,          Lisboa (vista da Cidade do Rio de
                            como: varola, clera, febre amarela; e, em funo disso, a mortalida-     Janeiro), c. 1834. Litogravura, Es-
                                                                                                       tampa 140, Prancha 45. DEBRET,
                            de era alta. A implantao de saneamento bsico e de servios urba-        1989 [1834].
                            nos nunca foi preocupao da Coroa Portuguesa.

                            Documento 10                                               Documento 11




                                                                                                                                                      n Foto: Icone AudioVisual
n Foto: Icone AudioVisual




                            n Altar da Igreja de So Francisco, em So Joo Del Rei.   n Igreja So Francisco de Assis.




                                                                                                              UrbanizaoeIndustrializaonoBrasil 137
                         EnsinoMdio



                                            PESQUISA

                        Procure informaes, e escreva sobre outras cidades brasileiras do perodo colonial, como: So
                     Paulo, Santos, Manaus, Curitiba, Sorocaba, Porto Alegre.
                                Quando foram fundadas? Com que objetivos?
                                Quais eram seus marcos culturais?
                                Quais eram as suas principais atividades econmicas naquele perodo?

                        O que voc sabe sobre a sua cidade? (Caso voc more na zona rural, fale da cidade mais prxima).
                     Organizem-se em equipes e informem-se sobre ela:
                                A histria, a origem de sua cidade; seus principais monumentos, museus, seu patrimnio hist-
                                rico; sua principal funo econmica no passado e na atualidade.
                                Monte um painel com as informaes obtidas.


                   Documento 12

                                                            VidaurbanaeindustrializaonoBrasil
 n www.bnd.bn.pt




                                                             Quando a corte portuguesa foi transferida para o Brasil, em 1808,
                                                          D. Joo estabeleceu algumas mudanas em relao ao desenvolvimen-
                                                          to das manufaturas brasileiras. Observe:
                   n THOMAS ENDER (1793-1875).
                     Vista da rua principal do Rio de
                     Janeiro, 1817-1818. Lpis aqua-          Revogou a lei de 1785, que proibia a instalao de atividades industriais
                     relado, 20,4 x 27,7 cm. Kupfers-         em solo colonial;
                     tichkabinett der Akademie der bil-
                     denden Knste Wien (ustria).            concedeu facilidades aduaneiras de importao de matrias-primas ne-
                                                              cessrias para as fbricas brasileiras;
                   Documento 13
                                                              isentou de imposto de exportao os produtos manufaturados no pas.
                                                                                                                         (Fonte: os autores)


                                                             Ainda assim, a industrializao brasileira no se desenvolveu na
                   n Mariana
                                                          poca. Isso porque, em 1810, D. Joo firmou um tratado fixando em
                                                          15% as taxas para os produtos importados da Inglaterra, mais baratos
                                                          at do que os que vinham de Portugal, cuja tarifa era de 16%. Merca-
                                                          dorias das outras naes eram taxadas em 24%.
                                                             Diante dos enormes privilgios oferecidos as manufaturas inglesas,
                                                          o estabelecimento de indstrias no Brasil era prejudicado e sistemati-
                                                          camente desestimulado, pois tornava-se praticamente impossvel com-
                                                          petir com a qualidade e o preo dos artigos daquele pas.
                                                             Apesar desta circunstncia to desfavorvel, houve, durante a pri-
                                                          meira metade do sculo XIX, vrias tentativas de implantao de fbri-
                                                          cas. Conhea alguns exemplos citados pela historiografia:


138 RelaesdeTrabalho
                                                                                                       Histria


    Texto 5
    De uma perspectiva histrica, o tratado de 1810 teve importantes impli-
 caes sobre o nosso desenvolvimento manufatureiro, pois atuou no senti-
 do de retardar experincias, viveis ou no economicamente, que de outro
 modo ter-se-iam j incorporado  nossa formao industrial.
                                  (Adaptado de LUZ apud HOLLANDA, 2004, t.2, v.4, p.32.)



    Texto 6
     Em 1819, j havia uma tecelagem no Rio de Janeiro, sendo que a pri-
 meira fbrica de tecidos instalou-se em Vila Rica, em 1814. No relatrio da
 Comisso de Inqurito Industrial, publicado em 1882, afirma-se que a pri-
 meira fbrica regular de fiao e tecidos de algodo foi fundada em Pernam-
 buco logo depois da independncia. Em 1824, outra fbrica se instala em
 Minas Gerais. Em 1826, no Andara Pequeno, Rio de Janeiro, surgira uma
 estamparia; em seguida, 1841, tambm no Andara Pequeno, estabeleceu-
 se a fbrica de tecidos de propriedade de Frederico Guilherme.
     No sculo XIX, a indstria metalrgica ainda era constituda, na sua maior
 parte, por pequenas empresas. A primeira fundio do Rio de Janeiro data
 de 1815. Em 1817, surgia a Fundio do Cabrito, na Bahia, e em 1819, re-
 organizou-se a fbrica de ferro So Joo de Ipanema, em So Paulo.
    A indstria da chapelaria tambm era uma das mais antigas. Data de
 1825, no Rio de Janeiro. Em 1846, j havia seis fbricas deste ramo s na
 Corte, nmero que chegaria a 21 em 1866.
                                                (Adaptado de HARDMAN, 1991, p.31-37.)



    At 1850, os ritmos das transformaes, pelas quais a sociedade
brasileira passava, eram bastante lentos. As cidades, em meio s heran-
as do sistema colonial e  presena do escravismo, eram ainda peque-
nas em sua maioria e contavam com apenas uma pequena proporo
da populao. Eram pacatas e provincianas, suas fisionomias urbanas
bastante restritas, construdas de casa de taipa ao longo de ruas lama-
centas, sem iluminao, onde mulas de carga e escravos tropeavam.
    A partir da segunda metade do sculo XIX, a economia brasileira
passou por um processo de transformao influenciada pelo desenvol-
vimento da lavoura cafeeira. O crescimento da produo e exporta-
o do caf gerou muitos lucros. Estes foram investidos em atividades
complementares necessrias  expanso da cafeicultura, como, por
exemplo: investimentos nos portos, em companhias de seguros, orga-
nizao bancria e melhoria dos meios de transporte (principalmen-
te na construo de ferrovias), essenciais para o escoamento da gran-
de produo.



                                                                          UrbanizaoeIndustrializaonoBrasil 139
       EnsinoMdio


         Texto 7
         Assim, em 30 de abril de 1854, foi inaugurada a primeira estrada de
     ferro no Brasil - a Estrada de Ferro Petrpolis, ou Estrada de Ferro Mau.
     Esse trem inaugural composto por trs carros de passageiros e um
     de bagagem, foi rebocado por uma locomotiva fabricada por Fair-
     bairn & Sons (Inglaterra), batizada "Baronesa", cujo nome constitui
     uma homenagem feita  esposa do Baro de Mau.                          n www.central.rj.gov.br




                                    Foram tambm os lucros gerados pela cafeicultura que possibilita-
                                ram o capital necessrio para a criao da indstria no Brasil. Com o
                                dinheiro proveniente das atividades cafeeiras foi possvel a importao
                                de mquinas e equipamentos, ferramentas e algumas matrias-primas.
                                " por isso que se pode dizer que a industrializao que se deu no Bra-
                                sil entre 1885 e 1930 no passou de uma conseqncia da reorganiza-
                                o capitalista da cafeicultura." (SINGER apud HOLLANDA, 2004, t.3, v.4, p.216).
                                    Alm do crescimento da economia cafeeira, outro fator importan-
                                te para o desenvolvimento industrial na segunda metade do sculo
                                XIX foi a substituio do trabalho escravo pelo trabalho assalariado li-
                                vre dos imigrantes europeus. Esses imigrantes, que inicialmente vie-
                                ram trabalhar nas lavouras de caf, foram a principal mo-de-obra da
                                indstria nascente, e tambm constituram o mercado consumidor dos
                                produtos por ela produzidos.


         Texto 8
         No obstante, o processo de industrializao foi imensamente influenciado pela onda de imigrao
     europia. Os imigrantes, na grande maioria, eram jovens, preponderantemente do sexo masculino e,
     portanto, imediatamente produtivos. Eles (os imigrantes) haviam sido, amide, habitantes de cidades
     ou tinham, pelo menos, experincia de trabalho assalariado e eram sensveis aos seus incentivos. Os
     imigrantes, freqentemente mais alfabetizados do que a classe brasileira, inferior, trouxeram habilidades
     manuais e tcnicas que raro se encontravam no Brasil. Visto que uma das principais falhas da socieda-
     de agrria brasileira consistia em no incentivar a aquisio das primeiras letras nem das habilidades ar-
     tesanais, a importao desse capital humano consistiu um golpe tremendo, mais valioso do que as re-
     servas de ouro ou mesmo do que a maquinaria.
                                                               (Adaptado de DEAN apud HOLLANDA, 2004, t.3, v.1, p.252-253.)




                      ATIVIDADE

        Identifique no texto 8 a opinio do autor sobre a presena dos imigrantes no Brasil e a sua atua-
     o na indstria.


140 RelaesdeTrabalho
                                                                                                           Histria

    At 1930, as indstrias brasileiras voltaram-se principalmente  pro-
duo de bens de consumo no-durveis, como tecidos e produtos
alimentcios. No entanto, como no havia produo interna de bens
de capital (mquinas e equipamentos industriais), a indstria nacional
nasceu dependente da tecnologia estrangeira.
    As indstrias localizavam-se de modo disperso pelo territrio brasi-
leiro, surgindo, principalmente, nos maiores aglomerados urbanos de-
vido  concentrao nesses espaos de servios e de facilidades admi-
nistrativas ligadas  exportao (meios de transporte e comunicao,
estabelecimentos comerciais e financeiros, etc.).
    Leia este fragmento historiogrfico:

     Texto 9
      O caf proporcionou a aglutinao de uma boa poro do territrio ao redor de So Paulo, que se
 tornou, por isso, o centro de acumulao do capital industrial. As zonas de colonizao alem e italiana,
 no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, passaram a encontrar na rea cafeicultora um escoadouro
 para sua produo agropecuria. Como resultado, surgiu no Sul, sobretudo em Porto Alegre, um sig-
 nificativo impulso industrializador.
     O mesmo aconteceu no Nordeste, com a substituio dos velhos engenhos artesanais por usinas
 modernas na agroindstria aucareira. Desenvolveu-se a um certo campo de acumulao de capital in-
 dustrial, extensivo  indstria txtil, que comeou por produzir a sacaria para o acar. Mas, a perda do
 mercado externo, a partir de 1900, solapou o dinamismo da industrializao no Nordeste, que passou
 a sofrer atraso crescente em relao ao centro-sul do pas.
                                                                    (SINGER apud HOLLANDA, 2004, t.3, v.4, p.215).




                 ATIVIDADE

    Construa uma sntese sobre o desenvolvimento da industrializao no Brasil da segunda metade do
 sculo XIX at incio do sculo XX.


     O crescimento das indstrias levou ao processo de urbanizao, que
foi exigindo a realizao de uma srie de obras, como: instalao de
energia eltrica, limpeza pblica, servios de saneamento bsico (gua,
esgoto), linhas de telgrafo. Aps 1870, os condicionamentos que o capi-
tal industrial nascente provocava sobre o crescimento e a fisionomia das
cidades j podiam ser notados. Observe alguns nmeros no quadro:

     Quadro 1
     Em 1872, apenas trs capitais brasileiras contavam com mais de 100.000 habitantes: Rio de Janei-
     ro (274.972), Salvador (129.109) e Recife (116.671).
     Somente Belm (61.997) contava com mais de 50.000 residentes. So Paulo, ento, tinha uma po-
     pulao de 31.385 pessoas.


                                                                  UrbanizaoeIndustrializaonoBrasil 141
       EnsinoMdio


        Em 1890, eram trs as cidades com mais de 100.000 moradores: Rio de Janeiro com 552.651,
        Salvador com 174.412 e Recife com 111.556.
        Trs outras cidades passavam da casa dos 50.000 (So Paulo: 64.934; Porto Alegre: 52.421; Be-
        lm: 50.064)
        Em 1900, havia quatro cidades com mais de cem mil vizinhos e uma beirava essa cifra: Rio de Ja-
        neiro  691.565; So Paulo  239.820; Salvador  205.813; Recife -113.106; Belm  96.560.
        Com mais de 50.000 residentes ou perto disso estavam cinco capitais: Porto Alegre  73.674; Ni-
        teri  53.433; Manaus - 50.300; Curitiba - 49.755; Fortaleza  48.369.
                                                                                                       (SANTOS, 1994, p.21.)


        Texto 10
         Nota-se que o crescimento no perodo de apenas sete anos (1886-93) foi superior a 300%, ligado
     certamente ao impulso vertiginoso da imigrao europia,  abolio da escravatura, e ao desenvolvi-
     mento das foras produtivas, a partir da proclamao da Repblica. Entre as melhorias urbanas j exis-
     tentes em 1890, devem-se lembrar: iluminao pblica a gs em substituio aos antigos lampies de
     querosene (1872); instalao de servio municipal de guas e esgotos (Cia. Cantareira, 1877); nova e
     ampla penitenciria (1877); novo matadouro e novo mercado central(1887-1890); ampliao dos ser-
     vios da Santa Casa de Misericrdia e criao do Asilo de Mendicidade (1885); servios de bonde de
     trao animal (1872); primeiro sistema de loteamento, arruamento e construes (cdigo de 1886); sis-
     tema ferrovirio (desde 1867); calamento de paraleleppedo de granito (ligado  produo das primei-
     ras pedreiras, 1873).
                                                                               (Adaptado de MORSE, 1970, p.244-8 e p. 370.)


        Texto 11                                     Nesse ambiente chamava a ateno o animado movi-
                                                 mento de veculos. O trfego era tal que, em 1873, a mu-
                                                 nicipalidade designou locais especficos para estaciona-
                                                 mento: Ptio do Colgio; Largo de So Gonalo; Largo
                                                 So Francisco e Largo da Luz. Essa  a poca dos novos
                                                 bondes movidos  trao animal, que acompanhavam a
                                                 evidente expanso territorial e alteravam a pintura local.
                                                 Em 1887, existiam sete linhas com 25 quilmetros de tri-
                                                 lhos, 319 animais e 43 carros, que transportavam 1,5 mi-
     lho de passageiros por ano. De fato, a explorao dos bondes eltricos s comeou na dcada de
     1890, sem que os velhos modelos tenham sido substitudos de pronto. A grande novidade do incio do
     sculo atual eram, no entanto, os primeiros automveis, que, apesar de poucos e muito barulhentos,
     causaram verdadeiros tumultos na cidade.
                                  (Adaptado de SCHWARCZ. www.vivaocentro.org.br/.../centrosp/historia.htm Acesso: 29/09/2005)




                     ATIVIDADE

         Compare as transformaes indicadas no quadro 1 e nos textos 10 e 11 com a realidade de ou-
     tras cidades brasileiras deste perodo (1850-1930), apontando semelhanas e diferenas.

142 RelaesdeTrabalho
                                                                                                        Histria

     Dentro do contexto de transformaes que estavam ocorrendo no pa-
s, em geral, decorrentes do processo de industrializao e urbanizao, 
necessrio situar uma questo significativa: a das habitaes populares.
     A introduo macia de capitais outrora investidos nas reas rurais
causou a valorizao do espao urbano, abrindo caminho para a espe-
culao imobiliria. O aumento crescente do valor fundirio empurra-
va os valores e aluguis para cima e reduzia as possibilidades de uma
melhor habitao para os operrios. A alternativa para se livrar dos al-
tos aluguis foi a busca de moradia nos bairros operrios.
     Os mocambos de Recife, as favelas cariocas e os cortios de So
Paulo foram algumas das formas caractersticas de habitao dos ope-
rrios e de outros setores explorados. Construes simples de madeira,
ou outros materiais baratos, situadas em terrenos ngremes ou alaga-
dios, em morros ou vrzeas, essas habitaes populares constituram
um espao tpico na vida das massas trabalhadoras.

     Texto 12
     Desde os fins do sculo XIX, o operariado se aloja precariamente na cidade de So Paulo. Os bair-
 ros operrios e pobres apresentavam aspectos semelhantes: ruas inteiras de casas feitas em srie,
 habitaes pobres, coletivas, pequenas oficinas, pequenas ou grandes fbricas, pequeno comrcio,
 sistema deficiente de gua e esgoto. Nos bairros onde havia pobreza, sem fiscalizao, sem rede de
 esgotos, sem gua encanada, onde os poos eram construdos prximos das fossas, a contaminao
 era maior e a mortalidade infantil mais alta.
                                                                         (Adaptado de DECCA, 1987, p.20 e 39.)


     Texto 13
     Na cidade do Rio de Janeiro, o centro urbano se adensou nas ltimas dcadas do sculo XIX acar-
 retando problemas habitacionais: no havia casas para todos. As habitaes coletivas, os cortios,
 prosperavam. Em 1888, estas habitaes correspondiam a 4% dos prdios da cidade e abrigavam 12%
 da populao. Mais de 20 mil pessoas viviam nesses pardieiros.
     O Rio de Janeiro, uma cidade porturia, por esta razo e pelo descaso do poder pblico em man-
 ter a higiene, apresentava as piores condies de salubridade. Rio e Santos  outra cidade porturia e
 de intenso movimento  eram as cidades mais insalubres do pas, e serviam de palco para grandes epi-
 demias. A insalubridade do Rio de Janeiro foi resolvida pela reforma urbana empreendida pelo prefei-
 to Pereira Passos, em 1904. A reforma visou  remodelao do centro da cidade,  valorizao desse
 espao para o comrcio e s finanas. Mas para isso foi preciso enxotar a populao pobre do centro,
 mediante uma operao que ficaria conhecida como "bota abaixo". Centenas de imveis foram derru-
 bados e, em seu lugar, surgiram avenidas alargadas e embelezadas. Com a reforma urbana, a Capital
 da Repblica transformou-se numa cidade moderna e higinica... em cartes postais...
                                                                         (Adaptado de RIBEIRO, 1989, p. 17-18.)


     Texto 14
     No comeo do sculo XIX, nas grandes e industrializadas cidades do Sudeste, a maior parte da
 classe despossuda vivia em condies lamentveis, amontoadas em cortios e favelas insalubres e
 desconfortveis.


                                                                UrbanizaoeIndustrializaonoBrasil 143
       EnsinoMdio


          Melhor do que ela, sem dvida, se encontravam os trabalhadores de fbricas, cujos propriet-
     rios construam o que ento se chamava de "vila operria". Embora no fossem to comuns no Bra-
     sil, as vilas representaram, na poca, uma das mais modernas e eficientes tticas capitalistas no sen-
     tido de fixar o trabalhador na indstria e controlar o seu comportamento, garantindo a estabilidade da
     mo-de-obra.
        Para conservar aquela moradia, o indivduo deveria se manter no emprego e, portanto, afastar-se
     das agitaes operrias e greves, evitando desestabilizar o sistema. A submisso  classe patronal era
     a condio de garantia e o preo maior que se pagava pelo direito  moradia.
                                                                               (Adaptado de ALVES, 1992, p.56-57.)




                     ATIVIDADE

        Estabelea relaes entre as circunstncias apresentadas nos textos 12 e 13 as condies atuais
        de moradia nas cidades brasileiras. Para isso colete dados em jornais, revistas e promova uma dis-
        cusso em sala de aula com o tema: "Problemas de moradia nas cidades brasileiras".
        Registre a idia central do texto 14:


                                 Em 1890, o escritor brasileiro Alusio de Azevedo dedicou o seu
                              mais popular romance, O Cortio,  vida de um desses aglomerados
                              humanos, no Rio de Janeiro. Ele procedeu uma inovao na literatu-
                              ra brasileira, apresentando a coletividade como personagem. De certa
                              forma, esta obra foi precursora da importncia social que os cortios ti-
                              veram na vida dos trabalhadores urbanos no Brasil. Nesse romance, j
                              apareciam algumas pequenas fbricas ao lado do cortio que abrigava
                              boa parte dos personagens apresentados.

        Veja um trecho desta clssica obra da literatura brasileira:
        Documento 16
        Entretanto, a rua l fora povoava-se de um modo admirvel. Construa-se mal, porm muito; surgiam
     chals e casinhas da noite para o dia. Montara-se uma fbrica de massas italiana e outra de velas.
        No obstante as casinhas do cortio,  proporo que se atamancavam, enchiam-se logo. No-
     venta e cinco casinhas comportou a imensa estalagem.
         E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, comeou a minhocar, a
     esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma gerao, que parecia brotar espontnea, ali mes-
     mo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco.
                                                                             Adaptado de (AZEVEDO, 1981 p.20-21.)


                                 At o final dos anos 1950, o principal setor da economia brasileira
                              ainda era a agroexportao. O Brasil precisava de mais indstrias. Mas
                              havia poucos investimentos, pois a burguesia industrial brasileira ain-
                              da era jovem e fraca, alm disso, os investidores estrangeiros no mos-

144 RelaesdeTrabalho
                                                                                                                                  Histria

                      travam muito interesse em abrir empresas por aqui. Sem poder contar
                      com o capital privado nacional, nem com o multinacional, o desenvol-
                      vimento industrial se deu mediante a interveno do capital estatal.
                          Foram criadas empresas estatais (que pertencem ao governo) nos
                      setores de indstria de base e de infra-estrutura, por exemplo: a Com-
                      panhia Siderrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda para forjar tone-
                      ladas de ao; a Companhia Vale do Rio Doce, de minerao; a Com-
                      panhia Hidreltrica de So Francisco (que constituiu a usina de Paulo
                      Afonso); a Companhia de lcalis (produtos qumicos); e a Petrobrs,
                      voltada para a explorao e refino de petrleo.
                      Documento 14                                           Documento 15
n Arquivo Nacional.




                                                                                                                                             n Arquivo Nacional.
                      n Companhia Siderrgica Nacional, 1946.                n Refinaria de Petrleo, 1953.

                            Texto 15
                            No lugar dos tradicionais ramos de tecidos, vesturio e produtos alimentcios, cresceriam, doravante,
                        setores como a metalurgia, mecnica, cimento, material eltrico e transportes, alm das indstrias qumi-
                        cas e farmacuticas.
                           Uma srie de bens industriais que at aquele momento eram importados pelo pas passariam a ser
                        produzidos internamente. A esse processo damos o nome de substituio de importaes. Esta seria a
                        marca registrada da histria da industrializao brasileira at meados da dcada de 1950.
                           O Estado seria o principal agente desta transformao, isto , um setor de indstrias de base ou pe-
                        sadas. Somente com sua criao haveria chances de xito para o processo de substituio de impor-
                        taes, sem o pas precisar importar do exterior tudo o que necessitasse em matrias-primas e equi-
                        pamentos.
                            O empresariado voltou-se para o Estado e dele exigiu uma postura intervencionista naqueles seto-
                        res onde a iniciativa privada fosse insuficiente.
                                                                                                   (Adaptado de MENDONA, 1996, p.40-44.)


                                                                                            UrbanizaoeIndustrializaonoBrasil 145
                              EnsinoMdio



                                               ATIVIDADE

                                A partir da leitura e discusso do texto 15, caracterize:
                                     poltica de substituio de importaes;
                                     bens de produo; indstria de base;
                                     postura intervencionista do Estado na indstria.

                              Relacione as imagens dos documentos 14 e 15 com os objetivos da poltica industrial do perodo
                           de 1930 a 1955. Registre suas concluses.

                         Documento 16                           Em 1955, tomou posse o recm eleito Juscelino Kubitschek, lanan-
 n www.carroantigo.com




                                                           do seu Programa de Metas, cujo principal objetivo era ampliar signifi-
                                                           cativamente a produo industrial brasileira. Em apenas cinco anos de
                                                           governo, o Brasil deveria deixar de ser um pas basicamente agroex-
                                                           portador e se tornar predominantemente industrial.
                                                                Segundo o Programa de Metas, a indstria de base, a construo de
                         n Fbrica do fusca no Brasil em
                           1959.                           estradas, de hidreltricas e a extrao de petrleo cresceriam, e graas
                                                           ao investimento do Estado. Os industriais brasileiros continuariam in-
                                                           vestindo nos setores tradicionais: tecidos, mveis, alimentos, roupas e
                                                           construo civil. Alm disso, JK daria todas as facilidades para o capital
                                                           estrangeiro. Em seu governo, vrias multinacionais acabaram abrindo
                                                           filiais no Brasil, na sua maioria para produzir bens de consumo.
                                                                Das realizaes industriais desse perodo (1956-1968), a mais im-
                                                           pressionante, sem dvida, foi a implantao da indstria automobils-
                                                           tica. O governo ofereceu s empresas uma srie de incentivos, desde
                                                           que implantassem fbricas de veculos capazes de produzir no Brasil,
                                                           at 1961, 98 a 99% do peso dos veculos.

                                Texto 16
                               Uma das mudanas que ocorreram entre o perodo de 1933-55 e o perodo 1956-67 foi precisa-
                           mente esta: enquanto no primeiro a implantao das indstrias de carter monopolista se deu basica-
                           mente sob a gide do capital estatal, no segundo este processo foi essencialmente dominado pelo ca-
                           pital internacional.
                                                                                                 (SINGER apud HOLLANDA, 2004, t.3, v.4, p.226)




                                               ATIVIDADE

                               Produza uma narrativa histrica utilizando o tema apresentado no fragmento historiogrfico presente
                           no texto 16.



146 RelaesdeTrabalho
                                                                                                                 Histria

   A partir da segunda metade da dcada de 1950, ocorreu o chamado
processo de modernizao da sociedade brasileira, caracterizado, prin-
cipalmente, pelo desenvolvimento da indstria de bens de consumo,
pelo aceleramento da urbanizao e aumento de pessoas que deixa-
ram de viver no espao rural para viverem na cidade. Observe os da-
dos abaixo que demonstram esta condio:

           POPULAO URBANA DO BRASIL EM %: 1940 a 1991
     1940               1950              1960                 1970      1980          1991
     31,24             36,16              45,08                55,92     67,59         75,47
n Fonte: Sinopse Preliminar do Censo Demogrfico, 1991, IBGE
    Automvel, geladeira, televiso, mquina de lavar roupa, mqui-
na de costura, batedeira de bolo, toca-discos, enceradeira, ventilador,
todos estes produtos e outras novidades em eletrodomsticos enche-
ram as lojas brasileiras e eram produzidos por empresas estrangeiras
que abriram fbricas aqui. Modificaram-se hbitos, aumentando parti-
cularmente o ndice de consumo daquela classe que tinha condies
de acesso a essas mercadorias.
    J na dcada de 1970, sob o governo da Ditadura Militar, houve a
industrializao com o predomnio das grandes empresas monopolis-
tas, sendo a maioria de capital internacional; ocorreu tambm a pro-
letarizao de parcelas cada vez maiores da populao, disseminao
da sociedade de consumo, fenmeno este que
passou a conviver com a fome, condio de
uma grande parcela de brasileiros.
    Foi neste perodo que o pas se consoli-
dou como efetivamente urbano. Reveja os da-
dos do IBGE: em 1960, 45% da populao vi-
via nas cidades, passando para 67% em 1980.
Um tero deste total estava concentrado em
algumas regies metropolitanas do pas, co-
mo: So Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte,
Curitiba, Porto Alegre, Belm, Fortaleza, Re-
                                                n Imagem 1.
cife, Salvador. Ocorreu uma expanso urbana
catica, as cidades incharam, crescendo desor-
denadamente e sem poder oferecer condies
bsicas de vida aos seus habitantes. Isto pro-
vocou um contraste entre: de um lado, um ce-
nrio de luxo, grande riqueza e abundncia,
caracterizado pela vida nos shoppings centers
e sofisticados condomnios de luxo; de outro,
a proliferao de favelas, cortios, bairros de
periferia com seus eternos problemas de infra-
estrutura urbana, como rede de esgoto, ruas
asfaltadas e gua encanada.
                                                                       n Imagem 2


                                                                                    UrbanizaoeIndustrializaonoBrasil 147
       EnsinoMdio


        Documento 20
        13/05/2005 - 10h05
        Esgoto a cu aberto tem grande impacto na vida da populao, afirma estudo
        O Brasil tem 10,4 milhes de domiclios que ainda no tm esgotamento sanitrio adequado, se-
     gundo dados do Censo 2000.
                                                                                                da Folha Online, no Rio


        Documento 21
        HABITAO
        Grupos de So Paulo, Pernambuco e Minas Gerais promovem ocupaes para exigir
     programas de moradia popular
        Sem-teto fazem invases em trs Estados
        Grupos de sem-teto fizeram, desde sbado, invases em trs Estados para reivindicar programas de
     habitao popular por parte do governo federal.
         Em So Paulo, um grupo de cerca de 250 sem-teto, segundo nmeros da PM, invadiu na madru-
     gada de ontem um prdio do INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social), na avenida 9 de Julho (na
     regio central).
         Em Pernambuco, o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) invadiu um imvel ontem. Cer-
     ca de cem famlias entraram na central de operaes da Celpe (Companhia Energtica de Pernambu-
     co), em Toritama.
         Em Contagem (MG), cerca de 50 pessoas invadiram um terreno no fim de semana. Parte da rea,
     na rodovia MG-808, pertence ao municpio.
         O objetivo  pressionar o governo a criar o Fundo Nacional de Habitao de Interesse Social para re-
     solver parte do problema do dficit habitacional no pas, estimado em 7,2 milhes de moradias.
                                                           (FOLHA DE SO PAULO, 3 de maio de 2005. Caderno Cotidiano.)


        Texto 17
         Exatamente no dia em que comeava a primavera, uma boa notcia chamava nossa ateno ao folhear
     o jornal: "Est nascendo um osis em So Paulo".
         Uma grande e famosa construtora anunciava ao leitor que havia criado e j estava desenvolvendo um
     lugar fantstico para ele e sua famlia morarem:
         Um bairro calmo, tranqilo, arborizado, florido, planejado nos mnimos detalhes. Um local de rara be-
     leza, onde o verde  o principal personagem, fruto de um rico projeto paisagstico. Um verdadeiro osis
     com toda infra-estrutura: ruas largas, avenidas com iluminao de mercrio, asfalto, segurana motori-
     zada 24 horas por dia e tudo o que voc exige por perto.
                                                                                        (Adaptado de ALVES, 1992, p.70.)




                     ATIVIDADE

        De acordo com as imagens 1 e 2 e os documentos 20 e 21, a que concluses voc pode che-
     gar? Promova um debate em sala de aula sobre os espaos urbanos no Brasil contemporneo.

148 RelaesdeTrabalho
                                                                                                 Histria

 RefernciasBibliogrficas
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                                                                UrbanizaoeIndustrializaonoBrasil 149
       EnsinoMdio




150 Relaesculturais
                                                                                                                         Histria




                                                                                                               8
                                                                  RELAES CULTURAIS:
                                              Urbanizao e industrializao no sculo XIX
                                                                                                                n Altair Bonini1




                                                                                                                                    n www.espacoacademico.com.br
                                                            n Londres no incio da Revoluo Industrial, final do sculo XVIII


                                                            As grandes cidades da atualidade ao
                                                            mesmo tempo em que causam admira-
                                                            o pela proporo de suas ruas, ave-
                                                            nidas, arranha-cus e demais edifcios,
                                                            tambm se constituem em espaos de
                                                            incertezas e perigos. Como seriam as
                                                            grandes cidades h pelo menos 150
                                                            anos? Ser que elas tambm causavam
                                                            medo e admirao? O que pode ser ad-
                                                            mirado ou temido em sua cidade?




1
 Colgio de Aplicao Pedaggico da Universidade Estadual
de Maring  Maring  UEM

                                                                               UrbanizaoeindustrializaonosculoXIX                  151
       EnsinoMdio

                          Industrializaoeurbanizao
                             As grandes cidades, como conhecemos ou imaginamos hoje, so
                        um fato recente. Ainda que as cidades tenham aumentado sua impor-
                        tncia a partir do renascimento comercial (entre os sculos XII  XV)
                        e algumas adquiriram importncia comercial, poucas atingiram a faixa
                        dos 200 mil habitantes no sculo XVII. No sculo XVIII, apenas 19 ci-
                        dades europias possuam mais de cem mil habitantes, Londres chega-
                        va a um milho e Paris a 500 mil.
                             Somente a partir do incio do sculo XIX, com o desenvolvimento
                        da industrializao, ocorreu um grande impulso da urbanizao. Em-
                        bora no tenha se dado de forma igual em todos os lugares da Europa,
                         comum dizer que ocorreu de forma quase uniforme.
                             Mas o que significa o termo urbanizao?
                             Urbanizao  um conceito utilizado para analisar ou entender regi-
                        es onde o aumento da populao que vive nas cidades  muito gran-
                        de em relao  populao total, conseqentemente, maior do que a
                        populao rural. A urbanizao est ligada ao movimento migratrio
                        do campo para a cidade, isto por causa de mudanas estruturais ocor-
                        ridas no campo nos sculos anteriores, as quais possibilitaram que as
                        cidades possussem uma capacidade produtiva maior.
                             Assim, podemos perceber uma estreita relao entre industrializa-
                        o e urbanizao. A industrializao iniciou-se na Inglaterra, no scu-
                        lo XVIII, conhecida como Revoluo Industrial. Alguns fatores foram
                        determinantes para que esse processo se desencadeasse neste momen-
                        to e local como: a acumulao de capitais por parte da burguesia mer-
                        cantil (que lidava com o comrcio), o desenvolvimento tcnico-cien-
                        tfico aplicado na produo de mercadorias e a disponibilidade de
                        mo-de-obra de camponeses expulsos de suas terras ou oriundos de
                        regies que passavam por crises sociais de grandes propores, como
                        a fome irlandesa (1846). Estes fatores iro favorecer tanto o processo
                        de produo industrial quanto a prpria urbanizao.
                             Entretanto, no podemos entender a relao entre urbanizao e
                        industrializao apenas pelo aspecto do aumento da populao das ci-
                        dades. Com a industrializao ocorreu tambm uma mudana no pa-
                        pel da cidade e na estrutura interna desta.
                             As cidades, que at o sculo XVIII eram centros de comrcio e j
                        contavam com certa estrutura poltica e administrativa, foram locais
                        onde o aparecimento de indstrias ocorreu de forma mais rpida, pois
                        contavam com concentrao de capitais acumulados com o comrcio,
                        eram centros polticos e possuam reservas de fora de trabalho. Gra-
                        dativamente, elas foram se adaptando s necessidades capitalistas e a
                        indstria se apoiou em muitas delas, aproveitando os conhecimentos
                        e tradies na produo que j realizavam, por exemplo: uma cidade
                        que contava com uma produo artesanal de papel ou de tecidos foi
152 Relaesculturais
                                                                                               Histria

absorvida pela indstria e se transformou em um grande centro urba-
no especializado nestes artigos. Algumas cidades ficaram conhecidas
pelo trabalho com ramo industrial particular, como: txtil, metalrgico,
produo de vinhos, etc..
   Ocorreu, no mesmo perodo (incio do sculo XIX), a instalao de
indstrias fora das cidades, como as metalrgicas e as de extrao de
carvo. Estas buscavam proximidade com fontes de energia para mo-
vimentar as mquinas (carvo, mais comum na poca) e matria-pri-
ma (carvo e outros minrios), e eram supridas pela fora de trabalho
dos camponeses. Quando isto ocorreu, surgiram cidades em torno das
indstrias ou pequenos povoados se transformaram em pouco tempo
em grandes cidades, como Ruhr (Alemanha), Donetz (Rssia), Birmin-
gham e Manchester (Inglaterra).
   Em 1700, Manchester era um povoado e em 1800 j possua 100
mil habitantes. Birmingham em 1740 tinha 25 mil moradores, em 1800
contava com 70 mil.


  Acidadeindustrial
    As cidades mais antigas que no sofreram alteraes com a indus-
trializao so chamadas de pr-industriais e as que foram alteradas
em sua lgica so chamadas de cidades industriais (aquelas surgidas
ou que se transformaram a partir do final do sculo XVIII e incio do
sculo XIX).
    No incio, as cidades industriais eram extremamente desorganiza-
das (isto na Europa Ocidental, na passagem do sculo XVIII para o s-
culo XIX), no havia lugar para todo mundo, as ruas eram estreitas e
sujas. Ainda havia uma mistura de bairros habitacionais com indstrias
em meio a obras de ferrovias que iam sendo construdas. Os centros
dessas cidades com seus prdios antigos, monumentos, residncias ri-
cas com jardins e ptios anexos aos poucos foram dando lugar s no-
vas construes, barraces industriais, oficinas e a densidade popula-
cional por metro quadrado tornou-se enorme.
    Ao redor do centro formava-se uma nova rea, considerada peri-
feria ou subrbios. Neste local, surgiam bairros luxuosos para abrigar
a burguesia, que fugia do ar poludo, da sujeira, do mau cheiro e da
multido que vivia no centro, estes procuravam lugares mais abertos,
com reas verdes, ruas arborizadas. Surgiam bairros habitacionais pa-
ra os operrios recm-emigrados do campo e, tambm, eram constru-
das reas industriais maiores.
    Durante a primeira metade do sculo XIX, todas essas reas se fun-
diam num tecido urbano mais compacto. Mas, essa fase foi um perodo
provisrio, cuja poltica pblica absorveu o pensamento dos banquei-
ros, industriais, homens de aes e contadores. Sua base ideolgica era
de garantir a liberdade de empreendimento e suas propriedades, que-

                                                              UrbanizaoeindustrializaonosculoXIX     153
       EnsinoMdio

                              riam o lucro sem se preocupar com as conseqncias, com isso pensa-
                              vam as cidades sem interveno do governo (em suma uma adminis-
                              trao liberal da cidade).
                                  A precariedade das cidades europias era mais sentida pela popu-
                              lao pobre. Suas casas eram pequenas, no pegavam sol, no tinham
                              ventilao e iluminao, nem uma forma adequada de eliminar o lixo
                              domiciliar que era jogado nas ruas que, tambm, servia para criar por-
                              cos. As casas se localizavam nas proximidades das indstrias, estradas
                              de ferro e rios, fontes de fumaa, barulho e poluio.
                                  Nas cidades industriais surgidas a partir de cidades antigas, os tra-
                              balhadores passavam a habitar casas de famlias antigas transformadas
                              em cortios. Cada quarto passou a abrigar uma famlia toda (prtica re-
                              alizada em Glasgow, na Esccia e Dublin, na Irlanda, at o incio do
                              sculo XX). Era comum, tambm, o congestionamento de camas onde
                              dormiam de trs a oito pessoas de idades diferentes. Pobres e privados
                              de seus antigos referenciais culturais, os trabalhadores urbanos ten-
                              diam a formar unies instveis que acabaram por alterar a sociabilida-
                              de vigente, transformando a populao dos cortios em pessoas com
                              padres ticos diferentes dos de suas aldeias rurais de origem.
                                  A sujeira era enorme tanto nos novos como nos velhos bairros ope-
                              rrios. As novas casas eram construdas com materiais baratos sem ali-
                              cerces. Na Inglaterra, em cidades como Birmingham e Bradford, as ca-
                              sas foram construdas de parede-meia, dois em cada quatro quartos
                              no recebiam luz nem ventilao. Em cidades martimas, de grande
                              importncia econmica por causa dos portos, os pores subterrneos
                              eram utilizados como moradias. O Relatrio sobre o Estado das grandes
                              Cidades e dos Distritos Populosos de 1845 informava que em Manchester
                              (Inglaterra) cerca de 7000 pessoas utilizavam apenas 33 privadas.
                                  Essa condio trazia doenas, epidemias e gerou revolta da classe
                              trabalhadora e das pessoas consideradas pelas elites como desclassifi-
                              cadas (mendigos, escroques, vagabundos e multides famintas). O in-
                              cio da segunda metade do sculo XIX  marcado por "jornadas revo-
                              lucionrias" principalmente em Londres e Paris.

        Texto 1
         As cidades e reas industriais cresciam rapidamente, sem planejamento ou superviso, e os servi-
     os mais elementares da vida fracassavam na tentativa de manter o mesmo passo: a limpeza das ru-
     as, o fornecimento de gua, os servios sanitrios para no mencionarmos as condies habitacionais
     da classe trabalhadora. Nestes locais, as epidemias de clera eram freqentes e a degradao da vi-
     da humana tambm.
         Suas mais srias conseqncias foram sociais: a transio da nova economia criou a misria e o
     descontentamento, os ingredientes da revoluo social. E, de fato, a revoluo social eclodiu na forma
     de levantes espontneos dos trabalhadores da indstria e das populaes pobres das cidades, pro-
     duzindo as revolues de 1848 no continente e amplos movimentos cartistas na Gr-Bretanha. O des-



154 Relaesculturais
                                                                                                     Histria


 contentamento no estava ligado apenas aos trabalhadores pobres. Os pequenos comerciantes, sem
 sada, a pequena burguesia, setores especiais da economia eram tambm vtimas da Revoluo Indus-
 trial e de suas ramificaes. Os trabalhadores de esprito simples reagiram ao novo sistema destruindo
 as mquinas que julgavam ser responsveis pelos problemas; mas um grande e surpreendente nme-
 ro de homens de negcios e fazendeiros ingleses simpatizava profundamente com estas atividades de
 seus trabalhadores ludistas porque tambm eles se viam como vtimas da minoria diablica de inova-
 dores egostas. (HOBSBAWM, 1989, p. 224 e 55.)

    Como resultado disto, a partir de 1850, muitas cidades passaram a
ser administradas por pessoas com outra viso de gesto pblica, co-
mo: Camillo Benso, o Conde de Cavour (1810-1861), na Itlia; Ben-
jamin Disraeli (1804-1881), na Inglaterra; e Otto von Bismarck (1815-
1898), na Alemanha. Nesta nova orientao, o poder pblico passou
a realizar reformas em estradas, praas, ferrovias (rede de percursos),
aquedutos, esgotos, gs, eletricidade (rede de instalaes).
    Exemplo tpico desse perodo e que se torna exemplo para cidades
do mundo todo foi a reforma da cidade de Paris, entre 1853 e 1870.
Incentivada pelo imperador Napoleo III e colocada em prtica pelo
prefeito Georges Eugne Haussmann (1809-1891), graas  existncia
de duas leis muito avanadas: a lei de expropriao de 1840 e a lei sa-
nitria de 1850. A cidade foi praticamente demolida, ou pelo menos
boa parte dos prdios mais antigos para dar lugar a largas ruas e ave-
nidas, praas e parques, etc., transformaes contnuas de prdios, ve-
culos e pessoas que transitavam num fluxo contnuo sempre mutvel.
As reformas das capitais, tambm, foram um fenmeno disciplinador
das classes trabalhadoras que se revoltavam, pois, as antigas ruas es-
treitas eram facilmente controladas por operrios que erguiam barrica-
das contra as foras do governo.



                ATIVIDADE

 1. A maioria das cidades da atualidade apresenta a separao ntida entre os bairros destinados s
    classes mais privilegiadas (bairros de luxo) e os bairros para as classes trabalhadoras (bairros ope-
    rrios). Faa uma pesquisa comparativa sobre os diferentes tipos de bairros existentes em sua cida-
    de. Registre elementos caractersticos dos bairros, tais como: formas e tamanhos das residncias,
    ruas, como  o acesso  escola, lazer, supermercados, hospitais, o transporte etc.
 2. Os bairros operrios do sculo XIX eram muito diferentes dos de agora. Observe as imagens e faa
    uma anlise de como eram vistos respondendo as questes abaixo:
    a) Que tipos de imagem so estas? Quem  o autor? E em que ano as realizou?
    b) Qual  o tema central das imagens presentes nos documentos 1, 2 e 3? O que elas represen-
       tam? Relacione-as com o texto 1.
    c) Descreva como so as moradias representadas pelos documentos 1, 2 e 3.


                                                                    UrbanizaoeindustrializaonosculoXIX     155
       EnsinoMdio


        d) Em que ambiente esto representadas as moradias do documento 1? Que impresses lhe
           causam?
        e) O que fazem as pessoas representadas no documento 2? Como so suas aparncias? Que
           aspectos lhe chamaram ateno nesta imagem?
     3. As grandes capitais europias e de outras partes do mundo passaram por grandes reformas a partir
        da segunda metade do sculo XIX. Sobre este tema, analise a imagem presente no documento 3:
     a) Qual o tipo da imagem? Quem a realizou? Em que ano? Qual seu ttulo?
     b) Descreva o processo que a documento 3 retrata e elabore um comentrio sobre os contrastes que
        voc percebeu, por exemplo: observe como aparece a cidade antiga que est sendo reformada; e
        qual a relao deste processo com a vida das pessoas que viviam neste lugar.

                Documento 1                          Documento 2                      Documento 3




                n GUSTAVE DOR (1832-1883).          n GUSTAVE DOR. Uma rua de       n Vista a vo de pssaro do bou-
                  Bairros pobres de Lon-               bairro pobre de Londres,         levard Richard Lenoir, 1863. Xi-
                  dres, sob viadutos ferrovirios,     1872. Xilogravura. Fonte das     logravura. Fonte: BENEVOLO, 2003,
                  1872. Xilogravura.                   imagens: BENEVOLO, Leonardo,     p. 592.
                                                       2003, p. 560.




                                      Higiene,miasmasebactrias
                                       Os problemas urbanos pelos quais passavam as grandes cidades
                                   europias do sculo XIX tinham conseqncias para toda populao.
                                   A feira e insalubridade das cidades comearam a incomodar at os
                                   mais ricos, atingindo os bairros luxuosos.
                                       Milhares de pessoas foram vtimas de doenas, como: a varola, a
                                   febre tifide, a tuberculose ou diarria e gripe. Muitas epidemias eram
                                   transmitidas pelos ratos, que propagavam a peste bubnica; pelos per-
                                   cevejos, que infectavam a cama; pelos piolhos, que transmitiam a tifo;
                                   e pelas moscas, que espalhavam vrias enfermidades. Os lugares escu-
                                   ros e midos se tornavam habitat certo para as bactrias, e o acmulo
                                   de pessoas num mesmo cmodo aumentava as possibilidades de trans-
                                   misso de doenas atravs do contato e da respirao.
                                       A falta de gua para higiene pessoal e da casa era comum. Algumas
                                   regies de Londres s recebiam gua em poucos dias por semana.
                                       A falta de condies sanitrias permitiu o alastramento do clera
                                   pela Europa em 1830. Na Frana estima-se que as vtimas chegaram
                                   a 500 mil pessoas, nos outros pases as mortes tambm chegaram as
                                   mesmas propores eliminando em poucas semanas ou meses a vida

156 Relaesculturais
                                                                                                                                                      Histria

            de milhares de homens e mulheres, principalmente de crianas.
                O ano de 1840 foi marcado por uma srie de sindicncias sobre as
            condies de vida nas cidades maiores. Foram realizadas campanhas
            de higiene pelos bairros pobres, desinfetando as casas com vinagre.
                O clera impressionava pela sua novidade. Para muitos mdicos
            e higienistas as doenas eram causadas por miasmas, ou seja, pelo ar
            contaminado, que era considerado um fluido inerte no qual a ausncia
            de renovao favorecia a ao dos germes. A teoria dos miasmas era
            herdeira das elaboradas no fim do sculo XVIII, as quais consideravam
            a gua parada o lugar de formao das emanaes. Estas putrefaes
            eram consideradas nocivas  sade. Elas eram associadas, no imagin-
            rio da poca, aos lugares fechados onde se juntavam os pobres.
                A higiene passou a ser um assunto de grande interesse dos admi-
            nistradores urbanos no s contra doenas nos momentos de epide-
            mias, mas tambm no intuito de estabelecer novos hbitos e prticas
            nos lares, hospitais, fbricas, etc. O culto ao asseio exaltava o banho,
            o cuidado com as roupas, lavar as mos. Desta forma, a gua tambm
            se tornou uma preocupao. Medidas simples foram priorizadas, como
            deixar o local ventilado com luz do sol e limpo.

                    Aarquiteturadosculodaindstria
                                                              Documento 4
n www.newciv.org




            n Palcio de Cristal, Londres, 1851. Marco da arquitetura das cidades industriais, toda feita de ferro e vidro, foi pro-
              jetado por Joseph Paxton (1801-1865).
               O ferro e vidro foram os elementos que representavam o estilo ar-
            quitetnico das cidades industriais da Europa a partir do sculo XIX. A
            valorizao destes materiais iniciou-se em 1851, quando o engenhei-
            ro Joseph Pascton projetou e construiu em o "Palcio de Cristal", um
            grande galpo para abrigar a Exposio Industrial de Londres neste
            mesmo ano. Esta construo se tornou um smbolo da arquitetura da
            Era Industrial, pois substituiria as pesadas formas de alvenaria pela le-
            veza do esqueleto de ferro e a limpeza do vidro.


                                                                                                                     UrbanizaoeindustrializaonosculoXIX     157
       EnsinoMdio

                                  A lgica industrial e mecnica ficava visvel em grandes obras de
                              ferro como a ponte do Brooklyn (Estados Unidos) e a Torre Eiffel
                              (Frana), esta ltima construda para comemorar o centenrio da Re-
                              voluo Francesa (1889). Nos Estados Unidos, as novas tcnicas e a
                              utilizao do ao possibilitavam a edificao de grandes arranha-cus
                              primeiramente em Chicago (1890) e depois em Nova York (1920). So-
                              bretudo, a arquitetura das cidades industriais era funcional.
                                  Na ltima dcada do sculo XIX, o estilo arquitetnico, que se des-
                              tacou, surgiu na Frana e ficou conhecido como Art Nouveau (do fran-
                              cs arte nova). Este estilo se opunha s formas industriais e valorizava
                              o decorativo e o ornamental, predominava formas tridimensionais de-
                              licadas, sinuosas, ondulantes e sempre assimtricas, todavia tambm
                              utilizavam o ferro e o vidro.

                                Arevoluonostransportes
                                  Com o aumento da produo nas cidades industriais, surgiu a ne-
                              cessidade de expandir as vias e os meios de transporte, vitais para o
                              escoamento das mercadorias.
                                  No sculo XVIII, na Inglaterra, inmeras obras de expanso da re-
                              de rodoviria foram iniciadas (geralmente financiadas por grandes co-
                              merciantes). Mas, sendo a Inglaterra um conjunto de ilhas, a navega-
                              o costeira e a canalizao dos rios, que possibilitaram a navegao
                              interna, foram as que mais se desenvolveram. As cidades mais favore-
                              cidas foram: Liverpool, Manchester e Nottinghan. Este sistema tambm
                              foi desenvolvido na Frana e nos EUA. Mas, foram as ferrovias, com
                              seu poder e a velocidade das locomotivas, que passaram a representar
                              o smbolo da nova era. Surgiram na Inglaterra por volta de 1825-1830 e
                              se alastraram rapidamente por vrios pases do mundo ocidental. Nos
                              EUA as primeiras linhas foram abertas em 1827, na Frana entre 1828-
                              1835, na Alemanha em 1835 e na Rssia em 1837. A estrada de ferro,
                              com a locomotiva serpenteando atravs dos pases, com suas pontes,
                              estaes e um conjunto de construes, representava o triunfo dos ho-
                              mens pela tecnologia. Em 1850, j havia mais de 37 mil quilmetros de
                              ferrovias no mundo.

                     PESQUISA

     4) Pesquise imagens de revistas, cartes postais ou fotografias de grandes cidades como Tquio, No-
        va York, So Paulo ou Curitiba, principalmente de suas avenidas e edifcios. Descreva como voc
        percebe a arquitetura destas cidades.
     5) Pesquise em enciclopdias, livros de histria e internet sobre a evoluo dos meios de transportes
        a partir da Revoluo Industrial, registre as informaes mais importantes e monte um painel compa-
        rando com os meios de transportes atuais, perceba as mudanas, diferenas e semelhanas. De-
        pois de finalizado, apresente suas concluses para os seus colegas de classe.

158 Relaesculturais
                                                                                                 Histria



                ATIVIDADES

    Compare estas imagens pesquisadas com a imagem representada no documento 4 relativa ao
     Palcio de Cristal, construdo em Londres, em 1851.


  Autilizaodaeletricidade
    Nas dcadas de 1890 e 1900, a tecnologia da eletricidade se tornou
uma necessidade para o mundo contemporneo. Buscava-se solucio-
nar problemas com as redes ferrovirias e superar as dificuldades no
controle da iluminao nas fbricas, bem como desenvolver um modo
de transporte urbano de baixo custo e de grande capacidade.
    Para as ferrovias, os meios manuais e mecnicos no conseguiam
controlar o fluxo de trens. Devido a isso, a partir de 1880 comearam
os estudos para instalar um sistema eltrico de sinalizao, o qual per-
mitiu enfrentar o aumento prodigioso da circulao de locomotivas.
    Contudo, o uso mais importante da eletricidade se deu a partir de
1870, atravs da iluminao. Com a utilizao da eletricidade na ilumi-
nao, ocorreu uma verdadeira ruptura com antigos sistemas de ilumi-
nao, at mesmo como o a gs. Representou, tambm, uma ruptura
com a escurido, a obscuridade. Os ambientes antes pouco iluminados
eram locais propcios  ocorrncia de fraudes tanto em fbricas, em lo-
jas, entrepostos comerciais ou barreiras alfandegrias; contribua para
a insegurana e a imoralidade nas ruas e nas habitaes criava um am-
biente pesado para seus habitantes.
    A lmpada a gs e o querosene, cuja luz advinha de uma chama,
eram perigosas devido ao risco de incndios e/ou asfixia, sujavam o
interior dos ambientes e seu odor era visto como suspeitos pelos hi-
gienistas. A iluminao eltrica permitiu o aumento dos rendimentos e
de disciplina dos trabalhadores.
    A iluminao eltrica trazia respostas apropriadas para diversas aspi-
raes da sociedade do sculo XIX, era sinnimo de conforto e higiene,
seu brilho trazia segurana para as cidades. Tratava-se de um produto
novo, criador de um modo de vida totalmente indito, com um sistema
de valores e comportamentos que viria a ser o do sculo XX.
    Em 1880, a mquina a vapor transformara-se em uma tecnologia sa-
turada. A demanda por energia aumentou muito. O transporte e a ma-
nuteno tornavam sua utilizao cada vez mais impraticvel, a manu-
teno do sistema encontrava-se entravado. Havia uma distoro entre
as operaes mecanizadas, e as que continuavam a depender de ener-
gia humana e animal eram cada vez mais difceis de gerenciar devido
 complexidade dos motores e do processo de fabricao.

                                                                UrbanizaoeindustrializaonosculoXIX     159
       EnsinoMdio

                                 Anovarealidadeesuasimpressesna
                                 LiteraturaenaArte
                                    a) Literatura:
                                    Na metade do sculo XIX, iniciou-se na Europa um movimento ar-
                               tstico-literrio denominado de Realismo-Naturalismo, que ia contra o
                               Romantismo do incio do sculo.
                                    O Realismo empregou a nfase para as coisas do mundo real, ba-
                               seado nas idias de racionalidade, objetividade e impossibilidade, pro-
                               pondo retratar finalmente a vida contempornea, para desnud-la, cri-
                               tic-la e transform-la. J o romantismo enfatizava a fantasia, estava
                               ligado  idia de liberdade, conseqentemente liberdade da subjetivi-
                               dade, dos sentimentos, da imaginao. Entre os expoentes do realis-
                               mo/naturalismo esto: Gustave Flaubert (1784-1846), Charles Dickens
                               (1812-1870), Guy de Maupassant (1850-1893), mile Zola (1840-1902).
                                    Alguns escritores do Romantismo foram os percussores do realis-
                               mo, como Victor Hugo (1802-1885) e Honor de Balzac (1799-1850),
                               ao denunciarem em seus romances os abusos contra as classes de tra-
                               balhadores urbanos.




        Documento 5
        Jean Valjean
        Jean Valjean era oriundo de uma famlia pobre de Brie. Na sua infncia no aprendera a ler. Chega-
     do  idade viril, era podador em Faverolles.
         Jean Valjean era de carter pensativo sem ser triste, circunstncia particular s naturezas afetuosas.
     Perdera os pais em idade muito tenra. A me morrera de uma febre de leite mal curada; e o pai, que fo-
     ra tambm podador, morrera em conseqncia de uma queda que tivera de uma rvore. Ficou, pois, a
     Jean apenas uma irm, mais velha do que ele, viva, com sete filhos, entre meninos e meninas. A mais
     velha das sete criancinhas tinha oito anos, a mais nova doze meses. Jean Valjean tinha completado vin-
     te e cinco anos; ficou no lugar do pai, amparando por sua vez a irm que criara consigo. Assim consu-
     mira a mocidade num trabalho rude e mal remunerado. Ningum na terra sabia de algum amor seu. No
     lhe sobrara nunca o tempo para namorar.
          s vezes Jeanne, sua irm, quando ele estava comendo, tirava-lhe da tigela o melhor da ceia pa-
     ra dar a algum dos filhos; ele no parava de comer, e, debruado sobre a mesa, nem opunha resistn-
     cia nem parecia dar por coisa alguma.
         No tempo das podas, ganhava dezoito soldos por dia, e, acabadas elas, trabalhava como ceifei-
     ro, como cavador, como vaqueiro, como carregador. Fazia o mais que podia. Era um triste grupo, que
     a misria pouco a pouco foi abraando e apertando no seu crculo de ferro. Chegou um ano um inver-
     no, um inverno tormentoso, em que Jean Valjean no encontrou trabalho. A famlia ficou sem po. Sem
     po, na mais exata acepo da palavra. Sete crianas.


160 Relaesculturais
                                                                                                    Histria


     Um domingo  noite, dispunha-se a se deitar Maubert Isabeau, padeiro estabelecido no largo da
 igreja, em Faverolles, quando ouviu uma violenta pancada na vidraa gradeada da sua loja. Acudiu ime-
 diatamente e chegou a tempo de ver um brao passado por uma abertura feita com um murro na grade
 e na vidraa. O brao pegou um po e levou-o. Isabeau correu precipitadamente atrs do ladro, que
 fugia  toda, e agarrou-o. Havia jogado o po fora, mas ainda escorria sangue do seu brao. O ladro
 era Jean Valjean. (Adaptado de HUGO, 1985, pp. 90-92).


     Documento 6
    Veja a opinio do critico literrio Marshall Bermam sobre o perodo de modernizao
 atravs dos pensamentos de Marx, contemporneo dos romancistas do Realismo:
     O capital se concentra cada vez mais nas mos de poucos. Camponeses e artesos independen-
 tes no podem competir com a produo de massa capitalista e so forados a abandonar suas terras
 e fechar seus estabelecimentos. A produo se centraliza de forma progressiva e se racionaliza em f-
 bricas altamente automatizadas. (No campo acontece o mesmo: fazendas se transformam e "fbricas
 agrcolas" e os camponeses que no abandonam o campo se transformam em proletrios campesinos.)
 Um vasto nmero de migrantes pobres so despejados nas cidades, que crescem como um passe de
 mgica  catastroficamente  do dia para noite. (BERMAN, 1999, p. 90).


    Em 1880, mile Zola inaugurou o naturalismo francs influenciado
por leituras sobre a teoria evolucionista do bilogo ingls Charles Da-
rwin (1809-1882) presentes na obra A origem das espcies, publicado em
1859. Zola acreditava que as aes dos indivduos eram determinadas
pelo ambiente que estavam inseridos e pela hereditariedade. Sua pro-
posta era mostrar a "verdade", explicar as mazelas sociais com exage-
ro realista. A obra-prima de Zola foi Germinal, publicada em 1885; para
escrev-la, viveu como mineiro por dois meses. Seus romances servi-
ram de exemplo para escritores de vrias partes do mundo, inclusive
do Brasil, como Alusio de Azevedo (1857-1913) com a obra O mulato,
publicada em 1881.

     Documento 7
    Na casa dos Maheu, no nmero 16 do segundo corpo, nada se tinha mexido. Trevas espessas afo-
 gavam o nico quarto do primeiro andar, como que esmagando com o seu peso o sono das criaturas
 que estavam ali aos montes, de boca aberta, esfalfadas. Apesar do frio intenso de fora, o ambiente pe-
 sado tinha um calor de vida, esse cheiro tpido dos mais asseados dormitrios, que cheiram a gado
 humano.
     Bateram quatro horas no cuco da sala do rs-do-cho; continuaram a no se mexer, apenas asso-
 biavam respiraes fracas acompanhadas de dois roncos sonoros. E, repentinamente, Catarina levan-
 tou-se. Malgrado seu cansao, tinha, pela fora do hbito, contado as quatro badaladas da campainha,
 pelo soalho, sem encontrar foras para acordar inteiramente. Depois, com as pernas de fora da roupa,
 apalpou, pegou uma caixa de fsforos, riscou um e acendeu a vela de sebo. Mas, ficava sentada  bei-
 ra da cama, com a cabea to pesada que se lhe bambeava de ombro para ombro, cedendo  inven-
 cvel necessidade de tornar a cair sobre o travesseiro.


                                                                   UrbanizaoeindustrializaonosculoXIX     161
                               EnsinoMdio


                                Agora, a vela clareava o quarto, quadrado, com duas janelas, atravancado com trs camas. Havia
                           ali um armrio, uma mesa, duas cadeiras de velha nogueira, cujo tom embaado manchava duramen-
                           te as paredes pintadas de amarelo-claro. E mais nada a no ser trapos suspensos nos pregos, e uma
                           bilha no cho, ao p de um alguidar vermelho que fazia s vezes de bacia. Na cama da esquerda, Za-
                           carias, o mais velho, rapaz de vinte e um anos, estava deitado com seu irmo Jeanlin, que ia para os
                           seis anos e aquele de quatro, dormiam abraados um ao outro; enquanto Catarina partilhava o terceiro
                           leito com sua irm. Alzira to enfezada para os seus nove anos, que nem ela a teria sentido junto de si,
                           se no fosse o cotovelo da pobre enferma, que lhe entrava pelas costelas adentro. A porta de vidraa
                           estava aberta, podia-se ver o corredor do patamar, a espcie de cacifo em que o pai e a me ocupa-
                           vam um quarto leito, onde tinham encostado o bero da mais nova, Estela, que tinha apenas trs me-
                           ses. (ZOLA, 1996, pp. 22-23).




                                             ATIVIDADE

                               Os romances podem ser uma boa fonte de pesquisa para os historiadores. Atravs deles podemos
                                perceber como os escritores procuraram representar a vida cotidiana de pessoas das classes mais
                                pobres. Desta forma, o romance no retrata a realidade fielmente, mas  uma forma de representar
                                como a realidade era vista por estas pessoas. Lendo os dois fragmentos dos romances acima (do-
                                cumento 5: Os miserveis e documento 7: Germinal), quais informaes podemos destacar pa-
                                ra entender como era a vida dos trabalhadores urbanos do sculo XIX? Compare estes fragmentos
                                com o documento 6.



                                                        Arteiconogrfica
                                                                     Nas artes o realismo, tambm, procurou representar a realidade
                                                               social. A riqueza dos capitalistas industriais que se chocava com a
                                                               vida miservel dos operrios e camponeses mostrada pelos pintores
                                                                                em cores escuras e melanclicas. So expoentes des-
                          Documento 8                                           se movimento: os franceses Homor Daumier (1808-
                                                                                1879), Gustave Coubet (1819-1877) e Jean-Franois Mil-
                                                                                let (1814-1875).
                                                                                    Outro movimento artstico importante do sculo XIX
                                                                                foi o Impressionismo. Entretanto, no foi bem aceito
                                                                                pela sociedade e crticos; muitos desses eram artistas
                                                                                e passaram dificuldades e at fome. Eles procuravam
 n www.ac-versailles.fr




                                                                                destacar as impresses a partir dos efeitos da luz so-
                                                                                bre a gua, objetos e superfcies. Artistas como Claude
                                                                                Monet (1840-1926), Pierre-Auguste Renoir (1841-1919),
                                                                                Edouard Manet (1832-1883), Edgar Degas (1834-1917)
                          n JEAN FRANOIS MILLET. As Respigadeiras, 1857,       expressavam em suas obras algo inacabado (para acen-
                            leo sobre tela, 84 x 111 cm. Museu d'Orsay, Paris.
                                                                                tuar a ao  vida), a atmosfera das cenas geralmente


162 Relaesculturais
                                                                                                       Histria

eram realizadas em espaos abertos, ao ar livre, as paisagens eram em Documento 9




                                                                                                                  n www-personal.umich.edugallery
tons claros. A gua e a luz foram os temas que mais se destacaram,
mas tambm deram importncia para as luzes das cidades que davam
ritmo  noite. As pinturas parecem estar atrs de uma cortina de chu-
va ou de vapor.
    Preocupados com sua poca, representaram em suas obras os trens,
as estaes, os cafs e casas de espetculos, as grandes avenidas (bule- n CLAUDE MONET. Estao
vares redesenhados pelo urbanista Georges-Eugne Haussmann [1809-          Saint-Lazare: o trem da Nor-
                                                                           mandia, 1877. leo sobre tela,
1891]) e as pessoas se acotovelando nas ruas.                              59,6 x 80,2 cm. The Art Institu-
                                                                                      te of Chicago.

                 ATIVIDADE

    Com base no texto, analise as pinturas de Millet e Monet representadas nas imagens presentes nos
     documentos 8 e 9 desta unidade, elaborando uma ficha para cada obra com os seguintes itens:
     a) Nome completo do autor, local, data, nome da obra.
     b) Quais so as cores que predominam? Quais so as formas predominantes, os personagens
        principais esto em primeiro ou em segundo planos? So representadas ao ar livre ou em am-
        bientes fechados?
     c) Qual  o tema da obra? O que os documentos 8 e 9 procuram representar? Que relaes po-
        dem estabelecer com o contexto histrico de sua produo?
     d) A que movimentos artsticos pertencem s documentos 8 e 9? Quais so suas caractersticas
        principais que podem ser relacionadas com o contexto histrico de sua produo?


  Ofuturonasgrandescidades
    Uma tendncia que vem se acentuando na atualidade, em relao
s grandes cidades,  a diminuio das atividades produtivas indus-
triais. Os centros industriais esto se transferindo para reas prximas
nas regies metropolitanas, em pequenas e mdias cidades. Por outro
lado, as regies centrais destes locais esto especializando-se em ser-
vios que atendam as suas necessidades. Algumas pessoas (especial-
mente da classe mdia) tambm esto buscando as pequenas e mdias
cidades em busca, principalmente, de segurana. Entretanto, as gran-
des cidades ainda continuam sendo um plo de atrao para pessoas
do mundo inteiro.

     Texto 2
     No incio do prximo milnio, em 2006, pela primeira vez na histria da humanidade a quantidade
 de pessoas morando em cidades deve ser maior do que a populao rural do planeta. No  uma me-
 ra curiosidade, mas uma revoluo.
    Para os brasileiros, dos quais 80% vivem em reas urbanas,  difcil imaginar que, h 200 anos, 98%
 da populao mundial estava no campo.



                                                                      UrbanizaoeindustrializaonosculoXIX          163
         EnsinoMdio


        Rpida, a revoluo urbana  um fenmeno da segunda metade deste sculo XX. A partir da funda-
     o de Jeric, a primeira cidade murada do mundo, a populao urbana demorou cerca de 9 mil anos
     para chegar a 38% do total do mundial, em 1975. Desde ento, j saltou para 47% e, segundo proje-
     es das Naes Unidas, chegar a 55% em 2015 e 61% em 2025.
         Ou seja, em apenas 50 anos, os moradores das cidades tero sido multiplicados de 1,5 bilho pa-
     ra 5 bilhes de pessoas  o equivalente a 500 mil cidades de So Paulo.
         Isto indica que, apesar das previses de que as novas tecnologias de informao e a acumulao e
     problemas nas metrpoles implicariam a desarticulao da vida urbana, a cidade absorveu as mudan-
     as e ainda  o motor do desenvolvimento cientfico. Mas isto tem um preo. "O nmero de moradores
     urbanos vivendo em pobreza absoluta cresceu rapidamente nos anos 80, especialmente na Amrica
     Latina, frica e nas economias asiticas menos favorecidas". O alerta consta do "Relatrio Global sobre
     Aglomeraes Humanas", que resume o encontro (Habitat) promovido pela ONU em 1996 sobre o te-
     ma. Agravada pela globalizao, a desigualdade entre cidades  um dos maiores custos da revoluo
     urbana. O Programa do Habitat mostra que a renda mdia domiciliar das cidades dos pases industriali-
     zados  de 38 vezes maior do que a das cidades africanas: US$ 9544 contra US$ 252 por ano.
        Mesmo nas cidades dos pases industrializados, os 20% mais ricos tm uma renda 10 vezes maior
     do que os 20% mais pobres.
          acelerao da desigualdade somou-se  crise do Estado, que tirou dos governos muito de seu
     poder de investimento em infra-estrutura e servios sociais. Como resultado, para uma parcela cres-
     cente da populao, a vida urbana tambm passou a ser sinnimo de desemprego, misria, violncia,
     favelas, congestionamentos e poluio.
        A urbanizao  mais acelerada nos pases pobres: em mdia 5% ao ano, contra 0,7% nos pases
     desenvolvidos.
         Ao mesmo tempo, deve haver uma multiplicao das grandes cidades nas regies pobres. Em
     1950, havia apenas cerca de 100 aglomeraes urbanas com mais de 1 milho de habitantes no mun-
     do  a maioria nos pases ricos. Em 2015, segundo a ONU, haver 527 grandes cidades. E 3 a cada 4
     estaro nos pases menos desenvolvidos. ( TOLEDO, Jos Roberto de. Folha de So Paulo, 02 mai. 1999.)




                       ATIVIDADE

         A partir do texto 2, quais so as expectativas que o autor coloca em relao  vida nas grandes ci-
          dades para este sculo? Voc concorda com o autor? D sua opinio. Construa uma narrativa his-
          trica comparando o contexto contemporneo com o da urbanizao do sculo XIX.




164 Relaesculturais
                                                                                               Histria

 RefernciasBibliogrficas:
 BERMAN, M. Tudo que  slido desmancha no ar: a aventura da modernidade. So Paulo: Cia das
 Letras, 1999.
 HUGO, V. Os miserveis. So Paulo: FTD, 2001.
 HOBSBAWM, . A era das revolues (1789  1848). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.
 SPOSITO, M. E. B. Capitalismo e urbanizao. So Paulo: Contexto, 1994.
 TOLEDO, J. R. de. Urbanizao cria uma Hong Kong por ms. Folha de So Paulo, 2 de maio de
 1999  Especial ano 2000, p. C2.
 ZOLA, . Germinal. So Paulo: Nova Cultural, 1996.


 Obrasconsultadas
 BAILLET, Y. O impressionismo: um olhar mgico. Rio de Janeiro: Salamandra (Coleo: jardim dos
 pintores), s/d.
 BENEVOLO, L. Histria da cidade. So Paulo: Perspectiva, 2003.
 BRESCIANI, M. S. M. Londres e Paris no sculo XIX: o espetculo da pobreza. So Paulo: Brasi-
 liense, 1994.
 MANTOUX, P. A Revoluo Industrial no Sculo XVIII. So Paulo: Hucitec, 1988.
 MUNFORD, L. A cidade na histria. Belo Horizonte: Itatiaia, 1965.




                                                              UrbanizaoeindustrializaonosculoXIX     165
       EnsinoMdio




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                                                                                             9
                                                          RELAES CULTURAIS:
                                                      Urbanizao e industrializao
                                                       na sociedade contempornea
                                                                                             n Sueli Dias1




                                                         n HENFIL (1944-1988) Charge, s/d.                   http://diversao.uol.com.br/
                                                      O espao urbano produzido pela so-
                                                      ciedade contempornea gerou benef-
                                                      cios e problemas. Existe a possibilida-
                                                      de de solucionar os problemas sociais,
                                                      econmicos, ambientais e sociabilizar
                                                      os benefcios desta produo?



Colgio Estadual Nilo Cairo  Apucarana  PR
1




                                               Urbanizaoeindustrializaonasociedadecontempornea 167
        EnsinoMdio

                                 Amundializaoreal?
                                   A organizao social e econmica da sociedade contempornea 
                               conseqncia do processo histrico vivido pela humanidade. A indus-
                               trializao e urbanizao aceleradas com a Revoluo Industrial, ini-
                               ciada na Inglaterra, no sculo XVIII, aprofundaram as relaes entre a
                               sociedade e a tecnologia.
                                   O conjunto das mudanas na organizao da produo e na orga-
                               nizao das sociedades, do sculo XVIII ao sculo XXI,  considera-
                               do, por muitos, conseqncias da Revoluo Industrial. Muitos histo-
                               riadores denominam estas transformaes como uma nova revoluo,
                               a Revoluo Tcnico-cientfica, ou seja, da tecnologia, da ciberntica e
                               da Informtica. Biotecnologia, automao, clonagem, transgnicos so
                               palavras associada s transformaes desta revoluo.
                                   Um dos maiores problemas da sociedade contempornea est em
                               assistir s mudanas da Revoluo tcnico-cientfica sem que muitos
                               faam parte delas; sem conduzi-las para o bem-estar da humanidade.
                                   Entre os fenmenos que surpreendem a chegada do sculo XXI,
                               como conseqncia de um processo desencadeado a partir da dcada
                               de 1980, no conjunto da reestruturao do sistema capitalista, esto a
                               mundializao da produo e do consumo que forjam a derrubada de
                               fronteiras e a formao de um mundo-em-rede-on-line. O uso da inter-
                               net, da telefonia celular, da transmisso em tempo real suscitam uma
                               cidadania virtual, desterritorializada. So milhes de "transeuntes digi-
                               tais" que consomem, geram, disseminam informaes, produtos e ser-
                               vios, criando as websocieties e as webcultures, onde impera a homo-
                               geneizao das relaes.
                                   A lngua inglesa  usada cotidianamente por cerca de 2 bilhes
                               de pessoas, sem ser a lngua nativa para 2/3 delas. Este  apenas um
                               exemplo para perceber a unicidade dos usos e costumes que esto
                               em gestao.
                                   Observe como a mundializao padroniza seu vesturio. No guar-
                               da-roupa global, independente das diferenas culturais de quem os
                               usa, constam jeans, camisetas, tnis, ternos, etc. Criam modismos e ne-
                               cessidades como um caminho para a felicidade.

         Texto 1
         As lnguas mais faladas no planeta so: chins-mandarim (900 milhes), ingls (500 milhes), es-
     panhol (300 milhes), hindu (300 milhes), portugus (220 milhes). Das 5 lnguas mais faladas, o in-
     gls  o intercomunicante supranacional e mundial por excelncia:  o idioma da incipiente administra-
     o global da produo e das tecnologias emergentes; das recentes normas e procedimentos jurdicos
     da gesto de alcance planetrio; dos comandos dos pilotos; dos equipamentos de diversas reas tc-
     nicas; do linguajar das finanas; das instituies acadmicas; foras armadas, etc. (Adaptado de DREIFUSS,
     2004, p. 134).


168 RelaesCulturais
                                                                                                 Histria

    Nestas relaes, tudo pode ser transformado em produto. Veja:
em 1950, 25 milhes de pessoas (aproximadamente 1% da populao
mundial do perodo) viajavam para obter lazer, agora, incio do scu-
lo XXI, segundo a Organizao Mundial do Turismo, 702 milhes de
turistas (aproximadamente 11,5% da populao mundial atual) viajam
anualmente pelo mundo. Este  um dos maiores setores da economia
em expanso. Um setor, que entre outras relaes, tambm  um no-
vo produto.
    Num outro exemplo, a produo vem se mundializando. No campo
da biotecnologia, farmacutica humana e animal, engenharia gentica,
bioqumica, sementes e alimentao, as maiores empresas so, no s-
culo XXI, megacorporaes, resultados de fuses, terceirizaes, alian-
as, e podem ser conhecidas por suas transnacionalidades, pelo con-
trole mundial da produo e pelo controle de outras empresas. Quem
se apropria destas produes?
    Veja pela historiografia uma considerao sobre a formao de uma
empresa transnacional, em expanso neste processo de reestruturao
do sistema capitalista:

     Texto 2
    A Coca-Cola, maior fabricante de bebidas do mundo,  produtora de diversas macas conhecidas:
 Powerade, Aquarius, Bonanga, Bargs, Bright & Early, Citra, Coke, Dasan, Fanta, Five Alive, Fruitopia,
 Scweppes, Sprite, ...
     No campo dos sucos, a Coca-Cola tem a fbrica Recofarma  em Manaus.  de l que supre as f-
 bricas da Coca-Cola da Venezuela, da Colmbia, da Argentina, do Paraguai e do Brasil.
    A Recofarma foi inaugurada em 1990. Seis anos mais tarde, comearam as exportaes, com US$
 6 milhes; em 1997 foram US$ 25 milhes; em 1998, US$ 70 milhes; em 2000, US$ 286 milhes.
 (Adaptado de DREIFUSS, 2004, p. 150-153.)


    A Coca-Cola tambm  acionista de empresas de sucos no Rio Gran-
de do Sul e da cervejaria Kaiser, no Paran.
    Quais so os responsveis pelo crescimento de empresas como
esta? Especialmente, por seus faturamentos?
    Empresas transnacionais que se instalam em um pas, se denomi-
nam parceiras e usam, entre outras condies, as matrias-primas, a
mo-de-obra, o mercado de consumo, e o meio ambiente do pas que
as acolheu.  possvel analisar os resultados destas parcerias? Que re-
sultados podem ser destacados sobre esta realidade no Brasil?



                    PESQUISA

    Quais as condies que tornaram o mercado brasileiro atraente para a instalao destas empre-
     sas?

                                             Urbanizaoeindustrializaonasociedadecontempornea 169
         EnsinoMdio



                       DEBATE

         Organize um debate: Discuta com seu professor e seus colegas os pontos positivos e negativos da
          mundializao/globalizao que vivenciamos atualmente.



                                 Aexplosourbana
                                   possvel afirmar que a Revoluo Tcnico-cientfica vem modifi-
                              cando a organizao e o modo de vida da sociedade contempornea?
                                  A partir de 1950, perodo de transio para esta revoluo, ocorreu
                              um fenmeno universal, porm no uniforme; um grande crescimen-
                              to da populao urbana, especialmente nos pases pobres. Segundo os
                              relatrios da ONU, lanados na segunda Conferncia mundial sobre Po-
                              voamentos Humanos, em Istambul, no ano de 1996, h 200 anos, apenas
                              2% da populao mundial vivia em cidades e, de acordo com as esti-
                              mativas, em 2010, mais de 20 cidades no mundo tero acima de 10 mi-
                              lhes de habitantes.
                                  Observe o grfico 1. Que relaes podemos estabelecer entre a po-
                              pulao urbana e a populao rural durante o sculo XX ?

                               Grfico 1
                                                          Populao urbana e rural do mundo




                       PESQUISA

         Sobre os motivos que provocaram a exploso urbana, a partir da dcada de 1950, nos pases po-
          bres. Depois, produza um texto.


170 RelaesCulturais
                                                                                                                           Histria



                         ATIVIDADE

          Organize, com sua turma, o que vocs consideram infra-estrutura necessria para atender os servi-
           os bsicos da populao de uma cidade. Registre-os.
          Segundo as consideraes da turma, organizem um painel para expor na escola. Nesse painel, de-
           monstrem a infra-estrutura que o meio urbano em que vocs vivem tem e o que necessita.

   Estes so dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica (IBGE):
   Que diferenas so demonstradas entre a populao urbana e a populao rural brasileira
entre 1980 a 2000?
      Grfico 2
      Proporo da populao por situao de domiclio no Brasil - 1980-2000
       %
  90
  80
  70
  60
  50
  40                                                                                                  n Fonte: IBGE, Censo Demo-
                                                                                                        grfico 1980, 1991 e 2000
  30
                                                                                                        e Contagem da Populao
  20                                                                                                    1996 http://www.ibge.gov.br/
  10                                                                                                    brasil_em_sintese/default.htm
                                                                                                        Em 05/10/2005.
   0
                  1980                     1991                        1996            2000

                                          Urbano               Rural
      Tabela 1
  Maiores Metrpoles do Mundo          Milhes de habitantes                Existem vrias razes para explicar a realidade
    (considerando as regies                                           desta expanso demogrfica nas cidades. No Bra-
        metropolitanas)
                                                                       sil, esta condio pode ser compreendida a par-
 Tquio                                            26,4                tir da relao com a poltica desenvolvimentista
 Mxico e Bombaim                                  18,1                do governo de Getlio Vargas (1882-1954). A con-
 So Paulo                                         17,8                centrao na zona urbana pode ser, para o traba-
 Nova Iorque                                       16,6                lhador, uma perseguio ao emprego na indstria
 Lagos                                             13,4                e no comrcio. As relaes do mundo do traba-
 Los Angeles                                       13,1                lho no campo tornaram-se mais excludentes com
 Calcut e Xangai                                  12,9                a mecanizao e especializao das monoculturas
 Buenos Aires                                      12,6                para exportao, empurrando-o para os centros ur-
 Dacar                                             12,3                banos.
 Karachi                                           11,8
                                                                            Na tabela 1, constam as maiores cidades da atu-
 Dlhi                                             11,7
                                                                       alidade. Estes dados foram apresentados no ano de
 Jacarta e Osaka                                   11
                                                                       2001, quando a Assemblia Geral da ONU retomou
 Manila                                            10,9
                                                                       a discusso sobre a crescente urbanizao e res-
 Pequim                                            10,8
                                                                       gatou os relatrios da conferncia de 1996, da "Ci-
 Rio de Janeiro e Cairo                            10,6
n Fonte: ONU / IBGE / Fundao Seade

                                                               Urbanizaoeindustrializaonasociedadecontempornea 171
                                   EnsinoMdio

                                                                    meira Urbana", como ficou conhecida. Nessa assemblia foi lanado
                                                                    um documento: O Estado das Cidades no Mundo, em reconhecimento 
                                                                    realidade da vida urbana dos grandes centros. Nas palavras do secre-
                                                                    trio-geral de 2006, Kofi Atta Annan (1938- ), "o mundo est no meio
                                                                    de uma transformao histrica e radical, no s sobre como as pesso-
                                                                    as vivem, mas onde elas vivem".
                                                                        Viver numa cidade grande  um benefcio para quem pode apro-
                                                                    veitar da concentrao de pessoas, mercadorias e servios. As neces-
                                                                    sidades bsicas podem ser mais facilmente atendidas: existem grandes
                                                                    lojas e servios especializados. Os cidados entram em contato mais
                                                                    direto com a condio de criao, inveno e expresso da socieda-
                                                                    de, visto que a cidade congrega diversidade cultural, tnica, religiosa
                                                                    e contradies sociais. E tudo o que congrega, preserva por meio das
                                                                    construes, monumentos, bibliotecas, arquivos, enfim, por meio de
                                                                    seu projeto de urbanizao.
                                                                        A transformao urbana tem sido radical e muito maior nos pases
                              Assim est significada me-            pobres, onde o xodo rural  maior: a Cidade do Mxico, por exem-
                             galpole no Dicionrio Hou-            plo, passou de 6 milhes de habitantes em 1950, para 18 milhes em
                             aiss da Lngua Portuguesa:             1995. So Paulo, nas mesmas datas, saltou de 2,5 milhes para 17 mi-
                                                                    lhes de habitantes.
                             1.Grande e importante ci-
                             dade. 2. Regio densamen-                  Na sia, a concentrao urbana segue os mesmos parmetros: a
                             te povoada, constituda de             zona urbana abriga 340 milhes de chineses e 220 milhes de india-
                             uma grande metrpole ou                nos. No Egito, 40% da populao urbana est concentrada na cidade
                             de diversas cidades, sem zo-           do Cairo.
                             nas rurais a intermedi-las.               Estas cidades, em vista de seu crescimento, passaram a ser chama-
                              (2001, p. 1881).                      das de megalpoles.
                             Documento 1                                         Documento 2
 n http://members.eisa.com




                                                                                                                                                                  n http://es.wikipedia.org/




                             n So Paulo  Brasil. Fotografia vista de cima.    n MARTIN STEIGER. Cairo  Egito, 06 out. 2003. Fotografia vista de cima. Cairo.

                                                                        Nos pases mais ricos, especificamente os europeus atingidos pe-
                                                                    la Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a reconstruo e a reurbani-
                                                                    zao das cidades foram aes planejadas pelo Estado, valendo-se de
                                                                    projetos de arquitetos renomados e empregando mo-de-obra imigran-
                                                                    te. Na Alemanha, Frana e Reino Unido, boa parte desta fora de tra-
                                                                    balho vinha do norte da frica.


172 RelaesCulturais
                                                                                                           Histria

    Nos projetos de reurbanizao, a partir da dcada de 1970, tan- Documento 3




                                                                                                                         n http://www.dw-world.de/
to em pases ricos quanto em pases pobres, a setorializao das de-
sigualdades sociais tornou-se comum: a elite concentrou-se em luxu-
osos bairros mais afastados das reas de comrcio e da produo, em
condomnios fechados servindo de locais de moradia e lazer. Os cen-
tros das cidades e os bairros com fbricas foram tendencialmente ocu-
pados pela classe operria.                                           n As runas do Reichstag, em Ber-
                                                                                     lim, em 1945. Fotografia. Berlim.



                 PESQUISA

    Busque, entre seus familiares, as causas da vinda da famlia para o local onde voc vive agora. Par-
     tilhe os dados com sua turma e construa sua narrativa histrica para explicar os objetivos destas mi-
     graes.


  Atecnologia,aurbanizaoeaarte
    Os recursos tecnolgicos so recentes, mas  difcil imaginar como
foi o mundo sem alguns deles. Grande parte do povo brasileiro assis-
te  televiso todos os dias, e este  um hbito considerado recente na
histria, porque a televiso foi inventada no incio do sculo XX e s
chegou ao Brasil em 1950, ou seja, h cinco dcadas. Neste perodo,
apenas um pequeno grupo de pessoas tinha acesso a esta tecnologia,
devido ao seu alto custo. Na sociedade contempornea, este produto 
associado a uma necessidade de busca de lazer e de felicidade.
    A msica, que tambm  muito apreciada em todos os meios so-
ciais, era ouvida, at a duas dcadas, ou at em menos tempo, em r-
dios de pilha, vitrolas, toca-discos, discos de vinil ou fitas cassete. Es-
tes instrumentos ainda so usados por algumas pessoas, mas tambm
so quase desconhecidos para muitos, especialmente os jovens, acos-
tumados com os modernos cd-player, mp3, ... os sound machine da
atualidade.
    Veja como um dos historiadores, que discute as transformaes do
sculo XX, destaca o avano da tecnologia, da urbanizao e a oni-
presena da arte na sociedade a partir de 1950:
     Texto 3
      A tecnologia transformou o mundo das artes, embora mais cedo e mais completamente o das artes
 e diverses populares que o das "grandes artes", sobretudo as mais tradicionais. Em termos gerais, o
 fato decisivo da cultura do sculo XX  o surgimento de uma revolucionria indstria da diverso popu-
 lar voltada para o mercado de massa  reduziu as formas tradicionais de grande arte a guetos de elite,
 e de meados do sculo em diante seus habitantes eram essencialmente pessoas com educao su-
 perior. O pblico de teatro e pera, os leitores dos clssicos literrios de seus pases e do tipo de po-



                                              Urbanizaoeindustrializaonasociedadecontempornea 173
         EnsinoMdio


     esia e prosa levado a srio pelos crticos, os visitantes de museus e galerias de arte pertenciam esma-
     gadoramente aos que tinham pelo menos educao secundria.
         A cultura comum de qualquer pas urbanizado de fins do sculo XX se baseava na indstria da di-
     verso de massa  cinema, rdio, televiso, msica popular , da qual participava a elite, certamente
     desde o triunfo do rock, e  qual os intelectuais sem dvida deram um toque cerebral para torn-la ade-
     quada ao gosto da elite.
          possvel imaginar como as histrias culturais do sculo XXI vo avaliar as realizaes artsticas das
     grandes artes da segunda metade do sculo XX?  obvio que no, mas dificilmente deixaro de notar
     declnio, pelo menos regional, de gneros caractersticos que floresceram em grande estilo no sculo
     XIX e sobreviveram na primeira metade do sculo XX. (Adaptado de HOBSBAWM, 1995, pp. 485-493).



                       ATIVIDADE

         Analise o texto 3. Depois, discuta com seu professor e seus colegas e produza uma narrativa so-
          bre a cultura transmitida pela indstria de diverso em massa.
         Estabelea uma comparao entre o rock e o hip-hop. Quando e onde surgiram? Que grupos pro-
          tagonizaram estes estilos? Que temas e mensagens transmitem?



                       DEBATE

         Organize um debate em sala para discutir sobre as condies e organizao dos locais de lazer e
          cultura de sua cidade. Divulgue as crticas e sugestes.


                                   Nas paisagens urbanas, um dos setores da arte que mais se eviden-
                               ciou foi a arquitetura. Novas cidades planejadas surgiram ou mesmo
                               as mais antigas, expandiram-se verticalmente; ruas e avenidas foram
                               construdas em sentido retilneo, para facilitar a comunicao e circu-
                               lao de pessoas e mercadorias; as novas construes precisavam unir
                               beleza e conforto para multides; os materiais empregados nas cons-
                               trues tambm se diversificaram: concreto armado, colunas de susten-
                               tao, vidros, paisagismo, espelhos d`gua, etc. Leia, neste fragmento
                               historiogrfico, como um dos arquitetos mais famosos da modernida-
                               de, o francs de origem sua Charles-douard Jeanneret-Gris, conhe-
                               cido como Le Corbusier (1887-1965), concebia uma metrpole e su-
                               as mltiplas funes:

          Texto 4
           importante criar uma via de comunicao organizada entre os bairros de trabalho e residenciais. O
     trfego tem que ser classificado, separado entre pedestres e carros, trfego rpido e reas de servio
     que requerem estacionamento. A enorme perda de tempo causada pela incoerncia do sistema atual


174 RelaesCulturais
                                                                                                                                Histria


  deve ser reduzida. Porm, o melhor no  dar lugar ao trfego de automveis, mas sim reduzir as dis-
  tncias. E para evitar que a cidade se alargue demais, deve-se utilizar a altura: para os bairros residen-
  ciais, edifcios em blocos; prdios altos para os bairros comerciais. Assim pode ser organizada a mis-
  tura catica das grandes cidades da atualidade e favorecer as funes de circular, trabalhar e viver nas
  cidades. (Adaptado de GERD, 1982, p. 214 e 215).

    Observe como as idias de Le Corbusier influenciaram Oscar Nie-
meyer (1907- ) e Lcio Costa (1902-1998), no Brasil, na dcada de
1950. As imagens, presentes nos documentos 4 e 5, correspondem ao
estilo da arquitetura moderna. Nelas existem semelhanas prprias do
estilo: grandes estruturas de concreto armado, obras gigantescas onde
as paredes, mais do que sustentao e proteo ao edifcio, so pai-
nis de vidros ou espaos de exposio para outras obras. So obras
para atendimento ao pblico, para a circulao de grande quantidade
de pessoas. Suas grandes janelas pretendem transmitir disponibilidade
e transparncia aos seus usurios.
Documento 4                                                         Documento 5




n Assemblia de Chandigarh  ndia, 1955. Fotografia. Chandigarh.   n Congresso Nacional em Braslia  Brasil, 1960. Fotografia. Braslia.
  Obra de Le Corbusier. http://www.fondationlecorbusier.asso.fr       Obra de Oscar Niemeyer. http://de.wikipedia.org




                      PESQUISA

      O Brasil teve Salvador (1549-1763) e Rio de Janeiro (1763-1960) como capitais. Uma nova capital
       foi pensada desde os tempos de D. Pedro I (1798-1834), e construda somente durante o governo
       de Juscelino Kubitschek de Oliveira (1902-1976). Pesquise sobre a cidade de Braslia, pois ela foi
       uma cidade planejada, exemplo da arquitetura moderna no pas.
       - Organize um dossi sobre nossa capital - Braslia. Siga estes passos:
       a) localizao e poca da construo;
       b) idealizadores do projeto e desenho da concepo inicial;
       c) contexto histrico e poltico da poca da construo;


                                                            Urbanizaoeindustrializaonasociedadecontempornea 175
         EnsinoMdio


          d) cidades satlites surgidas em torno da cidade;
          e) populao atual e principais problemas enfrentados com o crescimento.
         Pesquise outras obras de arquitetura do estilo moderno e busque observar essas caractersticas.


                                  Atransparnciadosproblemassociaise
                                  estruturaisnaexplosourbana
                                   Hbitos e costumes esto se universalizando. Isto tem sido uma l-
                               gica tambm para os direitos humanos?
                                   Teoricamente, construiu-se uma cidadania universal, porm nosso
                               maior desafio ainda  lidar com a diversidade: tnica, religiosa, polti-
                               ca, econmica, enfim, cultural e, sobretudo, com a desigualdade social
                               e a pobreza crescente.


          Texto 5
         Nesse mundo, 1 bilho de pessoas esto na misria, totalmente fora dos circuitos de variada satis-
     fao; 2 bilhes so humildes consumidores, outros 2 bilhes so remediados, enquanto somente um
     bilho consegue realmente estar em condies de "consumir" os benefcios da "ponta do processo".
     Em 1999, a diretoria do Banco Mundial reconheceu que, depois de 50 anos ditando polticas macroe-
     conmicas, as perspectivas para o sculo XXI so sombrias. Em 1987 havia 1,2 bilho de pessoas vi-
     vendo em pobreza absoluta nos pases em desenvolvimento, com o equivalente a um dlar por dia ou
     menos. Em 2000, esse nmero atingiu 1,5 bilho e em 2015 a perspectiva  de que totalize 1,9 bilho
     de pessoas. Observando por outro ngulo, em 1950 havia 300 milhes de pobres e miserveis vivendo
     nas grandes cidades de pases em desenvolvimento. No ano 2000, com a populao no mundo duas
     vezes maior, chegavam a 2 bilhes. (Adaptado de DREIFUSS, 2004, p. 640).

                                    fundamental que as cidades direcionem constantemente polticas
                               pblicas para dar estruturas adequadas aos seus cidados: servios de
                               gua, esgoto, saneamento bsico, transporte, coleta seletiva e recicla-
                               gem de lixo, projetos de aquisio de moradias, servios de hospitais,
                               segurana, creches, escolas, reas de lazer. Enfim, condies de so-
                               brevivncia com dignidade e qualidade de vida. Confira algumas das
                               atitudes para sanear uma cidade. So tarefas do poder pblico e pre-
                               cisam da colaborao de cada cidado. Devem ser entendidas como
                               conquistas histricas e motivo permanente de reivindicaes e organi-
                               zao das comunidades.

          Documento 6
             Canalizao e limpeza de rios e crregos;
             Desobstruo de bueiros e galerias pluviais;
             Iluminao e pavimentao das ruas;
             Fiscalizao da qualidade de alimentos, remdios e combustveis;

176 RelaesCulturais
                                                                                                                                                   Histria


                                           Controle de animais que podem transmitir molstias;
                                           Preveno de doenas;
                                           Educao sanitria e atendimento mdico-hospitalar. (Adaptado de ALVES, 1994, p. 118).

                                   Todos os servios citados no documento 6 so prioridade para os ci-
                                dados; podem ser geridos pelo Estado, mas devem ser acompanha-
                                dos pela sociedade em geral, por meio de: associaes de bairros,
                                comunidades de base, conselhos comunitrios, ONGs, entre outras
                                formas de organizao.
                                   Destacando o problema do lixo urbano, estima-se que quanto maior
                                o consumo, maior a quantidade do lixo produzido.
                                   Veja como a historiografia considera o problema do lixo urbano:

                                       Texto 6
                                      No Brasil, cada um dos sessenta milhes de cidados que formam a populao economicamente
                                  ativa, consome, em mdia, setenta quilos de embalagens por ano.
                                      Estima-se em cem mil toneladas dirias a quantidade de lixo produzido nas cidades brasileiras, das
                                  quais cerca de doze mil toneladas so geradas pela capital paulista. Do lixo urbano brasileiro, cerca de
                                  60%  coletado, geralmente, nos bairros de maior poder aquisitivo, permanecendo o restante junto s
                                  casas ou atirados nas ruas, terrenos baldios, encostas, mananciais, crregos e rios. Nesses lugares,
                                  popularmente denominados lixeiras, vazadouros ou lixes, so comuns os deslizamentos, as enchen-
                                  tes, os focos de doenas, cheiros pestilentos e uma paisagem infernal. No fosse suficiente, existe tam-
                                  bm a calamitosa situao da disposio ilegal de lixo industrial. (Adaptado de WALDMAN apud PINSKY e PINSKY,
                                  2003, p. 551 e 552).

                                    A legislao de proteo ambiental e desenvolvimento sustentvel
                                 Agenda 21, delibera, como estratgia para diminuir os problemas ge-
                                rados pelos depsitos de lixo urbano, a construo de aterros sanit-
                                rios para o lixo no reciclvel e coleta seletiva para o reciclvel.
                                    Em algumas cidades, alm da coleta seletiva, esto surgindo proje-
                                tos de gerao de emprego e renda com o lixo reciclvel, organizan-
                                do os trabalhadores deste setor em associaes ou cooperativas. So
                                alternativas consideradas inteligentes, porque aliam a soluo dos pro-
                                blemas ambientais com os problemas sociais, entre eles, por exemplo,
                                o desemprego.
                                Documento 7                                       Documento 8
n http://tudoparana.globo.com




                                                                                                                        n SUELI DIAS. Miriam Macha-
                                                                                                                          do, integrante da COCAP
                                                                                                                          (Cooperativa dos Catado-
                                                                                                                          res de Papel de Apucara-
                                                                                                                          na), recolhendo material reci-
                                                                                                                          clvel no Colgio Estadual Nilo
                                                                                                                          Cairo, 2002. Fotografia. Apu-
                                                                                                                          carana.
                                n ALBARI ROSA. Lixo da Cachimba, registrada em
                                  23 out. 2003. Fotografia, Curitiba.
                                                                                    Urbanizaoeindustrializaonasociedadecontempornea 177
         EnsinoMdio

   Documento 9
                                        Como estes dados do IBGE, presentes no grfico 3, referentes  so-
                                     ciedade brasileira, dos ltimos anos do sculo XX, podem indicar as
                                     necessidades de organizar polticas pblicas que diminuam a excluso
                                     social e os problemas das relaes de gnero?

                                               Grfico 3  Proporo da Populao por Grandes Grupos de
                                                                  Idade - 1980-2000
                                           %
                                      90

   n MIGUEL PAIVA, Charge, 05 out.    80
     1988. O Estado de So Paulo     70
     Edio histrica, p. 3.          60
                                      50
                                      40
                                      30
                                      20
                                      10
                                       0
                                                   1980               1991             1996               2000

                                                             0 - 14          15 - 64          65 e mais

                                                                                                                 n Fonte: IBGE




                          DEBATE

     1. Discuta com seu professor e sua turma:
          a) Quais as maiores necessidades para uma boa qualidade de vida das crianas, dos jovens, e da
             terceira idade?
          b) Quais reivindicaes devem ser feitas ao poder pblico para viabilizar a realizao de tais neces-
             sidades?
          c) Faam um painel e exponham-no para a escola com a sntese da discusso.



                          PESQUISA

         Pesquise em nossa Constituio os principais direitos de cidadania do brasileiro. Divulgue-os junto
           comunidade.




178 RelaesCulturais
                                                                                             Histria

 RefernciasBibliogrficas
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                                          Urbanizaoeindustrializaonasociedadecontempornea 179
      EnsinoMdio




180 Relaesdepoder
                                                                                                                                Histria




                                                                                                                    10
                                                                                RELAES DE PODER:
                                                      Urbanizao e industrializao no Paran
                                                                                                                     n Marli Francisco1




                                                                                                                                           n Museu Paranaense
                                                                n CARLOS HBERTHAL. Panorama de Curitiba, 1888. Aquarela, 40 x 91 cm.




                                                                        ocupao do Estado do Paran no
                                                                        se deu de forma uniforme e imedia-
                                                                         ta, passou por um longo perodo de
                                                                         constituio das vilas e cidades. Mas
                                                                voc sabe como as cidades foram formadas
                                                                no Paran? Quais as relaes econmicas e
                                                                polticas que forjaram as cidades como a re-
                                                                presentada na imagem? E a sua cidade, em
                                                                que processo histrico foi constituda?



Colgio Estadual Chateaubriandense - Assis Chateaubriand - PR
1




                                                                                      UrbanizaoeindustrializaonoParan 181
       EnsinoMdio

                                AsprimeirasvilasecidadesdoParan
                                 Os primeiros povoados que surgiram, na rea que hoje  o Estado
                              do Paran, foram fundados por espanhis, Ciudad Real del Guayra,
                              em 1557, prximo ao atual municpio de Guara e Villa Rica del
                              Espiritu Santu em 1576, onde se encontra hoje o municpio de Fenix.
                              Alm desses povoados, foram fundadas as redues, que eram aldeias
                              administradas por padres espanhis: os jesutas.
                                                              A presena espanhola nessa parte da
    Mapa 1
                                                          Amrica foi resultado do tratado de Tor-
                                                          desilhas, assinado entre Portugal e Es-
                                                          panha, em 1494. Por este tratado, a Es-
                                                          panha detinha a maior parte das terras
                                                          que forma o nosso estado hoje. Nesse
                                                          contexto, sculo XV, os espanhis foram
                                                          abrindo caminhos e estenderam seus
                                                           n Fonte: CIGOLINO, 2001, p. 69.
                                                          domnios territoriais, com o objetivo de
                                                          aprisionar ndios, escravizando-os, de-
                                                          ter as contnuas invases dos portugue-
                                                          ses em seu territrio e conseguir no futu-
                                                          ro um porto martimo, no Atlntico, para
                                                          Assuncin.
   n Paran Espanhol.                                         Observe o mapa 1, referente ao Para-
                                                          n Espanhol, para que voc possa fazer
                              uma leitura do mesmo a fim de identificar a diviso territorial organi-
                              zada por Portugal e Espanha proposta pelo Tratado de Tordesilhas em
                              1494.

        Texto 1
        Todo esse conjunto de caminhos foi percorrido por espanhis e portugueses, tendo sempre co-
     mo objetivo primeiro o preamento de ndios e a busca de metais preciosos. Datam desta poca proibi-
     es impostas pelas autoridades espanholas e portuguesas quanto a multiplicidade dos caminhos e o
     conseqente desrespeito s linhas de Tordesilhas. Entretanto a formao da Unio Ibrica, a partir de
     1580, foi motivo suficiente para que aquelas proibies no fossem eficazmente levadas em conside-
     rao. (SANTOS, 2001, p. 18).

                                 Atravs da leitura do mapa 1, voc observou que a preocupao
                              dos portugueses em relao  ocupao espanhola no era em vo.
                              Alm do territrio, os portugueses tambm tinham interesses econmi-
                              cos nessa regio, principalmente com relao ao apresamento de in-
                              dgenas e a busca por metais preciosos e, por isso, organizaram expe-
                              dies bandeirantes paulistas para destruir os povoados e as redues
                              espanholas impedindo a sua expanso. Na imagem de Jean-Baptiste
                              Debret (1768-1848), voc pode visualizar a representao da ao dos
                              bandeirantes paulistas no planalto curitibano.

182 Relaesdepoder
                                                                                                                  Histria

   Com a destruio da maioria dos povoados Documento 1
espanhis e das redues jesutas, as terras
pertencentes  Coroa espanhola foram prati-
camente abandonadas tanto pelos portugue-
ses como pelos espanhis no decorrer do s-
culo XVII.


                 PESQUISA




                                                                                                                             n www.dhnet.org.br
     Pesquise sobre a ocupao espanhola no
      territrio que atualmente pertence ao Para-
      n. Procure definir como eram organizadas
      as redues (misses) religiosas e as vilas
      espanholas nos sculos XVI e XVII.            n JEAN-BAPTISTE DEBRET. Soldados ndios de Curitiba, escoltan-
                                                      do selvagens, c. 1834. Litogravura, Estampa 22, Prancha 20, DEBRET,
                                                      1989 [1834]
   As terras que pertenciam a Portugal foram efetivamente ocupadas
com a descoberta de ouro prximo  Baa de Paranagu, na metade do
sculo XVII, fato que marca o incio do povoamento do nosso litoral.
   Nesse perodo, Paranagu pertencia  Capitania de So Vicente,
em funo da diviso territorial do Brasil realizada por D. Joo III, em
1534, denominada de Capitanias Hereditrias.  importante ressaltar
que essas terras eram efetivamente ocupadas por vrios povos indge-
nas. Os conflitos entre os colonos europeus e brasileiros e os povos
indgenas eram freqentes, por causa da invaso de suas terras. Esses
povos reagiram pacfica ou violentamente contra a presena e o pro-
cesso de povoamento imposto pelos europeus e brasileiros, assim co-
mo foram incorporados ao processo de colonizao.
   Os portugueses iniciaram a colonizao do Paran pelo litoral e a
minerao foi a atividade que motivou o povoamento deste territrio.
Com a notcia do ouro na baa de Paranagu, um grande nmero de
pessoas foi atrado para esta localidade vindo de vrias partes de Por-
tugal e da Amrica portuguesa, como: So Vicente, Santos e Rio de Ja-
neiro. Em funo dessa descoberta, Paranagu foi elevada  categoria
de vila em 1660, sculo XVII.
   Na esperana de fazer fortuna, a busca pelo ouro reinou por mais
de cem anos. Como Paranagu (1648), novos povoados foram sur-
gindo na trilha do ouro: Curitiba (1693), Guaratuba (1771) e Antoni-
na (1797). A atividade mineradora ajudou a abrir caminhos e a formar
povoados que se transformaram em cidades.
   A cidade de Curitiba foi fundada por desejo dos moradores da re-
gio, que queriam organizar a comunidade que se formara no Primei-
ro Planalto. A criao de uma Vila ou Municpio no Brasil, durante o
perodo colonial, seguia as determinaes da coroa portuguesa, sen-



                                                                  UrbanizaoeindustrializaonoParan 183
        EnsinoMdio

                                       do que as Cmaras Municipais institudas nessas Vilas representavam a
                                       aliana entre o poder central e o poder local.
                                           A Cmara Municipal de Curitiba foi fundada em 1693 e, em 1721,
                                       recebeu a visita do Ouvidor Raphael Pires Pardinho, funcionrio real
                                       enviado pelo rei D. Joo V (1689-1750), para organizar as vilas da co-
                                       lnia, do qual a cmara recebeu instrues sobre como deveria fun-
                                       cionar. As normas impostas pelo ouvidor Pardinho so chamadas de
                                       Provimentos e detalham sobre toda a organizao da Vila de Nossa Se-
                                       nhora da Luz dos Pinhais de Curitiba.
                                           Entre os provimentos do ouvidor, existem os que legislam sobre a
                                       organizao do espao urbano. A concepo de ocupao do espao
                                       urbano adotada pelo Estado portugus tinha como modelo "a quadra
                                       retangular perfeitamente adensada, vista a partir da rua como um con-
                                       junto compacto de fachadas, delimitadas por ruas em grade" (PEREI-
                                       RA, 1993, p.197). A permisso para as construes eram cedidas pela
                                       Cmara de acordo com regras pr-estabelecidas que buscavam refor-
                                       ar a idia da cidade como um espao destinado a atividades comer-
                                       ciais, artesanais e religiosas, demarcando as especificidades do campo
                                       e da cidade. O Estado, atravs de sua legislao, demonstrava a preo-
                                       cupao em definir e separar os espaos pblicos e privados, buscan-
                                       do a disciplinarizao do convvio em comunidades.
   Documento 2




   n Curitiba: Rua das Flores nos tempos da Provncia (atualmente Rua 15 de novembro). Autor desconhecido. Data desconhecida.


          Documento 3
                                                   Provimentos do ouvidor Pardinho
         (...) 37. Proveu que daqui por diante nenhuma pessoa com pena de seis mil ris para o conselho
     faa casa de novo na vila sem pedir licena  Cmara, que lho dar e lhe assinar chos em que se fa-

184 Relaesdepoder
                                                                                                    Histria


 a continuando as ruas que esto principiadas e em forma de que vo todas direitas por corda, e unin-
 do-se umas com as outras, e no consintam que, daqui por diante, se faam casas separadas e ss
 como se acham algumas , porque alm de fazerem a vila e povoao disforme ficam os vizinhos mais
 expostos a insultos e desviados dos outros vizinhos para lhe poderem acudir em qualquer necessida-
 de que de dia ou de noite lhe sobrevenha.
     39. Proveu que dando o conselho chos para os quintais aos vizinhos ser conforme a testada de
 suas casas e com tanto fundo como os mais tiverem, e sero obrigados os vizinhos a fazerem neles
 seus cercados para ficarem fechados e livres de desastres e ofensas de Deus que resultam dos quin-
 tais estarem abertos e mal tapados. E por esta mesma razo obrigaro aos vizinhos a que tenham as
 portas de suas casas fechadas, sempre e que no haja na vila pardieiros e ranchos abertos de que se
 seguem os desservios de Deus que se tm visto neste povo, sobre o que faro suas posturas e acor-
 dos. (PARDINHO, Provimentos [Curitiba, 1721] apud PEREIRA, 1993, pp. 197, 198.)



                 ATIVIDADE

       A partir da leitura do documento 3, faa a descrio de uma rua de uma cidade do perodo co-
        lonial brasileiro.
       Quais os argumentos utilizados pelo legislador Ouvidor Pardinho para defender a organizao ur-
        bana por ele proposta?
       Na arquitetura das cidades paranaenses representada no documento 2, pode-se observar
        permanncias da organizao da ocupao do espao proposta no documento 3?



                 PESQUISA

       Em grupo, pesquise sobre o funcionamento das cmaras municipais da Amrica portuguesa du-
        rante o perodo colonial. Depois, organize um painel para apresent-lo a sua turma.

    O crescimento das populaes dos "lugares" ou povoamentos do litoral, no sculo XVIII, e
as relaes das mesmas com as vilas de Paranagu e Curitiba permitiram que novas vilas fos-
sem fundadas naqueles territrios. Leia o que a historiografia relata sobre a fundao de Anto-
nina e Morretes:

    Texto 2
    Antonina
    Tal qual Paranagu, os primeiros desbravadores da regio de Antonina, situada nos fundos da baa
 de Paranagu, foram faiscadores de ouro. Entretanto, a fundao da povoao somente veio a ocorrer a
 12 de setembro de 1714, quando o bispo do Rio de Janeiro autorizou a construo de uma capela. Em
 6 de novembro de 1797, o nascente ncleo foi elevado  categoria de Vila, recebendo a denominao
 de Antonina, em memria ao prncipe D. Antnio (1795-1802), filho primognito do ento prncipe re-
 gente D. Joo VI (1767-1826) e D. Carlota Joaquina (1775-1830). (Adaptado de WACHOWICZ, 1988, p.44 e 45.)


                                                                 UrbanizaoeindustrializaonoParan 185
       EnsinoMdio


        Texto 3
        Morretes
          Nos fins do sculo XVII e incio do XVIII, a regio era percorrida por aventureiros e faiscadores de ou-
     ro. O ouvidor Rafael Pires Pardinho, terminando sua correio em Curitiba, desceu para a marinha pe-
     lo rio Cubato e, observando como era, percebeu que no futuro deveriam existir povoaes no referi-
     do rio, a fim de que o mesmo se transformasse numa via comercial, tal qual ocorria em outras regies,
     em casos semelhantes. Em 5 de de junho de 1769, obteve proviso para erguer uma capela. Pela lei
     provincial de So Paulo, n 16 de 01/03/1841, Morretes foi elevada a municpio, desmembrando-se de
     Antonina. (Adaptado de WACHOWICZ, 1988, p.45 e 46.)


   Documento 4




                                              n WILLIAN LLOYD. Vista geral de Antonina, 1872. Aquarela, 11x34 cm. Coleo particular.



                     ATIVIDADE

           Leia os textos 2 e 3 e observe a imagem presente no documento 4. Depois, relacione os as-
            pectos econmicos na fundao dos povoados citados nos textos.


                                   Dado a diminuio do ouro encontrado na Baa de Paranagu e a
                               notcia da descoberta desse minrio na provncia de Minas Gerais, no
                               final do sculo XVII, ocorreu um esvaziamento da populao dos ga-
                               rimpos paranaenses para aquela regio, pois, a maior parte do ouro
                               do litoral paranaense era de aluvio, ou seja, encontrado no leito dos
                               rios, nas encostas ou nas camadas superficiais da terra. Esta forma de
                               garimpagem, mais simples, era denominada de faisqueira. O ouro dei-
                               xou de ser a atrao do litoral paranaense. A vida econmica, antes re-
                               sumida na minerao, voltou-se para outras atividades.
                                   Muitas dessas atividades ainda eram ligadas  minerao, entre elas
                               estava a pecuria. O gado foi utilizado economicamente nas mais di-
                               versas formas: na alimentao, nos trabalhos domsticos, na agricultu-
                               ra, no transporte e no aproveitamento do couro. Com a diminuio do



186 Relaesdepoder
                                                                                                   Histria

ouro garimpado no territrio paranaense, a pecuria ganhou destaque,
pois o comrcio de gado com a regio de Minas Gerais se tornou atra-
tivo. Leia o que a historiografia relata sobre esse tema.

     Texto 4
     Na primeira fase econmica paranaense, constituda de economias locais de subsistncia e de mi-
 nerao, houve predominncia da mo-de-obra escrava indgena. Tanto no litoral como no planalto, os
 ndios estavam facilmente  disposio dos colonizadores e exigiam menores investimentos para se-
 rem transformados em escravos. O grande afluxo de mo-de-obra africana alcanou ainda o final des-
 sa fase econmica, mas a importao de cativos est ligada principalmente a novos fatores da ordem
 externa.
     Devido s novas descobertas de ouro noutras regies do Brasil como Minas Gerais e Cuiab, a re-
 gio paranaense foi abandonada pelos paulistas.
     A economia mineradora "parnanguara" entrou em completa desagregao e os habitantes passaram a
 se dedicar exclusivamente s pequenas plantaes para a prpria subsistncia e para permutas.
    Em virtude da escassez da produo aurfera, desde o incio os campos de Curitiba serviram, do
 ponto de vista material, s atividades ligadas  lavoura de subsistncia e  pecuria. A rea se prestou
  explorao e ao pastoreio, e esse novo gnero de vida exigiu, pouco a pouco, a fixao de peque-
 nos ncleos de habitantes, com seus escravos, em torno dos pousos e dos currais de gado. (Adaptado
 de SANTOS, 2001.)


    O tropeirismo era a atividade realizada por homens que trabalha-
vam com a venda e transporte de gados vacum, muares e mercado-
rias de uma regio para outra. Para esta tarefa, os tropeiros utilizavam
as mulas por serem mais resistentes aos caminhos de difcil acesso. As
tropas eram de propriedade dos tropeiros, que viajavam pelo interior
da colnia alugando seus servios e a capacidade de carga de seus ani-
mais. Os tropeiros exerciam, assim, o papel de comerciantes ao com-
prar e vender produtos nas localidades por onde passavam, chegando
a fazer o papel de "mensageiros" quando levavam notcias dos mo-
radores de uma localidade para outra num territrio que abarcava as
fronteiras castelhanas do Rio Grande do Sul at as Minas Gerais. As ci-
dades onde estes tropeiros instalaram suas famlias passaram a concen-
trar parte da riqueza da economia do gado, formando ncleos de po-
der local.
    No sculo XVIII, a pecuria ganhou espao econmico ligada ao
transporte de gado e muares vindos do Rio Grande do Sul, atravs do
caminho do Viamo, para serem revendidos em Sorocaba (na capitania
de So Paulo). Inmeras pousadas, que serviam para descanso das tro-
pas, foram criadas ao longo do percurso deste caminho, dando origem
a vrias cidades como: Palmas, Ponta Grossa, Lapa, Rio Negro, Palmei-
ra, Pira do Sul, Jaguariava e Castro, contribuindo no processo de po-
voamento da regio dos Campos Gerais.




                                                                UrbanizaoeindustrializaonoParan 187
        EnsinoMdio

   Mapa 2                                                              Observe o mapa 2 e atravs dele conhe-
                                                                   a o itinerrio dessa importante via de comr-
                                                                   cio usada pelos tropeiros. Depois leia o que a
                                                                   historiografia relata sobre a organizao scio-
                                                                   econmica do Paran setecentista.
                                                                                Texto 5
                                                                                O estabelecimento da pecuria como em-
                                                                            presa econmica fundamental cristalizou a ma-
                                                                            nuteno do trabalho escravo. E nessa conjun-
                                                                            tura econmica houve a transposio do sistema
                                                                           escravista da minerao em decadncia para a
                                                                           criao de gado, em plena ascenso. A partir
                                                                           da, houve uma mudana de atividades de gran-
                                                                           de parte dos habitantes do planalto, e mesmo do
                                                                           litoral. Diante disso, "alguns mineradores se fize-
                                                                           ram `tropeiros', `invernadores' e criadores de ga-
                                                                           do e retiraram das minas o pessoal necessrio a
                                                                           essas atividades". E, ainda, atravs de cartas de
                                                                           concesso de sesmarias, constata-se a presen-
   n Caminho de Viamo. Fonte: Atlas do Estado do Paran. ITCF, In.: CIGO-
     LINI, 2001, p.66                                                      a de escravos que acompanhavam os mestres
                                                                           nas atividades de pastoreio.
                                                                              O Paran do sculo XVIII se articulou face a
    uma dicotomia. Estabeleceram-se, praticamente, duas reas econmicas no integradas: 1) a rea da
    economia pecuria, isto , os Campos Gerais, caracterizada pela criao e transporte do gado e pelo
    tropeirismo que, durante a maior parte do sculo XVIII abastecia , economia central do Brasil. E aqui de-
    ve-se levar em considerao que as fazendas eram tambm auto-suficientes, ou seja, produziam sua
    prpria subsistncia. 2) a rea onde prevaleceram os padres especficos de economia de subsistn-
    cia, isto , as pequenas vilas do planalto e do litoral, que rarssimas vezes entravam em contato com
    os plos centrais da economia colonial e que guardavam seu ritmo lento de produo. (Adaptado de SAN-
     TOS, 2001, pp. 31 e 35.
         Citao em itlico: Coleo de documentos do arquivo histrico ultramarino Portugus. Photocopie
     du Instituto Histrico Geogrfico e Etnogrfico Paranaense, Doc. n 364, 1772.)

      Observe a imagem presente no documento 5, a qual representa uma cidade que foi fruto da
   economia tropeira.
       Documento 5

     n Cidade de Castro (Iap). DEBRET, Jean-Baptiste, 1827,
                                                                                                                                 n Fonte: Coleo Marqueses de Bonneval (pertenceu a




       Aquarela, 11,6 x 22 cm.
                                                                                                                                   Antonio Almeida Correia)




188 Relaesdepoder
                                                                                                     Histria



                 ATIVIDADE

     Agora registre as informaes que se pede:
     a) Qual o tema da imagem, sua origem e poca.
        Com base no texto 5 e no documento 5, aponte elementos que permitam descrever o modo
         de vida dos habitantes de uma cidade tropeira dos sculos XVIII e XIX.
        Depois disso, construa uma narrativa histrica explicando a origem das cidades dos Campos
         Gerais vinculadas ao tropeirismo e  pecuria.



  Acontribuiodaerva-mateparaaformao
  devilasedecidadesnoParan
    Preocupado com a expanso econmica do sul do Brasil, Portugal
autorizou s populaes de Paranagu e Curitiba a comercializarem
com a colnia do Sacramento e Buenos Aires, levando para essas re-
gies: madeiras, telhas, tijolos e, principalmente, a erva-mate.
    Planta nativa do solo dos planaltos e plancies meridionais do conti-
nente latino-americano, a erva-mate a princpio era usada apenas para
o consumo interno. A partir do sculo XVIII, a erva-mate ganhou mer-
cado e projetou a sua explorao no comrcio nacional e internacional
vindo exercer influncia na economia paranaense a partir de 1722.
    O aumento da exportao da erva mate para os pases platinos, se
deu aps a Guerra do Paraguai. Este pas que era o maior concorren-
te da produo paranaense passou por problemas econmicos aps o
conflito, o que fez com que a produo deste produto se voltasse pa-
ra o mercado interno. Isso interferiu de modo positivo na produo de
Erva mate do Paran. O auge da produo ervateira em nosso Esta-
do, ocorre com a industrializao a partir de 1873, absorvendo grande
parte da classe operria da poca. Leia sobre como a historiografia ex-
plica o que favoreceu o crescimento econmico da erva-mate no ter-
ritrio paranaense.

     Texto 6
     Tradicionalmente, e at os primeiros anos do sculo XIX, o Paraguai se constitua em quase exclusi-
 vo fornecedor de mate para as Repblicas Argentina e Uruguaia. Mas, a partir de 1804, j se encontram
 algumas referncias  exportao brasileira, pois a relativa mudana da situao poltica do Brasil que se
 processa a partir de 1808 e o fato de em 1813 o ditador Francia, do Paraguai, proibir a exportao de
 erva-mate a fim de atender unicamente a demanda interna, fazem com que a partir desse ano, as pr-
 prias exportaes desse produto aumentem. Argentina e Uruguai, vendo eliminado o seu fornecedor,
 voltam-se para o produto brasileiro. Assim  que, j em 1815, instala-se o primeiro engenho de mate



                                                                  UrbanizaoeindustrializaonoParan 189
        EnsinoMdio


     em Paranagu para, em 1821, surgir outro. Paulatinamente, mas de forma consistente, as exportaes
     desse produto vo crescendo no Paran, bem como nos dois Estados mais ao sul. Essa tendncia vai-
     se acentuando de modo a acarretar, no perodo de 1833 a 1836, uma alta crescente nos preos do
     produto exportado. Esses estmulos de tal importncia para a economia da regio que interferiram direta
     e imediatamente no sentido de aumentar grandemente a produo do mate. (PADIS, 1981, p.42.)


                                         A princpio, a mo-de-obra utilizada nessa atividade era escrava.
                                     Com a chegada de numerosos grupos imigratrios e a crescente in-
                                     dustrializao, a mo-de-obra livre substituiu a escrava. O mercado lo-
                                     cal ganhou impulso, principalmente o consumo de bens no-durveis,
                                     compondo a primeira fase da industrializao paranaense. Os imigran-
                                     tes ajudaram a formar o mercado de trabalho urbano e industrial, tra-
                                     balhando no beneficiamento e no empacotamento do mate. Novos
                                     empregos diretos e indiretos surgiram em vrios setores produtivos.
                                         A indstria ervateira introduziu uma sofisticada diviso de traba-
                                     lho no interior dos engenhos e contribuiu para a formao do traba-
                                     lho assalariado. Da produo local, a erva-mate se transformou, no s-
                                     culo XIX, como principal produto de exportao do Paran e, devido
                                     s novas tcnicas de produo, ganhou novas configuraes econmi-
                                     cas. Portos, estradas de ferro, serrarias foram atradas pela erva-mate.
                                     A produo, que antes se concentrava no litoral, ganhou o interior po-
                                     voando regies mais distantes. A indstria do mate serviu de suporte a
                                     outras empresas como: embalagem, metalurgia, madeireira e grfica.
                                         Com isso, a produo de erva mate permitiu o surgimento de novas
                                     cidades. Conforme aponta um historiador: "Em relao  economia er-
                                     vateira, as unidades produtivas encontravam-se preferencialmente nas
                                     cidades ou em seus arredores. Quando os engenhos, por algum mo-
                                     tivo, instalavam-se fora das cidades, provocavam a imediata urbaniza-
                                     o de seu entorno" (PEREIRA, 1996, p. 11).
                                         A emancipao poltica da Provncia do Paran, em 1853, acontece
                                     a partir da conjuno de interesses internos e externos  economia pa-
                                     ranaense. O crescimento da economia ervateira permitiu s elites para-
                                     naenses desenvolverem o desejo de organizar um governo prprio. Ao
                                     mesmo tempo, o governo central brasileiro passa a olhar com maior
                                     interesse a regio paranaense. Compreenda o que a historiografia re-
                                     lata sobre o tema.

         Texto 7
             A partir do decnio de 1820, o mate tornou-se o mais importante produto da exportao pa-
     ranaense, situao esta que se manteve durante praticamente todo o sculo XIX.  preciso considerar
     que, aps 1840, o Paran penetra profundamente na conjuntura de emancipao poltica de So Pau-
     lo, o que vai acontecer em 1853. Durante essa fase, os desejos de liberdade poltica esto diretamente
     ligados  necessidade de expanso comercial. Era, portanto, imperativa a emancipao da 5 Comarca
     de So Paulo a fim de que ela alcanasse mais rpido e diretamente o seu progresso econmico. (Adap-
     tado de SANTOS, 2001, p. 43.)

190 Relaesdepoder
                                                                                                   Histria


    Texto 8
      Com o crescimento do comrcio de animais e a exportao da erva-mate, essa regio [o Paran]
 passa a despertar o interesse do poder central, uma vez que tais atividades econmicas, se bem fisca-
 lizadas, gerar-lhe-iam receitas. Porm, mais do que o fator econmico, a ameaa separatista, sugerida
 pela Guerra dos Farrapos, no Rio Grande do Sul, desperta a ateno do governo imperial para o risco
 de alargamento da onda revolucionria at o Paran, e da, para a prpria Provncia de So Paulo.
         Pode-se afirmar, portanto, que a emancipao foi uma concesso estratgica do governo im-
 perial para aplacar o descontentamento dos liberais com a excessiva interferncia do poder central nas
 provncias, bem como contra os impostos cobrados pelas exportaes.
        Aps diversos embates com as elites paulistas, aprova-se, finalmente, em 1853, a emancipa-
 o da provncia, "em nome da segurana do Estado Brasileiro", e em atendimento s elites locais, que
 almejavam dirigir, com maior autonomia, as suas atividades. (Adaptado de MAGALHES, 2001, pp. 23-24.)

   Mas, foi com a crise de 1929, perodo da queda da Bolsa de Nova York, que a erva-mate foi
sendo substituda pela madeira e pelo caf como produtos mais importantes.

    Texto 9
    A produo de mate era transportada, inicialmente, para o litoral, por tropas de muares, pelos cami-
 nhos da serra. Somente com a construo da Estrada da Graciosa, foi possvel seu transporte nos car-
 roes eslavos, muito mais eficientes".
     Em 1853, possua o Paran 90 engenhos de beneficiamento do mate, tendo o produto paranaen-
 se alcanado grande consumo nos mercados de Buenos Aires, Montevidu, Valparaiso no Chile e Rio
 de Janeiro. Sua importncia econmica, na condio de principal produto paranaense, ultrapassou o
 perodo provincial e, at a dcada de 1920, foi o esteio da economia do Paran, apesar da forte con-
 corrncia oferecida pelo Paraguai. No incio da industrializao do produto, a mo-de-obra utilizada era
 predominantemente escrava. Mais tarde, com a chegada de numerosos contingentes imigratrios e a
 complexidade crescente de sua industrializao, passou a exigir nas fbricas a presena de indivduos
 alfabetizados. Desta forma, a mo-de-obra livre acabou substituindo a escrava, neste ramo da produ-
 o . (Adaptado de WACHOWICZ, 1988, p. 128.)



                ATIVIDADE

       Compare os textos 7 e 8 e analise a relao entre a economia ervateira e a emancipao pol-
        tica da Provncia do Paran. Escreva as suas concluses sobre esse tema.



  Aocupaodointerior:osurgimentodenovas
  cidadesvinculadasaoagroextrativismo
a) A Madeira:
   Com a crise ervateira, a madeira se transformou, no final do sculo
XIX, em base de sustentao da economia, chegando ao mercado in-

                                                                UrbanizaoeindustrializaonoParan 191
       EnsinoMdio

                              ternacional atravs das exportaes. A produo ganhou impulso com
                              a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), pois o Brasil ficou impossibili-
                              tado de importar madeira similar da Europa, favorecendo tanto o mer-
                              cado interno como o externo, exemplo disto, temos a Argentina que
                              passou a receber a madeira paranaense, principalmente a araucria,
                              atravs do Porto de Paranagu.
                                  Contando com grande variedade de rvores, a indstria madeireira
                              foi beneficiada com a construo da Estrada da Graciosa (1853-1873) e
                              da Ferrovia Curitiba-Paranagu (1880-1885 ). Devido a intensa ativida-
                              de madeireira, as serrarias tornaram-se comum no cenrio urbano das
                              vilas e cidades do interior do Paran, levando consigo a indstria do
                              papel, papelo, beneficiando tambm o setor mobilirio. Contudo, no
                              final da dcada de 1970, a madeira nativa se encontrava esgotada.
                                  No sudoeste, a madeira e a pecuria foram as atividades mais din-
                              micas, estas deram origem a ncleos urbanos capazes de sediar as ati-
                              vidades de suporte a esse ramo da economia. Nesta regio, em 1940,
                              existiam apenas Guarapuava, Foz do Iguau e Clevelndia. J na re-
                              gio Norte, Londrina, deu origem a outros municpios como: Camb,
                              Rolndia e Apucarana. Guarapuava originou Laranjeiras do Sul, Pitan-
                              ga, Incio Martins e Pinho.
                                  No oeste, o mate e a madeira impulsionaram o desenvolvimento
                              dessa regio e o surgimento de ncleos urbanos como, por exemplo,
                              Guara - fundada em 1909 -, para favorecer a exportao do mate para
                              a Argentina de fabricao da multinacional Sul Americana Mate Laran-
                              jeira. Cidades como Cascavel e Campo Mouro, inicialmente, tambm
                              estavam ligadas a estas atividades.

                              b) O Caf:
                                 Desde 1860 o caf j era cultivado no Paran, fruto da expanso da
                              grande lavoura cafeeira paulista. Nessa ocasio, paulistas e mineiros
                              comearam a ocupar a regio Nordeste do estado, que se tornou co-
                              nhecida como Norte Pioneiro.


        Texto 10
        Colonos estrangeiros , de variada origem e procedncia, tambm se estabeleceram no Norte do
     Paran, muitos espontaneamente, outros dirigidos por companhias colonizadoras. No ltimo caso,
     constituem exemplos significativos as colnias de Assa e Ura, fundadas, respectivamente, pela Brazil
     Tokushoku Kaisha-Bratac e pela Nambei Tochi Kabushiri Kaisha, com imigrantes japoneses e seus des-
     cendentes. (Adaptado de WESTEPHALEN; CARDOSO, 1986.p. 64.)

                                 O escoamento da produo bem como o abastecimento desta re-
                              gio eram realizados pelo Estado de So Paulo. Entretanto, a partir de
                              1924, essa regio passaria a se integrar na economia paranaense, pois
                              a vinculao da economia cafeeira com o estado de So Paulo trazia
                              preocupaes polticas.

192 Relaesdepoder
                                                                                                 Histria

    O estreito relacionamento dos produtores paranaenses com o es-
tado de So Paulo, alm de causar a evaso de divisas com a venda
da produo, tambm poderia quebrar a unidade territorial do estado.
O que alterou esta realidade foi a ao do governo ao colocar a ocu-
pao destas reas sob responsabilidade de companhias colonizado-
ras privadas.

     Texto 11
      A mais conseqente foi, sem dvida, aquela realizada em 1927 em favor da empresa Paran Plan-
 tations Limited, com sede em Londres, sucedida pela Companhia de Terras do Norte do Paran, hoje
 companhia Melhoramentos do Norte do Paran.
      Contando com tcnica superior, a Companhia organizou milhares de alqueires das melhores terras
 do Norte paranaense, dividindo-a em zonas, glebas e lotes coloniais, reservadas reas de matas e pa-
 ra localizao de patrimnios e cidades.
     O tamanho mdio dos lotes coloniais, em geral, foi de 15 mil alqueires. Em faixas alongadas, foram
 planejados com frente para a estrada que corria do alto do espigo e com aguadas no fundo, nos va-
 les. No havia servido, nem propriedades encravadas.(Adaptado de WESTEPHALEN; CARDOSO, 1986.p. 64.)

   No incio da dcada de 1950, a Companhia de Terras Norte do Para-
n j havia vendido cerca de 26 mil lotes rurais (com tamanho em tor-
no de 15 alqueires, ou seja, pequenas propriedades). O alqueire utili-
zado da venda dos lotes era o alqueire paulista.
                           1 alqueire goiano =48.400m
                          1 alqueire paulista = 24.200m
                          1 alqueire do Norte = 27.225.m
                          1 alqueire mineiro = 48.400m

    Os ingleses adquiriram terras do Norte do Paran com o intuito de
plantar algodo. Porm, este empreendimento fracassou, devido aos
preos baixos do produto e a ausncia de sementes sadias no merca-
do. Devido a estes fatores, criou-se em Londres a Paran Plantations e
sua subsidiria brasileira, a Companhia de Terras. Portanto, os ingleses
transformaram o projeto fracassado em projetos imobilirios. A grande
novidade  que esta Companhia forneceu aos novos proprietrios to-
dos os ttulos de propriedade da terra. Este era um fato novo para as
condies da regio e mesmo do Brasil em relao  poltica de terras.
A medida adotada pela Companhia evitou conflitos entre os colonos
antigos e os recm-chegados. Os ingleses, ao venderem pequenos lo-
tes, ofereceram oportunidades aos trabalhadores posseiros de adquiri-
rem a terra, j que as formas de pagamento eram adequadas s condi-
es de cada comprador.
    Neste contexto, o projeto imobilirio, desenvolvido pela Compa-
nhia de Terras do Norte do Paran, estimulou a expanso de ncleos
urbanos e o aparecimento de classes mdias rurais. Colaborando para

                                                               UrbanizaoeindustrializaonoParan 193
       EnsinoMdio

                               uma verdadeira transformao na estrutura demogrfica e econmica
                               do Paran, a populao quase dobrou de tamanho entre 1940 e 1950
                               (passando de 1.236.276 habitantes para 2.115.547). Entre 1950 e 1960,
                               a populao atingiu 4.258.239 habitantes dobrando novamente. Esse
                               ritmo de crescimento foi mantido at o ano de 1970.
                                   Desta forma, o crescimento da populao e a proliferao de pe-
                               quenas e mdias cidades estavam ligadas a ao das companhias co-
                               lonizadoras (como Londrina e Maring). O surgimento de novos mu-
                               nicpios ocorreu em sua maioria entre as dcadas de 50 e 60, sendo
                               que 65% destes surgiram neste perodo. Em 1961 foram criados mais
                               81 novos municpios.

        Texto 12
         O surgimento de novas municipalidades guarda relao,  certo, com interesses polticos em geral
     e eleitorais em particular, mas traduz inegavelmente um padro de adensamento urbano.
         O Paran viveu de fato, durante as dcadas de 1950 e 1960, intensa proliferao de centros urba-
     nos. No caso da regio Norte, tal fato deve ser atribudo  expanso das atividades relacionadas ao ca-
     f. No Sudoeste, foram a madeira e a pecuria as atividades mais dinmicas, gerando uma tendncia 
     proliferao de ncleos urbanos capazes de sediar as atividades de suporte a esses ramos da econo-
     mia. (Adaptado de OLIVEIRA, 2001, p. 35.)

                                  Esse processo de ocupao iniciou-se na regio chamada Norte No-
                               vo, na dcada de 1930, sendo completado na dcada de 1960 com a
                               ocupao da regio conhecida como Norte Novssimo, no Noroeste do
                               estado, tambm estimulado pela cafeicultura.
                                  No Norte, a expanso das atividades relacionadas ao caf, como a
                               comercializao, beneficiamento e transporte do produto, bem como
                               a prestao de servios e intermediao financeira levaram ao surgi-
                               mento de vrias cidades como: Londrina, Camb, Rolndia, Arapongas,
                               Mandaguari, Apucarana, Jandaia do Sul, Maring, Cianorte e Umuara-
                               ma. Desta forma, o caf tornou-se, em pouco tempo, o produto de ex-
                               portao mais importante para a economia paranaense desbancando a
   Tabela 1                    madeira e o mate, como demonstra a tabela.
                   MOVIMENTO DE MERCADORIAS NO PORTO DE PARANAGU, 1948-55
                                        EXPORTAO (PERCENTUAL SOBRE A TONELAGEM)
        ANO             CAF            MADEIRA             MATE         MERCADORIAS                TOTAL
                                                                           DIVERSAS
       1948              36                38                 9                 17                    100
       1949              46                39                 9                  6                    100
       1950              48                23                 9                 20                    100
       1951              61                19                 6                 14                    100
       1952              72                11                 7                 10                    100
       1953              74                 7                 5                 14                    100
       1954              56                11                 7                 26                    100
       1955              50                34                 8                  8                    100
                                                                                        n Fonte: OLIVEIRA, 2001, p.34
194 Relaesdepoder
                                                                                                  Histria



                  ATIVIDADE

    Observe a tabela 1 sobre a porcentagem de exportao das mercadorias no porto de Paranagu
     entre 1948 e 1955 e registre em seu caderno as seguintes informaes:
     b) Qual o tema da tabela, o perodo que retrata e produtos analisados.
     c) Construa um grfico de barras mostrando a evoluo da exportao do caf, da madeira e do
        mate.
     d) Determine o ano em que os produtos citados na tabela 1 tiveram mximo percentual de expor-
        tao.
     e) Qual o produto que teve o menor percentual de exportao entre os anos de 1948 a 1955.
     f)   Calcule a mdia aritmtica da exportao do caf durante o perodo analisado pela tabela. Pode
          utilizar os seguintes passos: Mdia aritmtica = a soma da produo de caf de todos os anos
          analisados e dividir esse resultado pelo total de anos.



                  PESQUISA

     Realize uma pesquisa sobre mdia aritmtica e mdia aritmtica ponderada.
    As distribuies de valores de uma amostra de nmeros podem ser analisadas atravs de "Moda" e
 "Mediana", em que situaes podem ser utilizadas? D exemplos.


    No Paran, entre as dcadas de 1950-1960, houve um aumento na
proliferao de novos centros urbanos. Na regio Norte do Paran, es-
te fato se deve  expanso da cafeicultura. A cultura do caf possibi-
litou a instalao de indstria de torrefao e a moagem deste produ-
to, favorecendo a oferta de mais empregos no centros urbanos. Porm,
na dcada de 1960, a cultura do caf mostrou os primeiros sinais de
esgotamento . O Brasil e os outros pases produtores de caf geraram
grande oferta deste produto, o que acarretou excesso de caf no mer-
cado e com isso o preo do produto foi forado a baixar.
     Alm do excesso da produo, a cultura do caf tambm sofreu
com as intensas geadas no fim da dcada de 1960 e primeiros anos d-
cada de 1970, paralelo a isto, a poltica econmica adotada pelo go-
verno de Juscelino Kubistchek (1955-1961), a qual centrou-se no de-
senvolvimento industrial e colocou em prtica o confisco cambial dos
lucros dos produtores de caf envolvidos com exportao, fez com
que os cafeicultores paranaenses adotassem a cultura da soja como al-
ternativa ou migrassem para outro ramo da economia.
    A soma dos fatores acima citados acarretou o declnio da produo
do caf no Estado do Paran. No Brasil, em 1969, um tero das expor-


                                                                UrbanizaoeindustrializaonoParan 195
      EnsinoMdio

                            taes devia-se ao caf, porm este produto chega, em 1974, a repre-
                            sentar 7% das exportaes brasileiras.



                    PESQUISA

        Faa uma pesquisa bibliogrfica sobre o processo de ocupao das diferentes regies do Paran
    levando em conta a imigrao estrangeira e a migrao das populaes paranaenses e brasileiras. De-
    pois, faa um dossi sobre o tema.


                               Adiversidadedaagropecuriaeda
                               industrializaoespalhadapeloterritrio
                               paranaense
                                Com a poltica de erradicao do caf em nvel nacional devido 
                            superproduo e aos baixos preos no mercado internacional, o prin-
                            cipal produto de sustentao da economia paranaense passou a ser
                            substitudo pela soja. Contando com o financiamento pblico, princi-
                            palmente para os grandes proprietrios, o crescimento da produo da
                            soja foi um dos mais expressivos no pas na dcada de 1970.
                                Contudo, os efeitos do crescimento da produo desta cultura so-
                            bre a industrializao e a urbanizao paranaense foram enormes. O
                            que a diferenciava das demais atividades agrcolas tradicionais, como o
                            caf, foi a intensiva utilizao da mecanizao no cultivo e na colhei-
                            ta, o que levou a dispensa de um nmero enorme de trabalhadores ru-
                            rais. Estes se dirigiram para novas fronteiras agrcolas no Mato Grosso
                            e em Rondnia, mas a maioria destes trabalhadores se deslocou pa-
                            ra as cidades paranaenses que no estavam preparadas para absorver
                            um grande nmero de pessoas, como resultado temos graves proble-
                            mas urbanos.
                                Outro efeito relacionado ao aumento da produo da soja foi a in-
                            dustrializao. Neste caso, ao invs de somente exportar a soja, foi in-
                            centivado pelo estado a criao de um parque industrial dedicado ao
                            beneficiamento do produto transformando-o em farelo e em leo. 
                            neste contexto que surgem grandes cooperativas de produtores como
                            a Cocamar, em Maring, e a Coamo em Campo Mouro, sendo estas
                            as mais expressivas destas localidades. Com isto, temos o desenvolvi-
                            mento no interior do Estado do setor agroindustrial, concentrado na
                            produo do caf solvel, leo vegetal, fiao, produtos derivados do
                            milho, lcool e outros.
                                No caso de Curitiba, a preocupao com a industrializao levou os
                            dirigentes polticos a criar um distrito industrial na capital do Estado,


196 Relaesdepoder
                                                                                                    Histria

conhecido como Cidade Industrial de Curitiba (CIC), que comeou a
ser instalada em 1973 e foi responsvel, em grande parte, pela gerao
industrial do Paran. Para isto, foi necessrio a reorientao do cresci-
mento da malha urbana. Neste perodo (dcada de 1970), Curitiba pas-
sava pela implementao de aes urbansticas que possibilitavam a
esta uma configurao urbana digna de muitos elogios. Muitas aes
foram previstas no Plano Diretor, de 1966, como a reserva de uma rea
da cidade para instalao de um parque industrial.
    No mesmo perodo, Ponta Grossa e Londrina comeam, a se desta-
car como plos industriais, nestas cidades instalaram, respectivamente,
a continental AG e a Kuhmo.
    No final do sculo XX, o fluxo industrial voltou-se para alguns mu-
nicpios da regio metropolitana de Curitiba, onde instalaram-se im-
portantes indstrias, como: as montadoras de automveis, a Renault
e a Volkswagen/Audi em So Jos dos Pinhais; a Dana Motores, em
Campo Largo; a Copo Thierry, em Quatro Barras; alm de outras in-
dstrias como a Siemens, em Irati.


                  PESQUISA

     Pesquise, na prefeitura de seu municpio, sobre polticas de desenvolvimento urbano, entre elas leis
      sobre parcelamento ou ocupao do solo. Depois, apresente para sua classe propostas sobre co-
      mo reorganizar o espao urbano de sua cidade conforme as necessidades de seus moradores.



  RefernciasBibliogrficas
      CARDOSO, J. A. & WESTEPHALEN, C. Atlas histrico do Paran. Curi-
     tiba, Livraria do Chain, 1986.
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     Secretria de Estado da Educao (SEED), 2001.
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     n. So Paulo: Hucitec, 1981.
     PERIS, A. F. Estratgias de desenvolvimento regional  Regio Oeste
     do Paran. Cascavel: EDUNIOESTE, 2003.
     SANTOS, C. R. A. do S. Vida material e vida econmica. Curitiba: Se-
     cretria de Estado da Educao (SEED), 2001.
     SCHIMIDT, M. A. M. S. Histria do cotidiano paranaense. Curitiba: Le-
     traviva, 1996.
     WACHOWICZ, R. C. Histria do Paran. Curitiba: Vicentina,1988.




                                                                 UrbanizaoeindustrializaonoParan 197
      EnsinoMdio

                       Obrasconsultadas
                       CAMARGO, J. B. de. Geografia fsica, humana e econmica do Para-
                       n. S/l: Ideal Indstria Grfica, 2001.
                       COSTA, S. G., A erva-mate. Curitiba: Coleo Farol do Saber,1995.
                       GIOVANNETTI, G.; LACERDA, M. Dicionrio de Geografia. Melhoramen-
                       tos, 1996.
                       MAGALHES, M. B. de. Paran: poltica e governo. Curitiba: Secretria de
                       Estado da Educao (SEED), 2001.
                       MARTINS, R. Histria do Paran. Curitiba: Travessa dos Editores, 1995.
                       PARAN, Secretaria de Estado da Cultura e do Esporte. Histria do Para-
                       n. Curitiba, 1986.
                       PEREIRA, M. R. M. Rigores e mtodos da cidade brasileira entre os
                       sculos XVII e XIX. Revista de Cincias Humanas. Curitiba, v. 2, n. 2, p.
                       191-218, 1993.
                       ______. Semeando iras rumo ao progresso: ordenamento jurdico da
                       sociedade paranaense, 1829-1889. Curitiba: UFPR, 1996.


                       DocumentosconsultadosONLINE
                       http://www.diaadiaeducacao.com.br/portals/portal/institucional/def/def_
                       areas_historia_sesqui.php . Acesso em: 27 abr. 2006.




198 Relaesdepoder
                                         Histria



ANOTAES




            UrbanizaoeindustrializaonoParan 199
       EnsinoMdio




200 Relaesdetrabalho
                                                                                                                                 Histria




                                                                                                                     11
                                                                             RELAES DE TRABALHO:
                                                                              O Porto de Paranagu no
                                                                  contexto da expanso do capitalismo
                                                                n Edilson Aparecido Chaves1, Fabio Luciano Iachtechen2, Juraci Santos3,
                                                                                                 Marcelo Fronza4, Ndia Maria Guariza5



                                                             "No ser de admirar se o comrcio de Paranagu tomar um
                                                         grande incremento quando o caminho da Serra [do Mar] se tornar fa-
                                                         cilmente transitvel e a agricultura dos Campos Gerais se desenvol-
                                                         ver suficientemente". (SAINT-HILAIRE. Auguste. Viagens a Curitiba e Provncia de
                                                         Santa Catarina. Belo Horizonte: Itatiaia, 1978. p. 100).




                                                                    frase acima foi escrita em 1851 pelo via-
                                                                    jante naturalista francs Auguste Saint-
                                                                    Hilaire em visita  cidade de Paranagu.
                                                                    Quais as relaes desta ligao entre
                                                                    primeiro planalto e litoral com a consti-
                                                                    tuio e o desenvolvimento de Parana-
                                                      gu como um dos mais importantes entrepostos co-
                                                      merciais brasileiros?




1
 Colgio Estadual do Paran - Curitiba - PR
2
 Colgio Estadual Dirce Celestino do Amaral - Curitiba - PR
3
 Colgio Estadual Paulo Leminski - Curitiba - PR
4
 Colgio Estadual Tenente Sprenger - Pinhais - PR
5
 Colgio Estadual Maria Montessori - Curitiba - PR

                                                                  OPortodeParanagunocontextodaexpansodocapitalismo 201
       EnsinoMdio

                            z CaminhodoItupava
                                Durante praticamente dois sculos (XVIII e XIX), os caminhos do
                            Itupava e da Graciosa foram os mais importantes meios de ligao en-
                            tre o litoral paranaense e seu primeiro planalto, fundamentais princi-
                            palmente para a comunicao e o comrcio locais. Por estes caminhos
                            circulavam constantemente pessoas e mercadorias nos dois sentidos,
                            promovendo assim uma estrutura que se revelou importante para o de-
                            senvolvimento regional, especialmente de Curitiba e Paranagu.
                                O caminho do Itupava  o mais antigo deles, pelo menos o primei-
                            ro a receber benfeitorias para melhorar as condies de viagem, j que
                            ambos os caminhos foram traados a partir de antigas trilhas indge-
                            nas. Diversos relatos dos viajantes da poca descrevem a precariedade
                            do caminho, que recebeu em meados do sculo XVIII um revestimen-
                            to de pedras grosseiras, principalmente no seu trecho mais sinuoso e
                            ngreme. Este revestimento facilitava o transporte feito por mulas, tal-
                            vez o mais importante tipo de transporte da poca pela sua resistncia
                            e capacidade de carga.
                                O caminho tambm recebeu na mesma poca alguma estrutura
                            destinada aos viajantes, por iniciativa do Ouvidor Geral Rafael Pires
                            Pardinho, que ordenou a construo de rodeios, locais destinados ao
                            descanso dos animais, e palhas, estruturas rsticas onde os viajantes
                            podiam se recompor.
                                No captulo 51 de seus provimentos de 1720, Ouvidor Pardinho de-
                            monstra a importncia do caminho para a economia paranaense, com
                            o seguinte despacho:

           "Provenho que os oficiais da Cmara tivessem o cuidado de abrir e consertar o cami-
      nho que vai desta Vila para a de Paranagu, com que se faa facilmente a comunicao de
      ambas e, daquela venha com abundncia e facilidade o necessrio de mercadorias para es-
      ta, e desta vo com a mesma facilidade os frutos da terra para aquela, pois da dificuldade
      do caminho, resulta carestia, com que nesta Vila se vendem as fazendas". (MOREIRA, 1975, p. 9)


                               Tal importncia perdurou at o final do sculo XIX, com a constru-
                            o da estrada de ferro Curitiba-Paranagu.

                            z SculoXVIII:aEstradadaGraciosa
                                Antiga picada criada pelos indgenas que ligava Curitiba ao lito-
                            ral, no sculo XVIII, a Estrada da Graciosa foi reformada para supor-
                            tar a travessia de muares. O famoso tropeiro tenente Manuel Teixeira
                            de Carvalho ordenou o seu melhoramento. Para tanto, imps taxas s
                            populaes de Morretes, de Paranagu e de Antonina, o que desper-
                            tou a revolta das populaes de Morretes e de Paranagu, pois acaba-

202 Relaesdetrabalho
                                                                                                                             Histria

riam contribuindo para o desenvolvimento de Antonina, que era uma
concorrente.
       Morretes possua navegao, porm fluvial, pelo rio Nhundia-
quara, que permitia apenas a circulao de pequenas embarcaes
(canoas), enquanto Antonina era um porto martimo. Os governantes
de Paranagu preferiam que se utilizasse o Porto de Morretes, porque
as mercadorias que chegavam do planalto at este porto eram exporta-
das pelo Porto de Paranagu. Sendo assim, se as mercadorias viessem
diretamente para Antonina, o porto desta cidade poderia exportar, ex-
cluindo a possibilidade do Porto de Paranagu. (SOARES, Carlos Roberto; LANA,
Paulo da Cunha. Baa de Paranagu: Mapas e Histria. Curitiba: Editora da UFPR, 1994.)
Documento 1




n Fonte: Transporte da erva-mate  carroes, 1880. Acervo Museu do Mate (Curitiba-PR). Coleo Sesquicen-
  tenrio do Paran no Contexto Escolar, SEED-PR.

   Esta relao de rivalidade entre Antonina e Paranagu pode ser ob-
servada no relato do Baro de Teff.

       Documento 2
     A provncia do Paran possue um vastssimo territrio; mas s dispe de uma bahia, capaz de re-
  ceber navios de grande calado.
      A parte principal dessa bahia tem uma frma alongada no sentido de lste a oeste; quasi a meia dis-
  tancia est a cidade de Paranagu e, no extremo occidental, a cidade de Antonina.
       Paranagu  a mais antiga, tem a categoria de villa desde 1646; Antonina foi fundada em 1714.
     Paranagu fez quanto lhe foi possivel impedir a fundao de Antonina, e, h 160 anos, combate o
  progresso desta cidade com animadverso tal, que felizmente, no h outro exemplo no Brasil!!
       necessrio recorrer aos tristissimos tempos da edade Mdia para encontrar, na Itlia, exemplos
  analogos, lutas fraticidas, entre cidades irms, to duradouras e to tenazes, entre Pisa e Genova, en-
  tre Pisa e Florena, e sobretudo Genova e Veneza!...
                                                                                    (TEFF; HARGREAVES; REBOUAS, 1879, p.34 e 40.)


                                                           OPortodeParanagunocontextodaexpansodocapitalismo 203
         EnsinoMdio



                       ATIVIDADE

     l    Baro de Teff no documento 2, remete-se ao perodo medieval para comparar a rivalida-
          de entre Paranagu e Antonina. Perceba que o Baro escreve este relato no sculo XVIII,
          fase de expanso do capitalismo. Diante disto, escreva qual a crtica que o Baro de Te-
          ff faz aos defensores da instalao do Porto em Paranagu? Para tanto considere o que
          o capitalismo prioriza enquanto sistema.


                                                                           Documento 3




                             n PALLIRE, Joo Leo. (1823-1887). Tropa carregada de mate descendo a serra. 1860. Aquarela.
                               24x24cm. Fonte: Coleo Particular. In: Pintores da paisagem paranaense. Edio Fac similar, Curitiba: Secre-
                               taria de Estado da Cultura: Solar do Rosrio, 2005. p. 76.


                             z ParanagueoPorto
                                 O Porto de Paranagu j garantia seu espao na cartografia da Am-
                             rica do Sul desde 1700. A historiadora Ceclia Westphalen relata que a
                             grafia para referir-se ao porto foi diversa, Pernagu, Parnagu, Para-
                             nagu, mas sempre expressando a idia de "mar grande" e "redondo."
                             Por todo sculo XVII e incio do sculo XVIII o porto no teve cais e
                             quebra-mar.
                                 Nesse perodo o porto era considerado arriscado, por no ter barra
                             suficiente para os navios de alto bordo. Portanto, os navios deste porte
                             tinham que permanecer em alto mar, necessitando de outras embarca-
                             es para embarque/desembarque das mercadorias dos ditos navios.

204 Relaesdetrabalho
                                                                                                      Histria

    Na metade sculo XIX um grande exportador de erva-mate, Dom
Isaias D' Elia, conseguiu junto a Cmara Municipal de Paranagu auto-
rizao para realizar novas obras no porto com a finalidade de adequ-
lo a exportao da erva-mate. Em 1849 outro ervateiro, Manuel Anto-
nio Guimares, edificou um outro cais objetivando tambm a melhoria
do porto para exportar a erva-mate.
    Na segunda dcada do sculo XVIII, o Ouvidor Pardinho tomou as
providncias para novas construes no Porto de Paranagu. Mesmo
com estas obras, o porto passou por srias dificuldades no embarque/
desembarque de mercadorias, pois os navios de grande calado no po-
diam atracar porque corriam o risco de ficarem encalhados nos bancos
de areia. Diante disto, muitos navios passaram a fazer os carregamen-
tos na Ilha de Cotinga, o que dificultava o controle da Alfndega. Ou-
tro fator a ser considerado  que o comrcio da erva-mate sofria com
o aumento dos fretes, demora do transporte e risco de perder os pro-
dutos nas baldeaes.
    Os navios que aportavam em Paranagu, no sculo XIX, eram aque-
les que desempenhavam o comrcio interno, atravs da navegao de
cabotagem, com os demais portos do Imprio.


 Texto 1

                             Navegao de Cabotagem procedncias e destinos.
     A navegao de cabotagem, para os portos brasileiros, foi sempre livre, exceto em certos momen-
 tos da segunda metade do sculo XVIII e incio do XIX, quando o Capito-General, com finalidade de au-
 mentar comrcio do porto de Santos com Metrpole, obrigou a todas as embarcaes sadas de Pa-
 ranagu que navegassem em direo ao porto paulista. Assim foi em 1793, quando toda a produo
 de arroz de Paranagu foi obrigada a seguir para Santos.
      Contra estas medidas protestaram os comerciantes e a Cmara Municipal de Paranagu, que ob-
 tiveram a Carta Rgia, de 29 de abril de 1796, que lhes concedia liberdade de navegao para todos
 os portos portugueses. [...] O carregamento de efeitos de exportao unicamente para o porto de San-
 tos, tinha por consequncia, afastar de Paranagu embarcaes do Rio de Janeiro, do Rio Grande,
 Bahia e Pernambuco, que costumavam ali comprar gneros de produo da terra.[...] A proposio de
 ouvidor Pardinho e autorizao rgia, de 1723, de que os parnaguaras pudessem ir com suas embar-
 caes at o porto de Buenos Aires, no foram concretizadas por um sculo, certamente pela ausn-
 cia de capitais.
         A representao da Cmara de Paranagu, feita em 1829, fixa a abertura de navegao do Rio
 da Prata, no ano de 1812 e em decorrncia do comrcio de madeiras do litoral. Vieira dos Santos, en-
 tretanto, indica o ano de 1820 como aquele que viu nascer, em Paranagu o comrcio martimo de lon-
 go curso, em funo da exportao de erva-mate, apenas  iniciada.  certo que, desde 1810, ainda
 que no numerosas e freqentes, havia relaes entre Paranagu e Montevidu e, desde 1812, tam-
 bm com a Argentina. Em 1821, tambm j saam de Paranagu embarcaes com destino ao Chi-
 le. O primeiro navio brasileiro, alis, que entrou em Valparaso, em 1834, fazendo conhecida a bandei-
 ra imperial naquele Pas, era prodecente de Paranagu, com carregamento de erva-mate.
                                                                               (WESTPHALEN, 1998, p.36 e 37)


                                           OPortodeParanagunocontextodaexpansodocapitalismo 205
        EnsinoMdio



                       PESQUISA

        No texto da autora paranaense Maria Ceclia Westphalen "Navegao de Cabotagem: procedncias
     e destinos" ela descreve cabotagem como uma prtica comum entre os portos da poca.
         a) Descreva como se realizava a atividade de navegao de cabotagem;
         b) Quem foi Maria Ceclia Westphalen? O que a autora representa para a historiografia paranaen-
            se?




                       ATIVIDADE

    l   Considerando a poca de sua produo, observe os documentos 4 e 5 e aponte quais di-
        ferenas tecnolgicas podem ser percebidas nos meios de transporte e quais as mudanas
        e permanncias que as pinturas retratam.
    l   Identifique os trabalhadores representados na gravura de Debret.  possvel indicar se
        eram mulheres e homens livres? Que tipo de trabalho pode-se observar nos documentos?

             Documento 4




            n DEBRET, Jean-Baptiste. Paranagu (1827). In: Pintores da paisagem paranaense. Edio Fac similar, Curitiba: Secretaria de
              Estado da Cultura: Solar do Rosrio, 2005. p. 50.

                        Documento 5




                    n MICHAUD, William. Porto de Paranagu (1892)? In: Pintores da paisagem paranaense. Edio Fac similar,
                      Curitiba: Secretaria de Estado da Cultura: Solar do Rosrio, 2005. p. 57.

206 Relaesdetrabalho
                                                                                     Histria

     Com a chegada da Famlia Real no Brasil (1808), devido ao Blo-
queio Continental, uma das primeiras medidas tomadas por D. Joo VI
foi a abertura dos portos para as naes amigas em 1810.  interessan-
te considerar que neste momento Portugal estava cercado pelos france-
ses, e diante disto os navios ingleses no podiam aportar em territrio
lusitano. Assim, a abertura dos portos no Brasil foi uma das medidas
que favoreceu o comrcio entre Inglaterra e a Coroa Portuguesa.
     A abertura dos portos  uma inovao para a Colnia uma vez que,
de acordo com o Pacto Colonial, no podia comerciar com outros pa-
ses que no fosse a Metrpole. Esta medida intensificou o comrcio
interno e externo do pas. No Porto de Paranagu, o transporte e co-
mrcio de erva-mate foi uma das principais atividades comerciais do
perodo, tanto para o mercado interno como para a regio do Prata.
     A abertura dos portos contribuiu para um processo de instaurao
da indstria da erva-mate no Paran. O historiador Dennison de Olivei-
ra aponta a indstria da erva-mate como uma possibilidade da primei-
ra experincia paranaense com o capitalismo industrial. Os engenhos
de erva-mate nesse perodo operavam no primeiro planalto e litoral do
Paran. Em meados do sculo XIX esta atividade contava com uma so-
fisticada diviso do trabalho e remunerao em dinheiro aos operrios,
traos caractersticos do capitalismo industrial, embora o Brasil oficial-
mente ainda permanecesse em um regime escravocrata.



z EconomiaparanaenseeoPortoParanagu
    O Porto de Paranagu no decorrer do sculo XIX assumiu um lugar
de destaque na economia paranaense. Este processo iniciou-se com a
exportao da erva-mate, que at o sculo XVIII sofria a concorrncia
da produo das redues jesutas e dos paraguaios.
    No entanto, este quadro modificou-se a partir do sculo XIX com a
expulso dos jesutas e com o colapso da produo paraguaia de erva-
mate. Apesar das condies externas favorveis  exportao do ma-
te, Paranagu continuava um porto pequeno no incio do sculo XIX,
pois a cultura ervamateira no tinha uma infraestrutura adequada para
atender a esta nova demanda.
    No incio do sculo XIX a produo de erva-mate estava dividida
entre a extrao no planalto curitibano e o seu beneficiamento nos en-
genhos litorneos, em Morretes, Paranagu e Antonina. Por isso, era
necessria a construo de uma estrada que ligasse Curitiba ao litoral
afim de atender a exportao de erva-mate para a regio platina.
    Na segunda dcada do sculo XIX, a exportao de mate consti-
tuiu-se a principal atividade responsvel pelo comrcio exterior do Pa-
ran. Por isso, o Porto de Paranagu assumiu um maior movimento e


                                         OPortodeParanagunocontextodaexpansodocapitalismo 207
       EnsinoMdio

                         at mesmo navios estrangeiros atracavam para ter acesso a erva-mate,
                         levando-a at os mercados platinos. A erva-mate era responsvel por
                         44% das exportaes do Paran.
                                 Apesar do grande crescimento da exportao de erva-mate, a
                         proporo de importao de produtos europeus era superior. No ano
                         de 1840, o Porto de Paranagu exportava erva-mate, madeira, arroz e
                         importava tecidos, couros, sal, ferragens e outros.
                                 De maneira geral a economia paranaense no sculo XIX era pe-
                         rifrica, dependente e de carter instvel, com base na exportao de
                         monoculturas. Na dcada de 1880 a economia paranaense estava cen-
                         trada basicamente em trs produtos: mate, pecuria e madeira.
                                 Entre 1842 e 1861, 96% da produo paranaense foi exportada
                         para a Argentina, Uruguai e Chile. A erva-mate durante o sculo XIX
                         foi o principal produto de exportao paranaense, como podemos ob-
                         servar nos grficos abaixo:


                            Grfico 1
                                                 Exportao de erva mate de 1842-1861
                            3000
                                                                                                       exportaototal
                            2500
                                                                                                       doimprio
                            2000
                            1500                                                                       exportaoparanaense
                            1000                                                                       paraforadoimprio

                             500                                                                       exportaoparanaense
                               0                                                                       paraoimprio
                                       n O grfico 1 prope um retrospecto das exportaes de erva mate no imprio brasileiro e no
                                         Paran dos anos de 1842 ao 1861 em relao a quantidade de Contos de Ris na exportao
                                         deste produto.



                            Grfico 2
                                 Comrcio Exterior do Paran entre 1842 e 1861
                             2500

                             2000

                             1500
                                                                                                                 importao
                             1000                                                                                exportao

                              500

                                   0
                                           1842        1845         1850        1855        1860
                                       n O grfico 2 demonstra a quantidade de importao e exportao do Paran dos anos de
                                         1842 ao de 1860. Observe que no final do grfico h uma tendncia do aumento e da supe-
                                         rao da linha de exportao em relao a linha de importao.




208 Relaesdetrabalho
                                                                                                        Histria

       Grfico 3
       Comrcio Exterior do Paran no final do sculo XIX (Grfico 3)

          100 00
          8 000

          6 000                                                           exportao
          4 000                                                           importao

          2 000
               0
                    1893 1894 1895 1896 1897
     n O grfico 3 expe o comrcio exterior do Paran dos anos de 1893 ao de 1897. Observe que a li-
       nha de exportaes em uma das poucas vezes no sculo XIX estava acima da linha de importaes.

    O comrcio exterior paranaense no sculo XIX compreendia mer-
cadorias enviadas para outras partes do imprio brasileiro e para ou-
tros pases. As exportaes eram as mais importantes e correspon-
diam a 85% da movimentao total no Porto de Paranagu entre 1842
a 1861.
    Alm do comrcio com a regio do Prata, o Porto de Paranagu
enviava mercadorias para outras provncias, sobretudo Rio de Janeiro,
por meio da navegao de cabotagem. Este tipo de navegao era uma
alternativa mais rpida e segura que as rotas continentais, e o Porto de
Paranagu fazia parte desta rota martima.
    O perodo de euforia com relao ao mate provocou uma baixa
na produo de alimentos, promovendo um aumento nas importa-
es destes produtos. Ao mesmo tempo, a economia paranaense pas-
sou a integrar-se  economia do imprio brasileiro e a economia mun-
dial. Portanto, a cultura ervamateira foi responsvel pela integrao,
pela via martima, da economia paranaense s rotas da economia bra-
sileira e mundial.
    Para o professor Carlos Antunes dos Santos,
     "o mate era de vital importncia para a Provncia, motivando
 trs atividades distintas: a extrativa, a fabril e a comercial, alm de
 alimentar quase toda a indstria de carretos existentes no Paran.
 Assim, todos os seus embaraos repercutiam, em geral, na vida do
 paranaense." (SANTOS, p. 47)

    Como Saint-Hilaire havia comentado em suas crnicas sobre Pa-
ranagu, era necessria a construo de uma estrada para facilitar o
transporte de mercadorias de Curitiba at o litoral do Paran. Em 1873
foi calada a estrada da Graciosa e, em 1887, foi inaugurada a estrada
de ferro Curitiba-Paranagu, com 111 Km. Com isso, as exportaes no
Porto de Paranagu tornaram-se mais dinmicas e numerosas. Este de-
senvolvimento nos transportes paranaenses estava associado a expan-
so do capitalismo.

                                                          OPortodeParanagunocontextodaexpansodocapitalismo 209
         EnsinoMdio



                       ATIVIDADE

         A partir da seleo do texto 2 e do grfico 2, elabore uma narrativa histrica sobre o movimento de
          mercadorias no Paran do sculo XIX. Sua narrativa deve guiar-se pelo contexto histrico em que
          esto inseridos o texto 2 e o grfico 2 e apontar algumas concluses. No entanto voc deve ao
          longo da narrativa evitar abordar os assuntos de forma genrica. As informaes e anlises apresen-
          tadas devero articular os dois temas/fragmentos, um ao outro, assegurando a relao entre eles.



                               z Aexpansodocapitalismo
                                   No sculo XIX o mundo tornou-se capitalista, as depresses econ-
                               micas no estavam mais ligadas apenas aos aspectos naturais, prprias
                               das economias agrcolas, mas as crises passam a ter um novo compo-
                               nente ligado  produo e ao consumo. No perodo de 1848 a 1875 
                               o momento de difuso do sistema fabril em outras partes da Europa,
                               nos Estados Unidos e no Japo. Para estes pases a tarefa de desen-
                               volver o sistema de fbricas tornou-se relativamente mais simples em
                               comparao ao processo que a Inglaterra havia empreendido um s-
                               culo antes. Esta "simplicidade" explica-se pela apropriao da tecno-
                               logia inglesa pelos pases que empreenderam a sua revoluo indus-
                               trial no sculo XIX.
                                   No entanto, esta difuso do sistema de fbricas provocou transfor-
                               maes nas sociedades industrializadas e no industrializadas e nas re-
                               laes entre estes pases. A produo em larga escala exigia tambm
                               um mercado consumidor compatvel com esta produo, resultando
                               na concorrncia entre as potncias industrializadas na corrida por es-
                               tes mercados.
                                   Sendo assim, a difuso do sistema fabril promoveu a expanso do
                               capitalismo para vrias partes do mundo, o que ocasionou mudan-
                               as nos continentes africano, asitico e americano. Estes continentes,
                               na engrenagem imperialista, seriam responsveis pelo enriquecimen-
                               to dos pases industrializados, em detrimento do bem-estar das popu-
                               laes locais e do desenvolvimento econmico.
                                   Neste mesmo perodo, a Europa assistiu a um grande crescimento
                               demogrfico que inquietava as autoridades, por isso a poltica de emi-
                               grao foi estimulada por vrios governos europeus. Portanto, no s-
                               culo XIX h uma grande movimentao de pessoas e de mercadorias
                               pelo globo.
                                       Alm disso, com a mundializao da economia era necessrio o
                               desenvolvimento dos meios de comunicao e de transporte para in-
                               terligar as vrias partes do planeta. Isso provocou a expanso simult-
                               nea do comrcio e dos investimentos internacionais.

210 Relaesdetrabalho
                                                                                                                                         Histria

    O desenvolvimento dos meios de transporte foi to significativo no sculo XIX que com a
expanso das estradas de ferro, uma viagem ao redor do mundo de locomotiva em 1848 dura-
va 324 dias e, em 1872, esta mesma viagem levaria 81 dias.
    As estradas de ferro multiplicaram-se na Europa e em outros continentes no sculo XIX,
pois alm da necessidade de transporte de mercadorias, as ferrovias eram utilizadas como for-
ma de aplicar o capital acumulado com a indstria. Os meios de transporte significavam tam-
bm o movimento de pessoas, para a construo das ferrovias eram mobilizadas milhares de
pessoas, que como vimos era uma das necessidades europias do perodo.
    A medida que a ateno imperialista aprofundou-se nos outros continentes a cartografia
tambm se aprimorou. No decorrer do sculo XIX os mapas dos continentes americano, afri-
cano e asitico sofreram transformaes, tornando-os mais precisos  medida que as incurses
imperialistas nestes continentes avanavam.
    Ao mesmo tempo as relaes econmicas entre os continentes intensificaram-se, merca-
dorias industrializadas afluam para pases perifricos do sistema capitalista, em contrapartida,
produtos primrios como gneros alimentcios, eram transportados destes pases perifricos at
os industrializados.
        Mapa 1




        n Mappa topographico do Litoral entre as Barras Ararapira (Estado do Paran) e Rio Itapoc (Estado de Sta.
          Catarina). Rio de Janeiro, J. Ferreira Pinto & Comp. Escala 1 : 700.000. 22x21cm. Iconoteca Biblioteca Nacional (ARC 13-4-4,
          s/d. SOARES, C. R. e LANA P. C., 1994, p. 71.

                                                         OPortodeParanagunocontextodaexpansodocapitalismo 211
         EnsinoMdio

                                                                          A economia paranaense, neste contexto, tambm
                                                                      estaria integrada  economia internacional. Pode-
                                                                      se perceber que havia uma relao entre o desen-
                                                                      volvimento do comrcio no Paran e, conseqen-
                                                                      temente, de Paranagu como entreposto comercial
                                                                      com a expanso capitalista no sculo XIX. Assim co-
                                                                      mo, a construo da estrada de ferro Curitiba/Para-
                                                                      nagu estava associada aos interesses do capitalismo
                                                                      estrangeiro no pas, o que repercutiu na vida econ-
                                                                      mica de Paranagu e de seu porto.
                                                                          Observa-se no mapa 1 a estrada de ferro Curiti-
   n Chegada da primeira locomotiva  Curitiba  1884.
     Acervo Museu Ferrovirio (Curitiba-PR). Coleo Sesquicenten-
                                                                      ba/Paranagu que iniciou suas obras em 1880 e foi
     rio do Paran no Contexto Escolar, SEED-PR.                      concluda em 1885. O objetivo da construo desta
                                          ferrovia era ligar o litoral ao primeiro planalto facilitando assim o es-
                                          coamento da produo paranaense e a importao de mercadorias in-
                                          dustrializadas, contribuindo para o desenvolvimento econmico do es-
                                          tado.
                                              A construo da ferrovia contou com o trabalho de aproximada-
                                          mente nove mil homens, sendo que grande parte destes homens mor-
                                          reram devido a situao precria de segurana.




                                               RefernciasBibliogrficas
                                                 CARDOSO, J. A.; WESTPHALEN, C. M. Atlas Histrico do Paran.
                                                 Curitiba: Livraria do Chain, 1986.
                                                 MOREIRA, J. E. Caminhos das Comarcas de Curitiba e Parana-
                                                 gu: at a emancipao da Provncia do Paran. Curitiba: Imprensa Ofi-
                                                 cial, 1975.
                                                 SAINT-HILAIRE. A. Viagens a Curitiba e Provncia de Santa Catarina.
                                                 Belo Horizonte: Itatiaia, 1978. p. 100).
                                                 Pintores da paisagem paranaense. Edio Fac similar, Curitiba: Secre-
                                                 taria de Estado da Cultura: Solar do Rosrio, 2005. p. 76.
                                                 SANTOS, C. R. A. Vida Material, vida econmica. Curitiba: SEED,
                                                 2001.
                                                 SOARES, C. R.; LANA, Paulo da Cunha. Baa de Paranagu: Mapas e
                                                 Histria. Curitiba: Editora da UFPR, 1994.
                                                 TEFF; HARGREAVES; REBOUAS, 1879. In: SOARES, C. R.; LANA,
                                                 Paulo da Cunha. Baa de Paranagu: Mapas e Histria. Curitiba: Editora
                                                 da UFPR, 1994, p. 34 e 40.
                                                 WESTEPHALEN, C. M. Porto de Paranagu, um sedutor. Curitiba: Se-
                                                 cretaria de Estado da Cultura, 1998.



212 Relaesdetrabalho
                                                        Histria



ANOTAES




            OPortodeParanagunocontextodaexpansodocapitalismo 213
       EnsinoMdio




            I        z UNIDADETEMTICAIII:OEstadoeas
                       relaesdepoder
            n                Se os tubares fossem homens, eles seriam mais gentis
                         com os peixes pequenos. Se os tubares fossem homens,


            t
                         eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os
                         peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro,
                         tanto vegetais, quanto animais. Eles cuidariam para que as
                         caixas tivessem gua sempre renovada e adotariam todas



            r
                         as providncias sanitrias cabveis se, por exemplo, um
                         peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma
                         atadura a fim de que no morressem antes do tempo (...).
                             Naturalmente tambm haveria escolas nas grandes caixas,



            o
                         nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a
                         guelra dos tubares. Eles aprenderiam, por exemplo, a usar
                         a geografia, a fim de encontrar os grandes tubares, deitados
                         preguiosamente por a. Aula principal seria naturalmente
                         a formao moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados de


            d            que o ato mais grandioso e mais belo  o sacrifcio alegre
                         de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos
                         tubares, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo
                         futuro dos peixinhos. Se inculcaria nos peixinhos que esse


            u
                         futuro s estaria garantido se aprendessem a obedincia (...)
                         Se os tubares fossem homens, eles naturalmente fariam
                         guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e
                         peixinhos estrangeiros (...).


            
                             Ademais, se os tubares fossem homens, tambm acabaria
                         a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles
                         obteriam cargos e seriam postos acima dos outros. Os que
                         fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer


            
                         os menores, isso s seria agradvel aos tubares, pois
                         eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores
                         bocados para devorar. E os peixinhos maiores que deteriam
                         os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que


            o
                         estes chegassem a ser professores, oficiais, engenheiros da
                         construo de caixas e assim por diante.
                             Curto e grosso, s ento haveria civilizao no mar, se os
                         tubares fossem homens.
                                                   n (BRECHT, Brecht, Se os tubares fossem homens, s/d.)



214 Introduo
                                                                                Histria




   Esta excelente metfora proposta pelo dramaturgo alemo Bertold
Brecht (1898-1956) representa com maestria como se deram as relaes
                                                                            H
                                                                            I
de poder ao longo da modernidade. Nesta unidade temtica entendemos
que o poder  uma relao entre os seres humanos. Uma das principais
organizaes de poder construda pelos sujeitos histricos  o Estado.
Como essa organizao foi pensada pelos inteletuais, polticos e sujeitos
annimos?
    possvel perceber continuidades e mudanas entre a nossa forma
de governar no Ocidente contemporneo e a organizao estatal das
outras sociedades passadas? Nas diferentes sociedades o poder era
                                                                            S
exercido por quais grupos? Quem eram os submetidos a esse domnio.
Qual a relao entre os conflitos e os consensos entre dominadores
e submetidos? Como foi a formao dos Estados-Nao ocidentais e
suas respectivas formas de governo? Como as relaes de poder so
organizadas socialmente?
                                                                            T
   Das idias iluministas e da Revoluo Francesa do sculo XVIII
at a formao do Estado de Bem-Estar Social europeu em meados
sculo XX, foram constitudos uma srie de direitos ligados ao homem
e ao cidado que previam a extino da tortura e a mitigao ou
                                                                            
                                                                            R
eliminao plena da pena de morte. Ao mesmo tempo, houve uma
potencializao da escalada da violncia na maior parte do planeta.
Quais os mecanismos scio-histricos que levaram a essa contradio?
Como a violncia se transferiu do monoplio policial e militar do


                                                                            I
Estado e dos movimentos revolucionrios para as complexas redes de
micro-poderes das sociedades contemporneas?
   Os sculos XIX e XXI foram marcados por uma nova forma de
explorao poltica e econmica de mbito internacional: o imperialismo,


                                                                            A
atualmente chamado de mundializao e/ou globalizao. Como a
bipolarizao promovida pelas potncias militares da Guerra Fria e seus
vnculos com uma indstria cultural, fundamentada em uma cultura de
massas, contriburam para o desenvolvimento desse processo?




                                                                                           215
      EnsinoMdio




216 RelaesdePoder
                                                                                        Histria




                                                                                12

                                                           RELAES DE PODER:
                                                O estado nos mundos antigo e medieval
                                                                                    n Sueli Dias1




                                                                 Estado surgiu segundo o in-
                                                                 teresse de uma pessoa?
                                                                 De um grupo? Da necessida-
                                                                 de de um povo?
                                                                Existia o Estado no mundo an-
                                                             tigo e medieval?




1
 Colgio Estadual Nilo Cairo  Apucarana  PR


                                                              OEstadonosMundosAntigoeMedieval 217
       EnsinoMdio

                                OconceitodeEstado
                                 H vrias formas de poder do homem sobre o homem e o poder
                              poltico  apenas uma delas. Para compreend-lo,  preciso buscar o
                              conceito de Estado e os significados do mesmo. Leia o que a historio-
                              grafia comenta sobre este conceito:

        Texto 1
        Definir o conceito de Estado de acordo com as realidades polticas de nosso tempo e transportar
     a definio para o passado de nada serve, porque o Estado apresentou formas distintas em culturas e
     momentos diferentes. Tambm no ajuda muito investigar sobre a histria do vocbulo  que data do
     sculo XVI , porque a realidade que apresenta foi conhecida anteriormente sob outras denominaes,
     como a de "repblica". Portanto, necessitamos analis-lo historicamente.
        O Estado, entendido como a forma de organizao civil das coletividades humanas estveis, nasce
     quando grupos de homens mais numerosos do que os que compem uma tribo ou um bando se co-
     ordenam sob um comando nico. No mundo antigo, conhecemos as cidades-estado da Mesopotmia
     (onde a hierarquizao social que consolidava a desigualdade e colocava a violncia legal nas mos de
     um chefe parece que surgiu h oito mil anos) e da Grcia, o imprio egpcio, o de Alexandre, o imprio
     romano... Todos so Estados: em cada caso, h territrio com limites  no exatamente uma fronteira,
     que  um conceito mais moderno  e um poder que controla com suas regras, de modo mais ou me-
     nos efetivo, o conjunto de pessoas que nele vive.
                                                                        (Adaptado de FONTANA, 2000, pp. 238-239).

                                  Estado, segundo o Dicionrio Houaiss da Lngua Portuguesa, " um pa-
                              s soberano com estrutura prpria e politicamente organizado" (2001,
                              p. 1244). Porm  interessante perceber que a palavra pas vale so-
                              mente para os dias atuais, no mundo antigo e medieval este concei-
                              to inexistia.
                                  Para a sociologia, uma das definies de Estado  a seguinte:

        Documento 1
         Um Estado existe como um mecanismo poltico de governo (instituies como o Parlamento ou
     Congresso, alm de servidores pblicos), controlando determinado territrio, cuja autoridade ampara-
     se num sistema legal e na capacidade de utilizar a fora militar para implementar suas polticas.
                                                                              (Adaptado de GIDDENS, 2005, p. 342).


                                 No mundo antigo e medieval pode-se aproximar o conceito de Es-
                              tado com o exerccio do poder poltico, por uma pessoa ou por mais
                              pessoas, as quais realizavam obras, cobravam impostos e usavam a for-
                              a para defender ou controlar o territrio e seu povo.
                                 Na Idade Antiga Oriental, o "Estado" apresentava como trao funda-
                              mental a teocracia, na qual o monarca acumulava poderes polticos, reli-
                              giosos e econmicos. Entre as civilizaes que experimentaram essa for-
                              ma de governo esto os egpcios, os mesopotmicos e os hebreus.


218 RelaesdePoder
                                                                                     Histria

    Na Europa Ocidental, entre os sculos XII a VIII a.C., principalmen-
te na Grcia, o poder poltico organizou-se em forma de monarquias,
aristocracias e democracias. No existia um poder central vlido pa-
ra toda a Grcia, pois o poder era fragmentado entre as cidades-esta-
do. Ento, outras relaes, fundamentadas na cultura e na religiosida-
de, garantiam a unidade entre os gregos.
     Em Roma, a organizao do Estado iniciou-se com o poder poltico
centralizado no monarca, diferenciando-se assim da monarquia grega.
    O mundo medieval caracterizou-se pela a ausncia do Estado unifi-
cado e centrado nas mos de uma nica pessoa. O poder poltico esta-
va diludo entre os nobres proprietrios de terra e a igreja catlica.


   "Estados"naAntigidadeOriental:poderpoltico
   epoderreligioso
Mapa 1




n Regio do Crescente Frtil


   Mesopotmia
    Os povos que ocuparam a regio do Crescente Frtil, na sua maio-
ria, eram agricultores e dependiam do perodo das cheias dos rios pa-
ra organizar o plantio. Na Mesopotmia (regio do atual Iraque), os
povos que ocuparam essa regio, entre outras, foram: os Smrios, os
Babilnios, os Assrios e os Caldeus.
    Uma das funes dos monarcas, da regio da Mesopotmia, era
controlar a defesa da regio diante das muitas disputas pelas terras
frteis. O rei exercia poder poltico, religioso e econmico - era consi-
derado um representante dos deuses. Muitos historiadores consideram
essa uma relao de poder teocrtico.

                                                            OEstadonosMundosAntigoeMedieval 219
       EnsinoMdio

                                      Os Sumrios, por volta de 2000 a.C., organizaram o poder poltico
                                  em cidades-estado. Uma das finalidades da instituio das cidades-es-
                                  tado era: organizar a produo de diques para controlar as cheias dos
                                  rios Tigre e Eufrates.
                                      Veja como a historiografia define as cidades-estado:
        Texto 2
          O conceito de cidade-estado, entendido como um pequeno "Estado com base territorial e in-
     dependncia poltica, caracterizado por estar composto de uma cidade com um contexto integrado
     econmica e socialmente", no qual a unidade formada por este contexto " relativamente auto-su-
     ficiente, do ponto de vista econmico, e se percebe como etnicamente distinta de outros sistemas
     semelhantes", aplica-se hoje a lugares e momentos bastante diversos, desde a China antiga at a
     Amrica pr-colombiana.
            (NICHOLS e CHARLTON (orgs.), The archaeoloy of city-states. Cross-cultural approaches, Washington: Smithsonian Institution
                                                                                    Press, 1977, p.1 apud FONTANA, 2000, p. 240.)




                      ATIVIDADE

        Pases contemporneos, apesar das diferenas de processos histricos, so considerados por
    alguns historiadores como cidades-estado, entre eles o principado de Mnaco e o Estado do Vatica-
    no. Pesquise sobre estes Estados e construa uma narrativa histrica sobre estas consideraes.



                                     Egito:umaexperinciadepoderteocrtico
                                       As relaes polticas que se desenvolveram no Egito Antigo, em
                                  aproximadamente 3.200 a.C., conduziram a centralizao do poder po-
                                  ltico nas mo de um monarca garantindo uma unidade para a civili-
                                  zao egpcia. Este era um dos diferenciais entre egpcios e mesopo-
                                  tmicos. O monarca egpcio exercia as funes polticas econmicas e
                                  religiosas. Nestas condies havia semelhana com outras civilizaes
                                  do Crescente Frtil.
                                       Observe pela historiografia as diferenas na identidade da realeza
                                  nas sociedades mesopotmica e egpcia

        Texto 3
        Enquanto o rei egpcio  concebido por um pai divino, educado na juventude por divindades e, desde
    o seu advento, elevado  categoria dos deuses, permanecendo nesta situao aps a morte, o rei me-
    sopotmico aparece somente como o representante da divindade junto aos homens e como represen-
    tante destes junto quela, ou seja, como intermedirio entre o mundo divino e o humano. Para os seus
    sditos, constitui, portanto, uma espcie de talism. Protege-os. Tenta garantir a boa vontade dos deu-
    ses a seu respeito, isto , tenta criar e manter condies favorveis  sua vida e  sua prosperidade, por
    meio do acordo com as foras sobrenaturais.
                                                                                   (AYMARD e AUBOYER apud CROUZET, 1965, p. 125).

220 RelaesdePoder
                                                                                                           Histria

  Hebreus
    Para o povo hebreu, que habitava a terra de Cana, posteriormen-
te chamada de Palestina, existia um nico Deus  Jav. Fato este que
distinguia este povo dos demais povos da antigidade, pois enquanto
os hebreus tornaram-se monotestas, os demais povos mantiveram-se
politestas. O hebreus inicialmente estavam organizados em cls, cujo
lder era denominado de patriarca, posteriormente organizaram-se em
tribos, sendo que o chefe militar era chamado de Juiz. Porm, quando
os hebreus dominaram a Palestina e tornaram-se agricultores sedent-
rios, este povo sentiu a necessidade de centralizar o poder para defen-
der-se dos inimigos; para tanto, instituram a monarquia.
    Nesta fase os reis eram considerados representantes enviados por
Deus. Neste documento histrico, esto transcritos alguns versculos
que tratam da histria poltica do povo hebreu, no sculo X a.C.; re-
fere-se a transferncia do poder poltico do rei Davi ao seu filho Salo-
mo, nas palavras dos homens que escreveram a Bblia.

     Documento 2
     1
      Aproximando-se o dia de sua morte, Davi ordenou a seu filho Salomo: 2Eu vou seguir o caminho
 de todos os mortais. Seja forte e comporte-se como homem. 3Cumpra as ordens de Jav seu Deus, an-
 dando pelos caminhos dele e observando seus estatutos, mandamentos, normas, e testemunhos, co-
 mo esto escritos na lei de Moiss, para que voc tenha sucesso em tudo o que fizer e projetar. 4Ento
 Jav cumprir o que ele prometeu: "Se os seus filhos mantiverem boa conduta e forem leais comigo, de
 todo o corao e de toda a alma, nunca faltar algum de sua famlia no trono de Israel.
                                                                       (1Rs 2: 1- 4, Bblia Sagrada, 1990, p 367.)




                 PESQUISA

    Pesquise sobre a histria poltica do povo hebreu e faa um quadro para sintetizar suas principais fa-
 ses: patriarcado, juizado e reinado .




                 ATIVIDADE

     Destaque, a partir da anlise do texto 3 e do documento 2, os objetivos da aliana do poder
 poltico com o poder religioso em seus contextos especficos. Depois, redija-os.




                                                                  OEstadonosMundosAntigoeMedieval 221
      EnsinoMdio

       OEstadonaGrciaAntiga
        Devido  fragmentao geogrfica e diversidade cultural,  mais comum caracterizar a
    formao do Estado na Grcia, a partir do surgimento da plis. Estas comearam a se es-
    truturar no perodo arcaico, entre os sculos VIII e VI a.C., poca da decadncia dos genos
    (comunidades familiares, lideradas pelo patriarca  pater famlias). A desintegrao dos ge-
    nos ocorreu, na maioria das vezes, pela insegurana nas invases de outros povos, pela in-
    capacidade dos mesmos em atender  demanda do aumento populacional e pela integra-
    o comercial de diferentes regies.
        A plis era uma comunidade autnoma religiosa, econmica e politicamente. Da plis,
    nasceu o termo poltica, que na etimologia da palavra, significa a arte de administrar, gover-
    nar a cidade. Um Dicionrio de Poltica assim define o termo:
        O filsofo grego Aristteles (384-322 a.C.), ocupou-se, em sua obra A poltica, em de-
    monstrar a unio entre poltica e moral. A moral, a partir da tica, cria padres de conduta
    individuais, enquanto a poltica cria padres de conduta coletivos que constroem a Plis.
        Para Aristteles, a plis devia zelar pela moral coletiva e ser o local das satisfaes do
    bem comum, caso o poder exercido se utili-
    zasse para atender interesses particulares de
    uma pessoa ou de um grupo social, a cons-
    tituio da plis estaria desvirtuada ou dege-
    nerada. Analisando a organizao da cidade
    (plis), Aristteles chegou a diversas formas
    de governo e distinguiu trs:


          Documento 3
          Poltica  derivado do adjetivo originado de
      plis (politiks), que significa tudo o que se re-
      fere  cidade e, conseqentemente, o que 
      urbano, civil, pblico e at mesmo socivel e
      social; expandiu-se graas  influncia da obra
      de Aristteles, intitulada A poltica  que deve
      ser considerada como o 1 tratado sobre a na-
      tureza, funes e diviso do Estado e sobre as
      vrias formas de governo.
                (BOBBIO; MATTEUCCI; PASQUINO, 2000, p 954.)


            Regime                   Governo de               Sua degenerao
           Monarquia                  uma pessoa                   Tirania
           Aristocracia            grupo privilegiado            Oligarquia
      Politia/ democracia                todos                  Demagogia




222 RelaesdePoder
                                                                                           Histria


               PESQUISA                                            DEBATE

   Em dicionrios e na obra de Aristteles, A          Faa um debate em sala sobre os
   poltica, o conceito de tirania, oligarquia e    resultados da pesquisa - contrastan-
   demagogia. Feito isso, responda: Por que,        do com o pensamento aristotlico so-
   para Aristteles, a Tirania, Oligarquia e De-    bre poltica.
   magogia eram degeneraes dos sistemas
   de governo Monarquia, Aristocracia e Demo-
   cracia?
   Realize uma pesquisa na escola ou na co-
                                                                    ATIVIDADE
   munidade sobre o que as pessoas sabem a
   respeito das formas de governo, sistema e ti-        Construa uma narrativa histrica expli-
   po de governo, da poltica e de quem deve        cando as diferenas entre o conceito de
   ser poltico. (sugesto www.wikipedia.org)       poltica e as concepes prvias que as
                                                    pessoas possuem sobre ela.


   Na Grcia, tambm durante o perodo arcaico, VIII e VI a.C., havia muitos estados - eth-
nos, estados que ocupavam grande parte do territrio, dividido em numerosas aldeias, mas
que no tinham um centro urbano. Porm, foi a plis grega (normalmente considerada uma
cidade-estado), que demonstrou que os gregos experimentaram vrias formas de governo:
monarquia (governo de um s), aristocracia (governo dos nobres) e democracia (governo do
povo).
   Entre vrias plis, Atenas  um bom exemplo, pois, vivenciou todas as formas de gover-
no da Grcia Antiga, tinha centro urbano e foi o bero da democracia.


  Atenas
   Diversos povos ocuparam a regio onde se desenvolveu a civilizao grega. Entre eles,
predominaram os jnios como ancestrais da cidade de Atenas. Nela, a primeira forma de go-

                                                                                                  n Foto: www.sxc.hu




                                                        OEstadonosMundosAntigoeMedieval 223
       EnsinoMdio

                              verno foi a monarquia: o rei, chamado de basileu, detinha poder mili-
                              tar e religioso, mas, politicamente, era controlado pelo Arepago e pe-
                              lo Arcontado, uma espcie de conselho de aristocratas formados por
                              euptridas (homens nascidos em Atenas).
                                  O controle do poder poltico pelos aristocratas gerou conflitos e re-
                              formas polticas em Atenas.
                                  621 a.C. - Dracon elaborou as primeiras leis escritas para Atenas;
                                  594 a.C.  Slon reformou as leis de Dracon;
                                  560 a.C.  tiranos exerceram o poder  fora
                                  508 a.C.  Clstenes obteve prestgio por liderar a resistncia militar
                                  de Atenas numa invaso dos espartanos. Garantiu direitos polticos
                                  para todos os cidados, criando assim a democracia. Esta se tornou
                                  um modelo de organizao para os Estados que se formaram des-
                                  de ento, at os dias atuais.
                                  Conhea as consideraes da historiografia sobre a democracia ate-
                              niense:

        Texto 4
         O caso mais exemplar foi o de Atenas. Modelo para muitas cidades-estado, onde a participao es-
     tendeu-se ao conjunto da populao masculina cidad e a democracia se manteve por quase dois s-
     culos.  importante conhecer melhor Atenas, pela relevncia que possui no imaginrio poltico at hoje.
     Em primeiro lugar, uma ressalva: a democracia ateniense nunca foi absolutamente includente: dizia res-
     peito apenas aos cidados masculinos, e exclua, de qualquer forma de participao poltica, as mulhe-
     res, os imigrantes e os escravos. Em contrapartida, no mbito restrito dos cidados, representou uma
     experincia notvel de participao direta no poder de todas as camadas sociais, independentemente
     da riqueza ou posio social. Criaram-se os mecanismos de indenizao pecuniria que facilitavam aos
     mais pobres o acesso  participao na vida comunitria, no apenas nas assemblias e tribunais, mais
     at mesmo nas festividades cvicas, como a assistncia s competies teatrais. Os ricos, que se aco-
     modaram como puderam ao sistema democrtico, foram obrigados a contribuir com a comunidade de
     vrias formas, construindo naves de guerra, financiando espetculos e festas religiosas.
                                                       (Adaptado de GUARINELLO apud PINSKY e PINSKY. 2003, p. 40 e 41.)


                                  Em Atenas, a democracia era o poder exercido pela maioria dos ci-
                              dados, muito embora, no mais que, aproximadamente, 10% da po-
                              pulao fosse considerada cidad.
                                  Os cidados tinham direito ao voto e representavam-se a si mes-
                              mos, sem a noo de partidos polticos ou Constituio, como ocorre
                              atualmente, quando elegemos pessoas que representam e tomam de-
                              cises em nome de todos.
                                  Observe estes dois fragmentos referentes ao documento 4 e ao tex-
                              to 5 sobre quem devia ser cidado na antigidade e o que  cidadania
                              no mundo contemporneo:



224 RelaesdePoder
                                                                                                                                    Histria


     Documento 4
      Quem deve ser o cidado (Politen) para Aristteles? No todos, mas somente os homens absolu-
 tamente justos. Eles, esses poucos eleitos, no devem viver do trabalho trivial de artfices, muito menos
 do negcio (porque so atividades ignbeis e incompatveis com as qualidades morais de um cidado
 virtuoso). Tampouco podem eles serem agricultores, pois esses vivem lavrando a terra sem terem tem-
 po para o cio necessrio ao seu aprimoramento. Afinal, "o lazer  indispensvel ao desenvolvimento
 das qualidade morais e  prtica das atividades polticas"
                        (A poltica, livro 8, cap.VIII, 1329 a). (Disponvel em: http://educaterra.terra.com.br/voltaire/politica/politica1.
                                                                                                            Acesso em: 09 nov. 2005).


     Texto 5
     Ser cidado  ter direito  vida,  liberdade,  propriedade,  igualdade perante a lei: , em resumo,
 ter direitos civis.  tambm participar do destino da sociedade, votar, ser votado, ter direitos polticos.
 Os direitos civis e polticos no asseguram a democracia sem os direitos sociais, aqueles que garan-
 tem a participao do indivduo na riqueza coletiva: o direito  educao, ao trabalho, ao salrio justo, 
 sade, a uma velhice tranqila. Exercer a cidadania plena  ter direitos civis, polticos e sociais.
                                                                                                        (Adaptado de PINSKY,2003.p. 9).




                 DEBATE

    Faa um debate em sala e baseado nestas consideraes conclua com uma narrativa histrica
 coletiva sobre quem deve ser cidado, o que  cidadania e como exerc-la nos dias atuais.




                 ATIVIDADE

     Observe as formas de participao poltica da antigidade e compare com as dos sculos XX e XXI,
 levando em conta os respectivos contextos scio-histricos. Construa um quadro comparativo.




  Relaesentreconquistadoreseconquistados
    Dentre os diversos Estados das sociedades antigas, os imprios per-
sa, macednico e romano so modelos de monarquias que, por meio
de conquistas, integraram extensas regies. Para mant-las, alm da
estratgia militar, adotaram o respeito  autonomia poltica e religiosa
dos conquistados. Constituram uma confederao, uma aliana po-




                                                                                   OEstadonosMundosAntigoeMedieval 225
       EnsinoMdio

                              ltica entre o imprio e as oligarquias locais, mantidas especialmente
                              pelo pagamento de tributos e fornecimento de soldados.
                                        Mapa 2




                                        n Imprio Persa.


                                 Persas
                                  Com o aumento demogrfico no sculo VI a.C., os persas realizaram
                              uma expanso geogrfica. De incio conquistaram as colnias gregas e
                              posteriormente ocuparam um vasto territrio em direo  sia.
                                  Dario I (521-486 a.C.), um dos mais importantes imperadores per-
                              sas, usou como estratgia a descentralizao da administrao entre os
                              strapas, espcies de governadores de provncias que, apesar de cer-
                              ta autonomia, eram vigiados por fiscais, conhecidos como "olhos e ou-
                              vidos do rei".
                                  Observe como a historiografia destaca a organizao do imprio persa:

        Texto 6
         Os elementos de unidade do Imprio so: o aramaico, a lngua administrativa do oriente, emprega-
     do conjuntamente com as lnguas regionais, iraniano, babilnico, egpcio, grego, etc.; o exrcito, forma-
     do de corpos recrutados no lugar, mas organizado em torno de forte guarda real de 15.000 soldados
     de elite, medos e persas; as grandes rotas, ao mesmo tempo administrativas, estratgicas e comer-
     ciais; a moeda, o drico. No conjunto, o imprio continua espantosamente subadministrado, muito tole-
     rante, por vezes mesmo condescendente, desde que sejam satisfeitos os desejos do rei, o que se ex-
     plica pela sua imensido, pela fraqueza numrica dos persas, elemento dirigente, e pela disperso de
     populaes muito desigualmente repartidas.
                                                                              (Adaptado de PETIT. 1971, p. 100 e 101.)




                     ATIVIDADE

        Produza uma narrativa histrica para explicar que elementos e de que maneira estes elementos co-
    laboraram para manter a unidade do Imprio persa.



226 RelaesdePoder
                                                                                                            Histria

  Macednicos                                         Mapa 3

   Com a inteno de ter uma sada para o
mar, os macednicos conquistaram cidades-
Estado da regio da Grcia. A partir de en-
to, os macednios intensificaram suas con-
quistas.
   A fase de maior destaque do Imprio Ma-
cednico ocorre entre (336 a 323 a. C.), per-
odo do governo de Alexandre, o Grande (ou
Magno [356-323 a.C.]). As conquistas deste
perodo estenderam o domnio macednico
da Grcia  ndia. Dominaram regies per-
tencentes aos gregos e persas, fundando di-
versas cidades, muitas das quais receberam o n Conquistas de Alexandre, o Grande.
nome de Alexandria.
   As conquistas de Alexandre expandiram o imprio a propores
nunca vistas na antigidade; popularizaram a cultura grega por meio
dos costumes e da lngua, que, no sculo IV a.C., tornou-se a lngua
mais falada entre os povos do Oriente Prximo.
   Observe, pela historiografia, a organizao do Imprio Macednico
na poca de Alexandre:

     Texto 7
       Na Grcia e Macednia, Antipter governa em seu nome. Na outra extremidade do imprio, sobe-
  ranos guardam o poder, com ttulos de vice-reis vassalos, praticamente independentes. O antigo terri-
  trio aquemnida conserva a diviso das satrapias (divises administrativas persas), umas confiadas a
  titulares macednicos, outras, no centro e no oriente, entregues a persas fiis, fiscalizados por militares
  macednicos. Alexandre divide as funes: poder civil somente a persas, poder militar a macednicos,
  administrao financeira e guarda dos tesouros a gregos.
                                                                                 (Adaptado de PETIT. 1971, p. 158.)




                  ATIVIDADE

      A partir do texto 7, escreva uma narrativa histrica para explicar como o Imprio Macednico adqui-
 riu unidade a partir da helenizao do mundo.



  Romanos
   O Estado romano formou-se a partir da cidade de Roma. Sua pri-
meira forma de governo foi a monarquia (753-509 a.C.), seguida pela
repblica (509- 27 a.C.) e pelo imprio (27 a.C.-476 d.C.).

                                                                    OEstadonosMundosAntigoeMedieval 227
            EnsinoMdio

   Mapa 4




     1                                                     2                                    3


n 1 Conquistas da primeira metade do sculo IV a.C.
  2 Conquista da segunda metade do sculo IV a.C.
  3 Conquista do sculo III a. C. 4 Conquistas at 44 a.
  C. 5 Conquistas at o sculo II d.C.




                                                           4                                     5


                                                  Em Roma, o poder poltico, assim como o poder econmico, era re-
                                              ferendado pela posse das terras. Esta se concentrava nas mos dos pa-
                                              trcios, ou seja, dos que possuam nacionalidade romana.
                                                  Durante a fase republicana, o mundo romano era tratado como
                                              coisa pblica e o governo partia do senado, das magistraturas e das
                                              assemblias. Dos sculos VI a I a.C., os romanos especializaram seu
                                              exrcito e, por meio dele, realizaram uma grande expanso anexan-
                                              do regies da Europa, sia e frica, constituindo um grande imprio.
                                              Permitiram, na maior parte das vezes, que os conquistados mantives-
                                              sem suas particularidades culturais e religiosas. Os maiores elos de li-
                                              gao do imprio eram o pagamento de tributos dos conquistados aos
                                              conquistadores, e a partir de 270 a.C., o inquestionvel poder poltico
                                              e social do imperador.
                                                  Veja como este documento destaca os poderes dos imperadores ro-
                                              manos:

             Texto 8
             Os imperadores procedem  organizao das tropas, fazem recolher os impostos, declaram a guer-
         ra e fazem a paz, comandam em todos os lugares e sempre, tanto os aliados como os romanos, po-
         dendo ordenar a execuo de cavaleiros e senadores. Em virtude de seu poder censorial, indagam so-
         bre a maneira de viver, sobre os hbitos, realizam censos, redigem a lista de cavaleiros e senadores.
         Constituem-se nos responsveis por todos os assuntos santos e sagrados.
                                                                       (Adaptado de Dion Cssio, LIII, 17 apud PINSKY, 1988, p 96 e 97.)
                                                 A partir do ano 284 de nossa era, o Imprio Romano, em crise eco-
                                              nmica e administrativa, experimentou uma maior centralizao polti-
                                              ca diminuindo a autonomia das regies anexadas ao imprio.

228 RelaesdePoder
                                                                                                           Histria

   Leia o que um historiador ressalta sobre esta mudana para a au-
tocracia:

     Texto 9
     Com a ascenso de Diocleciano (236-305 d.C.), no mais prevaleceu a doutrina de ser o governan-
 te um agente do senado e do povo; era agora tido como soberano absoluto, presumindo-se que o po-
 vo lhe confiara todo o poder. Adotou os atributos e ritual de um dspota oriental. Substituiu o traje militar
 do Princeps por um manto de prpura bordado de ouro. Exigia que todos os seus sditos, se prostras-
 sem diante dele. O senado foi excludo por completo do governo. Foi reduzido  situao de um con-
 selho municipal e de um clube da plutocracia. Os sucessores de Diocleciano continuaram a manter o
 sistema de absolutismo.
                                                                           (Adaptado de BURNS, 1968, p 242 e 243.)




                 ATIVIDADE

     Vrios historiadores destacam, entre outros motivos, a perseguio e o crescimento do cristianis-
 mo para a crise do imprio romano. Como voc explicaria a perseguio dos romanos aos cristos sa-
 bendo que existia tolerncia deste imprio com a cultura e religio dos povos conquistados? Pesquise
 e elabore uma narrativa histrica sobre este tema.
     Elabore um quadro para destacar as principais causas da crise do Imprio Romano.




  "Estado"naIdadeMdia:ahierarquizaodopoder
   No sculo II a.C., Roma deu incio a uma poltica expansionista. No
entanto, por volta do sculo III d. C., os romanos passaram a enfrentar
uma srie de problemas resultante da expanso. Entre os fatores que
levaram ao fim do Imprio esto: as disputas internas pelo poder, a in-
subordinao das populaes dominadas, a propagao de doenas e,
principalmente, a invaso dos povos brbaros.
   Os romanos chamavam de "brbaros" os estrangeiros. Os germanos
ou brbaros possuam idiomas, valores culturais e religiosos muito dife-
rentes dos romanos. Eles tinham tambm um estilo de vida comunitrio
e uma economia pastoril. A estrutura social destes povos era muito dife-
renciada, uma vez que no possuam lderes para o tempo de paz.
   Leia sobre o que a historiografia ressalta no que diz respeito  organi-
zao poltica dos germanos, no perodo da crise do Imprio Romano:

     Texto 10
    Os germanos no tinham nem Estado nem cidades, sendo a tribo e a famlia as clulas bsicas de
 sua organizao poltica. As relaes sociais entre eles no se regiam pelo conceito de cidadania, mas
 de parentesco. Assim, ao se sedentarizarem, ocupando cada tribo uma parcela do Imprio Romano,

                                                                     OEstadonosMundosAntigoeMedieval 229
        EnsinoMdio


     eles vieram a substituir um Estado organizado e relativamente urbanizado. A idia de organizao de um
     imprio estaria sintetizada no reino franco, no sculo VIII, na figura de Carlos Magno.
                                                                              (Adaptado de FRANCO JR, 2004, p 52).


      Sagrao de um rei ingls.        O contato entre germanos e romanos iniciou-se no sculo I d.C.
    iluminura (miniatura) france-   Nos sculos seguintes, as relaes entre eles intensificaram-se; os ger-
    sa dos princpios do sculo     manos chegaram a fazer parte da administrao e do exrcito romano.
    XIV  atualmente no Corpus      A partir do sculo III d.C., os germanos, em busca de melhores terras
    Christi College, Cambridge. A
                                    para pastagem, comearam a promover violentas incurses nos territ-
    cerimnia de sagrao que
                                    rios de Roma, iniciando relaes de conflitos entre ambos.
    transformava o rei em figu-
    ra quase sagrada era um ri-         As invases germnicas geraram uma fragmentao poltica e a ru-
    to eclesistico, como se v     ralizao da sociedade da Europa ocidental, o que provocou a queda
    pelos vrios bispos e outros    do Imprio Romano no Ocidente.
    clrigos que cercam o mo-           O contato entre os povos germanos e romanos provocou a destrui-
    narca nesta imagem. Obser-      o de grande parte dos valores desses dois povos, o que resultou nu-
    ve-se tambm os destaques       ma nova organizao social, econmica e poltica: o feudalismo. Essa
    dados aos smbolos do poder     nova organizao no aconteceu em toda Europa ocidental de forma
    de que o rei era ento inves-
                                    uniforme, nem ao mesmo tempo.
    tido: trono (como o chama-
    do "Cristo em Majestade"),
    coroa (como o prprio Cristo
    e santos em certas represen-
                                      SociedadeFeudalnaEuropaOcidental
    taes), cetro (como os bis-
    pos). FONTE: FRANCO JR,            Na sociedade feudal, que se desenvolveu na Europa ocidental,
    2004, p.61                      aproximadamente entre os sculos VI a XII, o poder local, de fato, era
                                               exercido pelo proprietrio dos feudos  o senhor feudal.
                                               A ele cabia a administrao da propriedade e das relaes
                                               com os servos que viviam no seu feudo.
                                                   Com a consolidao do feudalismo entre os sculos IX
                                               ao XII, ainda que no de maneira uniforme para toda Eu-
                                               ropa Ocidental, a autoridade poltica do papa e dos reis era
                                               mais social, mais terica e quanto aos aspectos econmicos,
                                               era comum que estes recorressem aos senhores feudais pa-
                                               ra montar exrcitos e juntar recursos para conquistas.
                                                   A transferncia das tarefas do "Estado"  que tornava a
                                               nobreza e a Igreja Catlica indispensveis: alm de rece-
                                               bedores diretos dos recursos obtidos dos sditos em tribu-
                                               tos e dzimos, suas funes eram: nobreza  manter a de-
                                               fesa do territrio; igreja  realizava a assistncia social e
                                               ser responsvel pelo ensino.
                                                   Observe como a historiografia destaca a estrutura pol-
                                               tica da sociedade feudal:




230 RelaesdePoder
                                                                                                          Histria


     Texto 11
     Como sistema de governo, o feudalismo englobava certo nmero de concepes bsicas. Em pri-
 meiro lugar, inclua a noo de que direito de governar era um privilgio pertencente a todo possuidor
 de um feudo, implicando esse privilgio obrigaes muito definidas, cuja violao podia acarretar a per-
 da do feudo. Envolvia, em segundo lugar, a idia de que todo governo se baseia num contrato. Os go-
 vernantes devem concordar em governar dentro da justia, de acordo com as leis tanto humanas co-
 mo divinas. Os sditos devem prometer obedincia enquanto seus dirigentes governarem com justia.
 No caso de uma das partes violar o contrato, a outra fica livre de suas obrigaes e tem o direito de ini-
 ciar uma ao de reparao. Como terceira concepo, o feudalismo baseava-se num ideal de sobera-
 nia limitada e na oposio  autoridade absoluta, no importando por quem fosse exercida. O governo
 feudal devia ser um governo de leis, no de homens. Nenhum governante, de qualquer categoria que
 fosse, tinha o direito de impor sua vontade pessoal aos sditos para atender os ditames do prprio ca-
 pricho. Dentro da teoria feudal, na verdade, nenhum dirigente tinha o direito de legislar; a lei era produ-
 to do costume ou da vontade de Deus. A autoridade do rei ou do baro limitava-se  promulgao do
 que se poderia chamar decretos administrativos, visando  boa execuo da lei.
                                                                          (Adaptado de BURNS, 1968, p 321 e 322.)




                 ATIVIDADE

    Elabore um quadro para sintetizar a organizao poltica dos Reinos germnicos, Reinos feudais e
    do Imprio bizantino. Considere imprescindveis as informaes sobre o perodo, local e as caracte-
    rsticas de governo destas sociedades.
    Analisando o texto 11, escreva uma narrativa histrica sobre o exerccio de poder no sistema feudal.



  OEstadoIslmico
    Um Estado criado por uma religio, assim pode ser definido o Im-
prio que surgiu a partir da religio islmica, criada por Maom (570-
632) em 622, na cidade de Meca, na Arbia. Ao defender a criao do
Islamismo, Maom entrou em conflito com comerciantes que viviam
da explorao do politesmo e peregrinaes na cidade de Meca. As-
sumir publicamente a criao dessa nova religio obrigou a fuga de
Maom desta cidade para Medina, fato este conhecido como Hgira .
     Um dos principais objetivos desta religio foi unificar os rabes
num s Estado. Portanto pode se afirmar que o imprio islmico sur-
giu a partir da religio islmica  criado por Maom, tambm citado em
algumas obras como Muhammad. Com a morte de Maom, em 632, es-
ta misso foi mantida pelos seus sucessores  os califas, por meio da
guerra santa (jihad). Os povos conquistados tinham a opo de adotar
a nova religio e se incorporarem ao Estado diminuindo a carga de tri-
butos ou manter a religio tradicional, arcando com tributos maiores.


                                                                   OEstadonosMundosAntigoeMedieval 231
      EnsinoMdio

                                No Imprio Islmico, a funo do Estado foi zelar pelo cumprimen-
                             to da shariah  conjunto das leis divinas. Tais leis, segundo seus exe-
                             cutores, deliberavam sobre a expanso e administrao do novo mun-
                             do rabe.
   Mapa 5




                                                                                   n Expanso do Imprio islmico.

                                O governo dos califas estendeu-se de 632 (morte de Maom) a 1258
                             (conquista de Bagdad pelos mongis), durante as dinastias dos oma-
                             das e abssidas. O califa era auxiliado pelos visires na administrao
                             central e pelos emires nas provncias.
                                Aps o governo dos califas, o sulto tornou-se o principal persona-
                             gem poltico. Tinha o auxilio dos sacerdotes (ulems) para interpretar a
                             shariah e mantinha a monarquia hereditria alicerada pelo exrcito.


                    PESQUISA

        Organize-se em dupla com um colega de sala. Depois pesquise sobre a estrutura poltica do Imprio
    Islmico. Redija as concluses e apresente-as  sua turma.




                               RefernciasBibliogrficas
                                BBLIA SAGRADA  edio pastoral. So Paulo: Edies Paulinas, 1990.
                                BOBBIO, N.; METTEUCCI, N.; PASQUINO, Gianfranco. Dicionrio de
                                Poltica. 5. ed. Braslia: UNB: So Paulo: Imprensa Oficial, 2000.


232 RelaesdePoder
                                                                                       Histria

 BURNS, E. M. Histria da civilizao ocidental: do homem da cavernas
 at a bomba atmica: o drama da raa humana. Porto Alegre. Ed. Globo,
 1968.
 CROUZET, M. Histria geral das civilizaes. So Paulo: DIFEL, 1965.
 Tomo I, v 1. tomo II, v 1, tomo III, v 1 e 2.
 FONTANA, J. Introduo ao estudo da histria geral. Bauru: EDUSC,
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 FRANCO JNIOR, H. A Idade Mdia  nascimento do ocidente. So
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 HOUAISS, A; VILLAR, M. de S. Dicionrio Houaiss da Lngua
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 ObrasConsultadas
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 Afrontamento, 1982.
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 www.caiozip.com .Acesso em: 05 nov. 2005.
 www.wikipedia.org . Acesso em : 09 nov. 2005.
 www.mundodosfilosofos.com.br . Acesso em : 09 nov. 2005.
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                                                              OEstadonosMundosAntigoeMedieval 233
      EnsinoMdio




234 RelaesdePoder
                                                                                                                             Histria




                                                                                                                 13

                                                                                RELAES DE PODER:
                                                                      O Estado e as relaes de poder:
                                                                      formao dos estados nacionais
                                                                                                        n Fbio de Oliveira Cardoso1


                                              Documento 1                Documento 2
                                                                                                            Pases como o Brasil,
                                                                                                        Frana e Portugal chegaram
                                                                                                        ao sculo XXI tendo como
                                                                                                        forma de governo a Rep-
                                                                                                        blica presidencialista, en-
                                                                                                        quanto outros pases como
                                                                                                        a Inglaterra e Espanha opta-
                                                                                                        ram pela Monarquia parla-
                                             n   HYACINTHE RIGAUD (1659- n HENRIQUE JOS DA mentar. Mas ser que sem-
                                                 1753). Retrato de Lus XIV,  SILVA (1772-1834). D.
                                                 1701. leo sobre tela, 279   Pedro I, 1826. leo so-
                                                                                                        pre foi assim?
                                                 x 190 cm, Paris, Museu do    bre tela, Rio de Janeiro.     Ao observar as imagens
                                                 Louvre. Conhecido com rei    Coleo Brasiliense. Im-
                                                 Sol, Lus XIV governou a     perador que governou o
                                                                                                        destes dois personagens
                                                 Frana de 1661-1715.         Brasil de 1822-1831.      histricos: para voc, qual a
                                                                                                        idia de governo transmiti-
                                                             da pelos sujeitos histricos Lus XIV (Frana) e D. Pe-
                                                             dro I (Brasil)? Quais semelhanas podem ser percebidas
                                                             nestas imagens? Esses reis influenciaram na forma de
                                                             governo que temos hoje? Atualmente, voc pode en-
                                                             contrar pessoas favorveis ou contrrias a nossa forma
                                                             de governo. Como isto se dava na poca destes monar-
                                                             cas?
                                                                       Para ajud-lo a responder os questionamentos re-
                                                                      lacionados a estas imagens, leia os textos deste Fo-

1
 Colgio Estadual Tania Varela Ferreira  Maring  PR


                                                         OEstadoeasRelaesdePoder:FormaodosEstadosNacionais 235
      EnsinoMdio

                        AformaodoEstadomoderno
                          Voc j imaginou qual a origem dos poderes dos reis?
                          Na Europa Ocidental, durante a Idade Mdia, o poder estava divi-
                      dido entre o rei, a Igreja e os senhores feudais, os quais exerciam o
                      poder sobre seus feudos de forma autnoma e descentralizada. Quem
                      concedia a terra (feudo) era denominado de suserano; o que recebia a
                      terra (feudo) era denominado vassalo e quem trabalhava na terra eram
                      os servos.
                          No final da Idade Mdia, ocorreram algumas revoltas sociais, entre
                      elas, as revoltas dos camponeses como as Jacqueries, na Frana (1358).
                      Alm das revoltas sociais, houve conflitos religiosos, como as reformas
                      protestantes: luterana, anglicana, calvinista, as quais ocorreram no in-
                      cio do sculo XVI, na Europa Ocidental.
                          Estes fatos, representativos de um processo histrico, criaram uma
                      situao de insegurana para as classes dirigentes (clero e nobreza), o
                      que possibilitou o fortalecimento do poder poltico central (do rei), na
                      Idade Moderna. Outro fator determinante em relao a formao do
                      Estado moderno foi o interesse da burguesia em diminuir o poder da
                      nobreza, pois esta visava ao desenvolvimento do comrcio. Para isso,
                      a burguesia passou a apoiar financeiramente a poltica de centraliza-
                      o dos poderes do rei. Desta forma, algumas monarquias da Europa
                      Ocidental aumentaram suas atribuies polticas, reduzindo a partici-
                      pao do clero e da nobreza nos governos.
                          Em alguns lugares, como em Castela, a monarquia conseguiu de-
                      bilitar o poder das cortes, passando a legislar de forma direta, fazen-
                      do algumas concesses para obteno de tributos. Em outros, como
                      na Frana, o rei imps sua administrao direta sobre algumas provn-
                      cias, porm tolerou a continuidade das cortes com seus privilgios. Na
                      Inglaterra, no sculo XVII, foram estabelecidos princpios de um go-
                      verno representativo, em que os grupos dominantes (clero, nobreza e
                      burguesia) negociavam seus problemas com o parlamento, o que favo-
                      receu o crescimento econmico moderno do pas. No decorrer do pro-
                      cesso de formao do Estado moderno, destacaram-se algumas mo-
                      narquias nacionais, como: Portugal (D. Joo I [1357-1433], dinastia de
                      Aviz, incio no ano de 1385); Frana (Carlos VIII [1470-1498], de 1483-
                      1498); Espanha (do casamento do rei de Arago, Fernando II [1452-
                      1516], com a rainha de Castela, Isabel [1451-1504], em 1469).
                          Destes Estados modernos, deu-se a origem das monarquias absolutis-
                      tas, que aos poucos constituram um governo centralizado, onde a auto-
                      ridade do rei, dentro dos limites de um territrio, exercia o monoplio da
                      justia e da arrecadao de impostos, alm de possuir exrcito prprio.
                          Este processo no foi uniforme em toda a Europa, pois Estados co-
                      mo a Alemanha e a Itlia tiveram sua unificao territorial e poltica so-
                      mente no sculo XIX.
                          Os relatos de alguns historiadores podero ajud-lo a compreender
                      melhor a formao dos Estados modernos na Europa:
236 RelaesdePoder
                                                                                                        Histria


   Texto 1
   Portugal
     Com o advento de D. Joo I, a dinastia de Aviz inicia os seus dois sculos de monarquia portugue-
sa (1385 -1580). So rpidas as transformaes sociais e polticas que ento se efetuam. A derrota do
partido castelhano determinou numerosa emigrao de nobres cujos ttulos e bens foram distribudos a
uma nova burguesia. Esta sustentava a nova situao poltica achando-se amparada pelo povo e pelo
rei distribuidor de ttulos e de bens da coroa. Dava-se, porm, uma reao da nobreza tradicional, che-
fiada em parte pelo duque de Bragana; era visado principalmente o infante D. Pedro (que foi mais tar-
de regente no perodo de menoridade de D. Afonso V). Por sua vez, a nova nobreza, ou alta burguesia,
reivindicava e obtinha a administrao das cidades mais importantes e do prprio Estado. Dom Joo I
reuniu as Cortes vinte e trs vezes, salvaguardando sempre, entretanto, a sua autoridade real.
    Sob o ponto de vista da poltica exterior, a dinastia de Aviz estava ligada  Inglaterra desde 1373
por um tratado de amizade ofensiva e defensiva, renovado em Windsor em 1386, quando o duque de
Lancaster veio reivindicar a coroa de Castela e casou sua filha Filipa de Lancaster com o rei D. Joo I.
Quanto  paz com os castelhanos s foi restabelecida oficialmente em 1411.
    Coube ao reinado do primeiro Aviz inaugurar o perodo de conquistas e descobrimentos que fize-
ram a glria da dinastia. Razes de ordem econmica, social, religiosa e poltica levaram os conselhei-
ros de Dom Joo I a persuadi-lo a que empreendessem os portugueses uma cruzada contra os infiis
de alm-mar. Era um pretexto para dar vazo ao ardor combativo ainda reinante no esprito cavalhei-
resco da nobreza. Em realidade, era visado o objetivo militar de ocupar Ceuta para reprimir os ataques
mouros na zona do Estreito de Gibraltar e livrar as gals dos tributos e da pirataria.
                                                                                      (CARVALHO, 1974, p. 159).


   Texto 2
   Espanha
    Fernando e Isabel optaram pelo estabelecimento de um poder real inquebrantvel em Castela, on-
de as condies eram mais propcias. Arago apresentava obstculos polticos muito mais formidveis
para a construo de um Estado centralizado. Castela tinha uma populao cinco ou seis vezes maior
e a sua riqueza mais ampla no era protegida por barreiras constitucionais comparveis. Assim foi posto
pelos dois monarcas um programa metdico de reorganizao administrativa. As ordens militares foram
decapitadas e anexados os seus vastos territrios e rendimentos. Castelos baroniais foram demolidos,
expulsos os senhores das zonas de fronteira e proibidas as guerras privadas. A autonomia municipal
das cidades foi quebrada com a instalao de corregedores oficiais para administr-las; a justia real foi
fortalecida e ampliada. O Estado tomou a si o controle dos benefcios eclesisticos, separando o apa-
relho local da Igreja da alada do papado. As cortes foram progressivamente domesticadas pela omis-
so efetiva da nobreza e do clero de suas reunies, depois de 1480; uma vez que o principal propsito
para convoc-las era o aumento dos impostos para financiar os gastos militares (nas guerras de Grana-
da e da Itlia). Os rendimentos fiscais elevaram-se, a receita de Castela cresceu de 900 mil reales, em
1474, para 26 milhes, em 1504. O Conselho Real foi reformado e dele excluda a influncia dos gran-
des do reino; o novo corpo consultivo foi provido com funcionrios bacharis ou letrados, recrutados na
pequena nobreza. Secretrios profissionais trabalhavam diretamente sob as ordens dos soberanos.
   Fernando instalou vice-reis nas trs provncias (Catalunha, Valncia e Arago) a fim de que exerces-
sem a autoridade em seu nome e criou o Conselho de Arago, quase sempre estabelecido em Castela.
                                                                       (Adaptado de ANDERSON, 1985, pp. 63-65).


                                       OEstadoeasRelaesdePoder:FormaodosEstadosNacionais 237
      EnsinoMdio



                    ATIVIDADE

        Depois de analisar os textos 1 e 2, relacionados com a formao dos Estados modernos de Portu-
    gal e Espanha, organize suas idias fazendo uma sntese e apresente  classe suas concluses.




                    DEBATE

           Discuta com seus colegas as semelhana na organizao destes Estados.
           Para finalizar, escreva uma narrativa histrica conceituando o Estado moderno.




                              TericosdoEstadonacionalabsolutista
                                Para justificar e legitimar o Estado Nacional absolutista, muitos mo-
                            narcas passaram a basear-se em teorias de pensadores polticos. Veja o
                            que estes homens pensavam:
                               Nicolau Maquiavel (1469-1527), em sua obra O prncipe (1513),
                               procurou demonstrar como um soberano deveria agir e que recur-
                               sos deveria empregar para conquistar e manter o poder;
                               Thomas Hobbes (1588-1679), em sua obra Leviat (1651), afirmava
                               que o poder absoluto do rei derivava de um "contrato social" que
                               os homens teriam feito com os soberanos para preservao de su-
                               as vidas;
                               Jacques Bossuet (1627-1704), em sua obra Poltica tirada da Sagra-
                               da Escritura (1709), argumentava que o poder do rei provinha de
                               Deus e por isso era incontestvel. Esta concepo ficou conhecida
                               como teoria divina do poder real.
                              Para conhecer mais sobre estas teorias, voc pode ler pequenos do-
                            cumentos de alguns destes pensadores.

                                 Documento 3
                                 O prncipe
                                  Um prncipe deve ainda mostrar-se amante das virtudes, honrando os
                              homens virtuosos e os que excedem em alguma arte. Deve encorajar os
                              seus cidados a acreditar que podem exercitar suas atividades em calma,
                              seja no comrcio, na agricultura ou em qualquer outra. Que um no tema




238 RelaesdePoder
                                                                                            Histria


melhorar suas propriedades por medo que lhes sejam tiradas, que outro
no tema abrir um comrcio por medo dos impostos. O prncipe deve pre-
parar prmios para quem queira fazer essas coisas e para quem quer que
pense, de qualquer modo, em ampliar a sua cidade ou o seu Estado. Deve,
alm disso, nas pocas convenientes do ano, manter o povo ocupado com
as festas e espetculos. Como toda cidade  dividida em corporaes ou
classes sociais, deve manter em mente tal universo, reunir-se com eles, de
vez em quando, mostrar-se humano e magnnimo, mantendo sempre firme
a majestade de sua posio, pois essa deve ser mantida sempre.
                                                       (MAQUIAVEL (1513), 2002, p. 133).


   Documento 4
   A teoria do direito divino dos reis
     Trs razes fazem ver que este governo (o da monarquia hereditria)  o
melhor. A primeira  que  o mais natural e se perpetua por si prprio. A se-
gunda razo  que esse governo  o que interessa mais na conservao do
Estado e dos poderes que o constituem: o prncipe, que trabalha para o seu
Estado, trabalha para os seus filhos, e o amor que tem pelo seu reino, con-
fundido com o que tem pela sua famlia, torna-se-lhe natural. A terceira ra-
zo tira-se da dignidade das casas reais. A inveja, que se tem naturalmen-
te daqueles que esto acima de ns, torna-se aqui em amor e respeito; os
prprios grandes obedecem sem repugnncia a uma famlia que sempre vi-
ram como superior e  qual se no conhece outra que a possa igualar. O
trono real no  um trono de um homem, mas o trono do prprio Deus. Os
reis so deuses e participam de alguma maneira da independncia divina.
O rei v de mais longe e de mais alto; deve acreditar-se que ele v melhor,
e deve obedecer-se-lhe sem murmurar, pois o murmrio  uma disposio
para a sedio.
   (Adaptado de BOSSUET , Poltica tirada da Sagrada Escritura, 1709 apud: FREITAS, 1976,
                                                                                  p. 201)




                 ATIVIDADE

   Aps ler os documentos 3 e 4 de Maquiavel e Bossuet, escreva as idias que apresentam seme-
   lhanas na concepo de governo e Estado.
   Procure discutir com seus colegas a viso de Estado destes pensadores e expresse oralmente sua
   opinio, depois anote suas concluses.




                                            OEstadoeasRelaesdePoder:FormaodosEstadosNacionais 239
        EnsinoMdio

    Mapa 1                                                               Mapa 2




                                                                         n Pennsula Ibrica no sculo XX
   n Reconquista na Pennsula Ibrica. (ATLAS da histria do mundo/The
     Times, 1995, p. 122)


         **Espanha: no sculo VIII, os rabes ocuparam territrios na Pennsula Ibrica. Desde ento os
     espanhis cristos passaram vrios sculos tentando expuls-los. Um passo decisivo nesta luta foi a
     unio de dois reinos: Arago e Castela. Com o casamento (1469) de Fernando de Arago e Isabel de
     Castela foi possvel a expulso dos rabes em 1492 e a consolidao da monarquia espanhola.




                         ATIVIDADE

          Analise e compare os mapas da Pennsula Ibrica. Responda:
          a) Quais reinos que formaram o Estado Nacional Espanhol?
          b) Compare os mapas 1 e 2 e com o apoio dos textos escreva suas concluses sobre a forma-
             o do Estado Nacional Espanhol.




                                         DoEstadoAbsolutistaaoEstado-Nao
                                          A medida que o capitalismo deixava de ser comercial e passava pa-
                                      ra o industrial, a burguesia questionou o papel do Estado Absolutista e
                                      os entraves que esta forma de Estado causava na atividade econmica
                                      desenvolvida pelos burgueses.
                                          Com a Revoluo Industrial, em meados do sculo XVIII, a bur-
                                      guesia efetivou seu domnio sobre o poder econmico, mas ainda en-

240 RelaesdePoder
                                                                                   Histria

contrava-se subordinada s leis do Estado Absolutista, o qual era cons-
titudo pela nobreza e no mais atendia aos interesses da burguesia
industrial nascente. Neste contexto, a burguesia, com o intuito de de-
fender seus interesses, aliou-se aos trabalhadores com o objetivo de
colocar fim no governo absolutista e participar de maneira mais efeti-
va do poder poltico  at ento privilgio da nobreza.
    Na Frana, em 1789, aps o fim da Monarquia Absolutista, surgiu
um novo modelo de Estado, que reuniu os princpios dos sistemas re-
presentativos atravs de uma constituio. Esta nova ordem social esta-
va vinculado com a idia de nao. Baseado no pertencimento de uma
coletividade, de uma cultura, de uma lngua comum e de uma hist-
ria. Desta forma, o Estado-nao partiu do princpio de ser um Estado
"autnomo", que supunha ser neutro, sem interesse de nenhum grupo
social, acima de todos e visava beneficiar o conjunto de cidados ou a
maioria deles. Tambm era proposta a igualdade poltica dos cidados
(embora, depois da Revoluo Francesa na Europa, o direito de voto
tenha sido restringido pela renda dos indivduos).
    Sendo assim, o Estado-nao, identificava-se com o programa das
revolues liberais, como foi o caso da Revoluo Francesa (1789),
que baseou-se nos princpios de: liberdade, igualdade e fraternidade.
Mas, no se pode esquecer do princpio liberal implcito que funda-
mentava estes trs: a propriedade.
    Os Estados-nao que surgiram na Europa Ocidental, entre o final
do sculo XVIII e sculo XIX, em sua maioria resultaram das frontei-
ras territoriais das velhas monarquias, ou seja, reuniram diferentes na-
es, sobre uma cultura imposta. Alm disso, eram pluralistas, ou seja,
possuam vrias etnias. Ento, para convencer os cidados que todos
pertenciam a uma nao, produziu-se a idia de nacionalidade. No ca-
so da Frana, aps a Revoluo de 1789, este processo foi forado, fo-
ram perseguidos os dialetos locais para impor o francs como lngua
oficial; realizou-se uma nova diviso provincial e ocorreu a inveno
de mitos, como o da francesa Joana D'Arc (que lutou contra a Inglater-
ra na Guerra dos Cem Anos, de 1337-1453).
    A nao francesa tambm constituiu-se por meio de um projeto pol-
tico complexo envolvendo interesses dos grupos dominantes (principal-
mente a burguesia), vinculados por interesses econmicos do mercado
nacional e com a implantao de escolas para a educao pblica.
    J no contexto de estruturao do Estado ingls (final do sculo
XVII), o sistema parlamentar possibilitou a unificao dos interesses
dos grupos dominantes: clero, nobreza e burguesia, incluindo as clas-
ses altas escocesas.
    Por outro lado, o Estado espanhol, ainda no sculo XIX, no possua
um projeto coletivo que permitisse a unificao dos grupos dominantes,
ligados  atividade industrial e  agrcola. Tambm no tinha naciona-
lizado a cultura. Manteve o reforo do Estado centralizado no governo,
com uma guarda civil e um exrcito, utilizados para manter a ordem.

                                    OEstadoeasRelaesdePoder:FormaodosEstadosNacionais 241
       EnsinoMdio

                                 TericosdoEstado-nao
                                  A partir das idias do filsofo e poltico ingls Jonh Locke (1632-
                               1704), foi possvel construir as bases do Estado-nao na Inglaterra.
                               Entre suas obras destacaram-se: Ensaio sobre o entendimento humano e o
                               Segundo tratado sobre o governo civil, as quais serviram de embasamen-
                               to para as transformaes das instituies poltica daquele pas, com a
                               participao da classe social burguesa.
                                  Outras idias tambm serviram de referncia para a constituio do
                               Estado-nao, entre elas, a dos pensadores: Charles-Louis Secondat,
                               o baro de Montesquieu (1689-1755), que escreveu O esprito das leis
                               (1748), onde criticava as monarquias absolutistas e defendia a separa-
                               o dos trs poderes: executivo, legislativo e judicirio; e Jean-Jacques
                               Rousseau (1712-1778), que em seu livro Do contrato social (1762), sus-
                               tentava uma sociedade democrtica, baseada na igualdade entre os in-
                               divduos, "a vontade geral".
                                  Para ampliar seus conhecimentos, voc pode analisar alguns docu-
                               mentos destes pensadores.

        Documento 5
        Jonh Locke defende o parlamentarismo
           claro que a monarquia absoluta, considerada por alguns como o nico governo no mundo,  de fa-
     to incompatvel com a sociedade civil e que ela no pode mesmo, por conseqncia, constituir uma for-
     ma de poder civil. O grande fim para o qual os homens entram em sociedade  gozar dos seus bens na
     paz e na segurana. Ora, estabelecer leis nesta sociedade constitui o melhor meio para realizar esse fim.
     Portanto, em todos os Estados, a primeira e fundamental lei positiva  aquela que estabelece o poder le-
     gislativo; do mesmo modo que a primeira e fundamental lei natural que deve reger o prprio poder legis-
     lativo  a salvaguarda da sociedade e (enquanto seja compatvel com o bem pblico) a de cada um dos
     seus membros. Este poder legislativo constitui no somente o poder supremo do Estado, mas permane-
     ce sagrado e imutvel nas mos daqueles a quem a comunidade uma vez o entregou. E nenhum edito,
     seja qual for a sua forma, ou o poder que o apoie, tem a fora obrigatria de uma lei, se no for aprovado
     pelo poder legislativo, escolhido e designado pelo povo. Sem isso, a lei no comportaria aquilo que  ne-
     cessrio para constituir uma lei: o consentimento da sociedade. Com efeito, ningum tem o poder de im-
     por leis  sociedade sem o seu prprio consentimento e sem ter recebido dela a investidura.
                                     (Adaptado de LOCKE, Ensaio sobre o poder civil, 1690 apud: FREITAS, 1976, p. 202-203).


        Documento 6
        Da constituio da Inglaterra
        H, em cada Estado, trs espcies de poderes: o poder legislativo, o poder executivo das coisas
     que dependem do direito das gentes, e o executivo das que dependem do direito civil.
         Pelo primeiro, o prncipe ou magistrado faz leis por certo tempo ou para sempre e corrige ou ab-ro-
     ga as que esto feitas. Pelo segundo, faz a paz ou a guerra, envia ou recebe embaixadas, estabelece a
     segurana, previne as invases. Pelo terceiro, pune os crimes ou julga as querelas dos indivduos. Cha-
     maremos este ltimo o poder de julgar e, o outro, simplesmente o poder executivo do Estado.



242 RelaesdePoder
                                                                                                          Histria


   A liberdade poltica, num cidado,  esta tranqilidade de esprito que provm da opinio que cada
um possui de sua segurana; e, para que se tenha esta liberdade, cumpre que o governo seja de tal
modo que um cidado no possa temer outro cidado.
   Quando na mesma pessoa ou no mesmo corpo de magistratura o poder legislativo est reunido ao
poder executivo, no existe liberdade, pois pode-se temer que o mesmo monarca ou o mesmo sena-
do apenas estabeleam leis tirnicas para execut-las tiranicamente.
     No haver tambm liberdade se o poder de julgar no estiver separado do poder legislativo e do
executivo. Se estivesse ligado ao poder legislativo, o poder sobre a vida e a liberdade dos cidados se-
ria arbitrrio, pois o juiz seria legislador. Se estivesse ligado ao poder executivo, o juiz poderia ter a for-
a de um opressor.
    Tudo estaria perdido se o mesmo homem ou o mesmo corpo dos principais, ou dos nobres, ou do
povo, exercesse esses trs poderes: o de fazer leis, o de executar as resolues pblicas, e o de jul-
gar os crimes ou as divergncias dos indivduos.
                                                                               (MONTESQUIEU, 1982 [1748], p.187).


   Documento 7
   Da democracia
    Parece que no se poderia ter uma constituio melhor do que aquela em que o poder executivo
estivesse junto ao legislativo. Isso torna o governo insuficiente em certos aspectos, porque as coisas
que devem ser distinguidas no o so, o prncipe e o soberano no sendo seno a mesma pessoa, for-
mam um governo sem governo.
   No ser bom que aquele que faz as leis as execute, nem que o corpo do povo desvie sua aten-
o dos desgnios gerais para emprest-la aos objetivos particulares. Nada mais perigoso que a influ-
ncia dos interesses privados nos negcios pblicos; o abuso da lei pelo governo  mal menor do que
a corrupo do Legislador, conseqncia infalvel dos desgnios particulares. Ento, o Estado alterado
em sua substncia, torna-se impossvel qualquer reforma. Um povo que jamais abusasse do governo,
tambm no abusaria da independncia; um povo que sempre governasse bem, no teria necessida-
de de ser governado.
    A rigor, jamais existiu e jamais existir uma democracia verdadeira.  contra a ordem natural gover-
nar o grande nmero e ser o menor nmero governado. No se pode imaginar que permanea o povo
continuamente em assemblia para ocupar-se dos negcios pblicos.
     Quantas coisas difceis de reunir, supe esse governo? Em primeiro lugar, num Estado muito peque-
no  fcil reunir o povo, onde cada cidado passa conhecer todos os demais; segundo, uma simplici-
dade de costumes que evite a acumulao de questes e as discusses espinhosas, com igualdade
entre as classes e as fortunas, pouco ou nada de luxo. A virtude por princpio da repblica, pois todas
essas condies no poderiam subsistir sem ela. No h forma de governo to sujeita s guerras ci-
vis, s agitaes intestinais quanto a forma democrtica ou popular, porque no existe outra que tenda
to forte e continuamente a mudar de forma, nem que exija mais vigilncia e coragem para ser mantida
na forma original.  sobretudo nessa constituio que o cidado deve armar-se de fora e constncia,
e ter presente no corao, todos os dias da vida, o que dizia um palatino virtuoso na dieta da Polnia:
prefiro a liberdade perigosa  tranqila servido.
                                                                              (ROUSSEAU, 2005 [1762], p.149-151).




                                         OEstadoeasRelaesdePoder:FormaodosEstadosNacionais 243
      EnsinoMdio



                    ATIVIDADE

       Organize em um quadro as principais idias defendidas por: Locke, Montesquieu e Rousseau. Com-
       pare as diferenas e semelhanas.
       Leia o texto e comente: Por que a formao do Estado-nao espanhol ocorreu tardiamente em re-
       lao  Frana e  Inglaterra?




                    DEBATE

       Em grupo, discuta com seus colegas essas idias, depois retome a leitura dos textos e escreva uma
       narrativa histrica explicando o porqu destes pensadores defenderem um Estado democrtico.



                              IndependnciadoBrasileaformaodo
                              EstadoNacional
                                Voc talvez j tenha lido algo sobre a independncia do Brasil. Que
                            relao pode ser estabelecida entre este fato e a formao do Estado
                            Nacional brasileiro?
                                A Independncia do Brasil, em 1822, foi articulada por grupos so-
                            ciais dominantes, compostos por grandes proprietrios rurais e gran-
                            des comerciantes. Portanto, no houve a participao decisiva neste
                            processo das camadas populares, as quais eram constitudas pela fora
                            de trabalho escravo e livre, pois para estas camadas a independncia
                            deveria implicar tambm em mudanas sociais, o que no correspon-
                            dia aos interesses dos grupos sociais dominantes.
                                Desta forma, a formao do Estado Nacional brasileiro foi limitada
                            pela separao poltica do domnio colonial da metrpole portuguesa.
                            O sistema de governo monrquico e a escravido foram mantidos, en-
                            quanto, todos os outros pases da Amrica Latina (com exceo de um
                            breve perodo monrquico no Mxico, em 1822 e 1823), como o Para-
                            guai, em 1813, e a Argentina, em 1816, aps conquistarem a sua inde-
                            pendncia, adotaram a forma de governo republicana, a qual refletia,
                            de certa modo, as idias da Revoluo Francesa de 1789 (liberdade,
                            igualdade e fraternidade).
                                Neste contexto, as elites brasileiras estavam divididas: uma corrente
                            liberal, ligada ao pensamento de Rousseau, defendia a soberania po-
                            pular, a expresso democrtica (direito de voto) e uma Constituio; a
                            outra, ligada aos conservadores, defendia a monarquia absolutista (o
                            imperador) como legitimidade do Estado brasileiro.
244 RelaesdePoder
                                                                                                         Histria

    Por ocasio da elaborao da primeira Constituio do Brasil, al-
guns deputados liberais, que faziam parte da Assemblia Constituinte
de 1823, pressionaram o imperador D. Pedro I (1798-1834) para que os
poderes executivo, legislativo e o judicirio fossem organizados de for-
ma democrtica. A reao do imperador foi a dissoluo da Assemblia
Constituinte, em 12 de novembro de 1823, a priso e expulso do pas
daqueles que resistiram a essa ordem, como foi o caso de Jos Bonifcio
de Andrada e Silva (1763-1838) e seus irmos: Antnio Carlos de Andra-
da (1773-1845) e Martim Francisco Ribeiro de Andrada (1776-1844).
    Depois disto, o imperador nomeou um Conselho de Estado que re-
digiu a Constituio de 1824, a qual foi imposta por D. Pedro I  nao
brasileira. Esta Constituio criou o poder moderador, alm dos pode-
res executivo, legislativo e judicirio. Pelo poder moderador, o rei po-
dia nomear os senadores, convocar eleies e dissolver o Parlamen-
to, indicar ou remover juzes, de forma contraditria a uma monarquia
constitucional, pois conferia mais poderes ao imperador.
    Mas, como deveriam ser as eleies de acordo com esta Consti-
tuio? Voc pode analisar como a historiografia descreve sobre esta
questo.

     Texto 3
      Segundo a Constituio de 1824, as eleies para a Cmara se faziam em dois turnos. No primei-
 ro, votavam todos cidados livres que pudessem comprovar uma renda superior a 100 mil-ris (pou-
 co mais de um tero do valor de um escravo) e podiam ser eleitos cidados com renda anual superior
 a 200 mil-ris. Os votantes de cada parquia escolhiam seus eleitores, e estes reuniam-se com outros
 eleitores da mesma comarca ou distrito e escolhiam o deputado que os representaria na Cmara.
      As eleies para o Senado seguiam um procedimento similar. Mas, como o cargo de senador era
 vitalcio, os votantes e eleitores propunham uma lista de trs nomes, que era enviada ao imperador. Es-
 te, por sua vez, escolhia o que mais lhe agradasse entre os trs.
                                                                               (CALDEIRA et. al., 1997, p. 177).



     Texto 4
     Tinha tentado por meio de uma assemblia constituinte e, frustrado o instrumento, imposta na ou-
 torga da carta. Certo, as vozes ausentes nos debates de 1823 protestaro mais tarde: o carmelita frei
 Joaquim do Amor Divino Caneca,  vista do texto da Carta de 1824, exigiu que a constituio refletis-
 se um pacto social.
                                                                                        (FAORO, 2004, p. 281)

    A imposio da Constituio de 1824 gerou protestos principalmen-
te nas provncias do nordeste, composta por Pernambuco, Rio Grande
do Norte, Cear e Paraba, as quais se rebelaram e formaram a Confe-
derao do Equador, proclamando, em 1824, uma repblica indepen-
dente. Entre os lderes deste movimento estava Joaquim do Amor Divi-
no Rabelo e Caneca, o frei Caneca (1779-1825), que conforme pode-se


                                       OEstadoeasRelaesdePoder:FormaodosEstadosNacionais 245
      EnsinoMdio

                            observar no texto 4, defendia uma Constituio democrtica e republi-
                            cana, baseada nas idias liberais. Este movimento foi duramente repri-
                            mido pelo imperador D. Pedro I.


                    ATIVIDADE

       Aps analisar a narrativa histrica sobre a Constituio de 1824, expresse por escrito sua conclu-
       so com relao ao direito de voto e aos poderes por ela constitudos.
       Organize, com seus colegas e com a ajuda dos professores, uma visita  cmara de vereadores, 
       prefeitura e ao frum de sua cidade. Voc poder buscar informaes junto a representantes des-
       tes rgos pblicos em relao ao funcionamento da tramitao das leis e  competncia de cada
       um. Pode tambm tomar conhecimento sobre projetos importantes para a populao de seu muni-
       cpio. Depois destas informaes coletadas, sintetize, confeccione cartazes, monte painis e divul-
       gue para outras classes do colgio o resultado do trabalho.
       Compare os documentos 5, 6 e 7 com a pesquisa de campo realizada (visita aos rgo dos trs
       poderes). Depois anote suas concluses e apresente para classe.
       Observe o quadro de Pedro Amrico Figueiredo Mello, presente no documento 8, sobre O Grito
       do Ipiranga, ocorrido em 7 de setembro de 1822, voc pode analisar:
       Quais personagens podem ser identificados?
       a) Como foi representada a figura do trabalhador?
       b) Ser que a proclamao da independncia do Brasil, foi exatamente desta forma?
       c) Construa uma narrativa histrica argumentado sobre estes questionamentos



                               Aconstruodaidiadanaobrasileira
                               O Brasil foi formado por diferentes etnias, como: os indgenas, os
                            europeus, e os africanos. Voc pode se perguntar: como foi possvel
                            construir uma idia de nao brasileira?
                            Documento 8




                            n PEDRO AMRICO. Independncia ou morte, 1888. leo sobre tela, 760 x 415 cm. So Paulo. Acervo do Museu
                              Paulista. Pedro Amrico (1843-1905) foi pintor, desenhista e professor.

246 RelaesdePoder
                                                                                                   Histria

    De acordo com a periodizao do historiador Eric Hobsbawn, a in-
veno histrica da nao na Europa desdobrava-se em trs etapas: a
primeira (1830-1880), vinculava-se ao princpio de nacionalidade, re-
feria-se  idia de nao e de territrio, tambm estava relacionada ao
discurso da economia poltica liberal; na segunda etapa (1880-1918)
pensava-se na "idia nacional", articulada  lngua,  religio e  raa,
cujo discurso advinha predominantemente dos intelectuais pequenos-
burgueses, em particular italianos e alemes; e na terceira etapa (1918-
1960) enfatizava-se a "questo nacional", a partir dos partidos polti-
cos e do Estado.
    No Brasil, aps ter conseguido a Independncia, a formao do Es-
tado brasileiro procurou vincular a idia de nao com o objetivo de
garantir a unidade nacional. Portanto, a nao foi ajustada para com-
preender um s povo brasileiro. Tanto na literatura quanto em outras
reas do conhecimento desenvolveu-se a idia do "carter nacional" e
da "identidade nacional", forjando um modelo de nacionalidade.
    O "carter nacional brasileiro" foi percebido como algo positivo ou
negativo de acordo com os interesses polticos e sociais em questo. Na
perspectiva positiva, a nao foi formada pela mistura de trs etnias: os
indgenas, os africanos e os europeus, desconsiderando o preconceito
racial. Esta viso configurava-se pela boa relao entre a casa-grande e a
senzala e do paternalismo do branco sobre o negro. Sendo assim, o "ca-
rter brasileiro louvvel" era formado pela relao entre o negro bom e
o branco bom, ou de forma negativa, entre o branco ignorante e o negro
indolente, de "carter deprecivel". J, na perspectiva negativa, a viso
da formao da "identidade nacional brasileira" e das relaes entre os
brancos e os negros buscaram mascarar as diferenas existentes na for-
ma da violncia branca e da resistncia negra em relao a esta.
    Desta forma, em nenhum dos dois casos os negros foram vistos co-
mo sujeitos sociais, capazes de desenvolverem sua prpria conscin-
cia poltica diferenciada.
    Outro aspecto importante, que contribuiu para idia de nao, foi o
modo como a literatura brasileira, atravs do romantismo (sculo XIX),
retratou a independncia poltica e a formao de uma imagem positi-
va do Brasil e do povo brasileiro.
    Este nacionalismo romntico manifestou-se na exaltao da natu-          Antnio Gonalves Dias
reza ptria, no retorno ao passado histrico (a Idade Mdia europia),       (1823-1864). O poeta cur-
                                                                             sou Direito na Universidade
descreveu os indgenas como heris, vistos de forma idealizada, seme-
                                                                             de Coimbra em Portugal, on-
lhantes aos cavalheiros medievais. O romantismo, no sculo XIX, foi
                                                                             de escreveu Cano do exlio
representado, entre outros, pela poesia nacionalista de Antnio Gon-         em 1843. Foi um dos poe-
alves Dias. Em seus versos indianistas, retratou o ndio com sentimen-      tas responsveis pela conso-
tos e atitudes artificiais, com aspectos europeus, conforme voc pode        lidao do Romantismo no
verificar na exaltao da ptria em Cano do exlio (1843) ou nos tre-      Brasil.
chos do poema I-Juca Pirama (1851).                                          n www.secrel.com.br




                                     OEstadoeasRelaesdePoder:FormaodosEstadosNacionais 247
      EnsinoMdio


                      Cano do exlio (1843)
                      Minha terra tem palmeiras,             Minha terra tem primores,
                      Onde canta o Sabi;                    Que tais no encontro eu c;
                      As aves, que aqui gorjeiam,            Em cismar  sozinho,  noite 
                      No gorjeiam como l.                  Mais prazer encontro eu l;
                                                             Minha terra tem palmeiras,
                      Nosso cu tem mais estrelas,           Onde canta o Sabi.
                      Nossas vrzeas tm mais flores,
                      Nossos bosques tm mais vida,          No permita Deus que eu morra,
                      Nossa vida mais amores.                Sem que eu volte para l;
                                                             Sem que desfrute os primores
                      Em cismar, sozinho,  noite,           Que no encontro por c;
                      Mais prazer encontro eu l;            Sem qu'inda aviste as palmeiras,
                      Minha terra tem palmeiras,             Onde canta o Sabi.
                      Onde canta o Sabi.
                                                                                  Coimbra - Julho 1843.


                                 I-Juca Pirama (1851)
                                 No meio das tabas de amenos verdores,
                                 Cercadas de troncos  cobertos de flores,
                                 Alteiam-se os tetos d'altiva nao;
                                 So muitos seus filhos, nos nimos fortes,
                                 Temveis na guerra, que em densas coortes
                                 Assombram das matas a imensa extenso.

                                 So rudos, severos, sedentos de glria,
                                 J prlios incitam, j cantam vitria,
                                 J meigos atendem  voz do cantor:
                                 So todos Timbiras, guerreiros valentes!
                                 Seu nome l voa na boca das gentes,
                                 Condo de prodgios, de glria e terror!

                                 As tribos vizinhas, sem foras, sem brio,
                                 As armas quebrando, lanando-as ao rio,
                                 O incenso aspiraram dos seus maracs:
                                 Medrosos das guerras que os fortes acendem,
                                 Custosos tributos ignavos l rendem,
                                 Aos duros guerreiros sujeitos na paz.

                                                          (Adaptado de DIAS, 2003, p. 71).


248 RelaesdePoder
                                                                                                         Histria



                 ATIVIDADE

        Faa um relato sobre como voc caracteriza a viso de Gonalves Dias em relao  ptria e
         aos indgenas descritos nos poemas.
        Retome a leitura dos textos, converse com seus colegas e expresse oralmente sua opinio a
         respeito de como foi concebida a construo da idia de nao brasileira.
        Observe no quadro a explicao sobre a escrita das poesias.


  Smbolosnacionais                                       Documento 11

  brasileiros
    No decorrer do processo de construo do
Estado-nao brasileiro, nos sculos XIX e XX,
os smbolos nacionais e a representao dos
heris nacionais, como Tiradentes (um dos l-
deres da Inconfidncia Mineira, em 1789), fo-
ram instrumentos importantes na busca da uni-             n Bandeira do Imprio Brasileiro (1822-1889)
dade nacional, os quais representavam  idia
de pertencer a uma ptria ou nao, mantendo             Documento 12
o sentimento de "identidade nacional" do povo         Hino da Independncia do Brasil (1822)
                                                         Letra: Evaristo da Veiga (1799-1837)
brasileiro.
                                                         Msica: D. Pedro I
    Entre os smbolos nacionais, destacam-se:
o Hino da Independncia, o Hino Nacional Brasi-          J podeis da Ptria filhos,
leiro, a Bandeira Nacional, o Braso Nacional, etc.      Ver contente a Me gentil;
Certamente voc j conhece alguns destes sm-            J raiou a Liberdade
                                                         No horizonte do Brasil
bolos, pois so utilizados nas escolas em datas
comemorativas, em momentos cvicos ou em                 Brava gente brasileira
pocas de competies mundiais, como: olim-              Longe v temor servil; [Estribilho]
padas e copa do mundo. Voc pode encontrar              Ou ficar a Ptria livre,
alguns smbolos nacionais expostos em rgos             Ou morrer pelo Brasil.
pblicos de sua cidade ou de seu Estado.                 Os grilhes, que nos forjava
    Observe as imagens da Bandeira e leia os             Da perfdia astuto ardil,
trechos do Hino da Independncia e do Hino Na-           Houve mo mais poderosa,
cional Brasileiro, depois responda as questes:          Zombou deles o Brasil.

                                                         [Estribilho]

                                                         O Real Herdeiro Augusto
                                                         Conhecendo o engano vil,
                                                         Em despeito dos tiranos,
                                                         Quis ficar no seu Brasil.

                                                         [Estribilho] (..)


                                       OEstadoeasRelaesdePoder:FormaodosEstadosNacionais 249
         EnsinoMdio


          Documento 13
          Hino Nacional do Brasil
          Msica (1840): Francisco Manuel da Silva (17951865)
          Letra (1909): Joaquim Osrio Duque Estrada (1870-1927)

          Parte I
          Ouviram do Ipiranga s margens plcidas
          De um povo herico o brado retumbante,
          E o sol da Liberdade, em raios flgidos,
          Brilhou no cu da ptria nesse instante.
          Se o penhor dessa igualdade                              Documento 14
          Conseguimos conquistar com brao forte,
          Em teu seio,  Liberdade,
          Desafia o nosso peito a prpria morte!
                                                                                    ORDEM E PR

           Ptria amada,
                                                                                              OG
                                                                                                RE
                                                                                                  SS
                                                                                                    O


          Idolatrada,
          Salve! Salve!
          Brasil, um sonho intenso, um raio vvido
          De amor e de esperana  terra desce,
                                                                   n Bandeira Nacional do Brasil, a partir de 1889.
          Se em teu formoso cu, risonho e lmpido,
          A imagem do cruzeiro resplandece.
          Gigante pela prpria natureza,
          s belo, s forte, impvido colosso,
          E teu futuro espelha essa grandeza.
          Terra adorada,
          Entre outras mil,
          s tu, Brasil,
           ptria amada!
          Dos filhos deste solo s me gentil,
          Ptria amada
          Brasil!

          (...)




                         ATIVIDADE

         Quais representaes podem ser percebidas nas bandeiras?
         Busque no dicionrio o significado das palavras que voc desconhece dos Hinos.
         Leia novamente os documentos 12 e 13 referentes ao Hino da Independncia e ao Hino Nacional
          do Brasil respectivamente. Depois, descreva como os mesmos representam a ptria, a liberdade e
          a figura do heri.


250 RelaesdePoder
                                                                                               Histria

 RefernciasBibliogrficas
 ANDERSON, P. Linhagens do Estado absolutista. So Paulo: Brasiliense, 1985. Trad. Joo Roberto
 Martins Filho.
 CARVALHO, D. de. Histria geral: Idade Moderna. Rio de Janeiro - So Paulo: Record, 1974, v. 3.
 DIAS, G. Poesia lrica e indianista. So Paulo: tica, 2003.
 FREITAS, G. de. 900 textos e documentos de histria. Lisboa: Pltano Editora, 1976, v. II.
 HOBSBAWM, E. J. Naes e nacionalismo desde 1780: programa, mito e realidade. Rio de Janeiro:
 Paz e Terra, 2002.
 MONTESQUIEU, C. L. de S. O esprito das leis. Braslia: Universidade de Braslia, 1982. Trad. Fernando
 Henrique Cardoso e Leoncio Martins Rodrigues.
 ROUSSEAU, J. J. Do contrario social: ensaio sobre a origem das lnguas. So Paulo: Nova Cultural,
 2005, v. I. Trad. Lourdes Santos Machado.


 ObrasConsultadas
 CALDEIRA, J. et. al. Viagem pela histria do Brasil. 2. ed. So Paulo: Cia das Letras,1997.
 CHAUI, Marilena. Brasil: o mito fundador e sociedade autoritria. So Paulo: Fundao Perseu Abramo,
 2000.
 FAORO, R. Os donos do poder. 16. ed. So Paulo: Globo, 2004. v. 1.
 FONTANA, J. Introduo ao estudo da histria geral. Bauru-So Paulo: Edusc, 2000.
 MAQUIAVEL, N. O prncipe.12. ed. So Paulo: Paz e Terra, 2002.
 MARQUES, A. et al. Histria moderna atravs de textos. 2. ed. So Paulo: Contexto, 1990.
 RIBEIRO JNIOR, J. A independncia do Brasil. 6. ed. So Paulo: Global, 1994.


 DocumentosconsultadosOnline
 www.madras.com.br
 www.portaldepoesia.com
 www.aman.ensino.eb.br




                                    OEstadoeasRelaesdePoder:FormaodosEstadosNacionais 251
      EnsinoMdio




252 Relaesdepoder
                                                                                                             Histria




                                                                                                  14

                                                                    RELAES DE PODER:
                                                     Relaes de poder e violncia no estado
                                                                                                   n Siumara Sagati1



                                                                      DECLARAO DE DIREITOS DO
                                                                        HOMEM E DO CIDADO
                                                                Frana, 26 de agosto de 1789
                                                                         
                                                                  Art. 12. A garantia dos direitos do homem e do
                                                             cidado necessita de uma fora pblica; esta fora
                                                             , pois, instituda para fruio por todos, e no para
                                                             utilidade particular daqueles a quem  confiada.



                                                               DECLARAO DOS DIREITOS DO HO-
                                                             MEM, PROCLAMADA PELA ORGANIZAO
                                                              DAS NAES UNIDAS (ONU) EM 1948.
                                                                      
                                                                Art. 3. - Todo indivduo tem direito  vida,  li-
                                                             berdade e  segurana pessoal.
                                                                      
                                                                Art. 5. - Ningum ser submetido  tortura nem
                                                             a penas ou tratamentos cruis, desumanos ou de-
                                                             gradantes.
                                                                       
                                                                 Art. 9. - Ningum pode ser arbitrariamente pre-
                                                             so, detido ou exilado.


                                                            Os princpios observados nos artigos das
                                                            declaraes citadas acima podem ser apli-
                                                            cados  sociedade contempornea, em
                                                            particular ao Brasil?


Colgio Estadual Jos de Anchieta - Apucarana - PR
1




                                                                         RelaesdepodereviolncianoEstado 253
       EnsinoMdio

                                OEstadoeasrelaesdepoder
                                   O Estado, para assegurar o cumprimento das "obrigaes" pertinen-
                              tes dentro de um sistema de organizao coletiva, usa como artifcio o
                              poder, ancorado por um lado na institucionalizao e na legitimao
                              da autoridade e, por outro, na possibilidade efetiva do recurso  ame-
                              aa. Como extrema medida, pode ainda recorrer ao uso da violncia.
                                   Um dos objetivos diretos da utilizao da violncia pelo Estado po-
                              de ser a destruio dos adversrios polticos ou deix-los na impossi-
                              bilidade fsica de agir com eficcia. Tm essa funo as guerras de ex-
                              termnio, os genocdios, a eliminao da velha classe governante por
                              parte de um movimento revolucionrio, a expulso dos opositores do
                              territrio do Estado e todas as formas de recluso e deportao para
                              campos de concentrao ou para lugares de isolamento.
                                   O Estado usa a violncia, no somente em sua comunidade, mas
                              tambm contra o exterior, no confronto com outras comunidades po-
                              lticas e outros Estados. Muitas vezes a tenso pode intensificar-se nu-
                              ma espiral de violncia cada vez maior e explodir num conflito direto e
                              geral, como por exemplo, a guerra no relacionamento entre Estados.
                                   Foi a partir do sculo XV, que o Estado passou a deter a prerroga-
                              tiva do monoplio da violncia legtima. Ele utilizou a violncia com
                              continuidade e de maneira tendencialmente exclusiva, seja por meio
                              de um ou mais aparelhos especializados que dispe (tribunais, polcia,
                              exrcito, etc.), ou da fora, no no sentido da violncia fsica, mas co-
                              mo capacidade de estimular ou inibir aes pelo processo de forma-
                              o do comportamento, da assimilao de valores, autoridade e disci-
                              plina.
                                   Algumas das referncias mais difundidas do poder do Estado que
                              baseavam-se no monoplio da violncia legtima tiveram sua origem
                              na filosofia poltica. Observe alguns exemplos:

        Texto 1
        Maquiavel, Grotius , Hobbes e o Estado forte
         Apesar de distanciados pelo tempo, foram publicados alguns tratados sobre cincia poltica que re-
     foravam o poder do Estado, ressaltando a questo do monoplio da violncia legtima.



                               Maquiavel (1469-1527)
                               Em 1513, Nicolau Maquiavel, defendia em sua obra O prncipe, a idia de
                           que a guerra  a nica arte que pertence especificamente a quem comanda, is-
                           to , ao prprio soberano.




254 Relaesdepoder
                                                                                                               Histria




                             Grotius (1583-1645)
                           Na sua obra As leis da guerra e da paz (1625), Hugo Grotius fez a defesa
                        da noo segundo a qual, para que uma guerra pudesse ser considerada legti-
                        ma, tinha de ser declarada por um soberano. Somente os governantes de seus
                        respectivos povos  que poderiam declarar a guerra aos seus oponentes.


                           Hobbes (1588-1679)
                           Thomas Hobbes, na sua obra magna O Leviat, de 1650, destaca que a ni-
                        ca autoridade existente num reino deveria ser a do rei, do monarca absolutista.
                        Somente ele, a figura coroada,  quem deteria o monoplio da violncia.
                                                                                n FONTE DAS IMAGENS: www.wikipedia.org




                    PESQUISA

    Pesquise sobre o contedo das obras: O prncipe e O Leviat. Organize em "fichas" quais so
     as informaes mais significativas acerca de cada uma delas. Relate em sala de aula o resultado de
     sua pesquisa.


    Os Estados nacionais so portadores de interesses e de identidades culturais e, para prote-
g-los, utilizaram-se das guerras, vendo nelas um dos meios de se chegar aos seus objetivos.
Nas guerras, os beligerantes empregam a violncia, no para chegar  destruio total do ini-
migo, mas para submeter sua vontade poltica e impor-lhe suas prprias condies. Portanto, a
guerra, longe de poder ser reduzida a um puro retorno  violncia instintiva, constitui um exer-
ccio refletido e controlado pelo Estado.


     Texto 2                                                                    Texto 3
      Ao falar do Estado, Lucien Febvre o qualificou como "uma                  A guerra no  mais que a
 mquina forjada em vista dos resultados que obtm, em parte,               continuao da poltica por outros
 pela fora, e que impe, em todo o caso, pela fora: fora ma-             meios", ela "no  somente um
 terial, fora policial, fora armada, soldados, polcias, militares,       ato poltico, mas um verdadeiro
 juzes". Entre as caractersticas do "Estado Moderno", desta-              instrumento da poltica, seu pros-
 cou-se sempre, como fundamental, a de ser detentor do mono-                seguimento por outros meios".
 plio da violncia, tanto para fora, na defesa contra os inimigos          (CLAUSEWITZ apud FOUCAULT, 2002 p. 22.)
 externos na guerra, como para dentro, atuando contra o inimi-
 go da ordem social estabelecida pela polcia e pela justia. (FON-
 TANA, 2000, p. 269.)




                                                                        RelaesdepodereviolncianoEstado 255
       EnsinoMdio



                       ATIVIDADE

    2. Analise as temticas dos textos 2 e 3 e escreva um comentrio a respeito.


                                      AsGuerrasRevolucionriaseNacionais
                                       A Revoluo Francesa (1789), fez aparecer, simultaneamente, um
                                   dos primeiros Estado-nao e o primeiro exrcito nacional. A partir de
                                   ento, os soldados, imbudos do status de pertencimento a uma nao,
     Documento 1                   no faziam mais as guerras do rei, mas as da ptria. Era a nao em ar-
     Guerra,     guerra,           mas, integrada pelos filhos da ptria, que nutriam grandes exrcitos,
     guerra...: as pri-            utilizados para manter a ordem e combater os inimigos externos.
     meiras grandes                    Napoleo Bonaparte (1769-1821), soube utilizar como ningum o
     vitrias de Na-               exrcito francs com um novo e mais agressivo sentido de mobilida-
     poleo na cam-                de  seus soldados diziam que faziam a guerra com cavalos mais do
     panha de Itlia               que com as baionetas  e obteve vitrias por toda a Europa,  custa de
     (1796): "Soldados!            grandes perdas de vidas humanas (as suas guerras vo matar um de ca-
     Haveis em 15 dias             da cinco franceses nascidos entre 1790 e 1795). Foi derrotado, ao final,
     alcanado seis vi-            por inimigos que haviam aplicado os seus prprios mtodos. Conhea
     trias, tomando vin-          um pouco sobre a trajetria de Napoleo atravs da historiografia.
     te e uma bandeiras,
     cinqenta e cinco ca-
     nhes, vrias praas fortes e conquistada a parte mais rica do Piemonte. Haveis feito 15.000 prisionei-
     ros, morto ou ferido mais de 10.000 homens." (Alocuo de Bonaparte s suas tropas. In: Las Cases, Memorial de San-
     ta Helena apud FREITAS, 1976, p.118).
         Documento 2
         Waterloo: ltima batalha e grande derrota de Napoleo (1815, Junho): "Eram 8 horas da
     noite. A fuzilaria extinguia-se pouco a pouco, e as nossas tropas tinham perdido a maior parte das suas
     posies. Para todos aqueles que sabiam o que era a guerra, a batalha estava per-
     dida... A estrada achava-se j cheia de fugitivos de todas as armas e de todos os
                                                                                                                  n www.e-n-s.org/




     graus, que gritavam `Estamos trados! Salve-se quem puder!', e atropelavam tudo
     na sua passagem. A desordem chegara ao auge..." (Coronel Trecfon. Canhedo de Campa-
     nha, 1815 apud FREITAS, 1976, p. 120).




256 Relaesdepoder
                                                                                                                                      Histria



                                                                                                                  Texto 4
                      ATIVIDADE
                                                                                                                 O francs Eugne Delacroix (1798-
                                                                                                                 1863)  considerado o pintor ro-
 3. Analise os documentos 1 e 2 e registre suas concluses:                                                      mntico por excelncia. Delacroix
      - perodo em que foi produzido;                                                                            apostou na fora e na cor lumino-
                                                                                                                 sa. Tinha preferncia por cenas de
      - contedos;                                                                                               violncia e paixo. Tratava os te-
      - contexto em que foi produzido.                                                                           mas de suas obras com audcia,
 4. Informe-se e elabore uma sntese biogrfica sobre Napoleo Bonaparte.                                        tornando-os eletrizantes pelo brilho
                                                                                                                 e contraste de cores. Sua tela re-
                                                                                                                 ne o vigor e o ideal romnticos em
    No perodo entre 1815 e 1850, a Frana e outras regies da Europa
                                                                                                                 uma obra que se estrutura em um
foram marcadas por movimentos revolucionrios. Estes eram apoiados
                                                                                                                 turbilho de formas. O tema repre-
pela burguesia, cujo objetivo principal era conquistar o poder poltico                                          senta os revolucionrios de 1830
e fazer valer os princpios liberais propostos pela Revoluo Francesa.                                          guiados pelo esprito da Liberdade
Contavam tambm com o apoio popular, pois a maioria da populao,                                                (simbolizados aqui por uma mulher
principalmente os trabalhadores, vivia em condies miserveis, sem                                              carregando a bandeira da Frana).
direitos, oprimidos e sem liberdade.                                                                             Esta  provavelmente a obra ro-
                                                                                                                 mntica mais conhecida e foi o pri-
                                                                                                                 meiro quadro poltico na histria da
                                                                                                                 pintura moderna.
                      ATIVIDADE
                                                                                                                 O Romantismo caracteriza-se por
                                                                                                                 defender a liberdade de criao e
     Identificao do documento 3:                                                                              privilegiar a emoo. As obras valo-
      - tipo; - autoria; - poca; - personagens histricos representados.                                        rizam o individualismo, o sofrimen-
     A quais acontecimentos histricos o quadro se refere?                                                      to amoroso, a religiosidade cris-
                                                                                                                 t, a natureza, os temas nacionais
                                                                                                                 e o passado. (Adaptado de ARGAN,
                                                                                                                 1992, p.55-57).
                      PESQUISA
                                                                                            Documento 3
                                                                      n www.wikipedia.org




     No Brasil, as idias liberais influencia-
 ram vrios movimentos revolucionrios. Sob
 a orientao do professor pesquise sobre a
 relao destes movimentos com as idias li-
 berais.

    No sculo XIX, as idias do naciona-
lismo e o expansionismo das naes eu-
ropias articularam-se no mesmo contex-
to histrico. A questo do nacionalismo
 ideologia de legitimao dos Estados e
dos povos em via de unificao  exerceu

 n EUGNE DELACROIX (1798-1863). A Liberdade guiando o po-
   vo, 1830, leo sobre tela, 325 x 260 cm. Paris. Museu do Louvre.


                                                                                                    RelaesdepodereviolncianoEstado 257
                          EnsinoMdio

                                                      sua primazia sobre as relaes internacionais. Naes orgulhosas de
                                                      seus valores defenderam a sua identidade ao passo que os lderes po-
                                                      lticos estavam cada vez mais ligados ao expansionismo.
                                                           Os ideais nacionalistas e expansionistas projetaram rivalidades dan-
                                                      do origem a vrios conflitos mobilizando parte da populao europia
                                                      em lutas, conflitos e guerras expressivas.
                                                           Neste perodo (sc. XIX), conviviam algumas naes j constitu-
                                                      das (como Frana, Portugal e Espanha) e imprios que reuniam vrias
                                                      naes, como o Reino Unido, ao qual pertenciam ndia, Esccia e Ir-
                                                      landa, e o Imprio Austro-Hngaro, do qual faziam parte regies da
                                                      Alemanha, ustria e Hungria. Apenas na segunda metade do sculo
                                                      XIX, a Itlia se unificou constituindo-se, em 1870, como uma nao. O
                                                      mesmo aconteceu com a Alemanha em 1871. A Guerra Franco-Prussia-
                                                      na (1870), entre franceses e prussianos fez parte deste contexto. Ob-
                                                      serve os documentos:

                           Documento 4
                                                                      .
                          A guerra franco-prussiana de 1870, a 1 grande derrota capitulao de Metz: "Franceses,
                     levantai vossas resolues  altura dos terrveis perigos que fundem sobre a ptria... Metz capitulou...
                     O general Bazaiane traiu... entregou, sem mesmo tentar um supremo esforo, 120.000 combatentes,
                     20.000 feridos, suas espingardas, seus canhes, suas bandeiras e a mais forte cidadela da Frana...
                     Em menos de dois meses, 200.000 homens foram entregues ao inimigo...  tempo de nos recompor-
                     mos, cidados, e, sob a gide da Repblica, que estamos bem decididos a no deixar capitular, nem
                     dentro nem fora, extrair do fundo das nossas desgraas a radiao da nossa moralidade e da nossa vi-
                     rilidade poltica e social..."
                                             n (Proclamao de Gambetta. In: J. CLARETIE. Histria da Revoluo de 1870-1971 apud FREITAS, 1976, p. 195-196).
                           Documento 5
   n www.wikipedia.org.




                                                                                                                 ATIVIDADE

                                                                                                Quanto aos documentos 4 e 5, desenvolva
                                                                                                 as atividades de:
                                                                                                 a) identificao do documento: data, autor,
                                                                                                    tipo de documento;
                                                                                                 b) anlise do tema ou contedo.
                     n Batalha de Mars-La-Tour (16 Agosto de 1870). Ilustrao. Cana-
                       dian Illustred News, 19 nov. 1870.



                                                         Asguerrasmundiais
                                                          Durante o sculo XX, o mundo vivenciou a experincia da guerra
                                                      total. A Primeira Guerra (1914-1918) e a Segunda Guerra (1939-1945)
                                                      influenciaram a vida social, econmica, poltica e cultural de pases do

258 Relaesdepoder
                                                                                                                                                             Histria

mundo inteiro. Provocaram mobilizaes das populaes, afetando a
vida de militares e civis: homens, mulheres e crianas no foram pou-
pados durante o desenvolvimento destes conflitos.
    Imperialismos, colonialismos, militarismos e nacionalismos deram
origem ao conflito que ensangentou a Europa entre 1914 e 1918. Vin-
te anos depois, um movimento de ideologias, racismos e conflitos eco-
nmicos deu nova dimenso, verdadeiramente global e mundial, ao
confronto, que deflagrou a guerra em setembro de 1939. Da seqn-
cia das duas guerras mundiais emergiu uma nova realidade de poder
mundial. Veja mais algumas informaes:

 A Primeira Guerra Mundial (1914-1918)                                                                 Segunda Guerra Mundial (1939-1945)
Sob muitos aspectos a guerra de 1914 -1918, foi uma guerra                                            A Segunda Guerra Mundial foi o confronto de dois blocos: as
sem precedentes na histria. Conflitos anteriores talvez tenham                                       potncias do eixo  Alemanha, Itlia, Japo  e as potncias
durado um nmero maior de anos, mas dificilmente envolveram                                           aliadas  Inglaterra, Frana, Unio Sovitica e Estados Unidos.
direta ou indiretamente tantas pessoas. Esta foi a primeira guer-                                     Outros pases como o Brasil, que apoiou os aliados, somaram-
ra de massas, o primeiro conflito generalizado entre Estados-                                         se a estes, tanto de um lado quanto do outro. Alguns pases per-
naes altamente organizados. Ela comeou como uma guerra                                             maneceram neutros (Sua, Mnaco, Andorra, Vaticano e So
essencialmente europia, entre a trplice aliana de Frana, Gr-                                     Marinho).
Bretanha e Rssia de um lado, e as chamadas potncias cen-
                                                                                                      A maior parte dos combates ocorreu na Europa e na sia, mas
trais, Alemanha e ustria-Hungria, do outro. Entretanto vrias
                                                                                                      as operaes militares aconteceram em todos os continentes. A
outras naes foram arrastadas para um desses lados.
                                                                                                      Amrica no foi afetada; houve apenas operaes navais, com
Esta guerra tambm se diferenciou das anteriores pela difu-                                           submarinos alemes. Entre as principais causas da guerra est
so espacial dos combates que se desenrolaram pela primeira                                           a poltica expansionista de Hitler, baseada na idia de formao
vez sobre diferentes frentes ao mesmo tempo, na Europa, mas                                           de um grande imprio de povos de raa ariana, que sua teoria
igualmente na frica e na sia oriental. Os exrcitos, aps te-                                       considerava como a nica raa pura.
rem se deslocado com rapidez para as regies de combate, fi-
                                                                                                      As caractersticas essenciais da guerra foram: a importncia da
caram imobilizados sobre o terreno numa interminvel guerra
                                                                                                      aviao; o envolvimento dos civis; os grandes bombardeios dos
de trincheiras, sem poder tirar proveito de sua mobilidade. O re-
                                                                                                      centros de armamento (que no tiveram efeitos sensveis so-
sultado foi uma luta sangrenta e de desgaste, em que se feriam
                                                                                                      bre a produo da guerra, mas que destruram casas e mata-
centenas de milhares de soldados nas valas (trincheiras), sem
                                                                                                      ram civis: o de Dresden, em 1945, causou 200.000 mortes)
ganhar um palmo do terreno ou voltando a perder rapidamen-
                                                                                                      e os campos de concentrao onde morreram milhes de ju-
te o que havia ganho com muito esforo, submetidos ao cas-
                                                                                                      deus, comunistas, ciganos (sem esquecer os campos de con-
tigo implacvel de uma artilharia que causou 70% de todas as
                                                                                                      centrao aliados para os soldados alemes, onde muitos de-
mortes em combate.
                                                                                                      sapareceram de maneira pouco explicada). A guerra chegou
No domnio das armas, as transformaes tecnolgicas influen-                                         ao fim aps os bombardeios de populaes civis japonesas de
ciaram fortemente o conflito. Se certos combates diferencia-                                          Hiroshima e Nagasaki.
vam-se pouco das guerras do sculo XIX  com emprego da                                                                      n (Adaptado de HOBSBAWM, 1995, p. 43-51,
infantaria , foi a utilizao de novas armas (qumicas, como o                                                                                           144-148).
gs venenoso asfixiante), os blindados e, mais ainda, a aviao
(bombardeio areo) que marcaram o conflito.
                                                                    n http://redescolar.ilce.edu.mx




                      n (Adaptado de HOBSBAWM, 1995, p. 30-42).




                                                                                                                   RelaesdepodereviolncianoEstado 259
            EnsinoMdio


                                PESQUISA

            O significado histrico de:
             a) imperialismo          b) colonialismo         c) militarismo   d)nacionalismo
            Sob a orientao do professor, realize uma pesquisa sobre as grandes guerras mundiais.
             Sugestes:
             -     dividir a sala em duas equipes para que cada uma pesquise uma das grandes guerras;
             - coletar informaes:
             a) envolvimento dos pases (quem foi envolvido e por qu?);
             b) desenvolvimento da guerra (construo de uma linha cronolgica com os principais aconteci-
                mentos; construo de mapas);
             c) conseqncias da guerra.
        - montar um mural para exposio dos trabalhos.


                 Texto 5
              Outro motivo, porm, era a nova impessoalidade da guerra que tornava o matar e o estropiar uma
         conseqncia remota de apertar um boto ou virar uma alavanca. A tecnologia tornava suas vtimas in-
         visveis, como no podiam fazer as pessoas esviceradas por baionetas ou vistas pelas miras de armas
         de fogo. Diante dos canhes permanentemente fixos da Frente Ocidental, estavam no homens, mas
         estatsticas. L embaixo dos bombardeios areos estavam no pessoas que iam ser queimadas e evis-
         ceradas, mas somente alvos. Rapazes delicados, que certamente no teriam desejado enfiar uma baio-
         neta na barriga de uma jovem alde grvida, podiam com muito mais facilidade jogar altos explosivos
         sobre Londres ou Berlim, ou bombas nucleares em Nagasaki. Diligentes burocratas alemes, que cer-




      Documento 6




n Tpico cogumelo de fumaa     n Grupo de crianas presas em Auschwitz                         n Prisioneiros no campo de con-
  paira sobre Hiroshima, aps                                                                     centrao de Buchenwald, no
  a bomba nuclear lanada a 6                                                                     Leste da Alemanha.
  de agosto de 1945.



260 Relaesdepoder
                                                                                                                                       Histria


   tamente teriam achado repugnante tanger eles prprios judeus mortos de
  fome para abatedouros, podiam organizar os horrios de trem para o abas-
  tecimento regular de comboios de morte para os campos de extermnio po-
  loneses, com menos senso de envolvimento pessoal. As maiores cruelda-
  des do nosso sculo (sculo XX) foram crueldades impessoais decididas 
  distncia, de sistema e de rotina, sobretudo quando podiam ser justificadas
  como lamentveis necessidades operacionais.
     Assim o mundo acostumou-se  expulso e matana compulsrias em
  escala astronmica, fenmenos to conhecidos que foi preciso inventar no-
  vas palavras para eles: "sem Estado" (aptridas) ou "genocdio".
  n (Adaptado de HOBSBAWM, 1995, p. 57).




                     ATIVIDADE

       Como voc caracterizaria a memria registrada nas imagens do docu-
        mento 6?
       Segundo a opinio do historiador Eric Hobsbawm, quais as caractersti-
        cas das grandes guerras que influenciaram o sculo XX?
       Utilize seus conhecimentos. Observe as imagens presentes no docu-
        mento 6 e leia o texto 5 como referncia para escrever uma narrativa
        histrica com o ttulo: "A guerra total e os direitos humanos".




n trincheira                                        n Crianas protegendo-se de um ataque areo 1941. n Avano dos alemes em territrio
                                                                                                        russo - 1941



                           n FONTES: www.estadao.com.br/guerra/trechos.htm ; www.iade.org.ar/.../ NP/Art/fotografica.html Acesso em: 20 out. 2005.


                                                                                        RelaesdepodereviolncianoEstado 261
                                                                                        Relaesdepodereviolncianoestado
       EnsinoMdio

                                    O Brasil tambm participou das guerras mundiais. Quer conhe-
                                 cer um pouco sobre este tema? Ento leia os fragmentos historiogrfi-
                                 cos...

         Texto 6
        Durante a Primeira Guerra, o governo brasileiro manteve-se neutro at meados de 1917. Apesar da
     neutralidade, ocorreram, neste perodo, alguns incidentes envolvendo navios brasileiros. O primeiro pro-
     blema aconteceu em 3 de abril de 1917, quando uma esquadra alem afundou o navio mercante "Pa-
     ran" no canal da Mancha (Frana). Alguns dias depois, o Brasil rompeu relaes diplomticas com a
     Alemanha e diante dos acontecimentos declarou guerra contra este pas.
             No comeo de 1918, o governo brasileiro tomou as primeiras medidas para entrar na guerra.
     Foi organizada a Diviso Naval em Operaes de Guerra (DNOG), composta de dois cruzadores, quatro
     destroiers, um cruzador auxiliar e um rebocador de alto mar. Seu comando foi entregue ao contra almi-
     rante Pedro Frontin. A esquadra partiu de Fernando de Noronha em agosto, rumo a costa africana. Em
     Dacar, 156 tripulantes foram mortos pela "gripe espanhola". Tambm em agosto, partiu para a Frana
     uma misso mdica chefiada pelo Dr. Nabuco Gouveia. Ainda em 1918, foi criada a nossa Fora A-
     rea. E em 11 de novembro de 1918, os marinheiros, que haviam sido enviados para patrulhar os mares
     de Dacar e Gibraltar, foram informados do fim da guerra.
                                                                                                         n (Adaptado de Nosso Sculo: 1910-1930, 1985, p. 66).




         Texto 7
                                                                    n www.cliohistoria.hpg.ig.com.br/




          A participao do Brasil durante a Segunda Guerra
     Mundial foi um pouco mais intensa. O governo do Bra-
     sil no tinha uma posio de apoio muito clara nos pri-
     meiros anos da guerra. Ideologicamente o Estado No-
     vo achava-se muito mais prximo do fascismo italiano
     do que dos regimes liberais, e, alm disso, havia uma
     certa dependncia da aviao comercial brasileira em
     relao aos pases do eixo. Por outro lado, as relaes n Desembarque do 1 Escalo da FEB (Npoles, 16 de junho de
                                                               1944)
     econmicas colocavam o Brasil na rbita dos Estados
     Unidos, empenhados na hegemonia econmica, poltica e militar sobre as Amricas.
         Posicionando-se ao lado dos norte-americanos, o governo brasileiro declarou guerra aos pases do
     eixo em 31 de agosto de 1942. No ano seguinte comeou o recrutamento para lutar na Europa. O gru-
     po de soldados enviados para a guerra foi chamado de Fora Expedicionria do Brasil (FEB). Em 16 de
     julho de 1944, o primeiro escalo da FEB desembarcou em Npoles, na Itlia; posteriormente chega-
     ram outros quatro escales. Os soldados, do Exrcito e da Fora Area, foram incorporados ao IV cor-
     po de Exrcito norte-americano integrante do XV Grupo de Exrcitos Aliados.
         Os pracinhas, como foram chamados os soldados brasileiros, lutaram no territrio italiano entre o fi-
     nal de 1944 e os primeiros meses de 1945. Ao todo, foram 239 dias de aes militares marcadas por
     centenas de baixas e algumas conquistas.
                                                                                                    n (Adaptado de Nosso Sculo: 1930-1945, 1985, p. 100-106).




262 Relaesdepoder
                                                                                                               Histria



                  PESQUISA

 14. Pesquise sobre a relao da participao do Brasil na Segunda Guerra Mundial com a influncia dos
     Estados Unidos.


  Totalitarismoeviolncia
   Leia com ateno os textos 8 e 9 relacionados, buscando identificar
como se desencadearam os processos que envolveram poder e o uso
da violncia nos regimes totalitrios.


    Texto 8                                                       Texto 9
       O totalitarismo moderno (hitleriano ou sta-                 Consideremos uma outra funo da polti-
 liniano) pode definir-se como violncia exercida             ca da violncia, que deriva precisamente do fa-
 por uma faco que se arroga o direito de falar              to de que os conflitos violentos com um inimigo
 "em nome de todo o povo" e que monopoliza,                   tendem, em determinadas condies, a intensi-
 em oposio a todas as categorias sociais, os                ficar a unio do grupo. Referimo-nos ao desvio
 meios de impedir que expressem seus interes-                 das hostilidades contra diferentes componen-
 ses e suas preferncias. O totalitarismo consti-             tes da comunidade, mediante o ataque contra
 tuiu a forma mais complexa da violncia exercida             um "bode expiatrio". Esta conduta pode con-
 contra os membros da sociedade; essa violn-                 sistir numa campanha propagandstica naciona-
 cia  exercida por dirigentes que procuram legiti-           lista assumindo a forma de atos rituais e ceri-
 mar o seu uso pela necessidade de construir ou               moniais, que se repetem de maneira mais ou
 reconstruir a unidade do corpo poltico. O totali-           menos regular e operam como vlvula de se-
 tarismo pe em ao uma gama de meios dos                    gurana ou podem desencadear-se contra um
 quais o mais caracterstico  a violncia contra o           grupo interno. Um exemplo particularmente bru-
 juzo da prpria conscincia, contra o julgamen-             tal, e ao mesmo tempo eficaz,  o da violn-
 to ntimo dos cidados comuns.                               cia nazista contra os judeus na fase de ascen-
     Essa violncia tem como objetivos mnimos                so e consolidao do nazismo. No h dvida
 impedir a expresso de certas preferncias e                 de que este bode expiatrio permitiu a muitos
 tornar as conscincias individuais o mais seme-              alemes, especialmente nas camadas peque-
 lhantes possvel e, de qualquer maneira, abso-               no-burguesas, acreditar novamente, desta vez
 lutamente receptivas s instrues do "grande                sob forma de um nacionalismo exasperado, na
 Irmo". Podem conseguir isso privando os dis-                reconstituio da unidade e da potncia da Ale-
 sidentes de liberdade (campos de concentra-                  manha aps a derrota da Primeira Guerra Mun-
 o, hospitais psiquitricos, gulag), ou procuran-           dial com suas gravssimas conseqncias.
 do prevenir qualquer oposio pela introjeo de                               n (Adaptado de BOBBIO, 2000, p. 1298).

 habitus conformes.
        n (Adaptado de BOURDON & BOURRICAUD, 1993, p. 609).




                                                                       RelaesdepodereviolncianoEstado 263
        EnsinoMdio



                      ATIVIDADE

        Faa uma comparao entre as idias contidas nos textos, indicando pontos de concordncia en-
         tre eles. Posicione-se a respeito.


                                 AGuerrafriaeaviolncia
                                  Ao terminar a Segunda Guerra Mundial, uma nova potn-
                              cia passou a disputar o controle do planeta com os Estados Unidos: a
                              Unio Sovitica, a qual adotou princpios socialistas desde 1917. Este
                              novo fato gerou um conflito de amplas propores, uma confron-
                              tao mltipla (econmica, poltica, diplomtica, cultural, propagan-
                              dstica) entre os "dois grandes" pases, que questionavam de manei-
                              ra incessante a distribuio mundial dos fluxos de influncia e poder.
                              Este confronto entre as duas superpotncias se convencionou chamar
                              Guerra Fria. Veja com ateno:

         Texto 10
          O fato bsico e crucial, que nunca  demais repetir,  que o sistema da Guerra Fria  altamente fun-
     cional para as superpotncias, e  por isso que ele persiste, apesar da probabilidade de mtua aniqui-
     lao. A Guerra Fria fornece o arcabouo onde cada uma das superpotncias pode usar a fora e a
     violncia para controlar seus prprios domnios contra os que buscam um grau de independncia no in-
     terior dos blocos  apelando  ameaa da superpotncia inimiga, para mobilizar sua prpria populao
     e a de seus aliados. (CHOMSKY apud THOMPSON, 1985, p. 190).



                      ATIVIDADE

        Na viso de Noam Chomsky (1928- ), como se manifestou a utilizao do poder e da violncia du-
         rante a Guerra Fria?
        "A Guerra improvvel, paz impossvel". Em que esta frase de Raymond Aron (1905-1983) ilustra as
         relaes americano-soviticas de 1947-1989?



                      PESQUISA

        Pesquise sobre as relaes de poder que envolviam as superpotncias e os pases do Terceiro
         Mundo.




264 Relaesdepoder
                                                                                                     Histria

    O fim da Guerra Fria, em 1989, no significou a consolidao da
paz no mundo. Novas formas de guerra foram sendo construdas, cons-
tituindo tipos novos de conflitos, muitos deles tendo como referncia a
defesa de princpios religiosos fundamentalistas. Atualmente,  o terro-
rismo que surpreende e assusta a humanidade. Confira como mudou
a natureza dos conflitos nos ltimos 500 anos:

      Documento 9
                                      A CARA DAS GUERRAS


      Entre Monarquias  Quando a partir de 1500, a cultura ocidental come-
      a a se impor no mundo, os conflitos se do, basicamente, entre prnci-
      pes, imperadores e monarcas que tentam expandir seu poder, seu comr-
      cio, suas fronteiras. Essa situao perdurar at a Revoluo Francesa.


      Entre Naes  a partir da Revoluo Francesa, consolida-se a idia de Estado-nao e as guer-
      ras passam a adquirir carter nacional, de expanso territorial de uma nao e seu povo. Essa ca-
      racterstica se manter at a Revoluo Russa, em 1917.


      Entre Ideologias  Com a criao da Unio Sovitica, surge uma super potncia comunista, que
      rivalizar com o mundo capitalista liderado pelos EUA. A disputa ideolgica passa a ser o fio condu-
      tor dos conflitos  uma situao que mudar com a queda do Muro de Berlim, em 1989.


      Entre Civilizaes  Com o fim da guerra-fria e o triunfo do imprio americano, os conflitos per-
      dem sua matriz ideolgica e ganham tons cultural e religioso, de rivalidade entre Ocidente e Oriente,
      entre cristos e islmicos. Para alguns estudiosos,  a fase do conflito entre civilizaes.
 n (Extrado de VEJA. So Paulo, 19 de setembro, 2001, pp. 82-83).




                       ATIVIDADE

     Faa uma periodizao cronolgica das guerras. Procure ilustr-la com imagens e comentrios.
     Redija um texto sobre "Formas de guerras e a construo da paz no mundo contemporneo."




                       PESQUISA

     Debata o tema com os colegas e o professor: "a paz como direito humano fundamental para todos
      os povos".




                                                                     RelaesdepodereviolncianoEstado 265
       EnsinoMdio

                                   Relaesdepodereformasdeviolncia.
                                    A violncia sempre esteve no horizonte da vida social e a envolveu
                                por todos os lados. Mesmo no interior de uma comunidade ordenada,
                                em que reinava a paz, subsistia o risco de que a ordem pacfica fosse
                                quebrada. A insegurana gerou a multiplicao das iniciativas de au-
                                todefesa ou o apelo s instituies repressivas e, conseqentemente, a
                                instaurao de regimes penais.

         Texto 11
         No regime penal da idade clssica, podem-se encontrar, mescladas, quatro grandes formas de tti-
     ca punitiva  quatro formas que possuem origens histricas diferentes, que desempenharam, cada uma
     delas, segundo as sociedades e as pocas, um papel seno exclusivo, pelo menos privilegiado.
     1- Exilar, rechaar, banir, expulsar para fora das fronteiras, interditar determinados lugares, destruir o lar,
        apagar o lugar de nascimento, confiscar bens e as propriedades.
     2- Organizar uma compensao, impor um resgate, converter o dano provocado em dvida a ser pa-
        ga, converter o delito em obrigao financeira.
     3- Expor, marcar, ferir, amputar, fazer uma cicatriz, deixar um sinal no rosto ou no ombro, impor uma di-
        minuio artificial e visvel, supliciar, em suma, apoderar-se do corpo e nele inscrever as marcas do
        poder.
     4- Enclausurar.
        A ttulo de hiptese, pode-se distinguir, segundo os tipos de punio privilegiados, as sociedades
     de banimento (sociedade grega), sociedades de resgate (sociedades germnicas), sociedades de mar-
     cagem (sociedades ocidentais do final da Idade Mdia) e sociedades que enclausuram (a nossa?). (FOU-
     CAULT, 1997, p. 27).


                                    O que mais impressionou no sistema penal europeu, principalmen-
                                te entre os sculos XVI e XVIII, foi sua aparente barbrie: a cruelda-
                                de dos castigos pblicos, a tortura legal e as execues convertidas em
                                cerimnias festivas de glorificao do poder do Estado aumentaram a
                                tal ponto que aqueles sculos foram caracterizados como "tempo dos
                                suplcios".
                                    As durssimas condenaes respondiam, muitas vezes, a um prop-
                                sito de educao social conveniente a momentos em que a popula-
                                o pobre das cidades aumentava. Em toda a Europa, enquanto os reis
                                medievais haviam se ocupado em controlar a m gerncia e adminis-
                                trao dos ricos e poderosos, os dos sculos XVI a XVIII ocupavam-
                                se muito mais em afirmar a ordem social contra os protestos e revoltas
                                dos setores populares que comeavam a se mostrar muito menos d-
                                ceis do que no passado. Isto ajuda a entender porque se preferiam os
                                castigos pblicos s penas de priso.
                                    A deteno e o encarceramento tiveram um papel secundrio no
                                sistema penal europeu, pelo menos at 1780. Entretanto, parte da so-


266 Relaesdepoder
                                                                                                      Histria

ciedade temia cada vez mais as classes subalternas. A pobreza passou
a ser vista como um perigo social. Na maior parte dos pases da Eu-
ropa ocidental produziu-se o que se chamou "a grande recluso". Um
sistema geral de vigilncia e recluso penetrou por toda a sociedade,
tomando formas que foram desde as grandes prises at as socieda-
des de patronagem e que encontraram seus pontos de aplicao no
somente nos delinqentes, como tambm nas crianas abandonadas,
rfo, aprendizes, estudantes, operrios, etc. Leia o que a historiogra-
fia relata a respeito:

      Texto 12
       Na Frana, encerraram-se os pobres nos hospitais gerais, onde rezavam e trabalhavam. Na Holan-
  da, eram anunciados para alugar. Na Espanha, eram enviados foradamente para remar ou trabalhar na
  marinha real. Na Inglaterra, criou-se um sistema de leis dos pobres que subordinavam  assistncia da
  comunidade, que podia levar o pobre a uma workhouse ou "casa de trabalho", suja e triste, onde reali-
  zava tarefas irracionais e inteis. O guarda da workhouse podia alug-los a quem os quisesse, embol-
  sando seu soldo em troca da manuteno, de maneira que s os que eram realmente inteis ficavam
  internados. Na workhouse seria experimentado o tipo de controle disciplinar do trabalho prprio da f-
  brica, que seria sua filha direta. A trilogia das instituies "domesticadoras" da nova sociedade era in-
  tegrada pelas workhouses, pela fbrica e pelo crcere, s quais se acrescentaria, mais tarde, a esco-
  la. (Adaptado de FONTANA, 2000, p. 288).


    Na passagem do sculo XVIII para o XIX, a priso tornou-se a for-
ma geral de penalidade. Considerou-se que se devia estabelecer uma
relao fixa e declarada entre os delitos e as penas que os castigavam,
devendo a recluso cumprir uma funo educativa e corretora.
    A organizao de um sistema penal que privilegia a deteno e o
enclausuramento constituiu-se tambm em objeto de violentas crticas.
Observe um exemplo:       "Os hbitos e a infmia que marcam as pessoas na priso fa-
                              zem com que, ao dela sarem, sejam definitivamente fadadas 
                              criminalidade."



                  DEBATE

    Voc concorda com esta idia?
    Discuta com seus colegas, em sala de aula, sobre este tema.


   O castigo mais exemplar durante muito tempo foi a pena de morte,
aplicada a quem se afastava da norma social, ameaando, assim, a or-
dem estabelecida. Executava-se por heresia, por desvio sexual, blasf-
mia, bruxaria, falsificao de moeda ou, ainda, por um grande nme-
ro de infraes que se referiam s regras sociais impostas pelas classes
dominantes.

                                                                           RelaesdepodereviolncianoEstado 267
        EnsinoMdio

                                  A pena de morte foi um instrumento da poltica estatal, tanto ou
                              mais do que da poltica penal. Era um privilgio do soberano, que ser-
                              via para confirmar a sua autoridade suprema. Todavia era utilizada
                              tambm para criar coeso social, por meio da dupla funo de dissu-
                              adir e educar.
                                  Procurava-se resolver o problema da delinqncia urbana com o
                              terror, convertendo a execuo em um espetculo pblico em que a
                              populao participava, na tentativa de convenc-la de que a pena era
                              justa.
                                  A pena de morte, que se manteve em vrias sociedades em pleno
                              vigor at o sculo XIX, foi desaparecendo em muitos pases durante o
                              sculo XX. Esta pena tornou, hoje, a aparecer com fora em alguns de-
                              les, por exemplo, em 38 Estados dos Estados Unidos. Veja mais infor-
                              maes sobre a pena de morte neste pas:

         Texto 13
        Estudo sobre a pena de morte nos Estados Unidos, divulgado pela Anistia Internacional, em 1987,
     mostrava uma total falta de equidade na sua aplicao. No plano social, por exemplo, 62% dos conde-
     nados eram trabalhadores sem qualificao. Entre os sentenciados, 60% estavam desempregados ao
     cometer o crime. Podemos concluir, portanto, que a pena de morte  um "privilgio dos pobres".
         No plano racial, a parcialidade  ainda mais evidente. Basta citar o fato de que, no Alabama, 66%
     dos presos que estavam no corredor da morte, naquela ocasio, eram negros. Outro dado relevante: as
     pessoas negras culpadas pelo assassinato de pessoas brancas foram condenadas  morte com muito
     mais freqncia do que brancos responsveis pela morte de brancos. E raras vezes pessoas brancas
     foram condenadas por matar gente negra.
         Com seus golpes cegos, a pena de morte tambm atinge menores de idade. Nos Estados Unidos,
     no sculo XX, mais de duzentos menores foram executados. A maioria de raa negra. (KONDER apud PINSKY,
     2003, pp. 393-394).




                       ATIVIDADE

        Construa uma argumentao histrica sobre o tema: "O sistema penal como forma de violncia e re-
         presso".



                                Atortura...
                                 A tortura foi uma das principais formas de violncia utilizadas pe-
                              lo Estado contra os adversrios polticos, a fim de dominar sua resis-
                              tncia e vontade.
                                 Na sociedade contempornea, a tortura permanece sob formas dife-
                              rentes, particularmente pela violao dos Direitos Humanos j conquis-


268 Relaesdepoder
                                                                                       Histria

tados. No entanto, a tortura  uma prtica que esteve presente desde as
primeiras comunidades humanas, quando sua utilizao dava oportuni-
dade para os poderosos se fazerem entender e serem obedecidos. Al-
gumas dessas sociedades viam na tortura um meio de exercitar os mais
jovens nas armas e de encoraj-los a combater os inimigos.
     Os gregos avaliavam que a tortura, empregada com o fim de obter
provas ou ensinamentos, diminua a dignidade do homem e s a apli-
cavam em escravos e estrangeiros. A princpio, os romanos procede-
ram da mesma forma que os gregos, mas depois estenderam esse m-
todo a todos, sendo que muitos foram vtimas de suplcios refinados
(um exemplo foi o martrio dos cristos).
     Durante a Idade Mdia, a justia aplicava legalmente a tortura. O
Tribunal da Santa Inquisio, criado no sculo XIII, na Europa Ociden-
tal, em naes genuinamente catlicas, castigou de modo severo as su-
as vtimas, desenvolvendo interrogatrios metdicos por meio da tor-
tura e dos suplcios.
     Para os senhores e traficantes de escravos negros dos sculos XVII
e XVIII, a tortura no causava nenhum problema de conscincia e era
aplicada sistematicamente. O nico freio para a tortura era o medo de
estragar a "mercadoria humana".
     A Revoluo Francesa (1789) trouxe significativos avanos no trata-
mento da questo da tortura, impondo s autoridades o respeito  inte-
gridade fsica dos detidos e, conseqentemente, proibindo a tortura.
     A prtica da tortura sofreu uma regresso depois do sculo XVIII,
talvez apenas na aparncia. Mas, o sculo XX, colocou-a novamente na
ordem do dia, com a instituio dos regimes totalitrios e ditatoriais. A
tortura atingiu inmeras pessoas que se opunham a esses regimes, ou
que eram acusadas de pertencer a raas, ditas "inferiores", como os ju-
deus, os ciganos, ou que simplesmente eram diferentes, portanto ini-
migos. Veja alguns exemplos:
 os milhes de vtimas do nazismo, em decorrncia de interrogat-
     rios individuais e da "morte lenta" nos campos de concentrao;
 os campos e os hospitais psiquitricos para prisioneiros polticos na
     ex-URSS;
 as torturas que os franceses infligiram na guerra da Arglia;
 as torturas que as ditaduras aplicaram em pases latino americanos
     (Chile e Argentina, por exemplo), na sia, incluindo China e Japo,
     etc.
     A prtica da tortura continua sendo empregada no sculo XXI. Mi-
lhares de pessoas sofrem torturas todo o ano; centenas so mortas. A
lista dos pases que supliciam seus cidados  grande. Conhea alguns
deles: ndia, Iraque, Sudo, Egito, Repblica dos Camares, Paquisto,
Lbia, Malsia, Estados Unidos, Israel, Arglia, Ruanda, Turquia... en-
tre outros.


                                                            RelaesdepodereviolncianoEstado 269
       EnsinoMdio

                                    No Brasil, a tortura foi praticada desde o perodo de colonizao.
                                Indgenas e negros foram as suas primeiras vtimas nas mos dos co-
                                lonizadores. Em seguida, governos monrquicos e republicanos a ado-
                                taram como represso a qualquer tipo de rebeldia, libertria ou no.
                                No sculo XX, foi muito utilizada nos perodos do Estado Novo (1937-
                                1945) e da Ditadura Militar (1964-1985).
                                    Durante os anos da Ditadura Militar (1964-1985), muitas pessoas
                                foram perseguidas, presas, torturadas ou mortas por serem considera-
                                das inimigas do governo; outras tantas saram do pas e muitos polti-
       Documento 10             cos perderam seus mandatos. A represso exercida pelos militares se
                                intensificou depois da edio do Ato Institucional n 5, em 1968, que
                                fechou o Congresso e censurava previamente a imprensa e as manifes-
                                taes culturais.
                                    O projeto Brasil Nunca Mais traz documentos importantes para ilus-
                                trar a violncia com que agiam os partidrios do regime. Veja alguns
                                depoimentos:


        - O estudante ngelo Pezzuti da Silva, 23 anos, preso em Belo Horizonte e torturado no Rio, narrou
     ao Conselho de Justia Militar de Juiz de Fora, em 1970:
         "(...); que, na PE (Polcia do Exrcito) da GB [Guanabara, regio que compreendia a cidade do Rio
     de Janeiro], verificaram o interrogado e seus companheiros que as torturas so uma instituio, vez que,
     o interrogado foi o instrumento de demonstraes prticas desse sistema, em uma aula de que partici-
     param mais de 100 (cem) sargentos e cujo professor era um Oficial da PE, chamado Tnt. Ayrton, que,
     nessa sala, ao tempo em que se projetavam "slides" sobre tortura, mostrava-se na prtica para a qual
     serviram os interrogados: MAURICIO PAIVA, AFONSO CELSO, MURILO PINTO, P. PAULO BRETAS, e
     outros presos que estavam na PE-GB, de cobaias; (...)
         - Na mesma linha depe Murilo Pinto da Silva, de 22 anos:
       (...) que, quando esteve na PE-GB, o interrogado e seus companheiros serviram de cobaia a de-
     monstraes prticas de tortura em aulas ministradas a elementos das Foras Armadas; (...) (Brasil Nun-
     ca Mais, 1985, p.31-32.)


       Documento 11                                            Documento 12
       O humor, manifesto sob as mais variadas formas e,
   principalmente, expresso em cartuns e caricaturas, foi
   uma maneira de resistncia a qualquer tipo de opresso
   ou explorao. Em especial nos momentos histricos, em
   que a represso, nas suas mais diversas feies, ocor-
   reu na sociedade. O humor manifestou o jeito como as
   pessoas procuraram exprimir sentimentos, como: des-
   contentamento, rebeldia e revolta. Em poca de ditadu-
   ra e censura no Brasil (1964-1985), o cartunista Henrique
   de Souza Filho, o Henfil (1944-1988), por exemplo, sou-
   be como se manter incmodo politicamente.
                                                               n HENFIL. Charge, s/d. FONTE: http://diversao.uol.com.br/album/henfil



270 Relaesdepoder
                                                                                                    Histria


     Texto 14
   A represso tornou-se mais intensa no Paran, com a famosa Operao Marumbi, desencadeada
nos primeiros dias de setembro de 1975. Polticos, professores, jornalistas, sindicalistas jovens e outros
envolvidos sofreram torturas e sevcias de todos os tipos.
    Havia uma organizao muito forte e os militares que atuavam na Operao Marumbi tinham orien-
tao de cima, uma vez que na mesma poca estavam em curso a Operao Barriga Verde em Santa
Catarina e a Operao Bandeirante em So Paulo. No era uma atividade isolada. Era um plano nacio-
nal para prender ativistas, enquadr-los nas leis que no lhes permitiam as mnimas garantias de defe-
sa. A Operao Marumbi no foi mais do que uma srie de seqestros de pessoas que desapareciam
de suas casas ou de seus locais de trabalho da noite para o dia. E o que mais chocou foi o grau de
atrocidades que se cometiam no Estado. Essas pessoas foram presas, torturadas, submetidas a can-
sativos interrogatrios e suas famlias foram ameaadas. Um relatrio divulgado pelo Comit Brasileiro
de Anistia, em maro de 1979, revelou a ocorrncia de 2.726 prises no Paran desde maro de 64.
(Adaptado de HELLER, 1988, pp. 490-570).




                   ATIVIDADE

    Explique os sentimentos expressos pelo autor dos cartuns reproduzidos nos documentos 11 e 12.
    Aps anlise dos documentos 10, 11 e 12, escreva sua opinio sobre a presena da censura e
     da tortura como restries aos direitos do cidado.
    Ajude na elaborao de um texto coletivo de sua sala. Vocs podem escolher um aspecto, dentro
     da temtica: "Relaes de poder e violncia no Estado", para servir de orientao na elaborao do
     texto.




 RefernciasBibliogrficas:
    ARGAN, G. C. ugene Delacroix  A liberdade guia o povo. In: Arte Moderna. So Paulo: Cia das Le-
    tras, 1992, p. 55-57.
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272 Relaesdepoder
                                       Histria



ANOTAES




            RelaesdepodereviolncianoEstado 273
      EnsinoMdio




274 Relaesdepoder
                                                                                                                                    Histria




                                                                                                                       15
                                                                                 RELAES DE PODER:
                                                                     O Estado imperialista e sua crise
                                                                                                        n Altair Bonini1, Marli Francisco2


                                                                               ara voc, qual seria a mensagem
                                                                              desta imagem? Que relaes so
                                                                            possveis de estabelecer entre o pro-
                                                                          duto anunciado e os lderes represen-
                                                                         tados na imagem?
                                                                        A partir do sculo XIX, novas formas de
                                                                        Estado se configuraram, principalmente
                                                                        na Europa. Neste folhas, estudaremos
                                                                        aspectos das novas formas que o Esta-
                                                                        do assumiu e sua crise.
                                                       Documento 1




                                                                 n Pretenses de conquista mundial. A frase em destaque no cartaz diz: "So-
                                                                   mente uma campanha lanada conquista o mundo". (Fonte: Hobsbawm, 1998,
                                                                   anexos, pp. 404-405).
1
 Colgio de Aplicao Pedaggico da Universidade Estadual de
Maring  Maring  UEM
2
 Colgio Estadual Chateaubriandense - Assis Chateaubriand - PR
                                                                                                 OEstadoimperialistaesuacrise 275
      EnsinoMdio

                        AformaodeImprios
                        ecolniasnosculoXIX
                          Para a maioria das pessoas, a palavra "imprio" lembra soberania,
                      riqueza e poder; est ligada ao mundo dos reis e rainhas. No entanto,
                      a partir da metade do sculo XIX at o incio do sculo XX, algumas
                      naes industrializadas, como Inglaterra, na Europa Ocidental, os Esta-
                      dos Unidos, na Amrica do Norte, e, um pouco aps, o Japo, na sia,
                      transformaram-se em grandes imprios, atravs da expanso econmi-
                      ca e territorial, estabelecendo colnias, principalmente nos continen-
                      tes africano e asitico. Os imprios que se formaram, neste perodo,
                      no implicaram necessariamente na existncia de reis e rainhas, mas
                      no domnio econmico de grandes empresas (monoplios), na impor-
                      tncia do capital financeiro (dos bancos), na ocupao de certas reas
                      do globo e na imposio da cultura ocidental aos povos dominados.
                      Essa nova forma que o Estado se configurou foi chamada de Imperia-
                      lismo, conforme explicao no quadro.
                          Para voc entender como ocorreu este processo,  preciso conhe-
                      cer as mudanas cientficas, tecnolgicas e econmicas que ocorreram
                      em meados do sculo XIX.
                          Este sculo foi marcado pelo desenvolvimento tecnolgico. As pes-
                      quisas tecnolgicas proporcionaram transformaes em todos os se-
                      tores ligados  produo (motor  combusto), ao transporte (auto-
                      mvel),  comunicao (a inveno do telgrafo e do telefone) e 
                      utilizao de novas formas de energia, como a eletricidade e o petr-
                      leo. A indstria qumica passou a fabricar corantes artificiais. Surgiram
                      a fotografia e o cinema. Esse perodo de grandes inovaes ficou co-
                      nhecido como Segunda Revoluo Industrial.
                          Como conseqncia dessas transformaes, as naes industrializa-
                      das disputaram colnias e impuseram seu domnio, direto ou indire-
                      to,  sia, frica, Oceania e Amrica Latina. Isto ocorreu atravs da de-
                      pendncia econmica ou atravs da ocupao, de fato, da regio.
                          Na Amrica Latina no houve ocupaes territoriais como na fri-
                      ca e parte da sia. O domnio imperialista na frica, Amrica Latina e
                      sia manifestou-se por meio da influncia poltica e econmica, prin-
                      cipalmente dos Estados Unidos e da Inglaterra. Estes Estados realiza-
                      ram investimentos e concederam emprstimos com elevadas taxas de
                      juros, capital para ser investido em servios pblicos (construo de
                      ferrovias e empresas de iluminao pblica, por exemplo) e na pro-
                      duo industrial. Vastas reas dos continentes africano e asitico foram
                      sendo ocupadas pelas naes europias, EUA e Japo, transformado-
                      as em colnias.
                          Diferente da ocupao colonial dos sculos XV e XVI, concentrada
                      no continente americano, restrita ao capitalismo comercial,  cuja meta

276 Relaesdepoder
                                                                                                                    Histria

era a obteno de produtos tropicais, especiarias e metais preciosos ,
a nova partilha territorial, ocorrida no sculo XIX, foi incentivada pelo
capitalismo industrial e financeiro e as naes industrializadas, princi-
palmente a Inglaterra, visavam  expanso econmica e militar  pois
necessitavam de locais para o abastecimento em matrias-primas, de
postos para as suas frotas mercantes e militares, de mercados consumi-
dores de suas manufaturas e, ao mesmo tempo, fornecedores de mo-
de-obra barata para suas indstrias.


     Documento 2
     Imperialismo:
     Qualquer forma de expanso e de dominao. O imperialismo poltico praticado, sobretudo no s-
 culo XIX, procurava a expanso quer pela anexao de territrios limtrofes, quer pela ocupao militar e
 poltica de povos ou de naes consideradas inferiores. Neste ltimo sentido, corresponde ao colonia-
 lismo, onde os interesses econmicos do pas
 colonizador tm um papel importante.                     Mapa 1  O domnio estrangeiro na
      O imperialismo econmico  uma forma                                    frica em 1913.
 no menos ativa de expanso e de domina-
 o, mas que se fundamenta na importn-
 cia da economia. Constitu-se na vontade de
 conquistar e de dominar os mercados estran-
 geiros, de possuir o monoplio de certas ma-
 trias-primas ou estratgicas de impor suas
 condies aos grupos econmicos ou pases
 mais fracos.
     O imperialismo econmico  constitudo
 pela unio entre o poder poltico e o poder eco-
 nmico de uma nao forte, agindo de comum
 acordo sobre o exterior.
     Lenin foi um dos primeiros a utilizar o ter-
 mo imperialismo para designar as naes ca-             Atlas da histria do mundo. Uma vez iniciada a partilha da fri-
 pitalistas mais avanadas. (Adaptado de BIROU, 1982,   ca entre as potncias europias, o continente foi dividido em um
                                                        perodo bastante curto. O traado territorial, realizado pelas potn-
                                                        cias, fez com que o continente assemelhasse a uma colcha de re-
                                                         talhos. 1995, p. 236.



                  ATIVIDADE

 1. Observe o mapa 1 referente  partilha da frica e responda:
     a) Qual nao possua maior quantidade de colnias?
     b) Qual nao possua menor quantidade de colnias?


                                                                                  OEstadoimperialistaesuacrise 277
      EnsinoMdio


       c) Cite as reas livres da dominao imperialista.
       d) D a sua opinio sobre a partilha da frica pelas potncias europias no sculo XIX.
    2. Relacione o capitalismo industrial com o contexto em que ocorreu o imperialismo.




                    PESQUISA

       Pesquise e estabelea diferena entre a colonizao da Amrica no sculo XVI com a colonizao
    da frica e parte da sia no sculo XIX.



                               Justificativaserivalidades
                               nasdisputascoloniais
                                 Os maiores beneficiados nesse processo industrial imperialista fo-
                            ram as empresas europias e norte-americanas. Na busca crescente de
                            lucros, a burguesia passou a financiar a explorao de minas, as mo-
                            noculturas, a eletrificao de cidades e a construo de portos, pontes,
                            canais e ferrovias, a fim de favorecer o setor exportador de cada re-
                            gio sob sua influncia. Neste processo, os Estados tiveram um papel
                            importante, pois passaram a apoiar a poltica imperialista, garantindo o
                            capital investido fora de seus pases.
                                Para justificar as aes do Estado Imperialista, o neocolonialismo
                            passou a ser visto, ideologicamente, pelas naes dominantes, como
                            uma tarefa rdua que beneficiava muito mais o colonizado do que o
                            colonizador. Caracterizava-se como uma misso e um "dever moral"
                            do europeu, a fim de acabar com as doenas tropicais, com o caniba-
                            lismo, o escravismo e o paganismo e de levar a higiene, a instruo,
                            o cristianismo, a cincia, enfim, o progresso aos "povos atrasados".
                            Do ponto de vista eurocntrico, a obra civilizadora legitimava a domi-
                            nao poltica e econmica, desrespeitando a cultura das populaes
                            submetidas.
                                A posse de colnias significava ter o "status" de potncia. No pos-
                            su-las era reconhecer uma situao de inferioridade em relao aos
                            demais pases industrializados. Esta situao era marcada pela tenso
                            permanente entre as potncias devido  diviso desigual das reas de
                            dominao (pases como Alemanha e Itlia, no ficaram satisfeitos com
                            a parte que lhes coube na diviso das colnias), o que provocou a rup-
                            tura no equilbrio europeu. Como resultado dessas disputas, as naes
                            industrializadas imperialistas envolveram-se no primeiro conflito mun-
                            dial, conhecido como Primeira Guerra Mundial (1914-1918).



278 Relaesdepoder
                                                                                                   Histria


     Texto 1
      Essa repartio do mundo entre um pequeno nmero de Estados foi a expresso mais espetacular
 da crescente diviso do planeta em fortes e fracos, em "avanados e atrasados". Entre 1876 e 1915,
 cerca de um quarto da superfcie do globo foi distribudo ou redistribudo, como colnia, entre meia d-
 zia de Estados. A Gr-Bretanha aumentou o seu territrio em cerca de dez milhes de quilmetros qua-
 drados, a Frana em cerca de nove, a Alemanha conquistou mais de dois milhes e meio, a Blgica e
 a Itlia pouco menos que essa extenso cada uma. Os EUA conquistaram cerca de 250 mil, principal-
 mente da Espanha, o Japo algo em torno da mesma quantidade s custas da China, Rssia e da Co-
 ria. As antigas colnias africanas de Portugal se ampliaram em cerca de 750 mil quilmetros quadra-
 dos; a Espanha, mesmo sendo uma perdedora lquida (para os EUA), ainda conseguiu tomar alguns
 territrios pedregosos no Marrocos e no Saara ocidental. Dentre os principais imprios colnias, ape-
 nas o Holands no conseguiu, ou no quis, adquirir novos territrios, salvo por meio da extenso de
 seu controle efetivo s ilhas indonsias, que h muito "possua" formalmente. Dentre os menores, a Su-
 cia liquidou a nica colnia que lhe restava, uma ilha das ndias Ocidentais, vendendo-a para a Fran-
 a, e a Dinamarca estava prestes a fazer o mesmo, conservando apenas a Islndia e a Groelndia co-
 mo territrios dependentes. (Adaptado de HOBSBAWM, 1988, p. 91).



                ATIVIDADE

    Com base no texto 1, construa uma narrativa histrica sobre a diviso das colnias na frica, sia
     e Oceania. Com a ajuda de um atlas histrico, compare os territrios das naes imperialistas com
     os de suas colnias.



  AcrisedoEstadoimperialista
    As potncias europias mantiveram seus domnios coloniais at o
final da Segunda Guerra (1945). A partir deste momento, alguns seto-
res das populaes dominadas da frica e da sia passaram a se or-
ganizar para conseguirem a independncia poltica formando novos
Estados. A reao dos povos, at ento subjugados pelas potncias ca-
pitalistas ocidentais, ficou conhecido como descolonizao afro-asi-
tica. Apenas entre os anos de 1945 a 1960, cerca de 40 novas naes
confirmaram suas respectivas independncias; s em 1960, 17 pases
se emanciparam.
    Contriburam para esse processo: o enfraquecimento das naes
europias com a Grande Guerra, a participao de soldados africanos
na luta contra o nazismo e o fascismo, a influncia do modelo socialis-
ta (difundido pela Revoluo Russa de 1917), a formao de elites lo-
cais com acesso a uma educao universitria na Europa, capaz de for-
mular projetos de emancipao.



                                                                         OEstadoimperialistaesuacrise 279
       EnsinoMdio

                          Na frica, as idias de que os povos africanos tinham um destino
                      comum e de que s pela unio poderiam enfrentar os desafios que o
                      futuro lhes havia reservado existiam desde o final do sculo XIX. Inte-
                      lectuais afro-descendentes, do Caribe e do sul dos Estados Unidos, or-
                      ganizaram, em 1900, a primeira Conferncia Pan-Africana, com o ob-
                      jetivo de criar um movimento de solidariedade s populaes negras
                      das colnias. Aos poucos foi sendo construdo um arsenal ideolgico
                      contra a dominao europia.
                          Ainda na dcada de 1940, grande parte dos antigos domnios ingle-
                      ses, holandeses e norte-americanos no Pacfico tornou-se independen-
                      te. Tal foi o caso da Birmnia, Ceilo, ndia, Paquisto, Indonsia e Fi-
                      lipinas. Em 1950 tornaram-se independentes: Vietn, Camboja e Laos,
                      entre outros pases asiticos. Na frica, movimentos de libertao ex-
                      plodiram a partir de 1960 e se completaram em meados de 1970.
                          Entre os inmeros casos, pode-se destacar a ndia como exemplo
                      de descolonizao. Esta nao conseguiu sua emancipao poltica
                      atravs da atuao do Partido do Congresso. De tendncia moderada
                      e reformista, o movimento procurou limitar a participao de sujeitos
                      histricos que procuravam mudanas extremas, ou seja, o Partido do
                      Congresso no desejava mudanas profundas na estrutura da socie-
                      dade. Destacou-se a atuao de Mohandas Karamchand Gandhi, co-
                      nhecido como Mahatma Gandhi (1869-1948), defensor da no-violn-
                      cia, pois acreditava que a salvao da ndia estava condicionada a m
                      transformao espiritual e no poltica. Pregando a no cooperao
                      com os ingleses, Gandhi inviabilizou as condies materiais de domi-
                      nao no pas. Aps a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), ocorreu a
                      unio do Partido do Congresso com a Liga Mulumana; representantes
                      de uma minoria da ndia negociou com a Inglaterra a emancipao de
                      dois pases: ndia e Paquisto (de maioria Muulmana).
    Documento 3            Os movimentos nacionalistas uniram povos na busca da indepen-
                         dncia, porm no alteraram a situao de extrema desigualdade
                           social nestas reas. Os pases recm independentes mantiveram a
                            estrutura econmica, ou seja, exportadores de matria prima e
                              importadores de produtos industrializados. A herana colonial
                                foi terrvel, traduzia-se na misria da maior parte da populao
                                 e na rivalidade de carter tnico e religioso.




                                   n Imperialismo. Charge, s/d. Fonte: www.habanaelegante.com


280 Relaesdepoder
                                                                                                 Histria



                PESQUISA

    Em grupo, faam uma pesquisa sobre a situao poltica da sia e da frica na atualidade, desta-
     cando os seguintes questionamentos:
     a) Existem pases, tanto na frica quanto na sia, que continuam sendo colnias de pases euro-
        peus? Justifique.
     b) Confirme, com exemplos, a existncia de conflitos locais na atualidade nestes continentes.



                ATIVIDADE

     Analise a imagem Imperialismo, presente no documento 3, registrando suas impresses quanto:
     a) O que representa o homem no centro da imagem?
     b) O que representa os fios em torno do homem?
     c) Para voc, qual a mensagem central da imagem. Justifique.



  Aformaodosregimestotalitrios:
  ameaaliberdade
    A "era da catstrofe". Foi assim que o historiador Eric Hobsbawm
(1917- ) denominou as quatro dcadas que vo do incio da Primei-
ra Guerra Mundial at os desdobramentos da Segunda Guerra Mundial
(anos 1910  dcada de 1940).
    No incio do sculo XX, a classe trabalhadora passou a exigir maior
participao poltica, principalmente atravs do voto secreto e univer-
sal, o qual garantiu a participao de boa parte da populao nas ques-
tes dos seus pases. Conseqentemente, surgiram partidos diferentes
dos existentes no sculo XIX para atender a esses interesses.
    De modo geral, os sindicatos e os movimentos dos trabalhadores
tiveram participao direta ou indiretamente na formao desses no-
vos partidos polticos. Aproveitando-se da situao em que se encon-
trava a Europa aps a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), as novas
correntes polticas basearam-se em discursos nacionalistas, criticando a
democracia elitista burguesa, com o objetivo de chegar ao poder com
o apoio das massas urbanas.
    No incio dos anos 30, partidos que propunham resolver a crise
econmica, social e poltica, atravs de aes autoritrias, ganharam
espao na sociedade europia. Mas foi na Itlia e na Alemanha que es-
sas aes conseguiram chegar ao poder desencadeando o nascimen-

                                                                       OEstadoimperialistaesuacrise 281
      EnsinoMdio

                      to de Estados totalitrios: o fascismo e o nazismo. Atravs de suas pro-
                      postas, convenceram a sociedade da poca que suas ideologias eram
                      a soluo imediata para a organizao social, poltica e econmica to
                      precisada no ps-guerra.
                          Diferente dos outros tipos de governos autoritrios e ditatoriais, es-
                      sa era uma forma de Estado historicamente nova, cuja ideologia tinha
                      por base a relao entre nao e Estado. Essa relao garantiu a for-
                      mao de um estado totalitrio, pois a nao era vista como uma me,
                      a quem todos deveriam se dedicar e obedecer, entretanto, ela se con-
                      fundia com o prprio Estado, que expressava a vontade da nao, ou
                      seja, do povo. Qualquer traio ao Estado seria uma traio  nao,
                      por isso deveria ser combatida sem piedade.
                          Este referencial pode ajudar no entendimento dos princpios do to-
                      talitarismo colocados em prtica na Itlia e Alemanha, como: a inter-
                      veno na vida pblica e a destruio dos grupos e instituies, tais
                      como: sindicatos, associaes, partidos polticos, entre outros.; o me-
                      do e a submisso; a criao e divulgao de crenas como verdades
                      absolutas, sem comprovao e verificao; a fuso de Estado e partido
                      (nico); o expansionismo (conquista de territrios); o uso da propa-
                      ganda autoritria gerando o medo e o terror; a concentrao do poder
                      nas mos de uma nica pessoa ou partido poltico, formando uma du-
                      pla autoridade  a do partido e a do Estado, a exemplo de Benito Mus-
                      solini (1883-1945), na Itlia, e Adolf Hitler (1889-1945), na Alemanha.
                      Foi na figura do ditador que o Estado totalitrio realizou-se plenamen-
                      te, estabelecendo normas e princpios que deveriam ser aceitos.
                          Os regimes totalitrios tiveram importante papel no acontecimento
                      do segundo conflito mundial (1939-1945) e este, por sua vez, contri-
                      buiu para o desmoronamento dos mesmos.


                        Aartenosregimestotalitrios
                        naAlemanhaeItlia
                          O fascismo e o nazismo utilizaram, de forma abrangente, a arte co-
                      mo meio para doutrinao ideolgica dos cidados italianos e alemes
                      (principalmente crianas e jovens), impondo a concepo do regime
                      atravs desta.
                          Cinema, teatro, msica, arquitetura, pintura, fotografia, entre outras
                      formas de expresses artsticas, estiveram a servio dos Estados totali-
                      trios tornando-os populares. Procuravam passar o sentimento de na-
                      cionalismo, o orgulho de pertencer quele povo, um modelo de um
                      novo homem e uma nova mulher, a beleza atravs da ordem e dis-
                      ciplina, demonstradas, tambm, nos grandes desfiles e manifestaes
                      de massa que reuniam milhares de pessoas, nos quais as bandeiras,
                      os discursos emocionantes dos lderes e outros smbolos traziam sen-

282 Relaesdepoder
                                                                                                     Histria

timentos de grandeza, fidelidade, juventude e                                                Documento 4
fora a estes povos. As imagens do nazismo
so exemplares ao representar estas manifes-
taes, como, por exemplo, a que est no do-
cumento 4.
    O estilo artstico escolhido pelo Estado de-
veria obedecer aos princpios da "arte ariana",
neoclssica, que se pretendia herdeira da ar-
te grega. Procura resgatar no passado mtico
dos gregos no s a beleza, mas o carter viril,
guerreiro e dominador de uma raa de guer-
reiros.
    Na Alemanha, destacou-se, entre as artes,
o interesse pela arquitetura e o cinema. Na
arquitetura foram construdos prdios monu-                                    n Desfile no aniversrio de Hi-
mentais, que objetivavam demonstrar a consci-                                    tler, 1939. (Hulton Deustsch).
ncia nacional e o orgulho de ser alemo.                                        Fonte: HOBSBAWM, 1998, ane-
                                                                                 xos pp. 404-405.
    No cinema, foram realizados milhares de filmes de curta e longa
durao, neste caso, o objetivo era fazer propaganda do regime. Al-
guns filmes eram explcitos em seu ataque aos judeus e comunistas,
denegrindo a imagem destes, como: O eterno judeu e O jovem hitlerista
Quex, ambos de 1940. Outros, menos diretos, tratavam de temas como:
o herosmo do esprito alemo, a bravura e o patriotismo. O triunfo da
vontade, de 1934 e Olympia, de 1936, produes cinematogrficas da ci-
neasta Leni Riefenstahl (1902-2003), so alguns exemplos.
    No teatro, a pea O Mercador de Veneza, do ingls William Shakespe-
are (1564-1616), foi apresentada constantemente. Esta pea teatral con-
ta a histria de Bassanio, um jovem que pede a Antonio um emprs-
timo de trs mil ducados para que possa cortejar. Antonio  rico, mas
no possua, no momento, o dinheiro para emprestar  Bassanio. Pa-
ra conseguir o dinheiro para o amigo, Antonio recorre ao judeu Shylo-
ck, que empresta a quantia, com a seguinte condio: se o emprstimo
no for pago em trs meses, Antonio dar um pedao de sua prpria
pele a Shylock.




                ATIVIDADE

    Analise a imagem presente no documento 4 sobre o aniversrio de Hitler e registre suas impresses
     em relao: aos smbolos e sua disposio, aos militares e sua organizao, aos espectadores.
    Converse com seus colegas de classe e escrevam uma narrativa histrica sobre como a cultura foi
     um recurso importante para os regimes totalitrios.



                                                                       OEstadoimperialistaesuacrise 283
        EnsinoMdio

                                  Aindstriaculturaleasnaesimperialistas
                                   A indstria cultural  um fenmeno da industrializao que se de-
                               senvolveu a partir do sculo XVIII, na qual os produtos culturais (ro-
                               mances, pinturas, novelas, msicas, etc.), passaram a ser produzidos
                               em srie. Sendo assim, a cultura tambm foi transformada em merca-
                               doria. Ela deixou de ser vista como instrumento da livre expresso e
                               de conhecimento, e passou  condio de produto permutvel em di-
                               nheiro e consumvel como qualquer outro.
                                   A produo da indstria cultural foi caracterizada como cultura de
                               massa, ou seja, produzida para um grande nmero de pessoas. Para
                               atingir seus objetivos, este setor passou a utilizar os meios de comuni-
                               cao de massa (TV, rdio, revistas, jornais, etc.).
                                   Para o cientista poltico Norberto Bobbio (1909-2004), o uso da in-
                               formao realizado pela indstria cultural produz doutrinao, uma
                               vez que dita o que ser veiculado pela mdia, filtrando o que ser pro-
                               duzido e impedindo a difuso da cultura popular e a crtica  cultura
                               dominante. A indstria cultural foi utilizada pelas naes imperialistas
                               e/ou totalitrias, visto que era importante transmitirem suas formas de
                               pensamento e doutrinao impondo seus valores e costumes.
                                   Neste sentido, a indstria cultural, at a dcada de 1950, pode ser
                               vista no como veculo de difuso da cultura, mas, pelo contrrio, co-
                               mo meio de dificultar o acesso  cultura e de destruio da cultura po-
                               pular, padronizando os padres culturais em vrias partes do mundo.

         Texto 2
         A indstria cultural do imperialismo  parte intrnseca das relaes imperialista de produo. Essa in-
     dstria est basicamente determinada pelas exigncias das relaes, processos e estruturas de apro-
     priao econmica e dominao poltica que garantem a reproduo do sistema capitalista em escala
     mundial. Assim sendo, a indstria cultural do imperialismo est organizada para manipular, sob as mais
     variadas formas, as pessoas, os grupos e as classes sociais subalternas. Mas, essa manipulao no
     se limita a este ou aquele aspecto dessa indstria. Realiza-se em mltiplas e continuadas formas, im-
     plicando vrios graus de represso do pensamento. As pessoas, grupos e classes sociais alcanados
     por essa indstria esto induzidos a expressar-se principalmente nos termos e segundo os objetivos
     dos que a controlam. Todo o objetivo de expresso  esquecido, proibido ou reprimido. A prpria ma-
     neira de transmitir informaes e interpretaes, alm da seleo de uma e outras, induz as gentes e a
     um modo de pensar e expressar-se alienado. (IANNI, 1979, p. 56).



                      ATIVIDADE

        Leia o texto 2. Depois, construa uma narrativa histrica sobre a indstria cultural como meio para
         justificar a dominao do Estado imperialista sob os povos dominados.


284 Relaesdepoder
                                                                                                                                                                             Histria


                                  Atualmente, voc pode perceber a influncia de produtos culturais de naes estrangeiras em nos-
                                   so pas. Tais produtos podem alterar os hbitos culturais de parte da populao (principalmente os
                                   jovens). Cite exemplos de filmes, moda, linguagem, msica, e suas influncias na sociedade brasi-
                                   leira.


                              OsEstadoseabipolarizao
                              domundocontemporneo
                                A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) deixou uma herana per-
                           versa para os pases da Europa e demais regies beligerantes da sia.
                           Cerca de 40 milhes de mortos s na Europa, destruio de cidades e
                           campos de cereais, por exemplo. Mas, seu principal legado pode ser
                           considerado o fim da importncia poltica das naes europias e a bi-
                           polarizao do mundo, ou seja, a diviso do planeta em dois plos po-
                           lticos de atrao, liderados pelos Estados Unidos da Amrica (EUA)
                           de um lado e pela Unio das Repblicas Socialistas Soviticas (URSS)
                           do outro.
                           Documento 5
n www.aldeaeducativa.com




                           n Conhecidos como os trs grandes, sentados, da esquerda para a direita, Winston Churchill ([1874-1965] Inglaterra), Franklin Delano Roosevelt ([1882-1945]
                             EUA) e Yosif Stalin ([1878-1953] URSS) na Conferncia de Yalta, fevereiro de 1945.




                                                                                                                                      OEstadoimperialistaesuacrise 285
       EnsinoMdio

                                   A bipolarizao do mundo, no qual dois pases (EUA e URSS) exer-
                              ciam fortes influncias sobre os demais pases, foi um perodo de con-
                              flitos e hostilidades que ficou conhecido como Guerra Fria, perduran-
                              do de 1947 a 1991.
                                   Por sua vez, a origem dos desentendimentos entre EUA e URSS es-
                              t relacionada com os acordos entre os pases vencedores da Grande
                              Guerra antes mesmo dela ter terminado. Nas Conferncias de Yalta (fe-
                              vereiro de 1945) e de Potsdam (julho de 1945  a guerra s terminou
                              em agosto de 1945), os grandes lderes se reuniram para organizar o
                              equilbrio de poder na Europa recm destruda. Os representantes dos
                              pases beligerantes vitoriosos queriam deixar assegurados seus interes-
                              ses estratgicos, econmicos e garantir reas de influncia tanto na Eu-
                              ropa quanto no resto do mundo.
                                   A diviso em dois blocos ficou explcita a partir de 1947, quando
                              o presidente dos Estados Unidos, Harry Trumam (1884-1972), em v-
                              rios pronunciamentos, criticava a URSS, expressando a necessidade de
                              conter o avano do comunismo no mundo, declarando o confronto
                              ideolgico entre as duas superpotncias, fato que ficou conhecido co-
                              mo doutrina Trumam.
                                   Neste perodo (dcada de 1940), os Estados Unidos e a Unio Sovi-
                              tica passaram a ser chamados de superpotncias, ou seja, super Estados,
                              seja por seu poder militar, econmico ou pela dimenso territorial.
                                   Voc pode se perguntar: por que deram o nome de Guerra Fria ao
                              perodo histrico que estamos estudando, que vai de 1945 a 1991?
                                   O termo "Guerra Fria" deve-se ao fato dos Estados envolvidos
                              (EUA/URSS) nunca terem se enfrentado diretamente. Havia somente a
                              expectativa, os confrontos ideolgicos, entretanto, eram freqentes os
                              alarmes e prontides.
                                   De forma simplificada, a Guerra Fria j foi explicada como o resul-
                              tado de um conflito entre um sistema poltico livre e outro autoritrio;
                              ou entre Oeste (EUA) e o Leste (URSS); a luta entre duas formas de
                              organizao econmica antagnicas, de um lado o capitalismo (repre-
                              sentado pelos EUA) do outro o socialismo (representado pela URSS).
                                   Mas qual teria sido o significado da Guerra Fria para pases do cha-
                              mado Terceiro Mundo, como: Brasil, Venezuela, Arglia ou Vietn?


        Quadro 1
          CAPITALISMO: regime econmico que se caracteriza pela posse privada da propriedade dos
     meios coletivos de produo e distribuio, pela livre concorrncia e pela procura do lucro (que  o mo-
     tor da economia). As empresas produzem para o mercado, ou seja, para aqueles que podem pagar. Isto
     aumenta a riqueza de um pequeno grupo e aumenta a desigualdade das condies humanas da maio-
     ria da populao em nvel nacional e internacional. Historicamente, o capitalismo evolui tomando formas
     diferentes: capitalismo comercial, industrial, financeiro, imperialista, etc.



286 Relaesdepoder
                                                                                                   Histria


     SOCIALISMO: as correntes socialistas aparecem em reao contra a teoria e prticas do liberalis-
 mo-econmico, segundo o qual o livre jogo das atividades individuais asseguraria o progresso da socie-
 dade e o bem pblico. Para os socialistas, o progresso da sociedade e o advento de um mundo mais
 justo s poderiam realizar-se atravs da ao coletiva e voluntria dos indivduos.
      O pensamento socialista apresenta algumas caractersticas, como: a posse coletiva dos meios de
 produo, a nacionalizao da economia, dirigida pelo Estado atravs de uma planificao visando sa-
 tisfazer a necessidade de todos e construir uma sociedade mais justa, tambm. (Adaptado de: BIROU, 1982,
 p. 56-57 e 378 - 379.)


    A ideologia da Guerra Fria era conveniente para os americanos e
soviticos, pois ela contribua e/ou justificava a dominao das super-
potncias sobre os pases do Terceiro Mundo. Por exemplo, na Nica-
rgua, os EUA afirmaram que os soviticos faziam parte do movimen-
to sandinista, servindo de justificativa para agredir o pequeno pas. Do
mesmo modo, a URSS invadiu o Afeganisto alegando a presena nor-
te-americana.
    Geralmente os Estados Unidos e a Unio Sovitica no se envol-
viam diretamente em conflitos, mas enviavam armas, ajuda financeira
e logstica, o que poderia definir os conflitos, que se davam em outras
regies, longe de seus territrios, em guerras localizadas, em pases da
frica, da sia e na Amrica Latina (como foi o caso da Coria e do
Vietn), ou em guerras de libertao nacional, originadas no processo
de independncia, das colnias africanas e asiticas.
    Era esta situao que definia a Guerra Fria, pois as duas superpo-
tncias nunca se enfrentavam diretamente.
    A partir de 1949, foram criados rgos de defesa coletiva, a Orga-
nizao do Tratado do Atlntico Norte (OTAN), com pases da Europa
Ocidental mais o Canad, e liderada pelos EUA. Do lado sovitico foi
criado o Pacto de Varsvia ou Tratado de Assistncia Mtua da Europa
Oriental, com o mesmo objetivo.
    Alm da forte propaganda ideolgica desenvolvida nos dois blocos,
a Guerra Fria foi fortemente marcada pela corrida armamentista, prin-
cipalmente pela posse e controle de armas nucleares. Aps os Estados
Unidos terem demonstrado o poder das armas que tinham em mos,
ao detonarem bombas atmicas sobre as cidades japonesas de Hiroshi-
ma e Nagasakai, em agosto de 1945, pensou-se que outras naes te-
riam acesso a essa tecnologia, e em 1949, a URSS conseguiu explodir
sua primeira bomba nuclear, instituindo o equilbrio do terror, visto que
as duas naes tinham poder para destruir uma  outra de forma defi-
nitiva, ou o choque entre ambas poderia destruir o mundo.
    Apesar da rivalidade entre as superpotncias, a Guerra Fria foi mar-
cada mais pela conteno do que agresso. Passado o perodo de ten-
so inicial, foi estabelecido a coexistncia pacfica, para designar o es-
tado latente de conflito contnuo pela inteno de paz e para assegurar
a condio de distenso.
                                                                         OEstadoimperialistaesuacrise 287
        EnsinoMdio



                      ATIVIDADE

        Com base no quadro 1, referente  comparao entre o capitalismo e o socialismo, produza uma
         charge que represente algumas caractersticas de ambos os sistemas.



                               CrisedosocialismonaUnioSovitica
                                 A Unio Sovitica, desde sua criao em 1922, possua uma econo-
                             mia guiada por planos, ou seja, economia planificada, cujo Estado pla-
                             nejava e determinava o que e como produzir. O investimento em infra-
                             estrutura e em indstrias de base (mquinas e equipamentos) permitiu
                             um grande crescimento econmico  URSS. Entretanto, a partir da d-
                             cada de 1970, a economia sovitica comeou a entrar em estagnao,
                             no conseguindo acompanhar as inovaes tcnico-cientficas do pe-
                             rodo.
                                 No modelo sovitico, o Estado era o agente centralizador da eco-
                             nomia, o que permitia o acesso de toda populao  produo acess-
                             vel. Por outro lado, a estrutura de poder centralizado ocasionou con-
                             trole excessivo, corrupo e falta de motivao, o que encareceu o
                             custo da produo.
                                 Alm disso, a burocracia, a estrutura do partido poltico nico com
                             privilgios para os altos dirigentes e a falta de liberdade dos cidados
                             contribuam para dificultar o desenvolvimento. Por isso, ao assumir o
                             poder, em 1985, Mikhail Gorbatchev (1931- ) props reformas que ob-
                             tiveram apoio de quadros econmicos, mas encontrou resistncia no
                             comando do partido/Estado.
                                 Durante seu governo (1985-1991), Gorbatchev procurou transfor-
                             mar o socialismo sovitico por meio de reformas de reestruturao
                             econmica, como a Perestroika (Reestruturao), e de abertura polti-
                             ca, como a Glasnost (Transparncia).
                                 O programa da Glasnost destinava-se a reintroduo de um Estado
                             constitucional e democrtico, com base nas leis, nas liberdades civis.
                             Para isto, deveria haver a separao entre o Partido Comunista Soviti-
                             co (PCUS) e o Estado, o que implicava no fim do unipartidarismo, de-
                             volvendo o poder aos sovietes.
                                 O novo sistema econmico da Perestroika legalizava pequenas em-
                             presas privadas (cooperativas), retirava os subsdios das empresas es-
                             tatais e favorecia a entrada de empresas estrangeiras, abrindo o merca-
                             do sovitico para a economia capitalista.
                                 Voc pode supor quais foram s conseqncias das reformas para
                             os soviticos?

288 Relaesdepoder
                                                                                                               Histria

    As reformas adotadas por Gorbachev levaram a URSS a uma gran-
de crise. O fim aos subsdios s empresas estatais e a entrada de pro-
dutos estrangeiros provocaram o desemprego de milhares de pessoas,
a alta dos preos e do custo de vida.
    No interior do Partido Comunista da URSS, havia muitas divergn-
cias com grupos almejando o retorno das prticas da economia pla-
nificada e grupos ultra-reformistas, liderados por Boris Yeltsin (1931-
2007), que exigiam reformas mais profundas.
    A poltica de aproximao com as economias ocidentais pratica-
mente determinava o fim da Guerra Fria, trazendo desdobramentos




                                                                                                                           n http://i.esmas.com
no contexto regional, como a derrubada pacfica ou violenta de dita-
duras na Europa Oriental. As repblicas socialistas do Leste Europeu
e da Europa Oriental foram abandonando os regimes comunistas, co-
mo, por exemplo: a Polnia (1990), Tchecoslovquia (1989), Hungria
(1989), Romnia (1989), Bulgria (1990). Em 1989, um smbolo do fim n Mikhail Gorbatchev - Secret-
da Guerra Fria, o Muro de Berlim, foi destrudo por civis e sem a inter-   rio-geral do Partido Comunista da
                                                                           URSS (1985 a 1991)
ferncia dos militares (como mostra a imagem do documento 6). Logo
aps, a Repblica Democrtica da Alemanha (Alemanha Oriental) foi
reintegrada  Repblica Federal da Alemanha (Alemanha Ocidental),
formando um s pas em 1990.
    Em 1988, iniciaram-se as primeiras frentes nacionalistas dentro da
URSS, objetivando mais autonomia e at a separao. As primeiras a
conseguirem tal intento foram as da regio bltica Estnia, Letnia, Li-
tunia. A partir de 1989 e 1990, o nacionalismo ganhou espao, pois
                                                                         Documento 6
os membros do Partido Comunista Sovitico (PCUS) estavam divididos
entre aqueles que almejavam conservar o regime sovitico como esta-
va e outros vidos por reformas radicais, liderados por Boris Yeltsin.
    Em 21 de agosto de 1991, os lderes conservadores do PCUS e as
Foras armadas deram um golpe de Estado, prenderam Gorbachev
e assumiram o poder. O ento recm eleito presidente da Federao
Russa, Boris Yeltsin, liderou a oposio ao golpe. Milhares de cidados


                                                                                                                          n http://inet.sitepac.pt
russos saram s ruas para pedir a volta de Gorbatchev, pondo fim a
tentativa dos golpistas de manter a URSS como era.
    Aps este episdio, paulatinamente, o lder da URSS perdia poder
ao mesmo tempo em que Yeltsin tinha sua posio reforada. Assim,
em 1991, o PCUS foi dissolvido e, em dezembro deste mesmo ano, n Cidados da Alemanha des-
                                                                           truindo o Muro de Berlim em
Gorbatchev renunciou e declarou a extino da Unio Sovitica.             09 de novembro de 1989.
    Os anos de 1992 e 1993 marcaram a difcil travessia, na ex-URSS,       O muro de Berlim foi constru-
                                                                           do em 1961, por determinao
para a economia de mercado (capitalista), no qual formou-se um gru-        do governo da Alemanha Oriental
po de novos ricos de um lado, e, do outro, empobreceu substancial-         (RDA), separava a parte oriental
mente a maior parte da populao.                                          (socialista) da parte ocidental (ca-
                                                                                       pitalista) da cidade de Berlim.




                                                                            OEstadoimperialistaesuacrise 289
        EnsinoMdio



                      PESQUISA

        Para que voc tenha uma boa compreenso do regime que subistituiu o socialismo nos pases do
         Leste Europeu, faz se necessrio o entendimento do conceito de liberalismo.
        Pesquise o significado poltico do conceito de liberalismo.
        Analise o processo histrico em que o conceito de liberalismo foi criado e como o Estado e a eco-
         nomia se organizou a partir deste conceito. (Sugesto: Leia o Folhas Vida urbana e industriali-
         zao no sculo XIX, pois ele poder ajud-lo a realizar a atividade proposta.




                      ATIVIDADE

        Com base nos textos e outras consultas bibliogrficas que voc poder fazer responda. Por que os
         EUA e URSS  saram como potncias econmicas aps a Segunda Guerra Mundial em detrimen-
         to dos demais pases envolvidos no conflito.
        Relacione a crise do socialismo na URSS com o fim da bipolarizao.
        Construa uma narrativa histrica sobre "As conseqncias do fim da bipolarizao".


                                 OataqueaoImprioEstadunidense
                                   O colapso do socialismo na Unio Sovitica e no Leste europeu, ou
                               seja, o fim da Guerra Fria, favoreceu a disseminao do neoliberalis-
                               mo, uma vez que, no havia mais um regime que lhe fizesse oposio.
                               Este modelo econmico influenciou fortemente o processo de globali-
                               zao, pois tem como pressupostos: a ausncia do Estado sobre o con-
                               trole da economia e a diminuio dos direitos trabalhistas com o obje-
                               tivo de aumentar o lucro dos capitalistas.
                                   Ao final da dcada de 1990, o modelo neoliberal e o processo de
                               globalizao passaram a ser objeto de inmeros questionamentos e
                               crticas. A globalizao ou capitalismo global, favoreceu as naes de-
                               senvolvidas em detrimento das naes em desenvolvimento ao forar
                               estas ltimas a ajustarem-se s condies competitivas globais, moder-
                               nizando a produo com a utilizao da automao ocasionando o au-
                               mento do desemprego, entre outros fatores. Com isso, as diferenas
                               entre os pases do Norte e do Sul tenderam a aumentar. Neste contex-
                               to, destacou-se a supremacia poltica, econmica e militar dos EUA, a
                               qual gerou a oposio de vrios grupos ao redor do mundo.
                                   Um exemplo desta foi materializada com os ataques de 11 de se-
                               tembro 2001. Neste dia os Estados Unidos sofreram um atentado ter-
                               rorista de grande repercusso interna e externa. Quatro avies de em-

290 Relaesdepoder
                                                                                                Histria

presas norte-americanas foram seqestrados, trs deles foram lanados Documento 7
contra smbolos do poderio econmicos e militares do Estado. Sen-
do que dois deles atingiram as torres do Word Trade Center em No-
va York, um outro foi lanado sobre o Pentgono, em Washington. O
quarto avio caiu na Pensilvnia sem alcanar seu objetivo, possivel-
mente a Casa Branca.                                                   n Imagem das torres do World
   Este episdio no pode ser entendido sem considerar as mudanas       Trade Center em chamas. ht-
                                                                         tp://carvfernandes1.no.sapo.pt
que ocorreram no mundo. Os EUA logo aps o fim da Guerra Fria pas-
saram a ser considerados a nica superpotncia mundial, um imprio
implacvel, hegemnico, com interferncia em muitas partes do mun-
do, apologista da globalizao ou da mundializao do capitalismo.
   O ataque s torres gmeas, em 11 de setembro de 2001, alm de
mostrar aos EUA que eles tambm eram vulnerveis, significou um en-
frentamento ao imperialismo norte-americano.
   Em entrevista ao jornal Folha de So Paulo, Eric Hobsbawm falou so-
bre os atentados aos EUA. Veja o que pensa este importante historia-
dor de nosso sculo sobre este fato.


     Documento 8
       Folha Por que um ataque to violento a smbolos do poder econmico e militar norte-america-
             no?
  Hobsbawm Seria mais fcil saber se conhecssemos exatamente quem o realizou. Mas,  claramen-
           te um grupo de revolucionrios islmicos, fundamentalistas, porque h muito ressenti-
           mento, particularmente no mundo islmico, contra os EUA. Em parte porque  a maior
           superpotncia e, mais especificamente, por causa do conflito palestino-israelense.
       Folha Qual foi o alvo exato das ataques?
  Hobsbawm Foi um ataque aos EUA.  um ataque feito por pessoas que esto extremamente bem-
           organizadas e que, eu acho, descobriram que o mundo moderno  ao mesmo tempo
           globalizado e extremamente complexo. Portanto, sensvel, vulnervel a qualquer tipo de
           interrupo em seus fluxos normais. E exploraram isto de forma bem-sucedida.
       Folha Ento a globalizao foi usada como arma?
  Hobsbawm Tornou-se possvel haver movimentos como esse por causa da moderna globalizao.
           Esta  uma operao que foi feita, digamos, por 50 a 100 pessoas. Quase todas mora-
           vam nos EUA havia um ou dois anos.
               O mundo est cheio de pessoas indo de um pas para outro, no  nada surpreendente
               encontrar um grupo de 25, 30 jovens sauditas ou iemenistas em qualquer universidade.
               Hoje, encontr-las em universidades alems, americanas ou canadenses  normal. Isso
               viabiliza este tipo de atividade terrorista global.
       Folha Qual ser o tamanho deste trauma nos EUA?  comparado ao assassinato de Kennedy
             ou  Guerra do Vietn?
  Hobsbawm Tenho certeza de que  um trauma enorme para os americanos porque, pela primeira vez
           na histria, operaes militares estrangeiras tiveram um impacto no territrio dos EUA.



                                                                      OEstadoimperialistaesuacrise 291
        EnsinoMdio


                   No sculo 20, um sculo cheio de guerras mundiais, elas aconteceram em qualquer ou-
                   tro lugar que no nos EUA. Agora, pela primeira vez, o centro exato dos EUA, o centro
                   militar, centro econmico, foi diretamente afetado. E esse  o trauma.(...)
           Folha Que tipo de conseqncias haver para os fundamentos da nao americana? O Sr. te-
                 me que o combate ao terrorismo resulte em suspenso de liberdades civis?
     Hobsbawm Eu acho que a estrutura da Repblica americana  suficientemente forte para resistir a is-
              so. A democracia americana vai continuar, mas sem dvida haver episdios em que os
              americanos tentaro ficar mais burocrticos ou limitar liberdades civis. Mas sero apenas
              episdios.
                   A fora da Amrica est na natureza pluralista de sua estrutura. (...)
                                    n (Extrado de Folha de So Paulo, So Paulo, 18 set. 2001, Caderno Especial Guerra na Amrica, p.10).




                      ATIVIDADE

        A partir da entrevista presente no documento 8, discuta, em grupos, as seguintes questes:
         a) Que relaes podem-se estabelecer entre os EUA e o resto do mundo?
         b) Para o historiador, a globalizao facilitou a ao dos terroristas? Como esta
             questo  abordada por ele?
         c) Procure estabelecer relaes entre os atentados de 11/09/2001 e o fim da
            Guerra Fria?
         d) Depois de discutir e registrar suas opinies, escolha um representante do grupo
            para apresent-las  toda classe.




292 Relaesdepoder
                                                                                            Histria

 RefernciasBibliogrficas
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 ______. A dos extremos: o breve sculo XX: 1914-1991. So Paulo: Cia das Letras, 1998.
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 Obrasconsultadas
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 Contexto, 1994.




                                                                   OEstadoimperialistaesuacrise 293
       EnsinoMdio




            I        z UNIDADETEMTICAIV:Movimentossociais,

            n          polticoseculturais:relaesdedominaoe
                       resistncia

            t                              "Quem tem conscincia para ter coragem
                                             quem tem a fora de saber que existe
                                              e no centro da prpria engrenagem
                                               inventa a contra-mola que resiste"


            r        n (Banda Secos e Molhados [1973-1974 e 1977-1999]. Primavera nos dentes. LP Secos e Molhados, faixa 5,
                       Continental, 1973. Composio: Joo Ricardo e Joo Apolinrio) .




            o            Qual a relao entre essa passagem da letra da banda Secos e
                     Molhados com a unidade temtica aqui apresentada? Como era o
                     contexto histrico que possibilitou que essas palavras fossem sonhadas,



            d
                     faladas e postas em prtica por homens e mulheres?
                         Esta unidade temtica focaliza os sujeitos histricos e as respectivas
                     aes e projetos de futuro em diferentes pocas e sociedades.
                     Consideramos as relaes de dominao e de resistncia que os



            u
                     constituram ao longo do processo histrico.
                         As aes dos movimentos sociais, polticos e culturais do presente
                     apresentam continuidades e mudanas no que diz respeito s aes
                     dos movimentos das sociedades passadas. Quais seriam elas? Quem



            
                     eram os sujeitos histricos que constituram esses movimentos? Como
                     se davam as relaes entre as estruturas de dominao sociais, polticas
                     e culturais e as respectivas resistncias? Essas relaes eram somente
                     conflitivas ou havia possibilidades de consensos entre os sujeitos
                     histricos. Como esses movimentos eram organizados nos diferentes


                    contextos espao-temporais?




            o
294 Introduo
                                                                              Histria




                                                                          H
                                                                          I
                                                                          S
    Dentre as mudanas produzidas ao longo do processo histrico
podemos destacar a luta pela definio dos direitos de cidadania seja
na participao poltica, seja numa srie de reivindicaes ligados 
                                                                          T
busca da dignidade humana, ao respeito s identidades dos sujeitos
histricos, ao acesso  terra, ao voto, aos direitos trabalhistas entre
tantas outras lutas que travaram. Enfim, resistiram e lutaram pela
construo de uma sociedade justa. Homens e mulheres morreram
para por em prtica seus sonhos e muitos deles transformaram esses
                                                                          
ideais em realidade.
    Portanto, qual o significado dessas lutas para a sociedade
contempornea e seus respectivos projetos de futuro? Essa questo
nortear as investigaes a serem desenvolvidas nesta unidade
                                                                          R
temtica.

                                                                          I
                                                                          A

                                                                                         295
        EnsinoMdio




296 RelaesCulturais
                                                                                                                    Histria




                                                                                                       16
                                                                    RELAES CULTURAIS:
                                                     Relaes de dominao e resistncia
                                                        nas sociedades grega e romana na
                                                antigidade: mulheres, plebeus e escravos
                                                                                              n Fbio de Oliveira Cardoso1



                                                         s sujeitos oprimidos, ao longo da histria, foram
                                                         representados na historiografia, na literatura, nos
                                                        meios de comunicao de massa, nos livros didti-
                                                      cos de vrias formas, mas geralmente predominaram
                                               as representaes produzidas pelas classes dominantes.
                                               Desta forma, ao observar o pster do filme, qual o tipo
                                               de representaes lhe sugere o personagem Spartacus? Esta
                                               imagem teria sido real ou somente uma fico? Como foi
                                               que os escravos lutaram contra a escravido na antigidade
                                               romana?
                                               Com os plebeus romanos ocorreram os mesmos fenme-
                                               nos?
                                               E quanto s mulheres da sociedade greco-romana? O que
                                               voc conhece em relao a elas? Voc sabe de suas histrias
                                               de resistncia que foram transformadas em filme, literatura
                                               ou msica?
                                               Quais foram as formas de resistncias que esses sujeitos so-
                                               ciais desenvolveram na antigidade grega e romana?
                                                                       n www.webcine.com.br




                                                                                                    n Pster do filme
                                                                                                      Spartacus. Es-
                                                                                                      tados Unidos da
Colgio Estadual Tania Varela  Maring  PR
1
                                                                                                      Amrica, 1960,
                                                                                                      direo de Stanley
                                                                                                      Kubrick.
    Relaesdedominaoeresistncianassociedadesgregaeromananaantigidade:mulheres,plebeuseescravos                            297
        EnsinoMdio

                          Asmulheresnasociedadegrega
                            Na Grcia arcaica, anterior ao sculo XII a.C., as mulheres foram al-
                        tamente veneradas pela sociedade em que viviam, pois, como aconte-
                        cia em Creta e Micenas, possuam o domnio sobre a sua fecundidade,
                        tendo como conseqncia a possibilidade de escolher seus parceiros e
                        como teriam seus filhos, alm de viver em relativa igualdade de condi-
                        es com os homens, pelo menos em comparao com a maior parte
                        dos povos do Mar Mediterrneo, Europa e Oriente Mdio. Talvez seja
                        devido  existncia desta sociedade agrcola, chamada pelos historia-
                        dores de civilizao minica ou cretense, que os gregos criaram mitos
                        como o das amazonas.
                            No decorrer do processo das sucessivas invases nrdicas sobre os
                        povos gregos autctones da pennsula balcnica, das ilhas gregas e do
                        litoral sia Menor (atual Turquia), durante os sculos XII a VII a.C., as
                        mulheres perderam espao na sociedade e a condio de inferiorida-
                        de em relao aos homens foi imposta a elas. Isto ocorreu porque os
                        povos que invadiram esta regio, tanto os micnicos como os drios,
                        jnios e elios, constituam suas sociedades guerreiras e comerciais de
                        modo patriarcal, ou seja, os homens, na pessoa dos patriarcas, possu-
                        am o domnio total sobre a vida de seus familiares, incluindo as mu-
                        lheres, as crianas e os criados.
                            Mesmo no perodo da democracia em Atenas, durante o governo
                        de Clstenes (570-507 a.C.), entre 510-507 a.C., foi legalizada a exclu-
                        so da participao poltica das mulheres, das crianas, dos escravos e
                        dos estrangeiros. Portanto, as mulheres, nesta sociedade, sofriam dis-
                        criminaes tanto quanto os demais excludos, pois considerava-se ci-
                        dados apenas os indivduos nascidos em Atenas, do sexo masculino,
                        proprietrios de terras e somente esses que tinham direitos polticos.
                            As esposas legtimas eram as filhas dos cidados atenienses, criadas
                        de forma simples no gineceu (parte da casa grega destinada s mulhe-
                        res). As mulheres atenienses mudavam da tutela do pai para a do ma-
                        rido com o casamento. Quando vivas, passavam  autoridade do fi-
                        lho mais velho. Administravam a casa do marido  o oiks , vigiando
                        o servio das escravas e quase no saam, a no ser para irem a casa
                        dos seus pais ou para ir  casa de banho ou, s vezes, s festas religio-
                        sas. No podiam ir ao mercado, nem aos banquetes com o marido. A
                        ocupao delas era dar ao marido e aos filhos o que eles quisessem ter
                        e educar as filhas no gineceu.
                            A religio da cidade foi a nica atividade cvica aberta s mulheres
                        e s filhas dos cidados ateniense. A exemplo disso, percebeu-se a par-
                        ticipao das mulheres nas festas da Tesmofrias em honra de Dem-
                        ter, realizada em Atenas no ms de outubro durante os sculos VI ao
                        IV a.C. Essas mulheres organizavam altares e reuniam-se para um ban-
                        quete religioso no final das festas.

298 RelaesCulturais
                                                                                                       Histria

    J as mulheres livres de Esparta, cidade agrcola e guerreira da re-
gio da pennsula do Peloponeso, possuam maior liberdade do que as
mulheres de Atenas. Durante os sculos VI ao III a.C., tinham o dever
de dar a luz a filhos vigorosos e a praticar ginstica junto aos homens,
de cuidar da casa e exercer o comrcio. Alm disso, as mulheres per-
tencentes  aristocracia espartana possuam o direito de herana e in-
fluenciavam fortemente seus maridos a respeito das decises da plis.
    Entretanto, em cidades comerciais como Atenas, Megara e Corin-
to (estas ltimas so cidades porturias), existiam mulheres submeti-
das ao concubinato, o qual seria uma espcie de um semi-casamen-
to e, em alguns casos, at uma semi-prostituio. Isto porque a maior
parte das cortess ou hetaras ("companheiras"), destas cidades busca-
vam um cidado que lhes fornecesse uma velhice tranqila ao coloc-
las em suas casas como concubinas.
    A maioria destas mulheres foram crianas rejeitadas por seus pais
ou prisioneiras de guerra e expostas nas ruas das cidades gregas, onde
eram recolhidas por traficantes de escravos, militares ou piratas, que
as vendiam nos mercados como escravas. Eram compradas pelos ci-
dados das plis, mas, principalmente, por proxenetas (proprietrias e
"educadoras" de prostitutas), as quais geralmente eram mulheres que
herdavam este ofcio da me. Estas meninas tornavam-se, ento, as
prostitutas ou as porn (do grego "vendidas"). Algumas dessas crian-
as, devido a sua beleza fsica, eram recolhidas pelas proxenetas ou
aliciadas na profisso pelas suas prprias mes, por quem eram treina-
das para se tornarem as hetaras: as cortess de luxo. Essas mulheres
tambm possuam uma educao religiosa e freqentavam festas co-
mo as Adnias e as Afrodisacas de Corinto em honra aos deuses do
prazer e da beleza: Adnis e Afrodite. Alm disso, muitas dessas heta-
ras devotavam-se aos mistrios de Elusis, ligados  fertilidade, tor-
nando-se sacerdotisas.
    Contudo, transformar-se em concubina de um cidado e aproximar
sua existncia a das mulheres livres era o sonho de qualquer hetara,
pois, mesmo possuindo muitas virtudes, como ler, escrever, conversar,
filosofar, danar, tocar instrumentos musicais, entre outras, as cortess
viviam ameaadas pela misria. Essas mulheres estavam sempre a mer-
c da generosidade interessada dos cidados, como foi o caso da he-
tara Neera, ocorrido em 371 a.C.:


     Documento 1
     "Gostaria muito  diz ela a Estfanos  de me instalar em Atenas. Mas tenho medo de Frinion, pois
 ele certamente no gostou do que eu fiz.  um bruto e eu gostaria muito que tu te tornasses meu pro-
 tetor." (Ela pede a Estfanos que assuma o papel jurdico de "patro" em substituio a Frinion que, ten-
 do-a ficticiamente comprado,  seu protetor legal.).
     Ento, Estfanos a consolou e levantou-lhe o moral: "Se Frinion te tocar, ir se lamentar muito! Tu
 vais ser minha mulher; e vou dizer que teus filhos so meus; sero inscritos em minha fratria (cl familiar)
 e deles farei cidados. E ningum te tocar!"

 Relaesdedominaoeresistncianassociedadesgregaeromananaantigidade:mulheres,plebeuseescravos                  299
         EnsinoMdio


          Foi assim, portanto, que eles deixaram Megara e chegaram a Atenas, acompanhados dos trs filhos
      pequenos de Neera, dois meninos Proxenos e Ariston, e uma menina, Fano. Estfanos instalou toda a
      famlia numa pequena casa que possua perto da capela de Hermes Murmurante. Ele via duas vanta-
      gens nesta operao: em primeiro lugar, possuiria gratuitamente uma bela cortes; e, em segundo, ela
      lhe proporcionaria, graas  sua profisso, os meios com que viver e alimentar os habitantes da casa.
      Com efeito, ele prprio no tinha nenhuma ocupao confessvel e vivia graas ao dinheiro que con-
      seguia por meio da chantagem. (PSEUDO-DEMSTENES. Contra Neera (aproximadamente 340 a.C.) apud SALLES, 1982, p.
      126.).




                       ATIVIDADE

         Leia os fragmentos da cano Mulheres de Atenas composta, em 1976, por Chico Buarque de
          Holanda (1944-) e Augusto Boal (1931-):


                                 Documento 2
                                 Mulheres de Atenas
                                 Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
                                 Vivem pros seus maridos, orgulho e raa de Atenas
                                 Quando amadas, se perfumam
                                 Se banham com leite, se arrumam
                                 Suas melenas
                                 Quando fustigadas no choram,
                                 Se ajoelham, pedem, imploram
                                 Mais duras penas
                                 Cadenas
                                 Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
                                 Sofrem pros seus maridos, poder e fora de Atenas
                                 Quando eles embarcam, soldados
                                 Elas tecem longos bordados
                                 Mil quarentenas
                                 E quando eles voltam, sedentos
                                 Querem arrancar, violentos
                                 Carcias plenas, obscenas
                                 Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
                                 Despem-se pros maridos, bravos guerreiros de Atenas
                                 Quando eles se entopem de vinho
                                 Costumam buscar o carinho



300 RelaesCulturais
                                                                                                                    Histria


                                    De outras falenas
                                    Mas no fim da noite, aos pedaos
                                    Quase sempre voltam pros braos
                                    De suas pequenas
                                    Helenas
                                    (...)

 n (Composio: Chico Buarque de Holanda - Augusto Boal, 1976.).
   (http://www2.uol.com.br/chicobuarque/letras/mulheres_76.htm; Acesso em: 06 dez. 2005.)


     Aps a leitura dos fragmentos da cano Mulheres de Atenas, procure pesquisar no dicionrio os
      significados das palavras, presentes neste documento, que voc desconhece e anote-os.
     Interprete as partes que mais lhes chamaram ateno na cano do documento 2. Compare es-
      tas informaes com as relaes culturais e de poder expressas no documento 1.
     Identifique a relao que a cano, presente no documento 2, expressa no que se refere s mu-
      lheres gregas dos sculos VI ao IV a.C., e s mulheres da dcada de 1970. Depois escreva uma
      narrativa histrica comparando as diferenas e semelhanas das mulheres da antigidade grega
      com situaes vivenciadas pelas mulheres da dcada de 1970.


  Arepresentaodasmulheres
  nafilosofiagrega
    A aristocracia patriarcal grega no perodo clssico procurou refor-
ar a ideologia de que os homens eram superiores s mulheres e, por                         O filsofo Plato (427-347a.
                                                                                            C.), nasceu em Atenas, filho
isso, deveria submet-las a sua suposta condio de inferioridade. Esta
                                                                                            de famlia nobre e rica. Foi
aristocracia tinha como uma de suas ideologias a filosofia, que ora cri-
                                                                                            discpulo do filsofo Scra-
ticava esta dominao de gnero, ora a sustentava. Entre os aristocra-                      tes. Fundou em Atenas uma
tas que apoiavam esta dominao, pode-se citar o filsofo Plato. Per-                      escola, a Academia. Entre
ceba, no dilogo presente no documento 3, como este filsofo grego,                         as suas principais obras es-
na obra A repblica, justifica este preconceito de gnero a partir da                       to: A Repblica, As Leis,
comparao entre a fora fsica masculina e feminina:                                       Fdon, O Sofista.
                                                                                            n Extrada de: http://consciencia.
                                                                                              org. Acesso em: 13 dez. 2005.


      Documento 3


                                                 Dilogo entre Scrates e Glauco
     SCRATES (S.): Voc conhece alguma atividade humana em que o sexo masculino no se de-
 monstre, em todos os aspectos, superior ao sexo feminino? Ou seria realmente o caso de nos deter-
 mos a falar da tecelagem, da preparao de doces e dos temperos, em que o sexo feminino parece le-
 var ampla vantagem e no seria de todo ridculo que fosse suplantado?



 Relaesdedominaoeresistncianassociedadesgregaeromananaantigidade:mulheres,plebeuseescravos                                 301
        EnsinoMdio


          GLAUCO (G.): Voc est com a razo ao afirmar que, via de regra, o sexo feminino  inferior ao
      masculino. Isso no quer dizer que as mulheres, sob muitos aspectos, so superiores a muitos ho-
      mens. Em tese, porm,  como voc diz.
          S.: Assim, na administrao do Estado no h nenhuma funo prpria do homem ou da mulher
      enquanto tal, mas as inclinaes so casuais em ambos e por natureza a mulher tem o mesmo e todo
      o direito de assumir funes como o homem, embora ela seja inferior.
          G.: Por certo.
          S.: Logo, deveramos atribuir tudo aos homens e nada s mulheres?
          G.: Por que se haveria de agir assim?
          S.: Acho que, pelo contrrio, deveramos dizer que h mulheres aptas para a medicina e outras no,
      mulheres aptas para a msica e outras no.
          G.: Sem dvida.
          S.: E no existem mulheres aptas para a ginstica e para a guerra e outras no?
          G.: Acho que sim.
          S.: E mulheres amantes da sabedoria e outras no? Mulheres corajosas e mulheres covardes?
          G.: bvio que essas tambm existem.
          S.: Logo, existem tambm mulheres guerreiras e mulheres incapazes de exercer essa funo. No
      escolhemos tambm os defensores do sexo masculino com base nessa propenso?
          G.:  verdade.
          S.: Concluiremos, pois, que o homem e a mulher tm ambos a mesma inclinao natural para de-
      fender o Estado, diferenciando-se porque a mulher  mais fraca e o homem  mais forte.
          G.: Parece que  assim mesmo. (PLATO, [380 a.c] 2005, p. 160-161.)

                                   Entretanto, alguns filsofos, como Protgoras de Abdera (480-410
                               a.C.), pregavam, a partir de uma viso radicalmente democrtica, a de-
                               fesa da igualdade nas relaes de poder entre os homens e as mulhe-
                               res, pois, para eles, todos os seres humanos seriam dotados da "arte
                               poltica", ou seja, da capacidade para administrar e para governar a ci-
                               dade. Alm disso, as mulheres, na sociedade ateniense do sculo IV
                               a.C., j detinham o poder de administrar o oiks (a casa ou o domnio
                               da famlia) e, na sociedade espartana do mesmo perodo, podiam con-
                               trolar negcios externos as suas casas, tais como algumas atividades
                               comerciais conforme voc leu anteriormente.
                                   Neste contexto, o fragmento da pea Lisstrata ou A greve do sexo do
                               cmico Aristfanes (445-386 a.C.), escrita em 410 a.C., aponta para ar-
                               gumentos opostos aos concebidos por Plato:

          Documento 4
          Abre-se a porta da cidadela e aparece Lisstrata:
          COMISSRIO (C.): Muito bem. Antes de mais nada, quero saber por que vocs ocuparam a ci-
      dadela.
          LISSTRATA (L.): Para guardar o dinheiro do povo que est l no Tesouro e impedir vocs de fa-
      zerem guerras por causa dele.


302 RelaesCulturais
                                                                                                Histria


    C.: Ento  por causa do dinheiro que fazemos guerra?
    L.: Sim, senhor! Vocs e todos os outros.  para poderem roubar nos cargos pblicos que vocs
vivem armando encrencas. Vocs podem fazer o que quiserem, mas no dinheiro do povo, que est l
dentro, ningum mais pe a mo!
    C.: E voc? Que  que vai fazer?
    L.: Voc ainda pergunta? Agora somos ns, mulheres, que vamos administrar os dinheiros pblicos.
    C.: Vocs vo administrar o Tesouro?
    L.: Que h de estranho nisso? No somos ns que administramos os bens de vocs em nossas
casas?
    C.: Mas no  a mesma coisa!
    L.: Como no  a mesma coisa?
    C.: Os dinheiros pblicos so para a guerra.
    L.: Mas, para incio de conversa no  absolutamente necessrio que haja guerras. Agora seremos
ns, as mulheres, que cuidaremos da segurana de vocs.
    C.: Mas, vocs no tm o direito de fazer isso!
    L.: Mas, temos o dever de salv-lo, meu amigo.
    C.: Mas, onde vocs foram buscar essa idia de se meterem com a guerra e com a paz?
    L.: No princpio da guerra, ns, com a moderao prpria das mulheres, suportamos tudo de vo-
cs, homens (como vocs fizeram tolices!), pois vocs no nos deixavam abrir a boca. E vocs no fa-
ziam coisa alguma para nos agradar. Ns, que conhecamos vocs muito bem, quando s vezes ficva-
mos sabendo de resolues desastradas sobre assuntos importantssimos, perguntvamos a nossos
maridos: "Que foi que decidiram hoje na Assemblia a respeito da paz?" "Que  que voc tem com is-
so?", dizia meu marido. "Cale-se!" E eu me calava.
    CLEONICE: Ah! Mas, eu no me calava!
    L.: Vocs tomavam resolues idiotas e ns no podamos nem dar conselhos.
    C.: Mas como vocs conseguiro com essa desordem toda que h por a?
    L.: Como ns fazemos quando estamos bordando. Se a linha embaraa  porque h um n e en-
to desfazemos o n. Do mesmo modo, vamos desfazer esse n chamado guerra e outros. Primeiro,
usaramos uma linha dura. Depois,  tanta gente querendo ocupar os cargos pblicos que  como se
se quisesse enfiar uma poro de linhas ao mesmo tempo no buraco de uma agulha s. Isso no vai
mais acontecer! S entra na agulha linha fina. Linha que pretenda engrossar no entra! Mas, para os
esforos maiores cada um ter que cooperar com sua linha at formarmos uma corda bem forte, obra
da boa vontade de todos, nacionais e estrangeiros. Mais ainda: com muitas linhas podemos fazer teci-
dos para vestir o povo todo! Vocs no crem que eu possa dar bons conselhos  cidade? No  cri-
me ter nascido mulher, e o sexo no me impede de ter idias melhores que as que andam por a. Pos-
so dar ao pas outras coisas boas alm dos filhos que j dei! E vocs? No do mais nada! (Adaptado de
ARISTFANES, [410 a.C.] 1996, pp. 37-51.).




                   DEBATE

        Discuta com seus colegas sobre as argumentaes defendidas nestes dois dilogos.


Relaesdedominaoeresistncianassociedadesgregaeromananaantigidade:mulheres,plebeuseescravos            303
         EnsinoMdio



                         ATIVIDADE

          Escreva uma narrativa histrica sobre a possvel significao de cada dos dois documentos pa-
     ra os sujeitos histricos que viveram nas cidades gregas dos sculos V e IV a.C.




          Documento 5                               AimagemdamulhergreganasArtes
     Tal era o colquio que tinha entre si. Eu-
     rmaco dirigiu, depois, a Penlope es-           No sculo VIII a.C., a literatura grega retratou as mulhe-
     tas palavras:                                res de forma lendria, nas personagens de belas mulheres,
      Filha de Icrio, sensata Penlope, se      representadas nos poemas atribudos ao poeta Homero (c.
     todos os Aqueus do Argos jnio te vis-       sculo VIII a.C.): Ilada e Odissia (compiladas por escrito
     sem, ainda mais pretendentes, desde o        no sculo VI a.C.). Segundo o relato do poema Ilada, um
     romper da aurora, se banqueteariam no        dos fatos que desencadeou a guerra entre gregos e troia-
     teu palcio, porquanto excedes todas as      nos (c. 1200 a.C.) foi o rapto da encantadora e bela Hele-
     outras mulheres em beleza, estatura e        na, por Pris, filho de Pramo, rei de Tria. Ento, Menelau,
     em ponderao.                               esposo de Helena e rei de Esparta, tentou resgatar Helena
     Disse-lhes em resposta a sensata Pe-         conquistando, assim, a cidadela de Tria, na sia Menor.
     nlope:
                                                      J na histria representada no poema da Odissia, a per-
      Eurmaco, os meus dotes  a beleza e
                                                  sonagem de Penlope aparecia como a esposa fiel ao ma-
     o aspecto do corpo  foram destrudos
                                                  rido Ulisses (Odisseu), rei de taca, que partiu para a con-
     pelos imortais, no dia, em que os Argi-
                                                  quista de Tria. Penlope esperou o retorno do marido,
     vos embarcaram para lion com Ulisses,
     o meu esposo. Se ele regressasse, pa-        por vinte anos e resistiu aos seus pretendentes, at que
     ra cuidar da minha existncia, a maior e     Ulisses retornasse para sua casa na ilha de taca. Neste pe-
     mais bela seria, ento, a minha glria.      rodo, as mulheres tinham uma importncia fundamental
     Assim, angustio-me, oprimida por tan-        para as relaes de poder dos reinos gregos, pois os laos
     tos males, que um deus me enviou.            matrimoniais consolidavam ou destruam alianas polticas
     (HOMERO, 1972 [sc. VI a.C.], p.265.)        entre os mesmos.




                         ATIVIDADE

         Leia o documento 5. Analise a histria da personagem Penlope baseando-se nos fragmentos da
          Odissia de Homero. Depois, procure fazer um relato escrito das caractersticas de Penlope.
         Se possvel, combine com os colegas e seu professor (a) para assistirem ao filme Tria. Depois, dis-
          cuta com os colegas os papis representados pelas mulheres neste filme.
         A histria e a beleza lendria de Helena, narrada na Ilada de Homero, chamou a ateno de vrios
          artistas, os quais buscaram represent-la de vrias formas: nas esttuas, nos quadros e no cinema.



304 RelaesCulturais
                                                                                                                                                                  Histria


     Analise as imagens presentes nos documentos 4, 5 e 6, considerando:
     -   os diferentes tipos de fonte que representam as imagens presentes nos documentos 4, 5 e 6;
     -   os diferentes contextos histricos de cada documento respectivamente;
     -   como a personagem Helena  representada nos respectivos contextos histricos de produo
         de cada um dos documentos;
     -   qual a relao desta personagem com o modo como so representadas as mulheres pelos gre-
         gos dos sculos VI a IV a.C.
    A partir desses dados, descreva a sua representao das mulheres da antigidade grega.

                      Documento 4                              Documento 5                                            Documento 6
          n www.cyberartes.com.br




                                                                                n http://adorocinema.cidadeinternet.com.br
            n Esttua grega de
              Helena (sculo V
              a.C.)
                                    n http://consciencia.org




                                                                                                                             n Pster de Helena no filme Troy,
                                                                                                                               em 2004. Tria. EUA, 2004. Dire-
                                                                                                                               o: Wolfgang Petersen.
                                              n EVELYN DE MORGAN (1850-
                                                1919). Helena de Tria, 1898.
                                                leo sobre tela. S/l.



  Asmulheresnasociedaderomana
   Na sociedade romana, do perodo da Repblica (509-27 a.C.), a
mulher casada (matrona) quase sempre aparecia ao lado do marido,
participando das festas, das honrarias da vida pblica, da administra-
o da casa, como fiel e colaboradora do marido.
   No perodo Imperial (27 a.C. - 476 d.C.), as mulheres romanas, que
no podiam ou no queriam exercer as funes maternas, estudavam
processos, discutiam poltica, falavam de novidades e expunham, na
presena do marido, suas teorias e planos a generais, tal como ocorria
com as mulheres espartanas dos sculos VII a III a.C. Muitas matronas
gozavam de confiana dos maridos, saindo para fazer visitas e compras
nos armazns. Durante a noite, acompanhavam os maridos aos ban-
quetes e voltavam tarde para casa.
     A mulher romana foi retratada no fim do sculo I e incio do II
d.C., pelo seu firme carter herico de fidelidade, como o da jovem

 Relaesdedominaoeresistncianassociedadesgregaeromananaantigidade:mulheres,plebeuseescravos                                                                             305
        EnsinoMdio

                             esposa do filsofo estico Lucius Anneus Sneca (4 a.C  65 d.C.), v-
                             tima do imperador Nero (37-68 d.C.). Tambm foi lembrada de for-
                             ma lendria, como Lucrcia, que conquistou a imortalidade por ter si-
                             do violada.
                                 Mas, alm de algumas excees, a mulher romana estava sempre
                             sob o poder de um homem, do pater familias (chefe do lar), do mari-
                             do ou de um tutor.
                                 De acordo com um clculo aproximado da populao do Imprio
                             Romano, mais da metade das mulheres morriam antes de completa-
                             rem 40 anos de idade, devido a complicaes durante o parto. Soma-
                             va-se a isto, nas classes subalternas (escravas ou plebias pobres), a
                             vida exaustiva que estas mulheres levavam no mundo do trabalho ro-
                             mano.
                                 Voc pode perguntar-se: onde estavam as mulheres rebeldes?
                                 Algumas mulheres romanas buscaram na diverso uma forma de
                             igualdade aos homens. Junto com seus maridos nos anfiteatros, no
                             meio dos espectadores, divertiam-se com as lutas dos gladiadores.
                                 J as mulheres dos imperadores romanos e da nobreza senatorial,
                             ao longo dos sculos I e II d.C., travaram grandes lutas nos bastidores
                             do poder, as quais defendiam o trono para seus filhos, irmos e aman-
                             tes. Pois, de acordo com o sistema de valores predominantes na socie-
                             dade romana, estas mulheres da alta sociedade deveriam contentar-se
                             com as satisfaes alheias, o xito dos homens e do Estado, enquan-
                             to cuidava da nova gerao masculina. Entretanto, essas mulheres no-
                             bres, como Jlia Cesaris (39 a.C. - ?) (filha do imperador Augusto [63a.
                             C.  14 d.C.]), Valeria Messalina (17-48 d.C.) (esposa do imperador
                             Cludio [10a.C.  51 d.C.]) e Cldia estavam suficientemente liberadas
                             de tabus sexuais para mostrarem publicamente sua liberdade de cos-
                             tumes, no obstante terem sido punidas com o exlio ou com a mor-
                             te por causa de seus atos e desejos. Isto, no entanto, no as impediu
                             de utilizarem sua seduo com proveito e sucesso nas formas predo-
                             minantes de sociabilidade da cultura romana: as relaes de favor e de
                             clientelismo que determinavam as relaes de poder romanas. Quanto
                             a esta forma de resistncia feminina, veja o que a historiografia relata:
         Texto 1
         Depois do fim do reinado de Augusto (63 a.C. - 14 d.C.), os costumes liberaram-se rapidamente
     durante os primeiros anos do reinado de Tibrio (42 a.C. - 37 d.C.). Algumas senhoras se fizeram ins-
     crever abertamente entre as prostitutas registradas pelas autoridades dos edis (magistrados guardies
     da ordem pblica). Isto lhes permitiu  pensavam elas  amar livremente quem quisessem, sem incor-
     rer em sanes. Tal como os jovens libertinos que, na mesma poca, aparecem na arena ou nos pal-
     cos, reclamando para si mesmos a desonra judicial, estas mulheres sacrificavam seu lugar na socieda-
     de  liberdade de costumes.
         Os homens, em Roma ou na Grcia, no se privavam de escolher para seus amores os que a so-
     ciedade ignora: e isso no lhes trazia nenhuma conseqncia. Para as mulheres da nobreza, em troca,


306 RelaesCulturais
                                                                                                            Histria


  um verdadeiro desafio ficar em companhia de um gladiador, de um escravo, dos desprezados. No
 lhes foi particularmente excitante fazer com que seu marido senador ou cavaleiro tenha de endossar a
 paternidade de uma criana cujos traos se assemelham aos de um gladiador, de um cantor, ou, pior
 ainda, aos dos escravos de sua prpria casa? (Adaptado de SALLES, 1982, pp. 272-273.)


                                                      Documento 7
    Contudo, no campo religioso, embora a re-
ligio tradicional romana fosse centrada na fa-
mlia e nos cultos do Estado, na qual os ho-
mens desempenhavam papel predominante,
as mulheres romanas encontraram, ainda que
de modo restrito, um espao onde dedicavam-
se mais que os homens. A exemplos disso,
ocorreu no santurio de Vesta, em que seis
mulheres ocupavam a funo de no deixar o
fogo sagrado apagar, eram as Virgens Vestais.
Sua importncia estava no fato de que o lar ro-
mano era protegido pela deusa Vesta. Outros
rituais foram reservados s mulheres, como o
culto a Bona Dea (a Boa Deusa).
    No perodo imperial (sculos I a V d.C.), as
mulheres foram atradas para um novo credo
religioso, cuja a idia central diferenciava-se     Estela funerria em mrmore; representa, em alto relevo,
de outras religies, no que referia-se  purifi-    uma mulher com um vu. O porte de toda mulher honra-
                                                    da  aquele que apenas deixa ver o rosto. Em Roma e no
cao,  castidade e ao celibato: o cristianis-
                                                    Oriente grego a mulher, quando sai, ocasionalmente, f-lo
mo. Tanto durante a vida de Jesus de Nazar
                                                    com a cabea coberta por um vu ou por um manto, evi-
(c. 8-4 a.C.  c. 29-36 d.C.)  seu fundador 
                                                    tando atrair os olhares. Esta atitude significa para todos os
como nas primeiras comunidades crists, es-         homens que no podem aproximar-se dela, pois est prote-
ta crena pregava que todas as pessoas eram         gida pela lei romana contra os agressores. No tempo da Re-
iguais perante Deus, fosse elas escravas, ho-       pblica este costume agudiza-se: os homens podem divor-
mens e mulheres ou crianas. Isto foi entendi-      ciar-se se a sua esposa sair com a cabea descoberta. As
do por muitas mulheres como uma forma de            prostitutas romanas so proibidas de usar o manto das ma-
libertao atravs de sua elevao espiritual       tronas. Primeira poca Imperial romana. Roma, Museu Ca-
(sublimao).                                       pitolino. (ROUSSELLE, 1993, p.375)




                ATIVIDADE

    Leia o texto 1 e o documento 7 observando a imagem. Depois de comparar os dois documen-
     tos, escreva sobre a condio das mulheres na sociedade romana e suas possibilidades de resis-
     tncia ao poder patriarcal. Leve em conta os seus valores culturais.


 Relaesdedominaoeresistncianassociedadesgregaeromananaantigidade:mulheres,plebeuseescravos                       307
        EnsinoMdio

                          Alutapordireitosda
                          plebenasociedaderomana
                            No perodo da monarquia (753-509 a.C.), a sociedade romana esta-
                        va composta basicamente por: patrcios, plebeus, clientes e escravos.
                        Esta sociedade desenvolveu-se baseada na desigualdade econmica,
                        social e poltica. Isto porque o grupo social dos patrcios possua as
                        principais terras, formava a aristocracia e detinha os direitos polticos
                        de governo. Entre os plebeus, encontravam-se os artesos, comercian-
                        tes e pequenos proprietrios, que no tinham direitos polticos e tam-
                        bm no podiam se casar com gente dos patrcios, alm de estarem
                        sujeitos  escravido por dvidas. J os clientes trabalhavam para os pa-
                        trcios em troca de proteo, e os escravos resultavam de pessoas que
                        no podiam pagar suas dvidas e de prisioneiros de guerra.
                            Mas, foi durante o perodo da Repblica romana (509-27 a.C.) que
                        os plebeus percorreram um caminho de lutas contra os patrcios, pa-
                        ra adquirir direitos sociais, jurdicos e polticos. Durante este processo,
                        os plebeus perceberam que os patrcios dependiam deles para manter
                        o funcionamento da economia, das finanas e do exrcito. Esses pres-
                        sionaram os patrcios retirando-se em 493 a.C., para o Monte Sagrado,
                        localizado a alguns quilmetros de Roma, e ameaaram fundar outra
                        cidade. Os patrcios entenderam que o exrcito, sem os plebeus, fica-
                        ria fraco e o Estado no teria condies de manter a cobrana de im-
                        postos. Ento, resolveram fazer concesses na criao de magistrados
                        especiais com a funo de defender os interesses da plebe, denomina-
                        dos: os "tribunos da plebe".
                            As presses e revoltas plebias continuaram, com outras reivindi-
                        caes, como o direito de poder ter conhecimento da lei para serem
                        julgados com igualdade aos patrcios. Por isso, foi redigido um cdi-
                        go de lei em 450 a.C., a Lei das Doze Tbuas, vlidas para os patrcios e
                        plebeus. O casamento entre cnjuges patrcios e plebeus foi permitido
                        em 445 a.C., com a Lei Canulia. Mas, na prtica, somente os ricos ple-
                        beus conseguiram casar-se com as mulheres patrcias.
                            Os plebeus ainda conquistaram, em 367 a.C., um cargo no consula-
                        do e o fim da escravido por dvida, com uma lei decretada por volta
                        de 366 a.C., o que colaborou, de certo modo, para a abolio da escra-
                        vido, de forma definitiva, de cidados romanos em 326 a.C.
                            Assim, as lutas que os plebeus empreenderam, nos sculos V a IV
                        a.C., provocaram algumas transformaes sociais e polticas em Roma.
                        No entanto, os cargos polticos passaram a ser divididos entre os ricos
                        plebeus e os patrcios, enquanto a maioria dos membros da classe ple-
                        blia continuava pobre, lutando por melhores condies de vida e pa-
                        ra ter acesso s terras conquistadas por Roma, distribudas entre os pa-
                        trcios.

308 RelaesCulturais
                                                                                                   Histria

    Para voc conhecer um pouco mais sobre algumas causas das riva-
lidades entre essas duas classes sociais, leia o texto 2.

     Texto 2
     O eixo de grande contenda  a consecuo por parte dos plebeus do direito de participao no
 ager publicus  ou seja: a pretenso de desfrutar de vantagens materiais idnticas s dos patrcios, es-
 tas determinadas pelos seus privilgios polticos. Esta pretenso foi caracterstica tanto dos plebeus
 pobres como dos bem acomodados. Tem-se manifestado com freqncia a opinio de que as reivin-
 dicaes econmicas dos plebeus pobres e as reivindicaes polticas dos plebeus ricos se fundiram
 para, unidos, poderem levar a cabo uma luta em prol de pretenses diferentes  o que deixa supor que
 os plebeus endinheirados no tinham como nico mbil aspiraes de tipo econmico. Mas no res-
 tam dvidas de que os fins perseguidos pelos plebeus ricos fossem tambm econmicos  ao passo
 que aos pobres importava, mais do que o acesso aos altos cargos polticos, que estas posies fos-
 sem ocupadas por inimigos da classe privilegiada. (BLOCH, 1956, p. 40-41)




                 ATIVIDADE

    Sintetize as idias do texto 2 organizando um quadro com as semelhanas e diferenas existentes
     entre as reivindicaes dos plebeus pobres e ricos.
    Elabore um quadro cronolgico com as conquistas dos plebeus.
    A partir disso, faa uma comparao, no que diz respeito s reivindicaes de direitos sociais, en-
     tre as classes plebias e patrcias romanas e as classes sociais do mundo contemporneo levando
     em conta seus respectivos contextos scio-histricos. Depois escreva uma narrativa histrica sobre
     o tema.


  Asrevoltasdosescravos
    O grande conflito social de carter estrutural que estigmatizou a so-
ciedade romana no foi somente entre patrcios e plebeus, mas sim en-
tre essas classes e os escravos. Isto porque a sociedade romana tinha
sua economia sustentada predominantemente por esta forma de rela-
o de trabalho: a escravido.
    As constantes guerras de conquistas promovidas por Roma possi-
bilitavam, cada vez mais, a expanso territorial e o aumento do nme-
ro de populaes conquistadas, as quais tinham seus membros, muitas
vezes, transformados em escravos. Esses fatos provocaram, durante o
perodo da Repblica, momentos de tenso social. Isto pelos seguin-
tes motivos: os escravos estavam presentes em praticamente todas as
profisses, tais como no trabalho domstico, agrcola, comercial, arte-
sanal, educacional, nas minas e para o Estado (como funcionrios, sol-
dados e gladiadores); e por fim, eram, na sua maioria, estrangeiros que
desejavam voltar s suas comunidades de origem a qualquer preo ou
desejavam ter os mesmos privilgios dos romanos.

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        EnsinoMdio

                                 Neste contexto social, destacaram-se os seguintes conflitos:
                              l A revolta dos escravos ocorrida entre 136 e 132 a.C., quando os es-
                                 cravos saquearam a Siclia.
                              l A revolta de Esprtaco, em Cpua, no sul da Pennsula Itlica, que
                                 contou com a unio de todos os bandos de escravos fugitivos da
                                 regio e de outros descontentes. Essa revolta ocorreu em 73 a.C.,
                                 quando um grupo de gladiadores, liderados por Esprtaco, fugiu
                                 do quartel de Cpua e foi para as encostas do Vesvio, onde orga-
                                 nizou um exrcito de escravos que lutou pela liberdade e desejava
                                 retornar s suas cidades de origem. Durante dois anos o grupo en-
                                 frentou vrias batalhas contra os romanos e venceu muitas delas.
                                 Porm, o exrcito romano o derrotou em 71 a.C.
                                 Voc poder entender a revolta de Esprtaco analisando o docu-
                              mento 8.

         Documento 8
          Eprtaco, Crixo, Enomau destruram as portas da escola de gladiadores mantida por Lntulo, e com
     trinta (e no mais!) companheiros de destino fugiram da Cpua. Tendo chamado os escravos  liberda-
     de, tiveram consigo imediatamente mais de dez mil homens; no lhes bastava mais terem fugido: eles
     queriam agora se vingar. Tomaram, por assim dizer, como primeiro altar, o Vesvio. E, como Cldio Gl-
     ber os mantivesse bloqueados ali, deixaram-se deslizar por cabos feitos de varas para dentro da mon-
     tanha, atingindo assim sua base e, por uma passagem impraticvel, surpreendendo subitamente o che-
     fe (romano), que no esperava nada disso, tomaram-lhe seu acampamento. Em seguida, trocaram de
     acampamento: atingiram o de Cora, percorreram aos poucos toda a Campanha e, no satisfeitos com
     a pilhagem de fazendas e burgos, arrasaram terrivelmente Nola e Licria, Trios e Metaponto. O afluxo
     cotidiano de novas tropas, fez deles, afinal, um verdadeiro exrcito: confeccionaram escudos informes
     de vime e de couro, forjaram seu ferro em forma de espadas e lanas e, para que no faltasse nenhum
     brilho a seu exrcito, domaram os bandos que encontraram formando uma cavalaria. Levaram a seu
     chefe insgnias e objetos tirados dos pretores: no os recusou, este mercenrio da Trcia, admitido no
     nosso exrcito, soldado desertor, bandido promovido a gladiador por sua fora!
         Comeou inclusive a atacar os cnsules nos Apeninos, despedaou o exrcito de Lntulo e per-
     to de Mutina destruiu o acampamento de C. Cssio. Orgulhoso de suas vitrias, pensou (e isto basta
     para nossa vergonha!) em atacar a cidade de Roma. Finalmente, todas as foras de nosso imprio fo-
     ram preparadas contra este gladiador e Licnio Crasso reivindicou a honra romana; vencidos e postos
     em fuga, refugiaram-se no extremo da Itlia. L, confinados num canto do Brcio, sem possuir embar-
     caes, procuraram evadir-se para a Siclia tentando em vo vencer a violenta corrente do estreito so-
     bre jangadas de feixes de madeira e de conjuntos de potes. Enfim, numa sada, correram eles em di-
     reo  uma morte digna de homens de valor; e, como convinha a um general gladiador, a luta foi sem
     perdo: o prprio Esprtaco, combatendo com muita bravura na primeira fila, foi morto como um impe-
     rador. (Adaptado de FLORO apud PINSKY, 1991, p. 13-14.)

                                 A escravido em Roma s foi mitigada por volta dos sculos III a V
                              d.C., no fim do perodo imperial, com a crise poltica e econmica do
                              Imprio Romano causada pela inflao, por uma sucesso de ditaduras
                              militares e pelas invases germnicas e asiticas em seu territrio, alm

310 RelaesCulturais
                                                                                                                       Histria

de revoltas nas provncias. O preo dos escravos passou a ficar mui-
to elevado para os senhores de terras e, aos poucos, estes escravos se
transformaram em colonos livres destes senhores, onde recebiam pro-
teo militar em troca do produto do seu trabalho no campo. Contu-
do, nas cidades, os escravos continuavam a existir em todos os setores
do mundo do trabalho romano.



                    ATIVIDADE

     Procure assitir ao filme Spartacus.
     Analise o documento 8 levando em considerao os motivos da revolta de Esprtaco e o desen-
      volvimento da mesma. Identifique os fragmentos do texto em que os escravos se utilizam de sm-
      bolos do poder romano. Por que se utilizam destas representaes de poder?  luz da sua com-
      preenso da sociedade romana por que Esprtaco teve tantos adeptos  sua causa? Produza uma
      narrativa histrica sobre este tema.
     Se voc conseguiu assistir ao filme, compare e escreva as diferenas e semelhanas nas represen-
      taes presentes nesta produo cinematogrfica com as surgidas no documento 8.

 Filme: Spartacus
Estados Unidos da Amrica, 1960, direo de Stanley Kubrick.
Sinopse: O filme narra a trajetria de Spartacus desde quando se tornou lder de 78 escravos que escaparam da escola de gladia-
dores em Capua, a 130 milhas de Roma, no ano 73 a.C. e suas lutas durante dois anos, no comando de 90 mil homens.
(http://www.webcine.com.br/filmessc/spartacu.htm; Acesso em: 02/12/2005).



  RefernciasBibliogrficas
     ARISTFANES. A greve dos sexos (Lisstrata); A revoluo das mulheres. Rio de Janeiro: Zahar,
     1996.
     BLOCH, Leon. Lutas sociais na Roma antiga. Lisboa: Publicaes Europa-Amrica, 1956.
     HOMERO. Odissia. Lisboa: Livraria S da Costa Editora, 1972.
     PINSKY, Jaime. 100 textos de histria antiga. 5. ed. So Paulo: Contexto, 1991.
     PLATO. A Repblica. So Paulo: Escala, 2005, (parte I).
     ROSTOVTZEFF, M. Histria de Roma. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1967.
     ROUSSELLE, Aline. A poltica dos corpos entre a procriao e continncia em Roma. IN:
     DUBY, Georges; PERROT, Michelle (org.). Histria das mulheres no ocidente: a antigidade. Porto:
     Edies Afrontramento,1993, v.1.
     SALLES, Catherine. Nos submundos da antigidade. So Paulo: Brasiliense, 1982.




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        EnsinoMdio

      Obrasconsultadas
       BONNARD, A. A civilizao grega. So Paulo: Livraria Martins Fontes, 1980.
       FINLEY, M I. Aspectos da antigidade. Rio de Janeiro: Edies 70, 1965.
       GIORDANI, M. C. Histria de Roma: Antigidade clssica II, 8. ed. Petrpolis: Vozes, 1985.
       MOSS, C.. O cidado na Grcia antiga. Lisboa: Edies 70, 1993.
       VIDAL-NAQUET, P. O mundo de Homero. So Paulo: Cia das Letras, 2002.




      DocumentosconsultadosOnline
       http://www.webcine.com.br/filmessc/spartacu.htm; Acesso em: 02 dez. 2005.
       http://www2.uol.com.br/chicobuarque/letras/mulheres_76.htm; Acesso em: 06 dez. 2005..
       http://adorocinema.cidadeinternet.com.br/filmes/troia/troia.htm; Acesso em: 15 dez. 2005.
       http://www.cinepop.com.br/filmes/troia.htm: Acesso em: 15 dez. 2005.



                      ANOTAES




312 RelaesCulturais
                                                                                         Histria



              ANOTAES




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       EnsinoMdio




314 Relaesculturais
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                                                                                             17
                                                               RELAES CULTURAIS:
                                                  Relaes de dominao e resistncia na
                                               sociedade medieval europia: camponeses,
                                                    artesos, mulheres, hereges e doentes
                                                                                                  n Sueli Dias1




                                                      obre as pessoas da Idade Mdia foi dito:




                                                       E ningum contestou?
                                                       Que relaes de dominao existiam neste
                                                       perodo da histria da humanidade?
                                                       Existiam manifestaes de resistncia?




Colgio Estadual Nilo Cairo  Apucarana  PR
1




      Relaesdedominaoeresistncianasociedademedievaleuropia:camponeses,artesos,mulheres,heregesedoentes     315
       EnsinoMdio

                                O(pr)conceitodeIdadeMdia
                                  Buscar compreender as relaes sociais do perodo denominado
                              medieval (sculos V a XV) far com que voc se depare com uma
                              relao de dominao na prpria acepo da palavra. O termo Idade
                              Mdia foi empregado primeiramente no sculo XVI, por homens que
                              naquela poca consideravam-se contemporneos e queriam designar
                              com desprezo o tempo entre eles e a Antiguidade Clssica.
                                  Pelo domnio poltico, econmico e cultural que a religio crist
                              exerceu sobre o Ocidente e sobre parte do Oriente, no Imprio
                              Bizantino, recorreu-se no sculo XVII e XVIII,  idia de Idade Mdia
                              como: "tempo de interrupo do progresso humano iniciado na anti-
                              guidade, tempo de barbrie, tempo de superstio e ignorncia, tempo
                              de estagnao, enfim, noite dos mil anos".
                                  O estilo do Romantismo, mais presente nas artes e na literatura
                              do sculo XIX, criou um novo (pr)conceito para a Idade Mdia,
                              radicalizando-a como perodo do surgimento das nacionalidades, por-
                              tanto uma poca a ser imitada. No sculo XX, estendendo-se para o incio
                              do sculo XXI, a historiografia procurou resgatar o conhecimento sobre
                              a Idade Mdia, baseando-se na compreenso e no no julgamento dos
                              fatos. Isso no significa que os historiadores contemporneos tenham
                              conhecido todas as relaes e caractersticas sobre o perodo medieval,
                              significa apenas que compreendeu-se no ser possvel entender um
                              perodo anterior a partir dos valores vividos no momento presente.
                              Este  o trabalho do historiador:

        Texto 1
         Ao examinar qualquer perodo do passado, o estudioso necessariamente trabalha com restos, com
     fragmentos  as fontes primrias, no jargo dos historiadores  desse passado, que portanto jamais po-
     der ser integralmente reconstitudo. Ademais, o olhar que o historiador lana sobre o passado no po-
     de deixar de ser um olhar influenciado pelo seu presente. Na clebre formulao de Lucien Febvre, fei-
     ta em 1942, "a Histria  filha de seu tempo", por isso cada poca tem "sua Grcia, sua Idade Mdia
     e seu Renascimento".
                                                                             (Adaptado de FRANCO JR, 2004, p.14)




                     ATIVIDADE

         Escreva uma narrativa histrica destacando o domnio que os perodos posteriores pretendem lan-
     ar quando criam (pr)conceitos sobre determinadas pocas.




316 Relaesculturais
                                                                                                      Histria

  SociedadesMedievais:
  umareflexosobreasociedadefeudal
    Muitas sociedades desenvolveram-se no perodo medieval, tanto no
Oriente, quanto no Ocidente. Entretanto, o modo pelo qual a Histria
explicava esta questo, baseando-se numa viso eurocntrica, fez com
que os reinos brbaros e as propriedades feudais do Ocidente europeu
ou o Imprio Bizantino e Imprio Islmico, no Oriente, entre os sculo
V e XV, se tornassem as referncias mais comuns.
    Nas relaes da sociedade feudal, que ocorreram em boa parte da
Europa ocidental, percebe-se a desigualdade social medida pela posse
ou excluso da terra e, para compreend-la,  preciso resgatar algumas
idias centrais sobre este sistema: o feudalismo.
    O feudalismo tem suas origens na crise do Imprio Romano e nas
estruturas polticas e econmicas dos reinos germnicos, especialmente
dos francos. Atingiu seu apogeu entre os sculos IX e XII. Foi um sistema
baseado nas relaes de suserania e vassalagem, na posse dos feudos
e na servido. Tinha o poder poltico descentralizado. Sua sociedade
era estamental, hierrquica e imobilista. Foi ideologicamente mantida
pelo teocentrismo imposto pela Igreja Catlica. Nesta sociedade os
mais pobres davam seus bens, suas propriedades e at mesmo sua
liberdade em troca da proteo e segurana de um senhor.
    Observe esta explicao histrica sobre uma condio social da
Idade Mdia, presente em sociedades feudais:

        Texto 2
     Tornar-se um "desclassificado" na Idade Mdia era sair de seu "estado", ser privado de seus instru-
 mentos de trabalho e dos signos de sua condio. Era para um campons, a perda de suas ferramen-
 tas, de seus animais; para um arteso, a perda de seu ofcio; para um mercador, a perda de sua loji-
 nha; para um clrigo, a perda de seus livros; para um nobre, a perda de seu cavalo e de suas armas.
 Sem isso, o homem j no era mais nada, visto que j no tinha meios de existncia social. A partir des-
 te momento, desclassificado, excludo, o homem estava voltado  emigrao e ao nomadismo. O po-
 bre estava s e sem vnculos.
                                                                                          (MOLLAT, 1989, p.6)




                   ATIVIDADE

        Produza um texto sobre as condies que podiam tornar uma pessoa excluda da sociedade Feu-
 dal.




    Relaesdedominaoeresistncianasociedademedievaleuropia:camponeses,artesos,mulheres,heregesedoentes      317
         EnsinoMdio


   Documento 1                              Algumasmanifestaesdedominaoe
                                            resistnciaentreoscamponeses
                                              Os camponeses que trabalhavam nas propriedades feudais rece-
                                          biam diversos nomes, conforme suas origens: podiam ser chamados de
                                          rsticos  em lembrana  designao romana de homem do campo;
                                          de vilos  quando habitavam as vilas; de rendeiros e foreiros 
                                          quando eram homens livres e deviam uma parte fixa da sua produo
                                          ao senhor; ou simplesmente de pobres. Normalmente trabalhavam e
   n O Trabalho dos servos num
                                          viviam em propriedades que pertenciam aos nobres ou  Igreja Catlica
     feudo, c. sculo XV - iluminura.     e estavam ligados aos seus senhores pelo compromisso da servido.
     S/l. - Fonte: http://sepiensa.org.
     mx/contenidos/historia_mundo/
                                              Este compromisso obrigava o pagamento de impostos, taxas e
     media/feudal/feudalismo/feudo_       servios, alm da obedincia s ordens dos senhores. Os foreiros e
     2.htm - Acesso em 28 nov.            rendeiros, por serem livres, tinham obrigaes fixas, mas os servos,
     2005.
                                          alm destas obrigaes, sujeitavam-se a muitas outras.

           Texto 3
        Voc j estudou, em outros momentos, as diferenas entre servos e escravos. Para relembrar: ser-
     vos eram trabalhadores dependentes. Recebiam do senhor lotes de terra, os mansos, de cujo cultivo
     dependia sua sobrevivncia e em troca da qual realizavam o pagamento de determinadas taxas quele
     senhor. Trabalhavam em lugares e tarefas indicados pelo senhor, sem nenhum tipo de remunerao. Ti-
     nham a posse vitalcia e hereditria de seus mansos e a proteo militar proporcionada pelo senhor.
         Os escravos existiam em pequena quantidade, nas sociedades feudais; eram mais comuns nas re-
     gies mais prximas do Imprio Bizantino ou Imprio Islmico; ao contrrio de trabalhadores dependen-
     tes, eram propriedade dos senhores.
                                                                                  (Adaptado de FRANCO JR., 2004, p. 91).

                                             Entre as formas de domnio dos senhores sobre os camponeses,
                                          servos ou no, podem-se destacar algumas obrigaes de trabalho que
                                          servem para ilustrar a excluso e dependncia a que estes camponeses
                                          estavam submetidos:
                                           derrubada de rvores, limpeza dos campos, plantio e colheita nas
                                             terras dos senhores (corvia);
                                           conserto de estradas, pontes e represas;
                                           pagamento pelo uso dos moinhos, fornos, passagem por estradas e
                                             pontes das propriedades feudais;
                                           pagamentos de dotes de casamento para as filhas do senhor;
                                           indenizao ao senhor pelo nascimento, morte ou casamento do
                                             servo;
                                           indenizao ao senhor pelo adultrio cometido pela esposa do
                                             servo;
                                           concesso ao senhor da esposa do servo na primeira noite do
                                             casal.

318 Relaesculturais
                                                                                                         Histria

   Estas obrigaes so ilustrativas porque no foram comuns  toda
sociedade feudal. Ocorreram em algumas regies e em diferentes
pocas no contexto da organizao da sociedade feudal europia.
   O domnio dos senhores sobre os camponeses aumentava a
desigualdade social e, muitas vezes, estes no tinham o necessrio
para o sustento. Como citou um historiador contemporneo, na obra
Os pobres na Idade Mdia (MOLLAT, 1989), os miserveis chegavam a fazer
"po de caroos de uva, flores de nogueira e razes de samambaia,
acompanhadas de relva comum dos campos". Esta realidade suscitou
diversas manifestaes de protesto dos camponeses e, igualmente,
diversas formas de represso. Observe este documento,  um fragmento
de um cdigo de leis do sculo VII, das regies feudais que compem,
atualmente, o norte da Itlia:

     Documento 2
     Se, em alguma de nossas terras, os rsticos ousarem tramar rebelio e se levantarem as armas, lu-
 tando contra qualquer um, se porventura roubarem escravos ou animais deixados pelo senhor na ca-
 sa de um servo seu, ento o senhor prejudicado dever ser indenizado. Se o senhor for ferido pelos re-
 voltosos, que estes ltimos paguem uma indenizao pela sua presuno. E se algum dos rsticos for
 morto nenhuma indenizao lhe ser devida porque quem o matou o fez para defender o que possua.
                                                              (Edictum Rotharis Regis apud MACEDO, 1995, p. 23).




                ATIVIDADE

    Analise o documento 2 e responda:
 - Quem so os personagens citados no documento?
 - Que tipo de relao esto estabelecendo?
 - Que significado este tipo de relao d  sociedade feudal?


    Muitas vezes, quanto maior a presso da nobreza sobre os excludos
da terra, maiores as estratgias de resistncia adotadas. Os camponeses
faziam roubos nas terras do senhor, caavam escondido nas florestas
dos nobres, incendiavam colheitas, prestavam um mal trabalho nas
corvias, recusavam-se em entregar impostos em espcie, fugiam dos
pagamentos e obrigaes do compromisso de servido.
    Entre os sculos X a XIII, ocorreram muitas manifestaes de
resistncia dos camponeses em diversas regies da Europa Feudal.
Foram manifestaes motivadas pelas pssimas colheitas e pelo medo
da fome. Reivindicavam melhores condies sociais e respeito 
identidade do campons, pois este sempre fora inferiorizado e excludo
pela nobreza.


    Relaesdedominaoeresistncianasociedademedievaleuropia:camponeses,artesos,mulheres,heregesedoentes         319
       EnsinoMdio

                               No ano de 996, na Normandia, regio do norte da Frana,
                           ocorreu uma grande revolta dos camponeses contra os senhores.
                           Os camponeses viviam em situao de misria: as colheitas eram
                           insuficientes, os impostos, alm de abusivos, eram pagos em espcie,
                           as roas viviam ameaadas ora pelas secas, ora pelas enchentes, as
                           guerras e invases eram constantes. Enfim, para diminuir a falta de
                           alimentos, os camponeses ocuparam alguns rios e florestas, praticaram
                           a caa e a pesca sem o consentimento dos senhores. Considerando
                           isso uma invaso de terras, o duque Ricardo II (996-1026) enviou o
                           conde Raoul com muitos cavaleiros para defender os interesses dos
                           nobres e "cuidar" dos camponeses.

        Documento 3
        Veja num trecho do poema pico de Robert Wace (1115-1175), O Romance de Rolando, escrito
     no sculo XI, o tratamento dado aos camponeses que se rebelaram na Normandia, em 996:
                                          Raoul exaltou-se de tal modo
                                          Que no fez julgamentos
                                          P-los todos tristes e doloridos
                                          A muitos arrancar os dentes
                                          E a outros mandou empalar
                                          Arrancar os olhos, cortar os pulsos
                                          A todos mandou assar os jarretes
                                          Mesmo que com isso morressem
                                          Outros foram queimados vivos
                                          Ou metidos em chumbo a ferver
                                          Assim mandou tratar a todos
                                          Ficaram com aspecto horroroso
                                          No foram depois disso vistos em parte nenhuma
                                          Onde no fossem bem reconhecidos
                                          A comuna ficou reduzida a nada
                                          E os vilos portaram-se bem
                                          Retiraram-se e demitiram-se
                                          Daquilo que tinham comeado
                                                                        (Adaptado de LE GOFF, 1994, p. 61).



                               Entre estas muitas manifestaes de resistncia, pode-se destacar a
                           revolta ocorrida na Frana, em 1358  A Jacquerie.
                               Foi uma revolta de apenas alguns dias, mas unificou diversas regies
                           da Frana contra os abusos da nobreza, o pagamento dos impostos e
                           a desigualdade social, especialmente em poca de pobreza e misria
                           crescentes, motivadas pela fome e pelas epidemias que assolaram a
                           Europa no sculo XIV.
                               Na Jacquerie, participavam camponeses, sobretudo servos que
                           reivindicavam o fim das obrigaes feudais, mas muitos burgueses,


320 Relaesculturais
                                                                                                               Histria
                                                                     Documento 4
que tambm se sentiam excludos diante do poder da
nobreza e da Igreja Catlica, juntaram-se aos jacques
(assim eram chamados os camponeses revoltosos). O
movimento tomou conotaes revolucionrias porque
pretendia a tomada do poder. Milhares de pessoas




                                                                                                                          n www.wikipedia.org
foram mortas e o poder da nobreza foi reafirmado.
   Para punir rebeldes que protestavam contra as
determinaes reais, foi construda, no reinado de
Carlos V (1338-1380), entre 1369 e 1380, uma priso:
a Bastilha.                                           n Jacquerie: A batalha de Meaux, c. sculo XIV - iluminura,
   Na Frana, a Bastilha tornou-se um smbolo da        Crnicas de Jean Froissart, sculo XIV.

represso e foi dominada em 1789, na Revoluo Francesa, como
                                                                               Documento 5
demonstrao da queda do poder da nobreza e do clero.


  Algumasmanifestaesdedominaoe
  resistncianascidades




                                                                                                                          n www.1675-1725.historicum.net/
    Entre os sculos XIV e XV, a Europa feudal vivenciou uma grande
crise ao acumular os problemas da misria e da fome com as doenas
que se tornavam epidemias,  por exemplo, a peste negra  e enfrentar
problemas de disputas polticas  como a Guerra dos Cem Anos (1337-
1453), entre Frana e Inglaterra. Para manter os privilgios do clero e
da nobreza e arrecadar mais impostos, surgiram leis como o Estatuto
dos Trabalhadores. Veja este fragmento da lei promulgada na Inglaterra                   n The Hell of the Living: a Bastilha
em 1351, no reinado de Eduardo III.                                                        em Paris, 1719  gravura.

      Documento 6
      Que cada homem e mulher do nosso reino de Inglaterra, de qualquer condio que seja, livre ou ser-
  vo, apto de corpo e com menos de sessenta anos (a estimativa de vida era de 50 anos), que no viva
  do comrcio nem exera qualquer ofcio, nem possua de prprio com que possa viver ser obrigado a
  servir quele que assim o convoca; e levar apenas o soldo, pagamento, remunerao ou salrio que
  era costume serem dados nos locais onde era obrigado a servir no vigsimo ano do nosso reinado em
  Inglaterra. Se qualquer homem ou mulher, sendo assim convocado para servir, no o fizer, e isto for pro-
  vado, ser imediatamente preso.
                                                        (Adaptado de Statutes of the realm apud MACEDO, 1995, p. 40).

    Que reaes de leis como essas provocaram na sociedade me-
dieval?
    Neste contexto, ocorreram muitas revoltas nas cidades, por meio
de tumultos, saques e depredaes com o objetivo de abolir impostos
e obrigaes feudais. Algumas revoltas eram revolucionrias porque
pretendiam uma redistribuio do poder poltico. Entre elas, a Haerelle,
na Normandia, em 1382, que contou com a participao dos artesos,
libertou presos polticos e queimou listas de cobrana de dvidas e
impostos.

     Relaesdedominaoeresistncianasociedademedievaleuropia:camponeses,artesos,mulheres,heregesedoentes                    321
         EnsinoMdio

                                            A Revolta dos Ciompi (os descalos), ocorrida na cidade-estado
                                        de Florena, na Itlia, em 1378, agrupou artesos e trabalhadores
                                        livres pobres (aougueiros, alfaiates, tintureiros, cortadores de l, etc).
                                        Juntos, estes grupos criaram um governo popular e corporaes para
                                        representar os interesses de artesos e trabalhadores pobres. Mas, as
                                        disputas internas pelo poder poltico enfraqueceram o movimento e a
                                        nobreza retomou o controle da sociedade, reprimindo violentamente
                                        os participantes da revolta.
                                           Mapa 1




                                           n Principais Revoltas Urbanas na Europa dos sculos XIV e XV. MACEDO, 1996, p. 49.

                                           Observe o documento 7.  um afresco pintado no sculo XIV,
                                        reproduzindo o ideal de governo da cidade italiana de Siena.
                  Documento 7




   n AMBROGIO LORENZETTI (c.
     1290 - c. 1348) - Alegoria do
     Bom Governo, c. 1337-1340.
     afresco, 296 x 1398 cm. Siena,
     Palazzo Pubblico, Sala dei Nove.

322 Relaesculturais
                                                                                                      Histria



                 ATIVIDADE

     Organize um quadro com as seguintes informaes sobre o documento 7:
    Quem o produziu?
    Qual o tema desta obra? Em que contexto foi produzido?
    Podemos estabelecer comparaes entre o governo ideal e o real das cidades italianas deste per-
     odo?
     As cenas representadas no afresco presente no documento 7 podem justificar a Revolta dos Ciom-
 pi? Escreva uma narrativa  respeito. Utilize os textos 2 e 3, os documentos 2, 3, 4, 5 e 6 e o mapa 1.


    A resistncia daqueles que viviam em condio de explorao e
excluso nas cidades medievais, porque no tinham acesso  moradia
e alimentao adequadas, ou porque no pertenciam  nobreza,
sobretudo os artesos, pode ser compreendida tambm por meio das
inmeras paralisaes que realizavam. Apesar de serem consideradas
um ato criminoso, so muitos os registros de trabalhadores que cruzaram
os braos em protesto s relaes com os mestres das corporaes de
ofcio. Em 1329, os curtidores de l da cidade de Breslau, na Polnia,
ficaram quase um ano em greve, reivindicando aumento de salrio.



                 ATIVIDADE

     possvel perceber a crise feudal e a transio deste sistema para o capitalismo a partir de manifes-
 taes, como a paralisao dos trabalhadores de Breslau. Argumente sua resposta.



  UmmapadaexclusosocialnaIdadeMdia
   No foram apenas as condies sociais de pobreza e misria
que excluram pessoas e grupos na Idade Mdia. Alm dos servos,
camponeses e trabalhadores pobres, as mulheres, as crianas, os
doentes, os imigrantes, os hereges e os judeus tambm compartilhavam
da excluso social.



                 PESQUISA

   O livro Movimentos Populares na Idade Mdia, de Jos Rivair Macedo aborda as greves e outras
 manifestaes de resistncia na Idade Mdia. Visite a Biblioteca e procure conhec-lo.

     Relaesdedominaoeresistncianasociedademedievaleuropia:camponeses,artesos,mulheres,heregesedoentes     323
       EnsinoMdio

      AlgumasreflexessobreasmulheresnaIdadeMdia:
       O domnio que a sociedade ou os homens exerceram sobre as mulheres no processo
   histrico ser compreendido no decorrer deste contedo estruturante. Na Idade Mdia, tambm
   ocorreram estas relaes de dominao; as mulheres estavam submetidas  autoridade do pai
   ou do marido e tinham como destino certo o casamento, seno com um esposo escolhido pelo
   pai, num acordo de negcios, com Cristo, ao ser enviada para algum convento (era comum
   dizer que freiras tornavam-se esposas de Cristo).
       As mulheres mais pobres realizavam o trabalho nas lavouras ou nas oficinas de artesos
   para o sustento da famlia. J as mulheres nobres eram educadas para o matrimnio e a
   maternidade. A Igreja Catlica dava o suporte ideolgico para a manuteno da submisso
   feminina. Quando conveniente, os representantes da Igreja consideravam a mulher responsvel
   pelas desgraas ocorridas na sociedade, chegavam a responsabiliz-la pelo "pecado original"
   da humanidade, referindo-se  seduo de Ado por Eva no Jardim do den.
       Dificilmente a historiografia tradicional demonstrou manifestaes de resistncia das
   mulheres  condio de dominao a que estavam submetidas na Idade Mdia. Porm, as
   mulheres estiveram presentes; a necessidade de conquistar igualdade e dignidade era comum
   a todos os que viviam em condio de excluso social. Para as mulheres, alm da luta pela
                                                  condio social, estava a luta pelo respeito e
        Documento 8                                reconhecimento de sua identidade.
        Sempre teceremos panos de seda                Veja este fragmento do conto Yvain, de
        E nem por isso vestiremos melhor,          Chrtien de Troyes (1135-1183), escrito por
                                                   volta de 1180, sobre as tecels de seda, na
        Seremos sempre pobres e nuas
                                                   Inglaterra:
         E teremos sempre fome e sede;
         Nunca seremos capazes de ganhar tanto
         Que possamos ter melhor comida.                       Documento 9
         Sem mudana teremos po
         De manh, pouco,  noite menos;
         Pois da obra de nossas mos
         Nenhuma de ns ter para se manter
         Mais que quatro dinheiros de libra,
         E com isso no poderemos
         Ter bastante carne e panos;
         Pois quem ganha por semana
         Vinte soldos no est livre de sofrer ...
         E estamos em grande misria,
         Mas, com os nossos salrios, enriquece
         Aquele para quem trabalhamos;
         Grande parte das noites ficamos acordadas
         E todo o dia, para isso ganhar.
                                                                                                                    n www.universal.pt/




         Ameaam-nos de nos moer de pancada
         Os membros quando descansamos:
         E assim, no nos atrevemos a repousar.
                         (Extrado de LE GOFF, 1994, p. 65).    n Fiandeiras de seda, c. sculo XII.  iluminura.

324 Relaesculturais
                                                                                                       Histria



                  ATIVIDADE

     Que relaes de trabalho enfrentavam as mulheres, cujo lamento est citado no documento 8?


  Algumasreflexessobreos                                Documento 10

  heregesdaIdadeMdia:




                                                                                                                  n http://lusitanianotavel.canalblog.com/
    A Igreja Catlica exerceu influncia poltica
e cultural durante a Idade Mdia e foi criticada
de vrias formas por sua concentrao de
riquezas. O surgimento de grupos herticos e
ordens mendicantes como os franciscanos e os
dominicanos, na Europa ocidental, a partir do
sculo XII, podem ser compreendidos tambm
como movimentos de resistncia s imposies n FRANCISCO GOYA. Cena da Inquisio, 1816. Gravura. Madri, Museu
e concentrao de poder em nome da Igreja.          do Prado.

    Qualquer grupo que defendesse idias contrrias s idias "oficiais"
do papa e do alto clero, ou s posies dogmticas da Igreja, seria
considerado herege. Entre os principais grupos esto os albigenses e
os valdenses.
    Os albigenses, da cidade de Albi, na Frana, defendiam a existncia
de uma igreja a favor dos pobres e excludos e sem concentrao de
riquezas, especialmente terras. Criticavam luxo em que vivia o alto
clero e sua influncia poltica.
    Os valdenses, dispersos em vrias regies da Europa ocidental,
defendiam a pobreza, a orao e a penitncia como forma de
aproximao entre o homem e Deus.
    Alm das crticas contra a riqueza e postura moral da Igreja, os
hereges, em alguns momentos, tentaram, por meio de saques, dividir
os seus bens. Para reprimir estes movimentos, a Igreja criou, entre o
sculo X e XI, o Tribunal da Inquisio e as cruzadas.
    As cruzadas so mais conhecidas por suas lutas contra judeus e
muulmanos, nas terras da Palestina, mas tambm ocorreram cruzadas
internas contra cidades de hereges, como o caso da cidade de Albi. Nos
tribunais havia julgamento e condenao, normalmente em fogueiras,
para promover a purificao da alma.


                  ATIVIDADE

   Estabelea a diferena entre as propostas das ordens mendicantes e da Igreja Catlica na Idade
 Mdia.
     Relaesdedominaoeresistncianasociedademedievaleuropia:camponeses,artesos,mulheres,heregesedoentes       325
       EnsinoMdio



                     PESQUISA

        Pesquise em textos sobre a histria da Igreja na Idade Mdia, a ocorrncia de outras
     heresias (sugesto de pesquisa eletrnica www.wikipedia.org).


                                  Os judeus que viviam na Europa Ocidental, em regies
                               predominantemente catlicas, foram perseguidos, excludos em nome
                               de suas tradies e religio. Ficavam restritos s periferias das cidades,
                               eram obrigados a usar um smbolo, uma marca e o som de uma matraca
                               denunciava os caminhos que faziam. Eram responsabilizados pela
                               morte de animais, por catstrofes naturais como secas e enchentes.
                               Eram comparados s mulheres que preparavam remdios de ervas, e,
                               por isso, acusados de bruxaria. Para fugir da morte na fogueira, muitos
                               judeus juravam o cristianismo e passavam a ser tratados como cristos-
                               novos.



                     ATIVIDADE

     - Por que os judeus eram considerados invasores das terras europias na Idade Mdia?
     - Por que a Igreja Catlica foi intolerante com outras religies no perodo medieval?




                                 Algumasreflexessobreos
                                 doentesnaIdadeMdia:
                                  Havia um ditado popular na Idade Mdia: "depois da fome, a peste
                               come". O que demonstrava como as doenas poderiam provocar uma
                               catstrofe social. Os pobres, pela alimentao e moradias precrias, eram
                               as primeiras vtimas das doenas que, alm de enfrent-las, tornavam-
                               se tambm vtimas do abandono, da indiferena e da excluso do
                               convvio em sociedade.
                                  As doenas que mais provocavam estas reaes, entre outras,
                               foram a peste negra e a hansenase. Porm, qualquer doente, ferido ou
                               portador de necessidades especiais, era considerado, nas sociedades
                               europias da Idade Mdia, um pecador. Seu sofrimento era explicado
                               como conseqncia da vontade de Deus para a remisso de seus
                               pecados e como no podia conviver entre os sos, era expulso para
                               os arredores das cidades, em leprosrios (locais onde eram segregados

326 Relaesculturais
                                                                                                            Histria

os portadores de doenas da pele, inclusive a hansenase) ou hospitais
(que funcionavam mais como estalagens). Mesmo quando resistiam
 imposio de viver nos arredores e retornavam s cidades ou vilas,
para esmolar, eram perseguidos por sinos ou tambores e apedrejados.

                                                                               Documento 11
  Ahansenase
    A hansenase (popularmente chamada de lepra)  uma
doena reconhecida desde as civilizaes da antiguidade.
Existem relatos bblicos, que datam de 2.000 a.C., descrevendo
sua ocorrncia.                                                     n Sintoma da hansenase. JEAN LOUIS ALIBERTI (1768-
                                                                       1837) Lepra nigrans, Clinique de l'Hospital Saint-
    Mas o que  realmente este mal?  uma doena infecciosa            Louis, 1833. Http://easyweb.easynet.co.uk/~ian.
causada pelo Mycobacterium leprae, uma bactria que afeta a            mccormick/alibert1833b.jpg Acesso em: 03 dez.
pele e os nervos.  conhecida tambm como mal de Hansen,               2005.

do nome de Gerhard Henrick Armauer Hansen (1841-1912), cientista
noruegus que, em 1874, identificou o agente causador da doena.
    Normalmente manifesta-se por manchas na pele, mas no provocam
dor, pois a bactria afeta os neurotransmissores desta funo. Apresenta-
se em quatro formas clnicas: indeterminada, tuberculide,
                                                                    Texto 4
dimorfa e virchowiana. Estas duas ltimas formas clnicas
                                                                    Chamava-se lepra a muitas
so as contagiantes, embora o contgio possa se manifestar
                                                                doenas. Toda erupo pustulenta,
entre 02 a 20 anos. Estima-se, segundo recentes pesquisas
                                                                a escarlatina, por exemplo, qualquer
da Organizao Mundial de Sade (OMS), que mais de
                                                                afeco cutnea passava por lepra.
10 milhes de pessoas no mundo sejam portadoras da
                                                                Ora, havia, com relao  lepra, um
hansenase.
                                                                terror sagrado: os homens daque-
    Esta doena foi trazida ao Brasil pelos colonizadores
                                                                le tempo estavam persuadidos de
portugueses, no sculo XVI. Seu tratamento e erradicao
                                                                que no corpo reflete-se a podrido
tornaram-se nas dcadas de 1990 e 2000, uma prioridade
                                                                da alma. O leproso era, s por sua
para a sade pblica, pois nosso pas est em 4 lugar
                                                                aparncia corporal, um pecador.
na incidncia dos casos. O tratamento  a base de anti-
                                                                Desagradara a Deus e seu peca-
biticos numa poliquimioterapia. A preveno, para
                                                                do purgava atravs dos poros. To-
algumas formas, se faz por meio da vacina BCG.
                                                                dos acreditavam, tambm, que os
    A hansenase deixou como conseqncia, em vrios            leprosos eram devorados pelo ardor
momentos da Histria da humanidade, a excluso do               sexual. Era preciso isolar esses bo-
convvio social, separando os doentes dos saudveis. Veja       des.
as consideraes de um historiador sobre esta doena na
                                                                                             (DUBY, 1999, p. 91).
Idade Mdia:

  Apestenegra
    J a peste negra, em 1348, foi responsvel pela morte de um
tero da populao europia. A doena pode ter sido trazida por
comerciantes vindos do oriente e por corpos contaminados jogados
no Mar Mediterrneo.

     Relaesdedominaoeresistncianasociedademedievaleuropia:camponeses,artesos,mulheres,heregesedoentes           327
                              EnsinoMdio

                                                                  A estrutura de saneamento urbano  muito precria nas cidades
                         Documento 12                         europias que inchavam com o renascimento urbano, por volta
                                                              do sculo XIV  e os celeiros que guardavam cereais nos campos
                                                              colaboraram para a proliferao de ratos e a disseminao da doena.
                                                              As pulgas dos ratos carregam o bacilo Yersinia pestis, causador da
                                                              peste, e estes, quando contaminados por meio das suas fezes, saliva ou
                                                              urina, so os vetores, ou seja, os condutores que transmitem a doena,
 n www.wikipedia.org.




                                                              podendo causar uma epidemia.
                                                                  Ainda hoje, apesar da descoberta de tratamento, existem focos da
                                                              doena em regies de pouca estrutura e falta de tratamento do lixo
                                                              urbano. No Brasil, nunca ocorreu uma epidemia de peste negra, mas
                        n Doktor Schnabel em Roma -           ela foi detectada, especialmente em 1899, nas cidades porturias do
                          1656. Gravura. Mdico com fato      pas. O mdico e cientista brasileiro Adolfo Lutz (1855-1940), no incio
                          "protetor" anti-peste em poca de
                          peste negra.                        do sculo XX, conseguiu controlar a doena na cidade de Santos,
                                                              combatendo a populao de ratos. Atualmente, os focos da doena
                                                              concentram-se nas regies nordestinas.
                                                                  Os homens medievais que presenciaram a peste detectavam-na
                                                              pelas infeces pulmonares (peste pneumnica), nguas ou bubes
                                                              (peste bubnica) prximos aos gnglios e manchas vermelhas ou
                                                              feridas na pele. Entre os principais sintomas, identificavam febre alta
                                                              e paralisao de alguns rgos, especialmente os rins. O contgio
                                                              poderia ocorrer em algumas situaes de contato com os roedores ou
                                                              com outras pessoas j contaminadas. Isto permitiu o surgimento de
                                                              algumas medidas, que acreditavam poder controlar a doena: asperso
                                                              do dinheiro ou de cartas com vinagre, desinfeco de roupas e casas
                                                              com enxofre ou perfume forte, colocao de balces entre vendedores
                                                              e compradores, uso de esptulas para distribuir a comunho nas missas,
                                                              uso de luvas e capas pelos mdicos, entre outras que mantinham a
                                                              distncia e isolamento de pessoas.
                                                                  Um dos maiores relatos da peste em Florena, na Itlia, no ano de
                                                              1348, est no livro Decameron, escrito em 1353 pelo escritor italiano
  n www.wikipedia.org.




                                                              Giovanni Boccaccio (1313-1375).  uma obra importante na literatura
                                                              medieval, porque seu estilo em prosa testemunha o teocentrismo
                                                              da poca e acena para as primeiras mudanas renascentistas que
                                                              valorizariam o antropocentrismo. Nesta obra, personagens narram a
                        n Giovanni Boccaccio -                ocorrncia e as conseqncias da peste negra em Florena com realismo
                          (1313-1375). In: Bibliothek des     e licenciosidade. Isto trouxe a Boccaccio a censura da Igreja Catlica.
                          allgemeinen und praktischen
                          Wissens. Bd. 5 (1905).                  Leia um fragmento da obra Decameron:

                                Documento 13
                              O desastre lanara tanto pavor no corao dos homens e das mulheres que o irmo abandonava o
                          irmo, o tio o sobrinho, a irm o irmo, amide mesmo a mulher o marido. E o que  mais forte e qua-
                          se inacreditvel: os pais e as mes, como se seus filhos no mais lhes pertencessem, evitavam v-los
                          e ajud-los.
                                                                                                        (BOCCACCIO apud WOLFF, 1988, p. 26).


328 Relaesculturais
                                                                                                   Histria



              DEBATE

   Seria possvel traar uma comparao entre a excluso a que eram submetidos os doentes na
Idade Mdia e os preconceitos com que so tratados os portadores de doenas contagiosas, nas
sociedades contemporneas? Debata o assunto e escreva uma narrativa histrica sobre este te-
ma.



 RefernciasBibliogrficas
 DUBY, G. Ano 1000 ano 2000 na pista dos nossos medos. So Paulo: UNESP/Imprensa Oficial
 do Estado, 1999.
 FRANCO JNIOR, Hi. A Idade Mdia  nascimento do ocidente. So Paulo: Brasiliense, 2004.
 LE GOFF, Jacques. A civilizao do ocidente medieval. Lisboa: Editorial estampa, 1994. vol. I e II.
 ______. Os intelectuais na Idade Mdia. So Paulo: Brasiliense, 1995.
 MACEDO, J. R. Movimentos Populares na Idade Mdia. So Paulo: Moderna, 1993.
 MOLLAT, M. Os pobres na Idade Mdia. Rio de Janeiro: Campus, 1989.
 WOLFF, P. Outono da Idade Mdia ou Primavera dos Tempos Modernos?. So Paulo: Martins
 Fontes, 1988.


 ObrasConsultadas
 DUBY, G.; PERROT, M. Histria das mulheres: a Idade Mdia. Porto: Edies Afrontamento, 1990.
 DUBY, G. Guerreiros e camponeses: os primrdios do crescimento econmico europeu sculos VII
  XII. Lisboa: Editorial Estampa, 1993.
 TELAROLLI JUNIOR, R. Epidemias no Brasil: uma abordagem biolgica e social. So Paulo: Moder-
 na. 1996.




  Relaesdedominaoeresistncianasociedademedievaleuropia:camponeses,artesos,mulheres,heregesedoentes     329
       EnsinoMdio




330 RelaesCulturais
                                                                                                                                                                Histria




                                                                                                                                                 18
                                                                                                       RELAES CULTURAIS:
                                                                         Relaes de dominao e resistncia na
                                                                                   sociedade ocidental moderna
                                                                                                                                                   n Marli Francisco1



                                                              Observe as imagens presentes nos documentos 1 e 2. Voc
                                                              conseguiria descrever as pessoas que nelas esto repre-
                                                              sentadas? Quem so essas pessoas? O que elas esto rei-
                                                              vindicando?  comum ver esse tipo de imagem pela tele-
                                                              viso ou vivenci-la no seu dia-a-dia? Hoje, que imagem
                                                              voc colocaria junto a essas representadas abaixo?
                                                        Documento 1                                              Documento 2
                                  n www.wikipedia.org




                                                        n Jacquerie: A batalha de Meaux de 1358, c. sculo       n FRANOIS DUBOIS (1790-1871), An Eyewitness Ac-
                                                          XIV, iluminura, Crnicas de Jean Froissart, de Flan-     count of the Saint Bartholomew's Day Massacre, s/d.
                                                          dres, sculo XIV.                                        leo sobre tela. Museu Cantonal de Belas Artes, Lausan-
                                                                                                                   ne, Sua. O dia do Massacre de So Bartolomeu, 24 de
                                                                                                                   agosto de 1572.




Colgio Estadual Chateaubriandense  Assis Chateaubriand  PR
1




                                                                      Relaesdedominaoeresistncianasociedadeocidentalmoderna 331
        EnsinoMdio

                                        Transformaesdomundomoderno
     Contestao - do latim               As manifestaes sociais estiveram presentes nas mais diversas so-
    contestatione, ato ou efeito de   ciedades e em vrios contextos espao-temporais. Estudaremos neste
    contestar. Debate, polmica,      Folhas algumas das razes que levaram as pessoas a se manifestarem
    questo, contradio.             no decorrer dos sculos XVI a XVIII e conhecer os grupos sociais que
    n (Novo Dicionrio Aur-          delas participaram. Afinal, por que pessoas fazem contestaes?
      lio da Lngua Portugue-
      sa,1986.) p. 373.)                  Historicamente, costuma-se definir a Idade Moderna como o per-
                                      odo assinalado por dois importantes acontecimentos: a tomada da ci-
                                      dade de Constantinopla pelos turcos, em 1453, e a Revoluo France-
                                      sa, em 1789. Durante os 336 anos que transcorreram entre essas duas
                                      datas, o mundo ocidental passou por transformaes importantes, as
                                      quais levaram o conceito de modernidade a se projetar por toda a his-
                                      tria contempornea.
                                          A idia de modernidade comeou a se afirmar na Europa a partir
                                      do sculo XVI, quando as grandes navegaes, iniciadas no final do
                                      sculo XV, resultaram na Revoluo Comercial, ocorrendo, dessa for-
                                      ma, a acumulao de capital  de incio comandado pelos Estados atra-
                                      vs do mercantilismo  e contribuindo como importante alicerce pa-
                                      ra a futura Revoluo Industrial ocorrida a partir de meados do sculo
                                      XVIII.

          Texto 1
                                                      Antigo/moderno
         O par antigo/moderno est ligado  histria do Ocidente, embora possamos encontrar equivalentes
     para ele em outras civilizaes e em outras historiografias. Durante o perodo pr-industrial, do sculo V
     ao XIX, marcou o ritmo de uma oposio cultural que, no fim da Idade Mdia e durante as Luzes, irrom-
     peu na ribalta da cena intelectual. A oposio antigo/moderno, que emerge periodicamente nas contro-
     vrsias dos intelectuais europeus desde a Idade Mdia, no pode ser reduzida  oposio progresso/
     reao, pois se situa fundamentalmente em nvel cultural. Os "antigos" so os defensores das tradies,
     enquanto os "modernos" se prenunciam pela inovao.
          No caso especial da histria, a oposio antigo/moderno introduz uma periodizao, que  vista
     tambm no quadro do contraste entre concepes cclicas e concepes lineares do tempo. Quando,
     no sculo V, o termo "moderno" aparece no baixo-latim, s tem o sentido de "recente", que mantm por
     muito tempo ao longo da Idade Mdia; "antigo" pode significar "o que pertence ao passado" e  po-
     ca em que a histria a que o Ocidente, desde o sculo XVI, chama Antigidade, ou seja, a poca ante-
     rior ao triunfo do cristianismo no mundo greco-romano, da grande regresso demogrfica, econmica e
     cultural da Alta Idade Mdia, marcada pela diminuio da escravatura e pela intensa ruralizao.
         Na metade do sculo XIX, transforma-se (o par antigo/moderno) com o aparecimento do conceito
     de "modernidade", que constitui uma reao ambgua da cultura  agresso do mundo industrial. No
     fim do sculo XIX, a oposio antigo/moderno volta a encontrar-se no campo das artes, pois vrias ten-
     dncias se definiram como modern style (estilo moderno). No campo religioso, origina-se uma corrente
     modernista, condenada pela Igreja como heresia. No sculo XX, o ponto de vista dos "modernos" ma-



332 RelaesCulturais
                                                                                                      Histria


 nifesta-se, acima de tudo, no campo da ideologia econmica, na construo da modernizao, isto ,
 do desenvolvimento em oposio ao subdesenvolvimento e da aculturao, por imitao da cultura eu-
 ropia. Generaliza-se no Ocidente, ao mesmo tempo que  introduzido em outros locais, principalmen-
 te no Terceiro Mundo, privilegiando a idia de "modernizao", nascida do contato com o Ocidente.
    Mas o par e seu jogo dialtico so gerados por "moderno", e a conscincia da modernidade nasce
 do sentimento de ruptura com o passado. Ser legtimo que o historiador reconhea como moderno o
 que as pessoas no passado no sentiram como tal? (Adaptado de LE GOFF, 2003, pp. 173-176).




  ReformaProtestanteeofimdo
  monoplioreligiosodaIgrejaCatlica
                                                                             Documento 3
    A sociedade europia dos sculos XVI a XVIII sofreu mudanas cul-
turais, polticas e religiosas que repercutiram tanto na organizao do
Estado quanto na formao de valores, de conceitos e de ideologias.
Em suma, na era moderna, construiu-se uma nova viso de mundo nas
sociedades ocidentais, particularizando-se em formas distintas, segun-
do a poca e o lugar, ou conforme o nvel da realidade e as vrias si-
tuaes de classe. Essa transformao mental, que se realizou ao longo
de trs sculos, influenciou o modo de trabalhar, de pensar e de agir
nos mais diferentes grupos sociais ocidentais, servindo de exemplo pa-
ra as mais diversas sociedades.
    Um desses momentos teve incio na Alemanha, em 1517. Trata-se
da questo envolvendo o monge agostiniano e telogo catlico Marti-          n LUCAS CRANACH (1472-1553).
                                                                               Retrato de Martinho Lute-
nho Lutero (1483-1546) e o Papa da Igreja Catlica Leo X (1475-1521).         ro, 1529. leo sobre tela. Galeria
Lutero denunciou, atravs de 95 teses, o que considerava irregular na          Degli Uffizi, Florena, Itlia.
Igreja Catlica. Em 1519, afasta-se definitivamente do catolicismo. Suas
propostas provocaram um intenso movimento de transformao ideo-
lgica e espiritual, que ficou conhecido como Reforma Protestante. Por
meio dessa iniciativa, a Igreja Catlica rompeu com Lutero.
    Apoiado e protegido por prncipes alemes, Lutero aprofundou su-
as reflexes sobre a doutrina crist e formulou os princpios de uma
nova religio.
    Embora os motivos religiosos tenham sido os mais evidentes pa-
ra que Lutero formulasse novos conceitos espirituais, os econmicos
tambm estavam ligados a essa nova prtica religiosa. A Igreja Catli-
ca, atravs de seus ensinamentos, condenava o lucro, apesar de cobrar
dzimos e vender indulgncias que enriqueciam esta instituio. Essas
atitudes da Igreja Catlica no eram favorveis s aspiraes burgue-
sas pelos lucros com o comrcio e com as finanas.
    Martinho Lutero, ao contrrio, tinha uma viso mais tolerante em
relao ao lucro e, inversamente, muito mais intolerante contra as in-
dulgncias catlicas. Em funo do seu modo de pensar, recebeu o

                                  Relaesdedominaoeresistncianasociedadeocidentalmoderna 333
                           EnsinoMdio

                                                      apoio de muitos nobres e burgueses. Suas propostas reformistas, tais
                                                      como a livre interpretao da Bblia Sagrada e a traduo deste livro nas
                                                      lnguas nacionais, foram divulgadas por toda a Alemanha (Sacro Imp-
                                                      rio Germnico e principados alemes), conseguindo a adeso cada vez
                                                      maior da populao, principalmente da classe burguesa. A burguesia
                                                      alem, juntamente com os prncipes, viam a Igreja Catlica como ini-
                                                      miga poltica e econmica. Seus anseios eram por uma Igreja que gas-
                                                      tasse menos, que absorvesse menos imposto e, principalmente, que
                                                      no condenasse a prtica de ganhar dinheiro.
                                                           Depois da burguesia, restava a maioria da populao alem, com-
                                                      posta pelas classes camponesas, explorada ao mximo. Esse grupo via
                                                      a Igreja Catlica como o sustentculo da formao social que os opri-
                                                      mia: o feudalismo. Isto porque ela representava mais um senhor feu-
                                                      dal, a quem deviam muitos impostos, tais como o dzimo.
                                                           Sendo assim, a pregao de Lutero foi interpretada pelos trabalha-
                                                      dores do campo (camponeses germnicos) no apenas como uma mu-
                                                      dana religiosa, mas tambm como reformas sociais.
                                                           Descontentes com a opresso servil, os camponeses se revoltaram
                                                      e, em 1524, liderados pelo telogo anabatista Thomas Mntzer ([ou
                       Documento 4                                                                          Mnzer] 1489-1525), a popula-
                                                                                                            o do campo passou a exigir re-
                                                                                                            formas sociais e religiosas. Os re-
                                                                                                            voltosos queimaram e assaltaram
                                                                                                            mosteiros e castelos, condenaram
                                                                                                            a Igreja Catlica pela cobrana de
                                                                                                            dzimos e reivindicaram a reforma
                                                                                                            agrria e a abolio dos privilgios
                                                                                                            feudais.
                                                                                                                Ao estourar a guerra campone-
                                                                                                            sa, Lutero procurou assumir uma
                                                                                                            atitude conciliadora. Atacou de-
                                                                                                            cididamente os governantes, di-
                                                                                                            zendo que eles seriam os culpa-
                                                                                                            dos do levante em funo de suas
                                                                                                            opresses. No entanto, aconse-
                                                                                                            lhou ambos os lados que fizes-
                                                                                                            sem concesses e se reconcilias-
                                                                                                            sem amigavelmente. Apesar dos
                                                                                                            conselhos de Lutero, o levante es-
                                                                                                            tendeu-se rapidamente pela Ale-
 n www.wikipedia.org




                                                                                                            manha. A reao foi violenta por
                                                                                                            parte da nobreza, que contou com
                                                                                                            o apoio de Lutero, pois, para o
                                                                                                            mesmo, uma revolta social estava
                       n A Guerra dos Camponeses (em Alemo, der Deutsche Bauernkrieg) de 1524 a 1526, s/d.
                         Gravura. Bauernaufstand.
                                                                                                            fora de qualquer cogitao; Lutero


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                                                                                                   Histria

justificou sua deciso em funo da brutal represso desencadeada pe-
los prncipes alemes contra o movimento. Leia o que escreveu o fil-
sofo Friedrich Engels (1820-1895) sobre a posio dos prncipes com
relao  rebelio dos camponeses na Alemanha, no sculo XVI.

     Documento 5
     Na Alemanha, a oposio "moderada, rica e inteligente" dos prncipes e das classes sociais domi-
 nantes, que desejava a separao de Roma, mas no a alterao da ordem social estabelecida, de-
 frontou-se com a oposio proletria dos camponeses e da populao pobre das cidades. Ambas  a
 oposio ao Papa e ao Imperador  puderam permanecer aliadas um certo tempo, devido ao fato de
 que a mensagem de Lutero, enunciada com grande fora de seduo, iludiu as massas, empurrando-
 as necessariamente  rebelio. Mas Lutero, assustado, desligou-se rapidamente de uma aliana to
 comprometedora com as classes populares. Frente ao "reformador burgus" Lutero, levantou-se o " re-
 volucionrio plebeu" Mnzer. Este, a princpio, era essencialmente um telogo, influenciado pelos escri-
 tos milenaristas da Idade mdia. Mas, evoluiu rapidamente e se transformou em um "agitador poltico".
 (Adaptado de ENGELS apud MARQUES, 1994, p. 106)




                   ATIVIDADE

    Leia o documento 5. Depois, escreva uma narrativa histrica comparando a reao dos prncipes
     e a de Lutero com relao ao movimento dos camponeses.


   Esse importante movimento, denominado Reforma Protestante (sculo XVI), levou outros
pensadores a escreverem a respeito do assunto. Leia os textos 2 e 3 para que voc possa enten-
der melhor a relao da questo religiosa com as questes econmicas e sociais.


     Texto 2                                                Texto 3
     A Reforma do sculo XVI teve um duplo ca-               No tomemos Mnzer como um simples
 rter de revoluo social e revoluo religiosa.        profeta da revoluo social. Sua inspirao con-
 As classes populares no se sublevaram so-              tinua sendo essencialmente religiosa. O que o
 mente contra a corrupo do dogma e os abu-             faz indignar-se  que as condies de vida do
 sos do clero. Tambm o fizeram contra a misria         povo impedem a este acesso ao Evangelho. Os
 e a injustia. Na Bblia no buscaram unicamen-         pobres se acham to oprimidos, to preocupa-
 te a doutrina da salvao pela f, mas, tambm          dos com o ganhar o po de cada dia, que no
 a prova da igualdade original de todos os ho-           tm tempo nem de ler a Bblia nem de fortalecer
 mens. (HAUSER apud MARQUES, 1994, p. 107.).             sua f com a orao e a contemplao. Lutero
                                                         no compreendeu que no  possvel uma au-
                                                         tntica Reforma religiosa sem uma prvia revolu-
                                                         o social. (LECLER apud MARQUES, 1994, p.10.).




                                         Relaesdedominaoeresistncianasociedadeocidentalmoderna 335
         EnsinoMdio



                       ATIVIDADE

         Com base no texto 2, d sua opinio sobre o pensamento deste historiador. Explique-a.
         Leia o texto 3. Voc concorda com a idia de que uma Reforma religiosa no acontece sem uma
          reforma social? Explique.


                                   As guerras camponesas na Alemanha desencadearam, em 1525, o
                               Manifesto dos Camponeses. Atravs desse documento, os camponeses
                               fizeram suas reivindicaes. Leia parte dessas reivindicaes.


          Documento 6
          Nosso modesto pedido e desejo, nossa opinio e vontade  que, no futuro, nos sejam dados poder
     e autoridade, para que cada comunidade possa eleger o seu pastor e, da mesma forma, possa demi-
     ti-lo, caso se porte indevidamente. Ele nos regar o Evangelho de maneira acessvel e sem deturp-lo,
     sem qualquer acrscimo de leis ou ensinamentos humanos.
         At agora ramos tratados como escravos, o que  uma vergonha, pois, com seu precioso san-
     gue, Jesus Cristo nos salvou a todos, tanto ao mais humilde pastor quanto ao mais nobre senhor, sem
     distino.
        Somos prejudicados ainda pelos nossos senhores, que se apoderam de todas as florestas. Se o
     pobre precisa de lenha ou madeira tem que pagar o dobro por ela. Ns somos de opinio que se en-
     contra em mos de leigos ou religiosos que no a adquiriram legalmente.
         Nossa deciso e resoluo final  a seguinte: se uma ou diversas dessas exigncias no estiverem
     em consonncia com a palavra de Deus, delas abriremos mo imediatamente, desde que se nos pro-
     ve,  base das Sagradas Escrituras, que elas esto em discordncia com a vontade divina. (Adaptado de
     Manifesto dos Camponeses, 1525 apud MARQUES, 1994, p.129.).




                       ATIVIDADE

         Leia o documento 6 que contm o Manifesto dos Camponeses de 1525. Em seguida, faa uma
          narrativa histrica destacando as semelhanas e diferenas das reivindicaes dos camponeses de
          1525 com as reivindicaes camponesas que ocorreram nos sculos XX e XXI. Considere seus
          respectivos contextos scio-histricos.

                                   A aliana entre a classe pobre e as novas idias religiosas foi mar-
                               cante, independente do Estado, esse grupo ligou, de maneira indis-
                               solvel, aspiraes religiosas e reivindicaes igualitrias. Porm, os
                               ricos burgueses no estiveram ausentes das primeiras fileiras protes-
                               tantes e tampouco os prncipes, que, por outro lado, lutavam contra
                               os camponeses, os artesos e os burgueses momentaneamente unidos.

336 RelaesCulturais
                                                                                     Histria

Sendo assim, houve protestantes em todas as classes sociais, oferecen-
do aos fiis novas opes religiosas, quebrando o monoplio espiritu-
al da Igreja Catlica.
    No entanto, o movimento protestante no gerou apenas conflitos
sociais, perseguies e mortes, tambm colaborou com o desenvolvi-
mento capitalista, impulsionou a alfabetizao, a tolerncia religiosa
perante as artes e cincias.
    Enfim, a religio, a partir do sculo XVI, transformou-se e o mundo
moderno vivenciou novos conceitos religiosos.


  FranaAntrtica:umaexperinciaprotestante
  ouumaexperinciaindgenanaAmrica
  portuguesa?
    Os primeiros colonos franceses estiveram na Amrica portuguesa
inicialmente durante os anos de 1555 a 1560. Adeptos do credo calvi-
nista (chamados na Frana de huguenotes), instalaram uma pequena
colnia no litoral da baa do Rio (hoje, Baa de Guanabara no Rio de
Janeiro), na ilha de Villegagnon, nome do chefe da comunidade fran-
cesa, Nicolas Durand de Villegagnon (1510-1571).
    Esta comunidade ficou praticamente isolada porque, com a chega-
da dos seus navios, os franceses transmitiram uma epidemia aos Tupi-
namb da costa, perdendo assim aliados tradicionais na luta contra a
colonizao portuguesa. Alm disso, no houve adeso de Genebra 
sede do calvinismo , pois de l s vieram, em 1557, catorze missio-
nrios  Frana Antrtica, na Amrica portuguesa, apesar do insisten-
te apelo do fundador desta religio Jean Calvino (1509-1564) para que
viessem mais.
    Estes missionrios genebrinos chocaram-se com o sincretismo re-
ligioso presente nos rituais religiosos dos franceses huguenotes; esses
rituais quase no se diferenciavam dos da Igreja Catlica. Havia, prin-
cipalmente, divergncias dogmticas  que se referem a leis religiosas
ou dogmas , porque o calvinismo entendia que a eucaristia era uma
instituio simblica, ou seja, era um smbolo da comunho entre os
crentes; j os franceses da colnia acreditavam que a eucaristia con-
tinha realmente o corpo e o sangue de Cristo. Estas divergncias ge-
raram conflitos entre esses dois grupos, que levaram  expulso dos
catorze missionrios para as florestas do Rio. Esta diviso acabou faci-
litando a expulso dos franceses e dos genebrinos pelos portugueses
e pelos indgenas da regio.
    Entretanto, o contato destes calvinistas genebrinos com a cultura in-
dgena tupinamb causou uma nova forma de compreenso da dife-


                                 Relaesdedominaoeresistncianasociedadeocidentalmoderna 337
        EnsinoMdio

                                     rena entre as crenas catlicas e protestantes, que teve uma dimenso
                                     trgica nos sculos XVI e XVII, em toda a Europa Ocidental. Isto por-
                                     que estes calvinistas, ao compreender o simbolismo dos rituais antro-
                                     pofgicos desta sociedade indgena  os humanos se alimentavam de
                                     outros humanos, sempre inimigos, para adquirir sua fora vital , vo
                                     aproximar este simbolismo e as prtica desses rituais com os da euca-
                                     ristia catlica.
                                          Principalmente a partir da obra do francs huguenote Jean de Lry
                                     (1536-1613), Histria de uma viagem  terra do Brasil, de 1578, onde o
                                     missionrio descreve a cultura dos Tupinamb, os calvinistas, ao leva-
                                     rem esta aproximao simblica para a Europa, fizeram uma provoca-
                                     o aos catlicos, a qual ajudou a detonar o barril de plvora religioso
                                     e poltico entre estes e os protestantes, j armado pelo conflito entre
                                     reforma protestante e contra-reforma catlica e suas respectivas estru-
                                     turas de poder, tais como a Inquisio.
                                          Observe o que a historiografia relata sobre esta polmica religiosa
                                     a partir do ponto de vista dos protestantes franceses:



         Texto 4
         Por meio dessa crtica da Eucaristia pelo canibalismo dos tupinambs, os calvinistas pretendem
     mostrar que a "heresia" catlica da Eucaristia  dupla: em primeiro lugar, porque se baseia na perver-
     so antropfaga; em seguida, porque inverte essa mesma antropofagia, fazendo dela uma operao
     regressiva de retorno ao cru.
          Os tupinambs do Brasil iro servir-se mais uma vez muito mais tarde, na polmica huguenote.
     Quando, s vsperas da concluso do edito de Nantes (1591), os protestantes inquietam-se com as
     exumaes executadas um pouco em toda parte pelos catlicos, esvaziando seus cemitrios de todo
     cadver "hertico", eles no podem fazer menos do que invocar o exemplo dos "Toupinambauds" (tu-
     pinambs) e dos "Margajas" (margais), menos brbaros em comparao.  assim que exprimem na
     primavera de 1597 as Plaintes des Eglises Reforme de France [Queixas das Igrejas reformadas na
     Frana]: "Os margais, os tupinambs enchem suas entranhas da carne que eles mataram. [...] O tu-
     pinamb come apenas o margai, e o margai  guloso apenas do tupinamb; ainda assim, eles o fa-
     zem apenas para pagar na mesma moeda... Para faz-lo, no violam tmulos de modo algum". V-se,
     por esta referncia ao dio legendrio dos "Toupinambaux" e dos "Margageats" (ou Marakaia), que Je-
     an de Lry tornou-se, nessa data, uma espcie de "clssico do protestantismo". Mais uma vez o cat-
     lico  mais inumano que o canibal, que d seu ventre por sepultura ao inimigo e faz sua carne a dele.
     Novamente, essa barbrie catlica vira do avesso, de alguma maneira, a barbrie extica: em vez de
     digerir o intruso fibra por fibra, ela o expulsa violentamente, at arrancar da terra "uma carne apodreci-
     da, fedorenta, um crnio pavoroso, ossos todos deslocados e carcomidos, cheios de horror". De mo-
     do que o catlico a uma s vez afirma a realidade da transubstanciao e desenterra o corpo morto do
     seu inimigo para lan-los aos ces e aos lobos. Ele consome o sacrossanto cadver de Cristo e vo-
     mita, quase literalmente, o do protestante, adicionando as infmias em sentidos contrrios. (LESTRINGANT.
     In: NOVAES (org.), 1998, pp. 431-432).




338 RelaesCulturais
                                                                                                        Histria

    Entretanto, voc acredita que os indgenas do continente sul-ameri-
cano, principalmente os do tronco lingstico tupi-guarani, como eram
os Tupinamb, concordavam com a viso que os cristos tinham de
sua religiosidade?
    Os Guaranis do litoral ou do interior da Amrica Latina possuam
crenas como a esperana da Terra Sem Males, e tinham o seu profe-
ta: o karai. Era um profeta errante que pregava aos indgenas a neces-
sidade da purificao e da preparao para a grande viagem que os le-
varia  Terra Sem Males, conforme indica o texto 5.

     Texto 5
      O discurso dos karai pode se resumir em uma constatao e uma promessa. Por um lado, afirma-
 vam sem cessar o carter intrinsecamente mal do mundo e, por outro lado, exprimiam a certeza de que
 era possvel conquistar um mundo bom. O discurso proftico dos karai no se apresentava aos ind-
 genas como discurso doente, um delrio de demente, pois repercutia neles como a expresso de uma
 verdade. Doente no era o discurso dos profetas, mas sim o mundo do qual falavam, a sociedade em
 que viviam. O discurso dos karai, muito anterior  invaso branca crist, no era resposta aos conquis-
 tadores, nem contraponto de mitos indgenas cristianizados, mas discurso autctone referido  expe-
 rincia da prpria sociedade Guarani. Qual o mal, qual as doenas que os karai haviam percebido e
 sobre os quais alertavam os demais? Atravs do efeito conjugado de fatores demogrficos (forte cresci-
 mento populacional), sociolgicos (tendncia em concentrao em grandes aldeias, em vez da disper-
 so) e polticos (emergncia de chefias poderosas), eclodia, nessa sociedade, a inovao mais mortal:
 a da diviso social, da desigualdade. Um mal-estar profundo, sinal de crise grave, agitava essas aldeias
 e foi desse mal que os karai tomaram conscincia e, para reconhec-lo e enunci-lo, falaram na mal-
 dade do mundo, na feira da vida e no cansao da terra. Havia concordncia profunda entre os ind-
 genas e o profeta que lhes dizia:  preciso mudar o mundo. Que remdio propunham os karai? Exorta-
 vam os indgenas a abandonar a terra m e dirigir-se  Terra Sem Males, lugar de repouso dos deuses,
 onde as flechas partem sozinhas  procura da caa, onde o milho cresce sem que ningum cuide de-
 le, territrio dos adivinhos, do qual toda alienao est ausente, territrio que foi, antes da destruio da
 primeira humanidade pelo dilvio universal, o lugar comum aos humanos e aos divinos. A radicalidade
 da promessa no estava nela apenas, mas no fato de que com ela toda a norma e toda a regra eram
 abandonadas numa subverso da antiga ordem. (Adaptado de Pierre CLASTRES. A sociedade contra o Estado apud
 CHAU in.: NOVAES (org.), 1998, pp. 500-501).




                    ATIVIDADE

    A partir do texto 4, referente ao conflito entre catlicos e protestantes no sculo XVI, escreva uma
     narrativa sobre como os catlicos se defenderiam da acusao de antropfagos s avessas pelos
     calvinistas deste perodo.
    Leia o documento 7, referente a uma orao guarani voltada  espera da "Grande Palavra". Com-
     pare-o com as idias presentes no texto 5. Depois escreva uma narrativa histrica tendo como te-
     ma a religiosidade guarani.



                                             Relaesdedominaoeresistncianasociedadeocidentalmoderna 339
       EnsinoMdio


        Documento 7
        Meu pai, amand,
        faze com que eu de novo me levante e me adorne,
        E, no entanto, as palavras,
        Tu no as pronuncias,
        Karai Ru Ete: nem para mim, nem para teus filhos
        destinados  Terra Indestrutvel,
         terra eterna que pequeneza alguma altera.
        Pois, em verdade, existo de maneira imperfeita.
         de natureza imperfeita o meu sangue; minha carne, desprovida de toda excelncia.
        Por isso me inclino, dobro os joelhos e me curvo,
        Mas tu no pronuncias as palavras.
        O mar malfico, o mar malfico!
        Tu no o fizeste de modo a que eu pudesse atravess-lo.
         por isso, em verdade,  por isso
        que meus irmos ficam cada vez em menor nmero,
        cada vez menor o nmero de minhas irms.
        Mas, tu pronunciars em abundncia as palavras,
        as palavras da alma excelente,
        para aquela cuja face no est marcada por nenhum sinal.
        Tu pronunciars as palavras em abundncia
        para todos os destinados  Terra Indestrutvel,
         terra eterna que pequeneza alguma altera.
        Tu.
        Vs.
                                                          n (Adaptado de Marilena CHAU in.: NOVAES (org.), 1998, pp. 501-502).



                                 Revoluogloriosaeotriunfoda
                                 burguesiasoboabsolutismo
                                  Durante muitos sculos, as revoltas populares constituram uma
                              caracterstica essencial da tradio inglesa. Porm, foi no sculo XVII
                              que aconteceu a primeira revoluo burguesa da civilizao ocidental,
                              a chamada Revoluo Puritana (1640). No curso dessa guerra civil, ha-
                              via duas foras: a do rei (Carlos I), formada em sua maioria pela antiga
                              nobreza catlica ou anglicana (cavaleiros) e a do parlamento, liderada
                              por Oliver Cromwell (1599-1658), composta pela pequena e mdia no-
                              breza, pela burguesia e boa parte da populao ligada aos ofcios ur-
                              banos, esse grupo era conhecido por "cabeas redondas" (assim cha-
                              mados porque usavam o cabelo curto).

340 RelaesCulturais
                                                                                                 Histria

    No transcorrer dessa luta, surgiram no exrcito de Cromwell, seto-
res mais radicais, como os "niveladores" (levellers), assim conhecidos
pois pretendiam nivelar as distintas condies sociais e adotar o sufr-
gio (voto) universal.


     Texto 6
      Os niveladores no tinham fora econmica e consistncia ideolgica suficientes para impor seu
 programa. Representavam os interesses dos arteses e jornaleiros urbanos e sua ideologia radical era
 tipicamente pequeno-burguesa e, como tal, contraditria. Queriam a democracia, os direitos polticos
 para todos os homens livres, mas sua concepo de homens livres no era universal. As mulheres, e
 todos aqueles que no fossem proprietrios de seus meios de produo e de seu prprio corpo (as-
 salariados domsticos, pobres, etc.) ficavam de fora de sua democracia. (Adaptado de FLORENZANO, 1981,
 p.110.)


    Preso pelos "cabeas redondas", o rei Carlos I foi julgado e decapi-
tado em 1648. Formalmente, a monarquia tinha sido extinta. Cromwell
esteve a frente do governo da Inglaterra de 1649 a 1658. O governo di-
tatorial de Cromwell praticamente coincidiu com o perodo republica-
no na Inglaterra (1649-1660).
    Internamente, Cromwell esmagou a faco dos "niveladores", os
quais queriam transformar a repblica ditatorial em uma democracia.
Foi neste contexto que Cromwell proferiu esta frase: "No h outro
modo de se lidar com estes homens a no ser partindo-os em peda-
os... Se no forem partidos, eles nos partiro".
    A dcada de 1640, foi a pior no perodo dos conflitos civis na Ingla-
terra. A catastrfica colheita de 1648, trouxe fome e desemprego gene-
ralizados. Em 1649, os pobres de Londres estavam sendo abastecidos
de trigo e carvo gratuitamente pelo Estado. A situao econmica e
poltica foi explosiva nos primeiros meses de 1649.
    Nesse mesmo ano, surgiu um grupo denominado diggers ("cavado-
res"), os levellers ("niveladores") autnticos. O nome diggers vem do
verbo "to dig", que significa "cavar". Ato praticado por um grupo de la-
vradores em 1648, os quais comearam a revolver a terra como um ato
simblico, ou seja, uma forma encontrada pelo grupo para demonstrar
seu repdio aos poderes da sociedade e do Estado. Uma das princi-
pais reinvidicaes dos diggers era o direito de todas as pessoas vive-
rem em terras comunais.
    Liderados por Gerrard Winstanley (1609-1676), os diggers formaram
uma verdadeira sociedade comunista baseada na propriedade comum
da terra. Leia o documento 8, referente s idias de Winstanley a respei-
to da propriedade da terra.




                                   Relaesdedominaoeresistncianasociedadeocidentalmoderna 341
         EnsinoMdio


          Documeto 8
         Onde exista um povo... unido graas  propriedade coletiva dos meios de subsistncia at formar
     uma s pessoa, ser o seu pas o mais poderoso do mundo; pois ento ele defender o seu patrim-
     nio como se fosse um nico homem... Ao passo que a defesa da propriedade e do mundo todo em
     partidos  a causa de todas as guerras, carnificinas e pendncias que vemos por toda parte... Mas,
     quando a terra tornar a ser um tesouro comum, assim como ela deve ser, ento haver de cessar es-
     sa inimizade entre todos os pases e ningum mais se atrever a tentar dominar os outros, nem ousa-
     r matar o seu prximo, nem desejar possuir mais terras que o seu semelhante. (Adaptado de Gerrard WINS-
     TANLEY apud HILL, 1991, p.145-146.).




                       ATIVIDADE

         Leia o texto 6, sobre os "niveladores" democratas, e o documento 8, escrito por Gerrard Winstan-
          ley sobre a questo da terra. Compare as idias dos primeiros "niveladores" com as defendidas pe-
          lo lder dos "cavadores".
         Aponte as rupturas e continuidades das idias, presentes no texto 6 e no documento 8, na so-
          ciedade contempornea. Considere os respectivos contextos scio-histricos.




                       PESQUISA

         Pesquise sobre os conflitos mais recentes ocorridos no Brasil em funo da posse da terra. A partir
          disso, produza uma narrativa histrica.


                                      Embora derrotados, as idias dos niveladores e dos cavadores con-
                                  tinuaram vivas e, mais tarde, reapareceram outros movimentos, como
                                  a revoluo Francesa (1789) e no movimento cartista do sculo XIX.
                                  As tentativas de mudanas desses grupos  os "niveladores" e "cavado-
                                  res" (levellers e diggers) , formados em meio  gente simples do po-
                                  vo, buscaram impor as suas prprias solues aos problemas de seu
                                  tempo.
                                      Com a morte de Oliver Cromwel (1658), seu filho assumiu o poder.
                                  Sem habilidades para governar, o trono passou para as mos de Carlos
                                  II (1660-1685) e, mais tarde, para Jaime II (1685-1688). Os Stuarts re-
                                  tornaram ao poder. Era o incio da Restaurao, porm, isso no signi-
                                  ficou a volta da monarquia absolutista, nem tampouco do Antigo Re-
                                  gime.
                                       Essa fase revolucionria foi encerrada pela Revoluo Gloriosa
                                  (1688), originando as bases do sistema parlamentarista em vigor na


342 RelaesCulturais
                                                                                     Histria

Inglaterra contempornea. O nome "Gloriosa" no significou as con-
vulses sociais presentes no movimento republicano anterior, nem to
pouco, o radicalismo comum nas revoltas dos levellers e diggers. En-
fim, no houve derramamento de sangue, porm, uma de suas conse-
qncias foi o triunfo das classes burguesas.
    Com a Restaurao, o pas voltou  situao jurdica existente em
1642, isto , o Parlamento voltou a ser o soberano poltico da nao.
Dessa forma, o rei ficou privado de todos os instrumentos do poder
absoluto. Jaime II foi afastado pela "Gloriosa revoluo" de 1688. "Glo-
riosa" para as classes burguesas porque no houve derramamento de
sangue nem desordens sociais, no houve "anarquia", nem possibili-
dades de revivescncias das exigncias revolucionrias-democrticas...
Pelo menos at a intensificao das revoltas dos trabalhadores a partir
do final do sculo XVIII.


  Iluminismo:asluzesdarazonamodernidade
    As transformaes que ocorreram durante o perodo Moderno tive-
ram estreita relao com o movimento cultural que dominou a Europa
ocidental, especificamente a Frana, Inglaterra e a Alemanha, nos dois
ltimos decnios do sculo XVII, estendendo-se  dcada de 1780, co-
nhecido como Iluminismo ou Filosofia das Luzes ou, ainda, de filoso-
fia da Ilustrao. O pensamento ocidental, antes marcado pelo misti-
cismo religioso e pelo abuso do poder poltico, conheceu, durante o
sculo XVIII, uma nova possibilidade de construo de sociedade sus-
tentada na razo.
    O matemtico francs Ren Descartes (1596-1650), foi o precur-
sor do movimento. Sistematizador do racionalismo, Descartes defen-
dia a idia de que, para se chegar  verdade, devia-se duvidar de tu-
do, mesmo das coisas aparentemente verdadeiras, ou seja, a partir da
dvida racional pode-se alcanar a compreenso do mundo, e mes-
mo de Deus.
    Alicerado na filosofia e na cincia, herana do Renascimento (dos
sculos XIV a XVI) e tendo como base social as classes burguesas, os
Iluministas criticaram as instituies e princpios at ento reinantes,
como: o regime feudal, absolutismo, a intolerncia religiosa, a supre-
macia da f e da tradio sobre a razo e o progresso cientfico e tc-
nico. Os pensadores desse perodo centraram suas idias, tendo como
referencial os novos ideais burgueses reinantes desde a Idade Mdia.
Assim, a influncia do movimento do Iluminismo comeou a dar os
primeiros sinais prticos de que o tempo era de grandes transforma-
es sociais.
    Os revolucionrios que partiram ao assalto do poder poltico em to-
do o Ocidente, no sculo XVIII, foram buscar no Iluminismo a justifi-

                                 Relaesdedominaoeresistncianasociedadeocidentalmoderna 343
        EnsinoMdio

                               cativa para a ousadia da poca. Essa ousadia foi realizada na Revolu-
                               o Francesa (1789-1799), onde o poder absolutista dos reis da Frana
                               foi substitudo pelo poder da burguesia atravs de uma revolta popular
                               nacional sem precedentes neste pas. A Frana foi o palco das idias
                               iluministas, porm, tais ideais se espalharam por vrios pases da Eu-
                               ropa e das Amricas.
                                   Durante o sculo XVIII, os filsofos iluministas, tais como Charles-
                               Louis de Secondat, o baro de Montesquieu (1689-1755), Franois-Ma-
                               rie Arouet, o Voltaire (1694-1778), Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)
                               e Denis Diderot (1713-1784) foram tomados como exemplo e seus co-
                               nhecimentos passaram a ser usados por todos aqueles que almejavam
                               mudanas sociais, polticas e culturais. Os pensadores iluministas esti-
                               veram presentes por meio de suas produes na filosofia, nas cincias
                               matemticas, astronmicas, econmicas e polticas.
                                   Na Frana, os camponeses lanaram-se em lutas contra o poder ab-
                               solutista, o qual tinha como suporte a concepo da teoria do direito
                               divino, na qual a nobreza se beneficiava por meio de privilgios feu-
                               dais adquiridos a partir do nascimento ou da compra de ttulos nobili-
                               rquicos. Observe, no fragmento da obra Do contrato social (publicado
                               em 1762), o modo como o filsofo J. J. Rousseau descreveu a valida-
                               de ou no do "direito" do mais forte enquanto direito; tema explosivo
                               para as classes camponesas.

         Documento 9
         O mais forte nunca  suficientemente forte para ser sempre o senhor, seno transformando sua for-
     a em direito e a obedincia em dever. Da o direito do mais forte, direito aparentemente tomado com
     ironia e na realidade estabelecido como princpio. Jamais alcanaremos uma explicao dessa pala-
     vra? A fora  um poder fsico; no imagino que moralidade possa resultar de seus efeitos. Ceder  for-
     a constitui ato de necessidade, no de vontade; quando muito, ato de prudncia. Em que sentido po-
     der representar um dever?
          Suponhamos, por um momento, esse pretenso direito. Afirmo que ele s redundar em inexplicvel
     galimatias, pois, desde que a fora faz o direito, o efeito toma lugar da causa, toda a fora que sobrepu-
     jar a primeira, suced-la- nesse direito. Desde que se pode desobedecer impunemente, torna-se leg-
     timo faz-lo e , visto que o mais forte tem sempre razo, basta somente agir de modo a ser o mais for-
     te. Ora, que direito ser esse, que padece quando cessa a fora? Se impe obedecer pela fora, no
     se tem necessidade de obedecer por dever, e, se no se for mais forado a obedecer, j no se esta-
     r mais obrigado a faz-lo. V-se, pois, que a palavra direito nada acrescenta  fora, nesse passo, no
     significa absolutamente nada. Obedecei aos poderosos. Se isso quer dizer, cedei  fora, o preceito
      bom, mas suprfluo; sustento que jamais ser violado. Reconheo que todo o poder vem de Deus,
     mas tambm todas as doenas. Por isso ser proibido chamar o mdico? Quando um bandido me ata-
     ca num recanto da floresta, no somente sou obrigado a dar-lhe minha bolsa, mas, se pudera salv-la,
     estaria obrigado em conscincia a d-la, visto que, enfim, a pistola do bandido tambm  um poder?
        Convenhamos, pois, em que a fora no faz o direito e que s se  obrigado a obedecer aos po-
     deres legtimos. Desse modo, est sempre de p minha pergunta inicial. (Adaptado de ROUSSEAU, 1978 [1762],
     pp. 25-26).


344 RelaesCulturais
                                                                                                                  Histria



                 ATIVIDADE

    Leia o documento 9 referente a um fragmento da obra Do contrato social de Rousseau. Procu-
     re no dicionrio as palavras de compreenso difcil. Depois, escreva uma narrativa histrica concor-
     dando ou discordando sobre o que foi escrito pelo filsofo, sem deixar de levar em conta o contex-
     to histrico da produo desta obra.


    A imagem do Iluminismo, na sociedade
contempornea,  indissocivel da Enciclop-
dia  conjunto de livros publicado no ano de
1751 que reuniu grande parte do conheci-
mento cientfico e filosfico produzido na Eu-
ropa naquele perodo. Resultado de um pro-
cesso de criao coletiva, a Enciclopdia teve
como responsveis Denis Diderot e Jean le
Rond d'Alembert (1717-1783). Vinte volumes
foram lanados at 1772, quando ocorreu a
proibio da edio. Seus volumes circularam
por toda a Europa e chegaram ao continente
americano, inclusive nas cidades mineiras da
Amrica portuguesa, na dcada de 1780, ape-
sar de todas as proibies, condenaes e per-
seguies.
    A Enciclopdia foi utilizada por intelectuais,
artesos e cientistas como um dicionrio e foi
tambm um guia ilustrado, servindo a diver-
sas prticas ou como uma espcie de encan-
tamento diante do mundo novo que ento co-
meava: o mundo das mquinas.
    Na regio das minas da Amrica portugue-
sa, entre 1788 a 1789, estas idias inspiraram
comerciantes, militares, fazendeiros, juzes, in-
telectuais e sacerdotes a se revoltarem em prol       Documento 10
da independncia do Brasil. Esta revolta foi         Charles-Nicolas Cochin (desenho) Bonaventure-Lou-
chamada pela historiografia tradicional de In-       is Prvost (Ornamento) Frontispcio da Encyclo-
confidncia Mineira. O termo "inconfidncia",        pdie, 1772, Desenho. Encyclopdie.
de acordo com o Dicionrio Houaiss da Lngua         Esta obra est carregada de simbolismo: A figura do centro repre-
Portuguesa, significa "infidelidade, deslealdade     senta a verdade  rodeada por luz intensa (o smbolo central do
para com o Estado ou um governante" (2001,           iluminismo). Duas outras figuras  direita, a razo e a filosofia, es-
p.1597.). Portanto, este conceito esconde a na-      to a retirar o manto sobre a verdade.
tureza real desta conjurao, a qual foi motiva-                                                 n Disponvel: wikipedia.org




                                    Relaesdedominaoeresistncianasociedadeocidentalmoderna 345
         EnsinoMdio

                                      da pela crise na extrao do ouro e pela rigidez da metrpole portu-
                                      guesa na cobrana do quinto deste metal.
                                          Em outras palavras, os brasileiros no estavam conseguindo pagar
                                      a quantidade de ouro exigida pela Coroa portuguesa. J a Coroa so-
                                      fria a presso sua dvida com a Inglaterra. Esta nao, a Inglaterra, es-
                                      tava em plena fase de desenvolvimento da revoluo industrial, a qual
                                      era financiada por sua economia interna, mas tambm pelo ouro por-
                                      tugus, diga-se, brasileiro.
                                              Influenciados pelas idias iluministas e pela independncia dos
                                      Estados Unidos, ocorrida em 1776, os "inconfidentes" planejavam que
                                      a Coroa portuguesa, por meio do governador da regio, executasse a
                                      imposio da derrama: o pagamento imediato de todas as dvidas que
                                      os sditos brasileiros tinham com o Estado portugus. Neste dia, os re-
                                      voltosos, os quais eram somente um pequeno grupo das camadas m-
                                      dias e altas da sociedade mineira, insuflariam toda a populao para a
                                      revolta. No entanto, o movimento foi abortado por uma delao ao Es-
                                      tado, de modo que seus lderes foram julgados, exilados e um morto:
                                      Joaquim Jos da Silva Xavier, o Tiradentes (1749-1792). Leia no texto 7
                                      quais eram alguns dos objetivos deste movimento.

          Texto 7
      Instalar uma universidade em Vila Rica (atual Ouro Preto), pois no havia cursos superiores na col-
       nia, exceto para padres;
      Criar uma casa da moeda;
      Abrir o Distrito Diamantino para toda a populao mineira (a explorao de diamantes era rigidamen-
       te controlada pela Coroa portuguesa);
      Construir manufaturas e estimular a explorao de minrio de ferro;
      Criar uma guarda nacional em que todos os cidados usariam armas e serviriam quando convoca-
       dos pelo governo;
      Adotar a forma republicana de governo, com eleies anuais para presidente;
      Cada localidade teria seu Parlamento, subordinado ao da capital;
      Padres poderiam recolher dzimos, desde que mantivessem professores, hospitais e asilos;
      Estimular o povoamento por meio de prmios s mulheres que tivessem determinado nmero de fi-
       lhos;
      Todos os devedores da Real Fazenda seriam perdoados.
     n (Adaptado de FURTADO, 1998, pp. 35-36.).




                         ATIVIDADE

         Observe a imagem que retrata a Enciclopdia no documento 10. Depois, faa uma leitura desta
          imagem apontando o que ela representa e descreva suas observaes a partir do contexto de sua
          produo.

346 RelaesCulturais
                                                                                                             Histria


     Leia o documento 11 que contm um fragmento do livro Romanceiro da Inconfidncia (1953), de
      Ceclia Meireles (1901-1964). Depois, compare as idias e os fatos apontados no poema com os
      presentes no texto 7. Procure em um dicionrio o significado das palavras que voc no conhece.


     Documento 11
                              [ATRS DE PORTAS FECHADAS,  LUZ DE VELAS ACESAS]


     Atrs de portas fechadas,                                            Atrs de portas fechadas,
      luz de velas acesas,                                                luz de velas acesas,
     brilham fardas e casacas,                                            entre sigilo e espionagem,
     junto com batinas pretas.                                            acontece a Inconfidncia.
     E h nas mos pensativas,                                            E diz o Vigrio ao Poeta:
     entre gales, sedas e rendas,                                        "Escreva-me aquela letra
     e h grossas mos vigorosas,                                         do versinho de Verglio..."
     de unhas fortes duras veias,                                         e d-lhe o papel e a pena.
     e h mos de plpito e altares,                                      E diz o poeta ao Vigrio,
     de Evangelhos, cruzes, bnos.                                      com dramtica prudncia:
     Uns so reinis, uns, mazombos;                                      "Tenha meus dedos cortados,
     e pensam de mil maneiras;                                            antes que tal verso escrevam..."
     mas citam Verglio e Horcio,                                        LIBERDADE, AINDA QUE TARDE,
     e refletem, e argumentam,                                            ouve-se em redor da mesa.
     falam de minas e impostos,                                           Liberdade  essa palavra
     de lavras e de fazendas,                                             que o sonho humano alimenta:
     de ministros e rainhas                                               que no h ningum que explique,
     e das colnias inglesas.                                             e ningum que no entenda!

n (Adaptado de Ceclia MEIRELES, Romanceiro da Inconfidncia [1953] apud FURTADO, 1998, p. 38.)




                     ATIVIDADE

     "Somos hoje, de uma forma ou de outra, herdeiros do Iluminismo, quer como estilo de pensamento,
      quer como realidade poltica, o fato  que o Iluminismo ainda vive" (FALCON,1986, p.7). Voc con-
      corda com essa afirmativa? Explique a partir das permanncias e mudanas entre os dois contextos
      em questo: o do sculo XVIII e o da sociedade dos sculos XX e XXI.



  Asnovasidiaseascontestaesdostrabalhadores
   Se o Iluminismo contribuiu para o pensamento da sociedade moderna, a cincia e a tecno-
logia, por meio da Revoluo Industrial, proporcionam ao mundo um novo modo de produ-
o: o capitalismo industrial.


                                               Relaesdedominaoeresistncianasociedadeocidentalmoderna 347
       EnsinoMdio

                                  A industrializao mecanizada foi um dos acontecimentos que fez
                              parte desse conjunto de mudanas do mundo moderno. A partir da se-
                              gunda metade do sculo XVIII, a Inglaterra, com suas mquinas, con-
                              tribuiu para alteraes radicais do mundo do trabalho.
                                  Essa nova forma de organizao do trabalho criou condies para o
                              desenvolvimento da classe operria. A economia de mercado (capita-
                              lismo) ganhou novo impulso com a industrializao, ressaltando as di-
                              ferenas sociais j existentes. Essas diferenas produziram a excluso
                              social, poltica e econmica dos trabalhadores da cidade e do campo.
                                  A Europa, desde o sculo XIV, j vivia um enorme contraste entre
                              o luxo dos palcios e a riqueza dos nobres e a pobreza formada pela
                              misria da maior parte da populao, como os camponeses e os tra-
                              balhadores urbanos, os quais conviviam com uma multido de men-
                              digos, resultado das guerras, da fome (1315-1317) e das epidemias
                              (1348-1350) que assolaram o continente e mataram grande parte dos
                              europeus.
                                  No sculo XIV, a classe burguesa j despontava em funo de sua
                              riqueza, proveniente do comrcio com o Imprio Bizantino, com o
                              Oriente e com os reinos rabes. Na virada dos sculos XV e XVI, os
                              burgueses enriqueceram com o comrcio promovido pela explorao
                              das colnias da Amrica. Entretanto, a riqueza de alguns necessaria-
                              mente gerava a misria da maioria.
                                  A utopia (1516), obra escrita pelo pensador humanista ingls Tho-
                              mas Morus (1478-1535), foi considerada uma das mais relevantes pro-
                              dues intelectuais da modernidade. Nela, o autor faz uma crtica a
                              determinadas atitudes das classes dominantes, entre elas os chamados
                              cercamentos (ocorridos na Inglaterra entre os sculos XVI e XVIII), de-
                              terminados pela diviso das terras, pelos grandes proprietrios nobres
                              e burgueses. Estes proprietrios aboliram rapidamente a propriedade
                              comunal das terras e dos campos em geral, levando a expulso dos
                              camponeses ali instalados. Leia um fragmento da obra de Morus e en-
                              tenda melhor o que foram os cercamentos na Inglaterra.

        Documento 12
         Um avarento faminto fecha, num cercado, milhares de jeiras; enquanto que honestos cultivadores
     so expulsos de suas casas, uns pela fraude, outros pela violncia, os mais felizes por uma srie de ve-
     xaes e de questinculas que os foram a vender suas propriedades. E essas famlias mais numero-
     sas do que ricas (porque a agricultura tem necessidade de mais braos), emigram campos a fora, ma-
     ridos e mulheres, vivas e rfos, pais e mes com seus filhinhos. Os infelizes abandonam, chorando,
     o teto que os viu nascer, o solo que os alimentou, e no encontram abrigo onde refugiar-se. Ento ven-
     dem a baixo preo o que puderem carregar de seus trastes, mercadoria cujo valor  j bem insignifican-
     te. Esgotados esses fracos recursos, o que lhes restam? O roubo, e depois, o enforcamento, segundo
     as regras. (Adaptado de Thomas MORUS, A utopia [1516] apud MARQUES et al., 1994, p.41)




348 RelaesCulturais
                                                                                                      Histria



                ATIVIDADE

    Compare as permanncias e mudanas entre os fatos apresentados no documento 12 com a re-
     alidade em que vivem os pequenos agricultores do Brasil dos sculos XX e XXI. Considere seus res-
     pectivos contextos histricos.

    Nas cidades europias no havia trabalho para todos e, com a che-              n Documento 13
gada da industrializao mecanizada na Inglaterra, no sculo XVIII, a            Movimentos sociais: tenta-
situao, que j era ruim para os trabalhadores, piorou ainda mais de-           tivas coletivas de promover
vido ao processo de substituio da mo-de-obra.                                 um interesse comum ou de
     Em conseqncia dessa falta de trabalho, da misria e da explora-           assegurar uma meta comum
o, homens e mulheres do campo e da cidade iniciaram sua luta con-              por meio de uma ao fora
tra os responsveis pela situao: as classes nobres e burguesas apoia-          da esfera das instituies es-
das pelo Estado. Camponeses, artesos e operrios deram origem aos               tabelecidas.
movimentos sociais contemporneos, tanto no campo como na cidade,                (Adaptado de GIDDENS, 2005,
onde reivindicavam seus direitos e melhores condies de vida.
    Como exemplo, no final da dcada de 1780, durante a Revoluo
Francesa, os camponeses franceses se armaram e iniciaram uma gran-
de revolta conhecida com o nome de "O Grande Medo". Eles invadi-
ram os castelos e queimaram os ttulos de propriedade de terra. Du-
rante a revolta, 72 castelos foram incendiados. O medo de perder suas
terras levou os burgueses a se unirem aos nobres e a organizarem tro-
pas armadas para repreenderem as invases.
    Na Inglaterra, os camponeses expropriados de suas terras pelos
cercamentos encontraram dificuldades para se adaptar  nova vida.
Devido s dificuldades, muitos se transformaram em bandidos, saltea-
dores, mendigos. O filsofo e pensador alemo Karl Marx (1818-1883),
em sua obra O capital (1867), enfatiza que as leis criadas aps as ex-
propriaes, proibindo a mendicncia e a vagabundagem, foram es-
senciais no sentido de disciplinar essa massa e constituiu em impor-
tante elemento para a formao do proletariado. Leia um fragmento da
obra O capital para que voc compreenda este processo.

     Documento 14
     Depois de serem violentamente expropriados e expulsos de suas terras e convertidos em vagabun-
 dos, encaixavam-se os antigos camponeses, atravs de leis grotescamente terroristas, na disciplina
 exigida pelo sistema de trabalho assalariado. No  suficiente que as condies de trabalho cristalizem
 num dos plos como capital e no plo contrrio como homens que no tm nada para vender alm de
 sua fora de trabalho. No basta, tampouco, obrigar a estes a vender-se voluntariamente. No transcur-
 so da produo capitalista, vai-se formando uma classe trabalhadora que, pela fora da educao, da
 tradio, do costume, submete-se s exigncias desde regime de produo como se fossem as mais
 lgicas leis naturais. (Adaptado de Karl MARX, O capital [1867] apud MARQUES et al., 1994, p.47.).



                                   Relaesdedominaoeresistncianasociedadeocidentalmoderna 349
       EnsinoMdio



                       ATIVIDADE

        Escreva sobre as permanncias apontadas entre os documentos 12 e 13, produzidos por Tho-
     mas Morus e Karl Marx, respectivamente. Note que as datas de sua produo diferem em aproximada-
     mente 350 anos.


                                       A classe operria inglesa passou a se opor  mquina, primeiro alvo
                                   de sua rebeldia, e, depois,  classe burguesa. Logo no incio do movi-
                                   mento industrial, no sculo XVIII, os primeiros inventores foram perse-
                                   guidos e suas mquinas destrudas. No sculo XIX, o nmero de re-
                                   voltas aumentou, porm, essa forma de oposio tambm era isolada
                                   e limitada a certas localidades e, portanto, no reverteu a situao de
                                   misria em que estavam vivendo e a mquina continuou a ser utilizada
                                   na indstria. Leia o que a historiografia relata sobre as origens do mo-
                                   vimento operrio ingls no texto 8.

         Texto 8
         Os operrios, longe de serem os "filhos primognitos da revoluo industrial", tiveram nascimento
     tardio. Muitas das suas idias e formas de organizao foram antecipadas por trabalhadores domsti-
     cos, como os que trabalhavam com a l em Norwich e em regies do oeste, ou os teceles de avia-
     mentos de Manchester.  indiscutvel se os operrios, exceto nos distritos algodoeiros, "formaram o n-
     cleo do Movimento Trabalhista" antes do final da dcada de 1840 (e, em algumas cidades do norte e da
     regio central, nos anos de 1823-1824, conduzindo s grandes dispensas coletivas). Em muitas cida-
     des, o verdadeiro ncleo de onde o movimento trabalhista retirou suas idias, organizao e liderana
     eram constitudas por: sapateiros, teceles, seleiros e fabricantes de arreios, livreiros, impressores, pe-
     dreiros e pequenos comerciantes. A vasta rea da Londres radical, entre 1815 e 1850, no extraiu sua
     fora das principais indstrias pesadas (a construo de navios tendia a declinar, e os mecnicos cau-
     sariam impacto somente no final do sculo), mas das fileiras dos pequenos ofcios e ocupaes. (Adap-
     tado de THOMPSON, 1987, p.16.).


                                       Era necessrio encontrar uma nova forma de oposio e essa nova
                                   forma veio atravs das associaes. A princpio estas associaes eram
                                   secretas. S a partir de 1824, na Inglaterra, os operrios conseguiram o
                                   direito de participarem legalmente dessas associaes. Diante do caos
                                   que estavam passando e para atender suas prprias necessidades, co-
                                   mo acidentes de trabalho, doenas ou mesmo o desemprego, os ope-
                                   rrios criaram as primeiras associaes de auxlio mtuo, que funcio-
                                   navam atravs de cotizaes, ou seja, os trabalhadores fabris passaram
                                   a se reunir para contribuir com outro. Dessas associaes, nasceram os
                                   sindicatos de trabalhadores, os quais reuniam operrios de um mes-
                                   mo ofcio.
                                       Por meio dos sindicatos, essas associaes se fortaleceram e con-
                                   quistaram melhorias trabalhistas. Mesmo com todas as dificuldades im-

350 RelaesCulturais
                                                                                                   Histria

postas pelos parlamentos de diversos pases, os trabalhadores se or-
ganizaram em sindicatos e ganharam poder de luta na defesa de seus
interesses. Para voc compreender os elementos que possibilitaram a
formao da conscincia de classe dos operrios ao longo do proces-
so da industrializao, leia o texto 9.

     Texto 9
       O fato relevante do perodo entre 1790 e 1830  a formao da "classe operria". Isso  relevado,
 em primeiro lugar, no crescimento da conscincia de classe: a conscincia de uma identidade de in-
 teresses entre todos esses diversos grupos de trabalhadores contra os interesses de outras classes.
 E, em segundo lugar, no crescimento das formas correspondentes de organizao poltica e industrial.
 Por volta de 1832, havia instituies da classe operria solidamente fundadas e autoconscientes, sin-
 dicatos, sociedades de auxlio mtuo, movimentos religiosos e educativos, organizaes polticas, pe-
 rodicos, alm das tradies intelectuais, dos padres e da estrutura da sensibilidade da classe oper-
 ria. (Adaptado de THOMPSON,1987, p.17.).

   A sociedade operria, que surgiu com a industrial inglesa, em me-
ados do sculo XVIII, alcanou seu pleno amadurecimento no sculo
XIX. Segundo o historiador Eric J. Hobsbawm (1917- ), o movimento
operrio surgido na primeira metade do sculo XIX, foi uma resposta
ao grito dos homens pobres que passaram a viver  margem da nova
sociedade burguesa, industrializada e recm inaugurada a partir da Re-
voluo industrial. Diante de uma realidade onde os antigos artesos
independentes agora haviam se tornado operrios dependentes, esses
homens buscavam alternativas para uma vida mais digna.



                 PESQUISA

    Voc conheceu, por meio dos textos 8 e 9, as formas de protesto que surgiram no incio do pero-
     do industrial. Faa uma pesquisa a partir de uma consulta bibliogrfica e cite os movimentos sociais
     que esto ocorrendo no Brasil contemporneo. Procure os motivos dessas reivindicaes, os sujei-
     tos histricos que as propuseram, em que contextos os mesmos encontram-se inseridos.




                 ATIVIDADE

    Escreva uma narrativa histrica comparando as permanncias e as mudanas relativas aos movi-
     mentos sociais do perodo da Revoluo Industrial aos movimentos sociais que agem nos sculos
     XX e XXI.




                                    Relaesdedominaoeresistncianasociedadeocidentalmoderna 351
       EnsinoMdio

                         RefernciasBibligrficas:
                         ENGELS, F. A situao da classe operria na Inglaterra. Lisboa: Pre-
                         sena, 1975.
                         FALCON, F. J. C. Iluminismo. So Paulo: tica, 1986.
                         FERREIRA, A. B. de H. et. al. Novo Dicionrio Aurlio de Lngua Portu-
                         guesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.
                         FLORENZANO, M. As revolues burguesas. So Paulo: Brasiliense,
                         1981 (Coleo Tudo  Histria; 8)
                         FORTES, L. R. S. O Iluminismo e os reis filsofos. So Paulo: Brasilien-
                         se, 2004 (Coleo Tudo  Histria; 22).
                         FURTADO, J. P. Inconfidncia mineira: um espetculo no escuro. So
                         Paulo: Moderna, 1998.
                         GIDDENS, A. Sociologia. Porto Alegre: Artmed, 2005.
                         HILL, C. O mundo de ponta-cabea: idias radicais durante a Revoluo
                         Inglesa de 1640. So Paulo: Companhia das Letras, 1987.
                         HOUAISS, A; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionrio Houaiss da Lngua
                         Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
                         LE GOFF, J. Histria e memria. Campinas: Editora da UNICAMP, 2003
                         MARQUES, A.; BERUTTI, F.; FARIA, R. Histria e memria atravs de
                         textos. So Paulo: Contexto, 1994.
                         NOVAES, A. (org.). A descoberta do homem e do mundo. So Paulo:
                         Companhia das Letras, 1998.
                         ROUSSEAU, J. J. Do contrato social. So Paulo: Abril,1978. Cultural (Co-
                         leo Os Pensadores).
                         THOMPSON, E. P. A formao da classe operria inglesa: a maldio
                         de Ado. V. 2 Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987.


                         ObrasConsultadas
                         ARRUDA, J. J. de A. A revoluo inglesa. So Paulo: Brasiliense, 1999
                         (Coleo Tudo  Histria; 82)
                         IGLESIAS, F. A revoluo industrial. So Paulo: Brasiliense, 1986.
                         PERY, M. Civilizao ocidental: uma histria concisa. So Paulo: Martins
                         fontes, 1985.
                         Revista Histria Viva. Ano I, no.10, agosto de 2004.




352 RelaesCulturais
                                                                Histria



ANOTAES




            Relaesdedominaoeresistncianasociedadeocidentalmoderna 353
      EnsinoMdio




354 Relaesdepoder
                                                                                                          Histria




                                                                                              19
                                                                      RELAES DE PODER:
                                                       Relaes de dominao e resistncia no
                                                      mundo do trabalho nos sculos XvIII e XIX
                                                                                               n Siumara Sagati1




                                                                 queles que se uniram, organizaram-se,
                                                                 que ousaram, e no aceitaram o que esta-
                                                                va estabelecido, foram os que abriram as
                                                                  portas para as mudanas, semeando a
                                                                  legitimidade da luta pelos seus interes-
                                                            ses e pelo direito de tornarem-se cidados.
                                                               As lutas pela liberdade e pela igualdade
                                                            ocorreram constantemente e provocaram
                                                            mudanas nos sculos XVIII e XIX. Voc sabe
                                                            como as transformaes histricas desses s-
                                                            culos se relacionaram com os processos de
                                                            construo da cidadania?




                                                                                       n www3.fiemg.com.br/



1
 Colgio Estadual Jos de Anchieta  Apucarana  PR


                                   RelaesdedominaoeresistncianomundodotrabalhonossculosXVIIIeXIX 355
         EnsinoMdio

                                    AsRevoluesealutapelaIgualdade
                                     A Revoluo Francesa (1789), a Revoluo Norte-Americana (1776) e
                                 a Revoluo Industrial na Europa Ocidental (a partir do sculo XVIII) pro-
                                 vocaram transformaes sociais e polticas que marcaram o sculo XVIII
                                 e XIX. Neste contexto, as lutas pela liberdade, pela igualdade e contra to-
                                 da forma de excluso se intensificam, dando incio ao processo de cons-
                                 truo do homem comum como sujeito de direitos civis e sociais.
                                     No sculo XVIII, a partir da Revoluo Francesa, o povo desper-
                                 tou para a possibilidade de uma sociedade mais justa e, desde ento,
                                 homens, mulheres, jovens se conscientizaram da prpria fora e rei-
                                 vindicaram  diante dos poderes constitudos  um espao para a dig-
                                 nidade de todos os seres humanos. A visibilidade das suas aes este-
                                 ve presente em diferentes momentos e espaos: em pequenos grupos
                                 descentralizados que escolheram o prprio modo de participao nos
                                 espaos pblicos e coletivos, na mdia, nas experincias do dia-a-dia,
                                 etc. Este processo deslanchou de maneira decisiva se estendendo pe-
                                 los sculos XIX e XX, at os dias de hoje.


                                    Manifestaesfemininas:abuscadacidadania
                                                  Entre os sujeitos que sofriam no cotidiano com a excluso e com
   Documento 1                                              os preconceitos sociais, estavam as mulheres. No scu-
                                                            lo XVIII, marcado por mltiplas revolues, elas registra-
                                                            ram as rupturas e reelaboraram desejos e lugares femini-
                                                            nos. No contexto das Revolues francesa e americana,
                                                            as mulheres viram sua perspectiva de vida alterada. Es-
                                                            ses acontecimentos deixaram mais claro para as mulheres
                                                            a possibilidade de romper com as tradies arraigadas e
                                                            a hierarquia de poderes estabelecida. Tornara-se possvel
   n   Marcha sobre Versalhes em 5 de outubro de 1789 (Mu- uma posio de sujeito, indivduo de corpo inteiro e atriz
       lheres conduzindo canhes). Paris, Museu Carnavalet.
       FONTE: http://www.cliohistoria.hpg.ig.com.br/        poltica, futura cidad. Veja o que a historiografia diz:

          Texto 1  As "bota-fogo"
            Sabe-se que na Europa moderna as mulheres desempenhavam tradicionalmente um papel de agitado-
       ras. No  de admirar encontr-las  cabea de certas insurreies parisienses. Em 5 de Outubro de 1789,
       foram elas as primeiras a agruparem-se e a marcharem sobre Versalhes. Em 1795 como em 1789 ou ain-
       da em Maio de 1793, nas semanas que precedem as insurreies, elas ocupam as ruas e a formam gru-
       pos e incitam os homens  ao. Entretanto a participao das mulheres nas revolues do final do sculo
       XVIII no se reduz apenas aos tumultos insurrecionais. No podendo tomar parte nas deliberaes das as-
       semblias polticas, as mulheres comprimem-se, numerosas, nas tribunas abertas ao pblico. Sua presen-
       a nas tribunas  um meio de se imiscurem na esfera poltica, concreta e simbolicamente. Com efeito, es-
       sas tribunas tm uma funo poltica essencial na mentalidade popular: o controle dos eleitos.
                                                                                (Adaptado de PERROT, 1991, p. 19-27, v. 4.)


356 Relaesdepoder
                                                                                                             Histria


    Texto 2
      No sculo XVIII, as mulheres da Amrica inglesa no haviam participado muito da vida pblica. Nas
 lutas contra os desmandos da metrpole e na Guerra da Independncia, colaboraram mantendo sozi-
 nhas seus familiares e propriedades e empenhando-se em atos cvicos. O modelo republicano de mu-
 lher que emerge junto com a nova nao  o da "me" que, embora no se imiscua nos assuntos p-
 blicos e dedique-se de corpo e alma  famlia,  chamada a formar os novos cidados americanos que
 "prezam a liberdade". Aps a independncia, surgem associaes de mulheres organizadas, muitas ve-
 zes ligadas s igrejas, com o objetivo de auxiliar os desamparados. A prtica de tais grupos fornecer
 subsdios para a participao das norte americanas nos movimentos abolicionistas e feministas do s-
 culo XIX. E a brecha aberta pela nova responsabilidade para com a nao dita do povo livre servir de
 justificativa para que procurem interferir mais na vida pblica e lutem pela emancipao feminina.
                                                                        (Adaptado de PINSKY & PEDRO, 2003, p. 268.)




    Texto 3  Fiar pela causa comum
     Na Amrica do sculo XVIII, as mulheres no esto na primeira fila das multides, no formam clubes
 e no assistem, mesmo como meras espectadoras, s assemblias polticas. A partir de 1750 uma pa-
 lavra de ordem percorre as colnias: "boicote s mercadorias importadas da Inglaterra. Fabriquemos e
 compremos americanos". O "filhos da liberdade" apelam ao civismo das mulheres, as quais se encon-
 tram no meio desta estratgia: que elas abandonem os comerciantes importadores, renunciando s lu-
 xuosas elegncias do Velho Continente, em proveito de vesturio mais simples e grosseiro, mas, ame-
 ricano. E compete-lhe a elas fabric-lo. Ser americana  fiar pela causa patritica. Aprender a fiar, vestir
 americano so decises individuais carregadas de um sentido militante, atos cvicos que do a uma
 americana a conscincia de estar trabalhando por uma causa comum.
                                                                         (Adaptado de PERROT, 1991, p. 29-30, v. 4.)




                 ATIVIDADE

    Duas revolues marcaram a histria da cidadania das mulheres: a Americana (1776) e a Francesa
 (1789). Observe o documento 1, leia os textos 1, 2 e 3 e aponte semelhanas e diferenas sobre o
 envolvimento feminino nos dois processos revolucionrios.




   O desenvolvimento do capitalismo e o crescimento econmico, pri-
meiro com o capitalismo comercial e, depois, com o desenvolvimento
da industrializao na Europa, transformaram a economia e o padro
de vida das mulheres a partir de meados do sculo XVIII.
   Anteriormente a este perodo (sculo XVIII), quando a economia
familiar da grande maioria da populao havia se caracterizado pela
produo domstica, em que todos os membros da casa trabalhavam


                         RelaesdedominaoeresistncianomundodotrabalhonossculosXVIIIeXIX 357
       EnsinoMdio

                               em atividades relacionadas ao interesse econmico da famlia, muitas
                               mulheres j trabalhavam fora de casa. A mulher trabalhadora estava
                               presente no campo, nas oficinas artesanais ou no pequeno comrcio.
                                   Com a industrializao do sculo XIX, a identificao do trabalho
                               feminino com certos tipos de empregos e como mo-de-obra bara-
                               ta foi formalizada e institucionalizada de vrias maneiras: em com-
                               parao com os trabalhadores homens, as mulheres trabalhavam por
                               salrios mais baixos, nos setores menos prestigiados da economia,
                               muitas vezes mais vulnerveis  flutuao e geralmente em tarefas
                               no qualificadas e em posies subordinadas. Seu trabalho foi con-
                               siderado como sendo de baixa produtividade e a sua capacidade de
                               produtora, que poderia assegurar-lhe um reconhecimento social e
                               econmico, foi subestimada.
                                   Diante das pssimas condies de trabalho que enfrentavam,
                               muitas mulheres envolveram-se em manifestaes e movimentos por
                               melhorias, aproveitando as formas tradicionais de organizao e dos
                               sindicatos. Porm, ainda em meados do sculo XIX, as mulheres tra-
                               balhadoras no eram muito organizadas, pois no contavam com o
                               apoio dos seus companheiros; alm disso, suas associaes eram
                               frgeis diante do risco de perderem o emprego caso se manifestas-
                               sem. Mas, mesmo assim, operrias marcaram presena em diversos
                               tipos de manifestaes e apresentaram suas reivindicaes na espe-
                               rana de serem ouvidas. Observe alguns exemplos:


        Texto 4
         As lavadeiras profissionais esto entre as assalariadas mais turbulentas, prontas para a aliana e a gre-
     ve, tanto em Paris, como no interior. Em 1848, as lavadeiras parisienses formaram uma associao e lan-
     aram cooperativas.
                                                                                                (PERROT, 1988, p. 203.)


        Texto 5
         Na Sua, de 1905 a 1909, Margareth Faas-Hardegger privilegia na sua luta sindical os direitos civis
     e polticos das mulheres. Inspira-se no sindicalismo revolucionrio francs e utiliza a ao direta, greves,
     boicotes e a criao de cooperativas.
                                                                               (KPPELI apud PERROT, 1991, p.569-570.)



        Texto 6 - As greves operrias no Brasil
        Greves foram noticiadas, como a das costureiras no jornal A Platia do dia 25 de maio de 1917: O
     centro da cidade despertou ontem com a matinada das costureiras. Nas proximidades das casas de
     moda e oficinas de costuras formaram elas grrulos grupos, assumindo algumas a empertigada atitude
     de oradoras, concitando as usas colegas  greve.
                                                                                      (Adaptado de DECCA, 1991, p.76.)



358 Relaesdepoder
                                                                                                                Histria


    Texto 7
       Afinal, o que sabemos sobre as trabalhadoras dos primrdios da indus-
 trializao brasileira? Algumas delas escreveram inmeros artigos na impren-
 sa operria, apontando os problemas enfrentados pelas trabalhadoras na
 produo e na vida social, as pssimas condies de trabalho e de higiene
 nas fbricas e nas habitaes coletivas e a inexistncia de direitos sociais e
 polticos para as mulheres.
                                  (Adaptado de RAGO apud DEL PRIORI, 2002, p.579-595.)


   Conhea tambm um pouco sobre a poltica e as prticas dos sin-
dicatos relacionadas ao papel da mulher trabalhadora:


    Texto 8
     Na sua maioria, os sindicalistas procuravam proteger os seus empregos e salrios mantendo as mu-
 lheres afastadas das suas profisses, e, a longo prazo, afastadas do mercado de trabalho. Aceitavam
 como inevitvel o fato de os salrios femininos serem mais baixos do que os masculinos, e por isso tra-
 tavam as mulheres trabalhadoras mais como uma ameaa do que como potenciais aliadas.
      Havia,  claro, sindicatos que aceitavam mulheres como membros e sindicatos formados pelas pr-
 prias trabalhadoras, sobretudo nos setores txtil, do vesturio, do tabaco e do calado, onde as mu-
 lheres constituam uma parte significativa da fora de trabalho. Em algumas reas, as mulheres par-
 ticipavam ativamente nas aes sindicais e grevistas locais, mesmo quando os sindicatos nacionais
 desencorajavam ou proibiam sua participao. Noutras, formaram organizaes sindicais nacionais de
 mulheres e recrutaram trabalhadoras de um largo espectro de ocupaes. A British Women's Trade
 Union League (Liga Sindical Feminina Britnica), criada em 1889, por exemplo, fundou a National Fede-
 ration of Women Workers (Federao Nacional das Mulheres Trabalhadoras) em 1906, e, nas vsperas
 da Primeira Guerra Mundial, em 1914, tinha cerca de 20.000 membros.
                                                                  (Adaptado de SCOTT apud PERROT, p.1991, p. 464-466.)




    Texto 9
      No fim do sculo XIX, o grau de sindicalizao das mulheres foi aumentando e as operrias con-
 seguiram finalmente ser aceitas nos sindicatos antes masculinos. Com o tempo, algumas poucas mu-
 lheres conquistaram um poder de influncia significativo no interior de sindicatos, na imprensa ope-
 rria e nos partidos polticos de esquerda. No incio do sculo XX, graas a essa influncia, alguns
 poucos sindicatos j falavam em "pagamento igual para trabalho igual". Algumas das mulheres que
 carregavam tal bandeira concebiam, inclusive, que a mulher atuaria no mercado de trabalho no s
 por necessidade econmica, mas tambm por vontade prpria e desejo de emancipao pessoal.
 Entretanto, nas primeiras dcadas do sculo XX, as mulheres continuavam ganhando bem menos
 que os homens. Alm disso, permanecia, no discurso dominante da poca, o ideal da esposa e da
 me respeitveis "restritas ao lar".
                                                                            (Adaptado de PINSKY & PEDRO, 2003, p. 284.)




                        RelaesdedominaoeresistncianomundodotrabalhonossculosXVIIIeXIX 359
      EnsinoMdio



                    DEBATE

       Analise as informaes do texto 8 sobre a posio dos sindicalistas perante o ingresso da mo-
    de-obra feminina no mercado de trabalho.
       Debata o assunto com os colegas e o professor em sala de aula e registre as principais consi-
    deraes.




                    ATIVIDADE

       Identifique, nos textos 8 e 9, as semelhanas/diferenas e as respectivas mudanas/permanncias
    na organizao das categorias de mulheres trabalhadoras.



                                A defesa da igualdade de direitos, que permeou os sculos XVIII
                            e XIX, acabou por estimular as mulheres a exigirem os mesmos direi-
                            tos que os homens. Uma das primeiras mulheres a faz-lo foi a inglesa
                            Maria Wollstonecraft (1759-1797). Na sua obra Vindication of the Rights of
                            Woman (Reivindicao dos Direitos da Mulher), publicada em 1792, exigia
                            a igualdade de direitos polticos entre homens e mulheres.
                                No sculo XIX e XX, tanto na Europa quanto na Amrica, foi au-
                            mentado o nmero das mulheres que reivindicavam os mesmos di-
                            reitos que os dos homens. No intuito de alcanar a cidadania plena,
                            inmeras mulheres investiram em diversas frentes e, por vezes, liga-
                            ram-se a outros movimentos (de independncia, liberais, revolucion-
                            rios, abolicionistas, pacifistas, socialistas, anarquistas). Em suas lutas ti-
                            nham basicamente compromisso com o fim da desigualdade sexual e
                            da opresso. Propunham a insero da mulher na vida poltica e civil
                            em igualdade de condies com os homens.
                                Uma das principais questes levantadas foi a luta pelo direito de vo-
                            to. O movimento sufragista feminino se fortaleceu e congregou gran-
                            de nmero de mulheres, em diversos pases. Mas isso ocorria somente
                            com as mulheres mais intelectualizadas e, principalmente, as operrias.
                            A maioria das mulheres da classe mdia tendiam a se acomodar aos
                            papis e s funes sociais determinadas pelo status quo patriarcal.
                                Os partidos polticos de esquerda e as organizaes sindicais, apenas
                            no final do sculo XIX, passaram tambm a lutar pelos direitos polticos
                            das mulheres. Quando a situao se tornou insustentvel, as mulheres
                            passaram a ter direito de voto em muitos pases, mas quase sempre com
                            enormes limitaes que levavam dezenas de anos a serem superadas.

360 Relaesdepoder
                                                                                                                                                                                             Histria

                                   Nos EUA, por exemplo, o Estado de Wyoming concedeu este direi-
                               to s mulheres em meados do sculo XIX, mas s em 1920 foi garan-
                               tido por lei este direito em todo o pas. Em Portugal, o direito de voto
                               das mulheres foi formalmente estabelecido em 1931, mas com muitas
                               restries, as quais s desapareceram entre 1968 e 1976.


                                      Texto 10
                                    Direito de voto das mulheres em alguns pases: Nova Zelndia (1893), Austrlia (1902), Finlndia
                                 (1906), Noruega (1913), Unio Sovitica (1917), Inglaterra (1918), EUA (1920), Espanha (1931), Frana
                                 (1945), Itlia (1945), Sua (1971), etc.
                                                                                                                                                  (Baseado em PINSKY & PEDRO, 2003, p. 295-298.)




                                                     PESQUISA

                                      Quando o voto feminino foi institudo no Brasil.


                               Documento 2                                                                                          Documento 4
n www.espacoacademico.com.br




                               n Algumas sufragetes escrevem em um muro VOTO PARA AS MULHERES.
                               Documento 3                                                                                                                                                              n www2.una.edu
                                                                                                 n www.cliohistoria.hpg.ig.com.br




                                                                                                                                    n Protesto a favor do voto feminino. (Londres  1914).




                      n Sufragetes celebram sua vitria. (EUA - agosto  1920).
                                                              RelaesdedominaoeresistncianomundodotrabalhonossculosXVIIIeXIX 361
      EnsinoMdio



                    ATIVIDADE

       Descreva os documentos 2, 3 e 4 apresentando:
           tipo de documento; poca e sociedade a que se refere, personagens histricos representados,
            temtica principal.
       Redija uma narrativa histrica tendo como referncia a forma pela qual a temtica est representada
       nas imagens presentes nos documentos 2, 3 e 4.


                                 A luta pelos direitos de cidadania da mulher se estendeu pelos s-
                             culos XVIII, XIX e incio do XX. Entretanto, a histria da conquista dos
                             direitos humanos e da cidadania pelas mulheres no coincidiu com
                             o desenvolvimento destas conquistas no mundo ocidental e oriental.
                             Ainda hoje, em muitos pases, as mulheres no conseguiram conquis-
                             tar plenamente os seus direitos.


                    PESQUISA

       Pesquise sobre as condies histricas da mulher no Brasil, na China e no Isl e preencha o quadro.

                                                                                             PASES
                 SCULO                EUROPA             BRASIL           CHINA
                                                                                           ISLMICOS
                   XVIII
                    XIX
           XX (Primeira Metade)




                               Aorganizaodosoperrios
                                 Ao pensar sobre a cidadania, jamais pode-se esquecer que ela foi
                             uma lenta construo que foi sendo instituda a partir da Revoluo In-
                             glesa, no sculo XVII, passando pela Revoluo Americana e France-
                             sa, no sculo XVIII, e, muito especialmente, pela Revoluo Industrial,
                             nos sculos XVIII e XIX, por ter sido esta que trouxe uma nova classe
                             social  o proletariado   cena histrica.
                                 Durante a Primeira Revoluo Industrial, no sculo XIX, os traba-
                             lhadores europeus enfrentavam condies de vida e de trabalho ex-
                             tremamente duras. Nessas condies, lanavam-se s lutas por melho-
                             rias, aproveitando as formas tradicionais de organizao corporativa
                             para lhes insuflar um novo contedo, transformando-as em sindica-

362 Relaesdepoder
                                                                                                        Histria

tos de trabalhadores. Na Inglaterra, j no sculo XVIII, sociedades re-
creativas de ajuda mtua, organizadas por ofcios, ocasionalmente in-
tervinham para impedir a reduo dos salrios ou exigir sua elevao
quando subia o custo de vida. Essas atividades, que iam de peties
ao Parlamento para a fixao de salrios at a organizao de greves,
eram chamadas combinaes. Quando ocorriam, os capitalistas atingi-
dos reclamavam junto ao Parlamento e, em geral, obtinham sua proi-
bio em ramos profissionais especficos. Em 1799, o Parlamento brit-
nico aprovou uma lei proibindo as combinaes de trabalhadores em
qualquer atividade.
    A proibio s combinaes dos trabalhadores e a perseguio aos
seus sindicatos se reproduziram nos outros pases,  medida que se in-
dustrializavam. As leis contra as combinaes, na prtica, colocaram as
organizaes operrias fora da lei. Os trabalhadores ficaram legalmen-
te proibidos de reivindicar o que quer que fosse, enquanto os empre-
gadores tinham plena liberdade para combinar contra qualquer movi-
mentao de seus empregados.
    Para os trabalhadores restavam, ento, algumas vias de ao: a pr-
tica da destruio de mquinas, as quais os destituam do trabalho e
desvalorizavam os injustos salrios impostos pelos patres; a ao por
vias mais difusas ensaiando as manifestaes de uma revoluo; e a
agitao poltica pela reforma do Estado.
    A primeira via ficou clebre como movimento dos Luddistas, ou
"quebradores de mquinas". Conhea um pouco mais sobre este mo-
vimento:

     Texto 11
      O luddismo subsiste na mentalidade popular como um caso estranho e espontneo de trabalhado-
 res manuais analfabetos, resistindo cegamente s mquinas. Mas a destruio das mquinas tem uma
 histria muito mais comprida. A destruio de materiais, teares, debulhadoras, o inundamento de minas
 ou estragos na boca de minas, o saque ou o ateamento de fogo  casa ou aos bens de patres impo-
 pulares  estas e outras formas de ao direta, violenta foram empregadas no sculo XVIII e na primei-
 ra do sculo XIX. Esses mtodos, s vezes, dirigiam-se contra as mquinas tidas por odiosas enquan-
 to tais. Na maioria das vezes, eram uma forma de fazer valer condies consagradas pelo costume, de
 intimidar fura-greves, os trabalhadores "ilegais" ou patres ou outras aes "sindicais".
     Em Lancashire  embora a espinha dorsal da organizao consistisse de teceles  mineiros, fian-
 deiros de algodo e todos os tipos de artfices participaram dos distrbios. Em West Riding, embora
 os alvos de ataques fossem cardas mecnicas e cisalhadeiras, estavam associados aos ludditas no
 s aparadores de tecido, mas ainda sries de teceles, alfaiates, sapateiros e representantes de qua-
 se todas as especialidades de artesos. Pode-se ver o luddismo como uma manifestao de uma cul-
 tura operria com maior independncia e complexidade do que qualquer outra vivida pelo sculo XVIII
 e XIX.
                                                                 (Adaptado de THOMPSON, 1987, p.124-179, v. 3).




                       RelaesdedominaoeresistncianomundodotrabalhonossculosXVIIIeXIX 363
       EnsinoMdio


        Texto 12
          H pelo menos dois tipos de quebra de mquinas, bastante diferentes da quebra acidental em dis-
     trbios comuns contra alta de preos ou outras causas de descontentamento. O primeiro tipo no im-
     plica nenhuma hostilidade especial contra as mquinas como tal, mas , sob certas condies, um
     meio normal de fazer presso contra os empregadores ou os trabalhadores extras. Como se notou, os
     ludditas de Nottinghamshire, Leicestershire e Derbyshire usaram os ataques contra a maquinaria, no-
     va ou velha, como meio de forar seus empregadores a fazer-lhes concesses com relao aos sa-
     lrios e s outras questes. Este tipo de destruio fazia parte, tradicional e rotineiramente, do conflito
     industrial no perodo do sistema domstico de fabricao, e nas primeiras fases das fbricas e minas.
     No era dirigido apenas contra as mquinas, mas tambm contra as matrias-primas, produtos aca-
     bados, ou mesmo  propriedade privada dos empregadores, dependendo do tipo de danos a que es-
     tes eram mais sensveis.
         O segundo mtodo de destruio remonta  hostilidade da classe operria s novas mquinas da
     revoluo industrial, especialmente as que economizavam mo-de-obra. O trabalhador estava preocu-
     pado no com o progresso tcnico abstratamente, mas com o duplo problema prtico de impedir o de-
     semprego e manter o padro de vida habitual, o que inclua fatores no-monetrios, como a liberdade,
     a dignidade, bem como os salrios.
                                                                                         (Adaptado de HOBSBAWM, 1999, p.17-21).




                     ATIVIDADE

        Aps a leitura dos textos 11 e 12, identifique as razes da ocorrncia da prtica luddista. Registre
    por escrito.


                                                      Na Inglaterra, a classe trabalhadora alinhou-se atrs de um impor-
                                                   tante movimento, o Cartista, assim chamado por ter redigido e apre-
                                                   sentado um documento - a Carta do Povo - ao Parlamento Britnico, na
                                                   qual constava uma lista de reivindicaes.
                                                   Documento 4




                                                                                                              n Manifestao pblica.
                                                                                                                ilustrao, Illustred
                                                                                                                London News, abr.
                                                                                                                1848. A ilustrao do
                            n www.fafich.ufmg.br




                                                                                                                jornal ingls revela que
                                                                                                                milhares de pessoas
                                                                                                                compareciam aos co-
                                                                                                                mcios cartistas na In-
                                                                                                                glaterra.


364 Relaesdepoder
                                                                                                        Histria


     Documento 6
     Petio Cartista, Inglaterra (1838)
     Aos ilustres membros das Comunas da Gr-Bretanha e da Irlanda, reunidos em Parlamento, esta
 petio vem de seus abaixo assinados concidados. Nos encontramos oprimidos com o sofrimento p-
 blico e privado. Estamos esmagados, sob uma carga de impostos. Ns dizemos  honrada Cmara que
 no devemos mais tempo ser privados de justo salrio. Que as leis que criam a carestia dos alimentos
 e as que rareiam o dinheiro devem ser abolidas. Tal estado de coisas no pode se prolongar. No o po-
 de sem o perigo srio para a estabilidade do trono e da paz no reino. O bem-estar de grande nmero,
 nico fim legtimo, deve ser a nica preocupao tambm do governo. Como preliminar essencial a es-
 sas reformas e a outras para assegurar ao povo os meios pelos quais seus interesses podero ser efi-
 cazmente defendidos e assegurados, pedimos que, na confeco das leis, a voz de todos possa, sem
 entraves, ser ouvida. Eis porque pedimos o sufrgio universal. Agrade, pois,  respeitvel Cmara, levar
 nossa petio em sria considerao e de esforar-se, com vigor, por todos os meios constitucionais,
 em fazer promulgar uma lei que garanta a todo o cidado masculino maior, so de esprito e inocente de
 qualquer crime, o direito de votar e que institua o voto secreto para todas as eleies parlamentares fu-
 turas. E seus peticionrios rogaro para sempre.
                                                                            (Adaptado de MATTOSO, 1976, p. 46.)




                 ATIVIDADE

    Analise os documentos 5 e 6 ressaltando os sujeitos envolvidos e suas reivindicaes. Anote suas
 consideraes a partir destes documentos.



     Texto 13
     Os primeiros anos da dcada de 1830 foram marcados por agitaes que levantaram questes nas
 quais os salrios tinham importncia secundria: os oleiros, contra o pagamento de salrios em esp-
 cie; os trabalhadores txteis, pela jornada de 10 horas de trabalho; os trabalhadores na construo, pe-
 la ao cooperativa direta; todos os grupos de trabalhadores, pelo direito de formao de sindicatos. A
 grande greve na regio mineradora do nordeste, em 1831, girou em torno da segurana do emprego,
 do pagamento dos salrios em espcie nas vendas e do trabalho das crianas.
                                                                               (THOMPSON, 1987, p.27-28, v. 2.)

    Ao examinar a resistncia da classe trabalhadora, os conflitos e agita-
es freqentes, percebe-se que giraram em torno de questes que nem
sempre foram relacionadas ao custo de vida apenas. As questes que
provocaram maior intensidade de envolvimento foram geralmente aque-
las em que alguns valores morais, tais como costumes tradicionais, jus-
tia, independncia, segurana ou economia familiar, estavam em risco.
    Entre as vrias categorias de trabalhadores do sculo XIX, algumas
se destacaram sendo portadoras de uma identidade singular, entretanto,
agentes de uma ao coletiva. Veja um exemplo que a historiografia traz:

                        RelaesdedominaoeresistncianomundodotrabalhonossculosXVIIIeXIX 365
       EnsinoMdio


        Texto 14
          No sculo XIX, os sapateiros, como ofcio, tinham uma reputao de radicalismo. Eram militantes
     tanto nos assuntos que diziam respeito a seu ofcio quanto em movimentos mais amplos de protesto
     social. Embora os sindicatos de sapateiros se limitassem a determinados setores e localidades dentro
     de um universo muito extenso, e embora fossem eficazes de forma pouco contnua, bem cedo se orga-
     nizaram em escala nacional tanto na Frana quanto na Sua; isto para no mencionar a Inglaterra, on-
     de o sindicato londrino, fundado em 1792, teria porte nacional j em 1804. Os sapateiros e carpintei-
     ros foram os primeiros integrantes da Federao de Trabalhadores da Regio da Argentina (1890), que
     constituiu a primeira tentativa de formao de um sindicato nacional naquele pas. Eles ocasionalmen-
     te entraram em greve em grande escala e, durante a Monarquia de Julho na Frana, estavam entre os
     ofcios mais propensos  greve. Tambm sobressaram nas multides revolucionrias. Enfim, seu papel
     como ativistas polticos pode ser amplamente documentado. Dos integrantes ativos do movimento car-
     tista cujas ocupaes so conhecidas, os sapateiros foram o maior grupo isolado a seguir aos teceles
     e aos "trabalhadores" de ocupao no especializada. Na Tomada da Bastilha, ou pelo menos em meio
     aos detidos por esta razo, a representao dos sapateiros s foi superada pela dos marceneiros e ser-
     ralheiros; j nas revoltas do Campo de Marte e em agosto de 1792, sua representao no foi supera-
     da por nenhum outro ofcio. Em 1871, entre os trabalhadores que se envolveram na Comuna de Paris,
     os que foram atingidos com a maior percentagem de deportaes aps a derrota, foram naturalmente
     os sapateiros. Quando eclodiu a rebelio na cidade alem de Konstanz, em abril de 1848, os sapateiros
     constituam de longe o grupo mais homogneo de rebeldes, quase equivalendo ao total da soma dos
     alfaiates e marceneiros, os dois ofcios mais rebeldes que se seguiam. Do outro lado do mundo, o pri-
     meiro anarquista de que se tem notcia foi registrado em 1897, numa cidade provinciana no estado do
     Rio Grande do Sul, Brasil: era um sapateiro italiano; do mesmo modo, o nico sindicato do qual se sa-
     be ter participado do primeiro Congresso de Trabalhadores de Curitiba (Brasil), de inspirao anarquis-
     ta, foi a Associao dos Sapateiros.
                                                                          (Adaptado de HOBSBAWM, 1998, p.37-38.)




                   ATIVIDADE

      Identifique qual  a opinio do historiador sobre a questo abordada no texto 14. Emita tambm a
   sua opinio.


                                  O sculo XIX foi tambm o perodo em que um conjunto de obras foi
                              publicada pelos socialistas  pensadores que propuseram formas alterna-
                              tivas de organizao de uma sociedade mais justa para os trabalhadores.
                                  Os primeiros tericos socialistas desenvolveram suas idias entre a
                              Revoluo Francesa de 1789 e os movimentos sociais de 1848, na Eu-
                              ropa, e 1871, ano da Comuna de Paris, quando os operrios parisien-
                              ses chegaram a tomar o poder e organizaram um governo socialista re-
                              volucionrio que durou pouco mais de dois meses.
                                  Os principais socialistas desta fase foram os franceses Saint-Simon
                              (1760-1825), Charles Fourier (1772-1834), Pierre Joseph Proudhon

366 Relaesdepoder
                                                                                                    Histria

(1809-1865) e o ingls Robert Owen (1771-1858). Esses primeiros re-
formadores sociais ficaram conhecidos como "socialistas utpicos", no-
me atribudo a eles pelos alemes Karl Marx (1818-1883) e Friedrich
Engels (1820-1895), que desenvolveram as bases do que chamavam de
"socialismo cientfico".
     Os socialistas utpicos  adeptos das idias de homens como Owen,
Fourier, e Proudhon  projetavam um futuro em que o individualismo
da burguesia seria substitudo pela cooperao entre todos os homens,
prevalecendo uma sociedade igualitria e fraterna. J os seguidores das
teorias de Karl Marx, os socialistas cientficos, acreditavam que o pro-
letariado (trabalhadores assalariados) faria uma revoluo para destruir
o capitalismo e construir uma sociedade socialista, na qual no subsis-
tiria nem a grande propriedade privada, nem a burguesia.


                 PESQUISA

     Sobre os itens abaixo elabore uma sntese:
         os movimentos sociais de 1848 na Europa;
         a Comuna de Paris.




                 ATIVIDADE

    Informe-se sobre o significado de "socialismo utpico" e "socialismo cientfico", mostrando as dife-
 renas entre os dois.
     Analise historicamente o documento 7, observando:
         tipo; ano; origem;
         quem fala;
         tema.


     Documento 7
     Utopia dos falanstrios no Brasil faz 150 anos. Distrito do Sa lembra projeto de Fourier
     para uma sociedade igualitria.
      Uma das primeiras expedies colonizadoras francesas enviadas ao Brasil aportou no territrio cata-
 rinense, em 1842. O mdico homeopata Benoit Jules Mure trazia, junto com cem franceses, o concei-
 to de falanstrio - onde o socialismo imperava nas colnias - criado pelo francs Franois Marie Fourier.
 Seriam fundadas na regio do Sa cooperativas de consumo e de produo. A falta de infra-estrutura
 fez com que a idia no sasse do papel. "Uma pena. Nossa realidade poderia ser outra", lamenta Au-
 rlio Ledoux, fundador da Associao Comunitria do Distrito do Sa, que hoje comemora 150 anos de
 existncia.

                        RelaesdedominaoeresistncianomundodotrabalhonossculosXVIIIeXIX 367
       EnsinoMdio


          Os franceses chegaram antes da oficializao do Distrito de Sa, em 5 de abril de 1850. J em
     1842, liderada por Leon Ledoux e Benoit Jules Mure, a expedio trazia uma centena de mdicos, ar-
     tistas e gente qualificada da Frana para pr em prtica a utopia socialista. Inspiradas nos conceitos de
     Fourier, o grupo pretendia criar no Sa uma comunidade modelo. Ledoux e Mure tinham o aval do gover-
     no imperial para a implantao do primeiro falanstrio brasileiro. Acompanhava o grupo a jornalista Lou-
     ise Bacheleth, que escreveu artigos para jornais da Europa. Quando a primeira leva de cem franceses
     chegou ao Sa - depois vieram mais cem -, veio a decepo. Muitos dos imigrantes no tinham habili-
     dade com machados, ferraria ou desbravamento. Eram msicos, artistas, mdicos. Chegaram em uma
     terra desconhecida, rodeada de mar e mata. Os poucos que permaneceram, acabaram fazendo a his-
     tria do lugar. "Houve uma falha grande no projeto. No trouxeram colonos e, assim, poucos resolve-
     ram ficar", explica Ledoux, nico descendente de franceses que ainda mora no Sa. De lembrana dos
     franceses, resta na regio a Ponta do Barraco - onde foi construdo um barraco para forja e ferraria -
     e a Ilha do Alvarenga. (Luis Fernando Assuno).
                                                                               (Adaptado de A Noticia Geral. Joinvile, 5 de abril de 2000. FONTE:
                                                                            http://an.uol.com.br/2000/abr/05/0ger.htm Acesso em: 12 dez. 2005.)

                                  Em meados do sculo XIX, em contrapartida s propostas utpicas
                              de mobilizao operria e contra a manipulao do proletariado pe-
                              la burguesia, o "Manifesto Comunista", elaborado pelo filsofo alemo
                              Karl Marx (1818-1883), conclama o operariado  tomada de conscin-
                              cia de seu papel histrico e da luta contra a opresso da burguesia. No
                              Manifesto, Marx preconiza a unio do proletariado e a sua reunio em
                              torno de lutas internacionalizadas, com a criao dos sindicatos e am-
                              plas discusses das formas dessa luta.
                                                            Documento 8
                                      n www.wikipedia.org




                                                      n GIUSEPPE PELLIZZA DA VOLPEDO. O quarto Estado, 1898-1901. leo sobre tela, 293 x
                                                        545 cm Milo, Civica Galleria d'Arte Moderna. di Milano.


        Documento 9
         Os comunistas no desejam esconder suas opinies e seus objetivos. Declaram abertamente que
     seus objetivos s podem ser atingidos com a derrubada pela fora de todas as condies sociais exis-
     tentes. Que a classe dominante trema com a revoluo comunista. Os proletrios no tm a perder, se-
     no suas algemas. Tm o mundo a ganhar.
        Trabalhadores de todos os pases uni-vos.
                                                              (MARX, Karl e ENGELS, Friedrich, Manifesto do Partido Comunista  1848, p. 99.)


368 Relaesdepoder
                                                                                                                                            Histria



                                    ATIVIDADE

                       Voc pode analisar historicamente os documentos 7 e 8, seguindo o roteiro indicado.
                           identificar o tipo de documento;
                           situar o documento no tempo e no espao;
                           localizar as datas e as autorias dos documentos;
                           situar os documentos a partir do contexto histrico em que foram produzidos;
                           destacar as informaes que podem ser obtidas atravs dos documentos;
                           identificar as temticas representadas nos documentos;
                           estabelecer relaes entre as temticas.


    Durante o sculo XIX, o movimento operrio europeu viveu per-
odos de fortalecimento e enfraquecimento. Nesse contexto, formou-
se em Londres a Primeira Internacional dos Trabalhadores, que exis-
tiu entre os anos de 1864 e 1876 e foi uma tentativa de confrontar as
idias, coordenar a ao e a solidariedade do movimento operrio eu-
ropeu. Entre os debates sobre a sociedade almejada e sobre os meios
a empregar para alcan-la, o que mais se destacou foi a luta por di-
reitos sociais a serem garantidos por lei e implementados pelo Estado.
Entretanto, ocorreram divergncias nas seguintes tendncias internas
do movimento socialista:

                                                                                                      Entre os anos de 1892 e 1914, numa no-
                                                                                                  va tentativa de organizar o movimento oper-
                                                                                                  rio europeu, foi formada a Segunda Interna-
                                                                                                  cional Operria. Composta por representantes
 n www.wikipedia.org




                                                                            n www.wikipedia.org




                                                                                                  dos movimentos sociais, refletiu sobre os de-
                                                                                                  bates e conflitos da social-democracia.
                                                                                                      Foi somente no sculo XX, depois dos resul-
                   n Mikhail Bakunin (1814 -                                                      tados da Primeira Guerra Mundial (1914-1918),
                       O Anarquismo                                                               que se realizou a Terceira Internacional (que
                                                  n Karl Marx (1818-1883)
                                                                                                  adotou o nome de Internacional Comunista 
No admitia a tomada do po-                          O Marxismo
der, pois pregava a destruio
                                                                                                  Comintern), tendo em vista a necessidade de
de qualquer autoridade, inclu-                   Defendia uma ao poltica                       rearticular a luta operria em torno do socialis-
sive do Estado, fosse ele con-                   do movimento operrio obje-                      mo. Ela se reuniu em Moscou e serviu para le-
servador ou revolucionrio.                      tivando a conquista do poder.                    gitimar a Revoluo de outubro de 1917, j que

foi amplamente dominada pelos bolchevistas. Criaram-se a os partidos comunistas, destinados
 misso de levar a mensagem do socialismo a todas as partes do mundo. A luta pela socializa-
o do trabalho chegava a um ponto importante, pois criara a oportunidade de maior participa-
o do operariado atravs, principalmente, dos partidos polticos de esquerda criados durante as
Internacionais.
                                               RelaesdedominaoeresistncianomundodotrabalhonossculosXVIIIeXIX 369
       EnsinoMdio



                     ATIVIDADE

         A partir do que voc j estudou at agora, compare as condies de trabalho, as preocupaes e
    reivindicaes dos trabalhadores dos sculos XVIII e XIX com a dos trabalhadores da sociedade do s-
    culo XXI. Indique as respectivas semelhanas/diferenas e as mudanas/permanncias.




                     PESQUISA

       Sobre o "Movimento Operrio no Brasil", elabore um dossi para entregar ao seu professor e, depois,
    compartilhe as informaes obtidas com os colegas de sala atravs de apresentao de seminrios.



        Sugestes para o trabalho:
        O que  um dossi e como faz-lo:
         Um dossi  mais do que uma reunio de informaes e dados em enciclopdias ou na internet.
     Trata-se de buscar informaes e interpretaes sobre um tema em diferentes fontes de pesquisa, co-
     mo atlas, internet, obras especializadas, revistas, fotos, entrevistas, etc. O objetivo  explicar de manei-
     ra mais completa possvel o tema ou a questo a ser pesquisada. Para realiz-lo, pode ser seguida es-
     ta orientao:
            elaborar um roteiro com temas e subtemas a serem pesquisados;
            pesquisar e registrar as informaes colhidas em diferentes fontes, inclusive com diferentes
            pontos de vista;
            selecionar o que realmente se necessita, seguindo o roteiro preestabelecido;
            apresentar o resultado de forma clara, registrando por escrito com as respectivas fontes.

         Para a apresentao do seminrio:
            Organizar equipes para que cada uma fique responsvel por um tema;
            Organizar o contedo por meio de esquemas para direcionar o trabalho em equipe;
            Conferir informaes e efetuar correes com a orientao do professor;
            Organizar, com a turma, a apresentao, definindo datas e formas de apresentao; usar ima-
            gens, se possvel, com recursos como cartazes, painis, transparncias, vdeos, etc.

                                  Osjovens,aparticipaopolticaeacidadania
                                   A participao dos jovens na vida das sociedades tem sido efetuada
                               de diferentes formas desde o sculo XVIII e, principalmente, nos scu-
                               los XIX e XX. Existem registros das formas de participao da juventu-
                               de, entre os quais esto os relativos aos grupos de jovens radicais ou
                               revolucionrios, aos bomios, s gangues e aos romnticos. Veja um
                               exemplo atravs da historiografia:
370 Relaesdepoder
                                                                                                      Histria


    Texto 15
     Onde quer que se olhe no mapa da Europa, e praticamente em qualquer momento, o sculo XIX
 apresenta a imagem compsita, mas clara de uma juventude inquieta ou rebelde: jovens, os carbon-
 rios franceses ou italianos da dcada de 1820, e a maioria dos decabristas russos; jovens, pelo me-
 nos como os que apresentou Delacroix em seu quadro mais clebre, os estudantes e os operrios nas
 barricadas parisienses de Julho; jovens tambm os sequazes de Mazzini nos anos 1830; jovens ainda
 quase todos os heris e mrtires das revolues de 1848 na Europa; jovens os "filhos" que se rebela-
 ram conta os pais na Rssia de 1860 e 1870, a de Turgeniev e de Dostoievski; jovens, igualmente in-
 telectuais que assumem a defesa do capito Dreyfus na Frana dos anos 1890, e jovens os membros
 dos Wandervgel, os quais, depois da virada do sculo, agridem a burguesia guilhermina em suas tran-
 qilas e industriosas certezas. A histria da primeira parte do sculo XX confirmar a permanncia des-
 sa equao jovens-rebeldes, quando na Frana e na Alemanha, na Inglaterra como na Itlia, os porta-
 vozes da juventude europia invocaro as virtudes regeneradoras da guerra: um apelo s armas ao qual
 responder, disciplinada, a gerao de 1914.
                                                                            (LUZZATO apud LEVI, 1996, p.195.)




                ATIVIDADE

    Analise o texto 15, identificando sujeitos ou personagens histricos e seus contextos, construindo
 um quadro como este:

       PERSONAGENS HISTRICOS                     FATOS HISTRICOS                 DATA E LOCAL




   No sculo XVIII, a partir da Revoluo Francesa, comeou a se pro-
pagar a idia que considerava os jovens seres generosos e, ao mes-
mo tempo, perigosos para a ordem poltica e social. A Revoluo de-
sencadeou, tambm, a prtica da mobilizao de jovens para a ao
ou doutrinao poltica, com a fundao de uma escola em Paris que
se propunha a reunir jovens de 16 e 17 anos, de todos as regies da
Frana, para trein-los e doutrin-los no amor  ptria e contra o po-
der tirnico.
   Na Frana do sculo XVIII, ps-revoluo, muitos jovens se organi-
zaram em grupos radicais ou associaes juvenis como a Franco-Mao-
naria. No sculo XIX, essas associaes tambm foram organizadas em
outros pases europeus. O impulso geral das revolues que ocorriam
neste sculo, na Frana e em outras regies da Europa e da Amrica,
dividiu-se, principalmente, em movimentos nacionalistas. Uma das su-
as conseqncias foi o surgimento dos movimentos "jovens" da Euro-
pa como, por exemplo, Jovem Itlia, Jovem Polnia, Jovem Sua, Jo-
vem Alemanha, Jovem Irlanda.

                       RelaesdedominaoeresistncianomundodotrabalhonossculosXVIIIeXIX 371
       EnsinoMdio

                                 Ainda no sculo XIX, tiveram participao significativa "os bo-
                              mios" que manifestavam a desiluso dos jovens com a poltica de sua
                              poca. Principalmente em Paris, grupos de estudantes reuniam-se nos
                              cafs, lendo jornais, falando de poltica, escndalos, e criticando a ex-
                              plorao do trabalho, a ordem estabelecida e a disciplina. Eles tambm
                              contestavam o culto dos mais velhos ao passado revelando uma gran-
                              de preocupao com o presente e o interesse por religies orientais,
                              misticismo e esoterismo.

        Texto 16
         Entretanto, no mesmo sculo XIX, a onda revolucionria fazia frente tambm na arte-cultura, num fe-
     nmeno particular e importante que ficou conhecido como "Bomia". Aps a desiluso com os movi-
     mentos revolucionrios, em que as juventudes perceberam que tinham sido manipuladas pelos pode-
     rosos guardies da ordem, as energias revolucionrias dos jovens, como os franceses, tomaram nova
     direo: estilos de vida amorais e anrquicos associados  vida bomia. Os estudantes de Paris, a nas-
     cidos ou oriundos das provncias, no tinham muito o que fazer alm de gastar os dias nos cafs, lendo
     jornais, falando de poltica e de escndalos. A bomia estabelece-se adquirindo uma figurao "exti-
     ca" (desprezo ao trabalho, preocupao apenas com o presente, resistncia  ordem e disciplina, cul-
     tivo do misticismo, ocultismo, religies orientais e outros esoterismos).
                                                                              (Adaptado de GROPPO, 2000, p. 84-89.)

                                 As condies de vida na sociedade industrial, como a pobreza e o
                              desemprego, propiciaram, ainda na Europa do sculo XIX, o apareci-
                              mento de grupos de jovens denominados gangues. A maioria desses
                              grupos tinha razes locais e originava-se, quase sempre, das tradies
                              de revolta e resistncia dos segmentos pobres da sociedade. Conhea
                              dois desses grupos:

        Texto 17
         Ao que parece,  a partir de 1902 que o nome de Apaches passa a ser empregado para designar o
     bando de jovens cujos delitos faziam tremer. No sentido estrito, original, Apache designa os "jovens ma-
     landros dos subrbios". O Apache est ligado  grande cidade, mais precisamente a Paris dos bairros
     de periferia. Os Apaches cristalizaram um medo latente. Eles vivem em bandos bem organizados, onde
     as meninas so menos numerosas. Gostam de tatuagens, sinais de reconhecimento, smbolos bucli-
     cos ou sentimentais, inscries provocadoras ou fatalistas. O Apache tem trs dios: o burgus, o tira,
     o trabalho. Ele desdenha a sociedade estabelecida, condena as autoridades, despreza os trabalhado-
     res, operrios, escravos. Seus fantasmas: fazer parte do horrvel cortejo dos miserveis e sem um tos-
     to; ir  oficina, pior,  fbrica. Por que desperdiar a juventude?
                                                                            (Adaptado de PERROT, 1988, p. 315-323.)


        Texto 18
         Nesta mesma virada de sculo, mas limitada exclusivamente  Alemanha e parte da ustria, uma
     outra manifestao juvenil aconteceu. Tratou-se do Movimento Juvenil Alemo, uma revolta cultural e
     quase poltica contra o "mundo" e os "valores dos adultos". O movimento juvenil comeou com o gru-
     po Wandervogel ("Pssaro Migrante"), no Ginsio de Steglitz, prximo de Berlim. Seus membros usa-


372 Relaesdepoder
                                                                                                         Histria


 vam cintures de couro, botas pesadas e blusas largas, marchando, tocando violo ao redor de uma
 fogueira e discutindo filosofia. Tratava-se de um protesto asctico contra a gerao dos pais e a so-
 ciedade burguesa, protesto que rejeitava a bebida, o fumo e a roupa refinada.
                                                                          (Adaptado de GROPPO, 2000, p. 84-89.)




                ATIVIDADE

    Procure discutir e sistematizar opinies sobre a existncia de gangues de jovens no passado e no
 presente. Voc pode se organizar discutindo questes como:
        origem das gangues e suas denominaes;
        as relaes entre a existncia das gangues e as condies de vida dos jovens;
        a posio dos adultos a respeito da existncia destas gangues;
        sua opinio sobre este assunto.
    Sistematize as suas argumentaes produzindo uma narrativa histrica sobre as gangues.


    Ao viver as transformaes da industrializao desencadeadas na Europa a partir do scu-
lo XVIII e XIX, os jovens tambm participaram do movimento dos trabalhadores. A fbrica,
mais do que a oficina, favoreceu suas aes coletivas. O aprendiz desafortunado, muito isola-
do, contava apenas com o tumulto, a escapadela ou a fuga. Mais numerosos, os jovens das f-
bricas formaram grupos capazes de se afirmar, sobretudo pelo movimento de protesto e pela
greve. Observe o que a historiografia tem a dizer sobre o envolvimento dos jovens nesses mo-
vimentos:

    Texto 19
     Os jovens esto presentes nestes movimentos, manifestando-se com ardor. Entre 1871 e 1890,
 16% dos manifestantes detidos tm entre quinze e dezenove anos e 6% dos lderes identificados per-
 tencem a essa faixa de idade. Delineiam-se figura de "lderes", com a voz potente. Nas indstrias mais
 homogneas, onde esto bem integrados, os jovens so s vezes detonadores. Isso  verdade, so-
 bretudo na indstria txtil, onde so muitos. Em Troyes, os cardadores, trabalhadores de catorze a de-
 zesseis anos fomentam a maior parte dos conflitos. Na Alscia, entre 1850 e 1870, os jovens operrios
 formam mais de 22% dos grevistas. Em Vienne, os enlaadores de fios, adolescentes de doze a dezes-
 seis anos, protestam com furor contra os fabricantes da cidade.
                                                               (Adaptado de PERROT apud LEVI, 1996, p. 111-112.)




                PESQUISA

     Organize-se em equipes e faa uma pesquisa sobre as formas de participao dos jovens na vida
 da localidade em que voc mora. Redija um relatrio e apresente para discutir em sala.



                       RelaesdedominaoeresistncianomundodotrabalhonossculosXVIIIeXIX 373
      EnsinoMdio

                       RefernciasBibliogrficas
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                       ObrasConsultadas
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374 Relaesdepoder
                                                                Histria



ANOTAES




   RelaesdedominaoeresistncianomundodotrabalhonossculosXVIIIeXIX 375
       EnsinoMdio




376 RelaesCulturais
                                                                                                                             Histria




                                                                                                             20
                                                                  RELAES CULTURAIS:
                                   Movimentos sociais, polticos e culturais na
                                 sociedade contempornea:  proibido proibir?
                                                                                                                      n Altair Bonini1

                                                      Gerao Coca-Cola
                                                    (Legio Urbana)
                                                    Quando nascemos fomos programados
                                                    A receber o que vocs nos empurraram
                                                    Com os enlatados dos USA, de 9 s 6.

                                                    Desde pequenos ns comemos lixo
                                                    Comercial e industrial
                                                    Mas agora chegou nossa vez
                                                    Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocs.

                                                    Somos os filhos da revoluo
                                                    Somos burgueses sem religio
                                                    Somos o futuro da nao
                                                    Gerao Coca-Cola.
                                                    (...)
                                                    (Composio: Renato Russo [1960-1996], 1978.
                                               n Fonte: letras.terra.com.br/letras/22491/ Acesso em: 16 dez. 2005).



                                                partir de 1950, muitas formas de resistncia surgiram
                                                 contra os governos autoritrios, o sistema capitalista
                                                 e a globalizao. Quem foram os sujeitos desses mo-
                                             vimentos? A ordem estabelecida pode ser contestada?
                                             Quem a estabeleceu? Quem deve se submeter s pessoas
                                                   que ditam esta ordem? Algum deve obedec-las?
                                                         Voc conhece algum grupo que luta por um mun-
                                                           do melhor e por direitos?
                                                              So estas questes que voc poder discutir
Colgio de Aplicao Pedaggico da Universidade Estadual
1
                                                                 neste Folhas.
de Maring  Maring  UEM

                       Movimentossociais,polticoseculturaisnasociedadecontempornea:proibidoproibir? 377
        EnsinoMdio

                                      Ummundoemtransformaesaceleradas
                                         Aps a Segunda Guerra Mundial, ocorreram transformaes sens-
                                    veis no mundo. Essas modificaes referem-se, principalmente,  par-
                                    ticipao do Estado na vida econmica, aparentemente rompendo os
                                    princpios clssicos do liberalismo. Esta interveno  claramente vis-
                                    vel nas tendncias relativas  formao de companhias estatais,  re-
                                    gulamentao de salrios e ao planejamento econmico das naes.
                                    Estas tendncias, que haviam sido iniciadas logo aps a crise de 1929,
                                    acentuaram-se aps 1945. O capitalismo assume a forma do Estado de
                                    Bem Estar Social, com a implantao de alguns benefcios s classes
                                    trabalhadoras. No entanto, sua estrutura continuou a mesma: proprie-
                                    dade particular, lucro e, por extenso, a desigualdade social continua
                                    existindo normalmente.
                                         As dcadas de 1960 e 1970 foram marcadas pelas lutas (algumas
                                    s vezes de forma organizada, outras no) de variados segmentos so-
                                    ciais que passaram a questionar a ordem estabelecida pelo capitalismo
                                    e seus representantes na busca por maiores direitos civis, sociais e po-
                                    lticos. Entre os vrios grupos de sujeitos histricos que realizaram mo-
                                    vimentos de resistncia  dominao capitalista e  estruturao da so-
                                    ciedade em seus moldes esto os camponeses, os negros e os jovens
                                    e as mulheres.
     Texto 1
                                         Nos anos 1990, com o avano do processo de globalizao atual,
    Reforma Agrria:                outros movimentos vm a tona contestando a excluso social, o de-
    Modificao geral, de inicia-   semprego e os governos dos pases de economia desenvolvida.
    tiva poltica, das formas de
    propriedade e dos modos
    de explorao agrrios. Esta
                                      Oscamponesesealutapelaterra
    transformao tem um obje-
    tivo econmico e social que
                                        A luta pela terra esteve presente, ao longo do tempo, em muitas so-
    beneficia o mundo agrcola      ciedades. Algumas realizaram reforma agrria estabelecendo uma divi-
    procurando, ao mesmo tem-       so mais justa das propriedades de terra, como foi o caso da Itlia, que
    po, favorecer o desenvolvi-     realizou uma reforma agrria a partir de 1948. A Rssia redistribuiu as
    mento global do pas.           terras aps a Revoluo de 1917, mas a posse legal passou a perten-
                                    cer ao Estado. A Frana, aps a Revoluo de 1789, redistribuiu as ter-
    A Reforma Agrria se impe
    por razes tcnicas nos lo-     ras da Igreja Catlica e da Nobreza entre os camponeses. Os EUA, em
    cais onde os modos de pos-      meados do sculo XIX, doava terras no Oeste a quem desejasse culti-
    se e de explorao do solo      v-las, fazendo desta distribuio o alicerce de sua estabilidade social.
    impedem o aumento da pro-       Enquanto isso, na Amrica Latina, principalmente no Brasil, o Estado
    duo de alimentos, tambm      colocou empecilhos para que pequenos agricultores adquirissem ter-
    se torna necessria por ra-     ras. Devido a isso, at hoje a Amrica Latina, inclusive o Brasil, possui
    zes sociais (como o desem-     uma estrutura fundiria composta por grandes latifndios.
    prego) que leva o governo a         Voc pode se perguntar por que esta situao se alterou em pa-
    intervir.
                                    ses como a Frana, os EUA, a Itlia e por aqui, no Brasil, continuou a
    (Adaptado de BIROU, 1982,       mesma coisa?
    p. 350.)

378 RelaesCulturais
                                                                                                                Histria

   Uma das explicaes pode estar no fato dos pases da Amrica Lati-
na possurem uma economia baseada na exportao de produtos agr-
colas. A industrializao, na maioria dos pases sul-americanos, tem
suas origens no modelo primrio-exportador. A maior parte dos gover-
nos pouco fez para reverter esta ordem, as reivindicaes dos campo-
neses foram negligenciadas ou reprimidas. Marginalizados, os campo-
neses que no conseguiam sobreviver dignamente com seu trabalho,
exigiam dos governos a realizao de reformas agrrias. Veja os exem-
plos do Mxico e do Brasil relativos  segunda metade do sculo XX.

    Os Zapatistas no Mxico
                                                          Documento 1
    Em 1 de janeiro de 1994, data em que co-
meou a vigorar o Acordo de Livre Comrcio                  ACORDO DE LIVRE COMRCIO DA
da Amrica do Norte (NAFTA), tambm mar-                     AMRICA DO NORTE - NAFTA
cou o inicio das aes do Exrcito Zapatista de         Constitue-se em um instrumento de integra-
Libertao Nacional (EZLN). Eles assumiram o         o das economias dos EUA, do Canad e do
controle das principais cidades nas proximida-       Mxico.
des da Floresta de Lacandon, no estado mexi-             O NAFTA (North America Free Trade Agre-
cano de Chiapas.                                     ement) foi iniciado em 1988, entre norte-ameri-
    Formado por camponeses, a maioria ndios         canos e canadenses, e por meio do Acordo de
txeltales, txotziles e choles, em geral oriundos     Liberalizao Econmica, assinado em 1991,
das comunidades agrrias instaladas na regio        formalizou-se o relacionamento comercial entre
das florestas tropicais de Lacandon, na fron-        os Estados Unidos e o Canad. Em 13 de agos-
teira com a Guatemala, os zapatistas, como fi-       to de 1992, o bloco recebeu a adeso dos me-
caram conhecidos, eram contra o NAFTA e a            xicanos.
poltica de modernizao da economia mexi-               O NAFTA entrou em vigor em 1 de janeiro
cana que prejudicava a produo dos peque-           de 1994, com um prazo de 15 anos para a total
nos camponeses e favorecia os grandes lati-          eliminao das barreiras alfandegrias entre os
fundirios.                                          trs pases, estando aberto a todos os Estados
    A inspirao deste movimento teve origem         da Amrica Central e do Sul.
com Emiliano Zapata (1879-1919), lder da Re-            O NAFTA consolidou o intenso comrcio re-
voluo Mexicana (1910). Neste perodo, a vi-        gional no hemisfrio norte do Continente Ame-
tria dos revolucionrios teve como exign-          ricano, beneficiando grandemente  economia
cia a redistribuio das terras aos indgenas e      mexicana, e aparece como resposta  formao
aos camponeses. Fato que s foi acontecer 20         da Comunidade Europia, ajudando a enfrentar
anos mais tarde, quando o governo mexicano           a concorrncia representada pela economia ja-
entregou setenta milhes de hectares a trs mi-      ponesa e por este bloco econmico europeu.
lhes de famlias.                                      O bloco econmico do NAFTA abriga uma
    A partir de 1992, vrios direitos das famlias   populao de 417,6 milhes de habitantes, pro-
que ocupavam as terras em reservas, princi-          duzindo um PIB de US$ 11.405,2 trilhes, que
palmente na Floresta de Lacandon, foram sen-         gera US$ 1.510,1 trilho de exportaes e US$
do anulados por decretos do ento presidente         1.837,1 trilho de importaes.
Carlos Salinas de Gortari (1948- ), favorecendo      n (Extrado de http://www.camara.gov.br/mercosul/blocos/NAFTA.htm
os grandes proprietrios de Chiapas. Ao mes-            Acesso em: 16 dez. 2005).

mo tempo, este governo acabou com os subs-

                 Movimentossociais,polticoseculturaisnasociedadecontempornea:proibidoproibir? 379
       EnsinoMdio

                              dios e o protecionismo  produo de milho e caf arruinando a eco-
                              nomia das pequenas comunidades.
                                  Em 1992 e 1993, os camponeses mobilizaram-se pacificamente con-
                              tra essas polticas, no entanto, suas manifestaes foram ignoradas pe-
                              lo governo. Em 1993, os camponeses mexicanos se organizaram para a
                              luta armada e realizaram os primeiros conflitos com o exrcito. Em ja-
                              neiro de 1994, toda comunidade nacional mexicana e internacional to-
                              mou conhecimento da causa zapatista, o que forou o governo de Sa-
                              linas a entrar em negociao com este movimento.


        Documento 2
         Comunicado do Comit Clandestino Revolucionrio Indgena  Comando Geral do Exrcito Zapatis-
     ta de Libertao Nacional.
        Mxico, outubro de 2004.
        Ao povo do Mxico:
         sociedade civil nacional e internacional:
        Irmos e irms:
        OEZLN se dirige a vocs para dizer a sua palavra:
         Primeiro. Devido  hostilidade de grupos paramilitares e  intolerncia alimentada em algumas co-
     munidades pelo Partido Revolucionrio Institucional, dezenas de famlias indgenas zapatistas, h tem-
     po, se viram obrigadas a refugiar-se e formar pequenos ncleos populacionais na chamada "biosfera
     dos Montes Azuis". Durante o tempo em que permaneceram nesta terrvel situao, longe de suas ter-
     ras de origem, os zapatistas refugiados se esforaram para cumprir nossas leis que mandam cuidar dos
     bosques. Apesar disso, o governo federal de mos dadas com as transnacionais, que pretendem apo-
     derar-se das riquezas da selva Lacandona, mais de uma vez, ameaaram desalojar violentamente todos
     os povoados desta regio, incluindo os zapatistas. Os companheiros e companheiras de vrias comu-
     nidades ameaadas de desalojamento decidiram resistir enquanto o governo no cumprir os chamados
     "acordos de San Andrs". Sua deciso  respaldada e apoiada pelo Exrcito Zapatista de Libertao
     Nacional. Sublinhamos isso no devido momento e agora o ratificamos: se alguma de nossas comunida-
     des  desalojada com violncia, responderemos, todos, no mesmo tom.
         Segundo. Com o avano das chamadas "juntas de bom governo", grande parte das comunidades
     indgenas zapatistas se muniu de meios que melhoram substancialmente suas condies de vida.
         Sobretudo no que diz respeito  sade e  educao, as comunidades rebeldes conseguiram avan-
     os, sem nenhum apoio governamental federal, estadual ou dos municpios oficiais, que superam com
     folga os das comunidades vinculadas  oficialidade. Isso tem sido possvel graas ao apoio de irmos
     e irms de todo o Mxico e do mundo.
         Contudo, estes benefcios no conseguem cobrir todas as comunidades rebeldes. Particularmente,
     as populaes refugiadas nos Montes Azuis no so beneficiadas por estes avanos. .(...)
         Stimo. Esperamos sinceramente que a sociedade civil nacional e internacional responda ao nos-
     so apelo para apoiar estas comunidades e melhorar assim suas condies de vida zapatista, ou seja,
     de luta e resistncia.(...)
        Democracia! Liberdade! Justia! Das montanhas do Sudeste Mexicano.


380 RelaesCulturais
                                                                                                                   Histria


     Pelo Comit Clandestino Revolucionrio Indgena  Comando Geral do Exrcito Zapatista de Liber-
 tao Nacional.


     Subcomandante Insurgente Marcos.
     Mxico, outubro de 2004, 20 e 10.

                                                                                        n (La Jornada, 13 out. 2004.)
                                                    n (Fonte: http://www.zapatuga.blogspot.com/ - Acesso em: 12 dez. 2005).




                ATIVIDADE

     Compare os documentos 1 e 2 levando em considerao as seguintes questes:
    Quando foram escritos? Por quem? A quais sujeitos se direcionam os respectivos documentos?
    Escreva uma narrativa histrica sobre as reivindicaes do Movimento Zapatista. Voc considera es-
     sas reivindicaes justas? Justifique sua opinio.



                PESQUISA

    Para aprofundar seu entendimento sobre esse tema, voc pode pesquisar em livros e revistas so-
     bre as condies de existncia das comunidades indgenas de outros pases da Amrica Latina.



    Os Sem-Terra no Brasil
    O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST)  um dos
movimentos sociais que congregam, no Brasil contemporneo, a ao
organizada na luta pela terra. Nesse movimento, os acampamentos tm
se constitudo em uma nova forma de luta pela terra no pas, embora
eles j estivessem presentes desde a dcada de 1960. Esse movimento
foi fundado em 1984 em Cascavel, Paran, durante o Primeiro Encon-
tro Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra. Atualmente, possui
comisses em quase todos os estados e atua na maioria dos acampa-
mentos/ocupaes de terras existentes no pas.
    Sua histria est assentada na luta travada pelos trabalhadores ru-
rais sem-terra, sobretudo do sul do Brasil, onde desde a dcada de 60
surgiram movimentos como o MASTER - Movimento dos Agricultores
Sem-Terra, originrio do Rio Grande do Sul.
     um movimento com forte apoio da Comisso Pastoral da Terra
(CPT) e outros setores progressistas da Igreja, sem, entretanto, man-


                 Movimentossociais,polticoseculturaisnasociedadecontempornea:proibidoproibir? 381
          EnsinoMdio

  Documento 3                                                  ter qualquer vnculo formal ou real com estas instituies. Tambm es-
                                                               to ligados fortemente  Central nica dos Trabalhadores (CUT), onde
                                                               mantm uma secretaria nacional.
                                                                   A ampliao da luta pela terra levada a cabo pelo MST tem provo-
                                                               cado reaes tanto dos latifundirios como da justia e do governo. 

                                n http://diversao.uol.com.br
                                                               por isso que alguns episdios de violncia provocados pelos latifundi-
                                                               rios e pelos governos tm marcado a histria das ocupaes de ter-
                                                               ra realizadas pelo Movimento, como foram os casos da fazenda Anoni,
                                                               no Rio Grande do Sul, da fazenda Jangada, em Getulina e Pontal do
                                                               Paranapanema, no oeste paulista. Os latifundirios, de modo geral, j
  n Reforma Agrria. HENFIL                                    estavam organizados politicamente por meio do movimento reacion-
                                                               rio Unio Democrtica Ruralista (UDR). Com o avano do Movimento
                                                               dos Sem-Terra, alguns governos estaduais e federal utilizaram a justia
                                                               e a fora policial, apoiados pelos latifundirios, para submeter judicial-
                                                               mente os coordenadores mais ativos do MST, decretando suas prises,
                                                               a exemplo de Jos Rainha Jnior (1960- ), Deolinda Alves de Souza,
                                                               Mrio Barreto e Joo Pedro Stdile (1953- ), entre outros. Estas prises
                                                               ou pedidos das mesmas ocorreram porque os latifundirios entendiam
                                                               que as ocupaes empreendidas pelos integrantes do MST feriam seus
                                                               direitos de proprietrios.
                                                                   Os sem-terra, com suas bandeiras vermelhas, cartazes de Ernes-
                                                               to Rafael Guevara de la Serna, o Che Guevara (1928-1967), e cantos
                                                               de origem socialista, conseguiram muitas vitrias, pois atualmente so
                                                               muitas as famlias que foram assentadas e cooperativas de produtores
                                                               espalhados pelo Brasil, mostrando a capacidade de organizao e de
                                                               luta dos camponeses contra as grandes empresas estrangeiras e lati-
                                                               fundirios.


                              ATIVIDADE

          Qual a crtica que a charge de Henrique de Souza Filho, o Henfil (1944-1988), presente no docu-
           mento 3 faz em relao representaes que os latifundirios fazem da reforma agrria?
          Produza uma charge representando a sua opinio sobre a reforma agrria e o Movimento Sem-Ter-
           ra.
          A partir da definio de reforma agrria presente no texto 1, construa uma narrativa histrica sobre a
           luta pela terra na Amrica Latina a partir das aes e projetos dos movimentos zapatista e dos sem-
           terra.


                                                                 Omovimentofeminista
                                                                   Na dcada de 1950, na maioria dos pases ocidentais, as mulheres
                                                               j haviam conseguido o direito ao voto. No final da dcada de 1960,
                                                               elas passaram a denunciar as injustias a que estavam sujeitas, buscan-
                                                               do maiores direitos civis e polticos. Surgiu um novo Movimento Fe-
382 RelaesCulturais
                                                                                           Histria

minista, primeiramente nos EUA, Documento 4
com a fundao, em 1966, da Or-
ganizao Nacional da Mulher
(NOW, em ingls) e na Europa
Ocidental (Inglaterra e Frana).




                                                                                                      n Cedido pelo Centro de formao Urbano Rural Irmo Arajo;
No Brasil, o movimento feminis-
ta s adquiriu fora a partir da
dcada de 70.
    O Movimento Feminista se tor-
nou expressivo em vrias partes
do mundo, com motivaes e for-
mas de lutas diferenciadas, por-
tanto com caractersticas diferen-
tes. Nos EUA, por exemplo, como
a composio social foi formada
por inmeros grupos tnicos, ele
passou a lutar pelo reconhecimen-
to de direitos civis para as mulhe-
res pertencentes s minorias, queriam maior alteridade e melhores condies de vida e de traba-
lho. Na Europa Ocidental lutavam por direitos polticos e igualdade.
    No Brasil, durante o perodo militar e da redemocratizao (dcadas de 1970 e 1980), muitas
militantes do movimento feminista, oriundas das camadas mdias e intelectualizadas, postula-
vam a transformao da sociedade como um todo. No entanto, aps vrias crticas, as feminis-
tas brasileiras incorporaram as reivindicaes dos movimentos de bairros, de moradia e contra
a carestia, compostos pelas classes populares e mdias, cuja participao feminina era majo-
ritria. Dessa forma, passaram a reivindicar o acesso  infra-estrutura urbana bsica (gua, luz,
esgoto, asfalto, creches e escolas, etc.), maior participao poltica, igualdade social, de gne-
ro e melhores condies de trabalho.
    Em 1975, com o objetivo de diminuir as diferenas entre homens e mulheres e muitas das
discriminaes sofridas por estas no mundo, a Organizao das Naes Unidas (ONU) lanou o
Decnio das Naes Unidas para as Mulheres com aes afirmativas em relao  sade, edu-
cao e trabalho, entre 1975 a 1985, tornando as reivindicaes das mulheres mais visveis.
    A partir da dcada de 1980, o Movimento Feminista passou a repensar seus pressupostos te-
ricos e se reorganizou na forma de vrios grupos e organizaes. Novos objetivos e lutas fo-
ram sendo incorporados, entre eles o abandono da "guerra dos sexos" (homens X mulheres),
para repensar as questes relativas s mulheres a partir de estudos sobre gnero. Nesta pers-
pectiva, foram considerados os papis construdos tanto para os homens quanto para as mu-
lheres em uma determinada sociedade, privilegia-se o aspecto relacional entre ambos.


                ATIVIDADE

    Reuna-se com seus colegas e elabore uma pauta de reivindicao que atenda os interesses das
     mulheres do comeo do sculo XXI e compare com as lutas do movimento feminino das dcadas
     de 1970 e 1980.

                Movimentossociais,polticoseculturaisnasociedadecontempornea:proibidoproibir? 383
       EnsinoMdio

                                 ARevoluojovem
                                  Nos anos 1960, os jovens de inmeros pases, como Frana, Ingla-
                              terra, Tchecoslovquia, EUA, Mxico, Brasil, entre outros, revoltaram-
                              se contra a forma opressiva que as sociedades de classe assumiram.
                              Lutavam contra a estruturao da sociedade sob o controle de uma in-
                              dstria avanada, com forte apelo consumista e massificante, que no
                              permitia a contestao, na qual a valorizao no recaia sobre os su-
                              jeitos, mas sobre a modernizao, racionalizao e o planejamento bu-
                              rocrtico, ou seja, uma sociedade tecnocrtica. Ainda, os jovens passa-
                              ram a lutar contra regimes governamentais autoritrios e repressores,
                              como foi o caso da Tchecoslovquia e do Brasil aps 1964.
                                  Desta forma, grande parte da energia crtica desta nova gerao de
                              descontentes foi canalizada para atividades at ento no descobertas
                              pelas formas tradicionais de luta poltica, manifestando-se de maneiras
                              surpreendentes. Uma das formas dos jovens explicitarem a sua rebel-
                              dia foi pelas manifestaes culturais.
                                  Contracultura foi o termo criado pela imprensa norte-americana,
                              nos anos 1960, para caracterizar um conjunto de manifestaes cultu-
                              rais nos Estados Unidos e Europa, com menor repercusso na Amrica
                              Latina. Assim, contracultura foi a cultura no reconhecida oficialmen-
                              te, portanto, marginal.
                                  A contracultura norte-americana surgiu dos movimentos de contesta-
                              o do modo de vida e cultura ocidental. Jovens intelectuais, bomios,
                              marginalizados como os gays e negros, a partir do final da dcada de
                              1950, passaram a criticar e a recusar a forma de organizao da socieda-
                              de americana e o mito do "sonho americano" relativo  idia de sucesso.
                              Nos anos 1960, os jovens da classe mdia americana passaram a apoiar
                              os movimentos de contestao e a criticar a cultura estadunidense.
                                  Descrentes com o futuro e desencantados com o presente, os jo-
                              vens de diferentes pases tentaram criar um mundo alternativo expres-
                              so pela msica e pelo movimento underground.


                                  A contestao dos jovens pela msica

        Texto 2
        68, o ano em que os profetas falharam
        A primavera tambm foi a estao da crise na Frana. Os chamados "acontecimentos de maio" fo-
     ram no apenas a maior mobilizao estudantil da histria francesa, como tambm se ampliaram, ge-
     rando o que foi, possivelmente, sua maior greve geral.
         Mas quem tomou as grandes decises em 1968? Os movimentos mais caractersticos de 1968
     idealizaram e se opuseram  liderana,  estruturao e  estratgia. Sua ideologia natural deveria ha-
     ver sido o anarquismo, mais do que as imagens de Marx, Lenin, Mao e Che preferidas por seus parti-


384 RelaesCulturais
                                                                                                            Histria


 cipantes mais conscientizados. A arma natural da revolta de 1968 no era o fuzil ou a resoluo polti-
 ca, mas o muro pichado, o cartaz improvisado e o microfone.
     No entanto,  um erro tratar 1968 como se tivesse sido um ano de revoluo fracassada. Foi, na
 melhor das hipteses, um lembrete de que os fundamentos da era de ouro econmica do Ocidente es-
 tava afundando, assim como o estava aquelas das economias centralmente planejadas do tipo soviti-
 cos, cujas falhas se tornavam cada vez mais evidentes.
    Na verdade, foi a erupo da transformao cultural, econmica e social sem procedentes que faz
 de 1968 uma data significativa na histria do sculo XX. (Adaptado de HOBSBAWM, Folha de So Paulo, 10 de maio
 de 1968, pp. 4-5).


    O ano de 1968 foi marcado por protestos de jovens em vrias par-
tes do mundo. O foco irradiador foi a Frana, onde os estudantes se-
cundaristas e universitrios realizaram protestos contra o sistema edu-
cacional elitista e autoritrio, mas tambm contra a sociedade industrial
moderna que desumaniza. Estes protestos terminaram em graves con-
frontos com a polcia. Simultaneamente ocorreram revoltas de jovens
estudantes no Mxico; na Tchecoslovquia, os intelectuais e artistas
deram incio a um conflito conhecido como Primavera de Praga, pois
eles queriam repensar o socialismo em seu pas, mas foram duramen-
te reprimidos pelo exrcito sovitico.
    No Brasil, os estudantes, msicos, artistas saram s ruas para de-
nunciar o regime militar que passou a vigorar no pas a partir de 1964.
Em 1968, o governo militar institui o AI-5 (Ato Institucional n. 5), atra-
vs do qual concretizou a ditadura ao decretar o fechamento do Con-
gresso, estabeleceu a censura aos meios de comunicao e passou a
prender e a julgar arbitrariamente qualquer pessoa que fosse conside-
rada contra o regime, denominados de subversivos.
    Neste contexto, intensificou-se a oposio de muitos jovens ao go-
verno militar tanto atravs do ingresso em movimentos de luta armada,
conhecidas como guerrilhas, como pela produo cultural de engaja-
mento poltico, cujo objetivo era conscientizar os jovens e a populao
em geral das dificuldades enfrentadas pelo povo brasileiro e o autorita-
rismo do governo federal. Pode-se afirmar que estes foram alguns dos
motivos que levaram  imposio do AI-5 em dezembro de 1968.


     Documento 5
     Apesar De Voc
     Hoje voc  quem manda                Apesar de voc                            Todo esse amor reprimido,
     Falou, t falado                      amanh h de ser outro dia.               Esse grito contido,
     No tem discusso, no.               Eu pergunto a voc onde vai se esconder   Esse samba no escuro.
     A minha gente hoje anda               Da enorme euforia?                        Voc que inventou a tristeza
     Falando de lado e olhando pro cho.   Como vai proibir                          Ora, tenha a fineza
     Viu?                                  Quando o galo insistir em cantar?         de "desinventar".
     Voc que inventou esse Estado         gua nova brotando                        Voc vai pagar, e  dobrado,
     Inventou de inventar                  E a gente se amando sem parar             Cada lgrima rolada



                      Movimentossociais,polticoseculturaisnasociedadecontempornea:proibidoproibir? 385
        EnsinoMdio

         Toda escurido                      Quando chegar o momento                 Nesse meu penar.
         Voc que inventou o pecado          Esse meu sofrimento                     (...)
         Esqueceu-se de inventar o perdo.   Vou cobrar com juros. Juro!
     n (Composio: Chico Buarque, 1970).


                                                                     Entre os grupos de luta armada, destaca-
          Documento 6                                            ram-se a Aliana Nacional Libertadora (ALN),
         Proibido Proibir                                        o Movimento Revolucionrio 8 de outubro
         A me da virgem diz que no                             (MR-8) e a Vanguarda Popular Revolucionria
         E o anncio da televiso escrito no porto              (VPR). A represso aos integrantes destes gru-
                                                                 pos era muito intensa. Centenas de pessoas fo-
         E o maestro ergueu o dedo e alm da porta
                                                                 ram presas, torturadas e/ou mortas.
         Ao porteiro, sim e eu digo sim
                                                                     Quanto ao protesto atravs da produo
         E eu digo no ao no                                    cultural foram as msicas de protesto que ti-
         Eu digo  proibido proibir                              veram maior repercusso entre a populao.
          proibido proibir,  proibido proibir...               Destacaram-se compositores como: Geraldo
         Me d um beijo meu amor                                 Vandr (1935- ) e Francisco (Chico) Buarque
                                                                 de Holanda (1944- ).
         Eles esto nos esperando
                                                                     Em 1968, tambm surgiu o tropicalismo, que
         Os automveis ardem em chamas
                                                                 foi mal recebido pelos membros do movimen-
         Derrubar as prateleiras, as estantes,                   to estudantil, os quais se identificavam com a
         as esttuas, as vidraas, louas, livros sim            msica de protesto, pois acreditavam que os
         E eu digo sim, e eu digo no ao no                     integrantes daquele movimento artstico no
         E eu digo  proibido proibir                            eram politizados e, assim, estavam a favor do
                                                                 governo e do capital internacional. O descon-
          proibido proibir,  proibido proibir
                                                                 tentamento dos integrantes do movimento es-
         (...)
                                                                 tudantil com este estilo musical foi representa-
                                 n (Letra: Caetano Veloso, 1968)
                                                                 do pela crtica ao abandono do violo acstico
                                                                 e sua substituio por instrumentos eltricos
                                realizada pelos tropicalistas.
                                     Os conservadores de direita, por no conseguirem entender o movi-
                                mento, tambm se opunham s atitudes provocativas do tropicalismo.
                                     Os representantes do tropicalismo se defenderam das crticas afir-
                                mando que eram contra a poltica do capital internacional no Brasil
                                como tambm a qualquer forma de autoritarismo, at mesmo daque-
                                les que queriam impor somente uma forma de lutar contra a opresso
                                e a dominao. Os tropicalistas propunham uma mistura de estilos ar-
                                tsticos antigos e modernos, representados, por exemplo, pelas msi-
                                cas regional, brega, samba, bolero e rock'n'roll.
                                     Entre os representantes de maior destaque do tropicalismo esta-
                                vam: Caetano Veloso (1942- ), Gilberto Gil (1942- ), Tom Z (1936- ) e
                                o grupo Os Mutantes (formado em 1966).
                                     Para alguns jovens, a msica tornou-se uma forma de difundir
                                idias, demonstrar sua insatisfao com a sociedade em que vive e
                                manifestar sua rebeldia.

386 RelaesCulturais
                                                                                                       Histria

    O rock foi o ritmo que permeou todos os movimentos de contesta-
o dos jovens, mas precisamente o rock'n'roll, surgido nos EUA, na
dcada de 1950. Com seu balano frentico e sensual embalava o dia-
a-dia de uma juventude que comeava a descobrir sua fora. Origi-
nou-se da mistura do rhythm blues negro com a coutry-and-western,
msica de brancos rurais pobres; por isso, desde seu incio, foi margi-
nalizada pela sociedade norte-americana. Foi este ltimo aspecto que
atraiu uma grande parcela dos jovens.
    A dcada de 1960  um perodo de referncia para o rock'n'roll,
quando Os Beatles (1960-1970), Bob Dylan (nascido em 1941- ) e os
Rolling Stones (formado em 1962), por exemplo, eram escutados por
multides de jovens. Tambm neste perodo foram realizados nos EUA
grandes festivais de rock, como o de Monterey, em 1967, quando sur-
gem Jimmy Hendrix (1942-1970) e Janis Joplim (1943-1970), o de Woo-
dstock, em 1969, e o de Altamont, no mesmo ano.
                                                                               Documento 7
    Movimento Hippie
    O movimento Hippie foi o que mais caracterizou a rebelio dos jo-
vens norte-americanos. Influenciado pelo orientalismo (uma vez que
contestavam os valores ocidentais), psicodelismos, rock e o movi-
mento estudantil, o apoio a movimentos sociais, como o Black Power
(Poder Negro), deixou um legado importante aos jovens da atualida-
de atravs de suas prticas e idias, como: a valorizao da liberdade
de expresso (o movimento deu voz a juventude), o desapego ao po-
der (se preocupavam em ser felizes e no ricos), valorizao da natu-          n Smbolo da paz difundido pelo
                                                                                 movimento hippie
reza (pregavam o amor ao planeta), uma revoluo sexual (pregavam
o amor livre e eram contra tabus como: virgindade, homossexualismo
e o casamento), a banalizao das drogas (em busca de uma espiritua-
lidade alternativa, utilizavam drogas como a maconha e o LSD).
    O Movimento Hippie surgiu na cidade de So Francisco (Califr-
nia), na dcada de 1960, mas em pouco tempo se espalhou pelas gran-
des cidades dos EUA e depois pelo mundo. Ele procurava contestar o
modo de vida ocidental e o american way of life, ou seja, o modo de
vida americano. Sua forma de demonstrar insatisfao era a luta pacfi-
ca (Power Flower - Poder da Flor), realizada em passeatas, tinham slo-
gans como "paz e amor" e "faa amor, no faa guerra". Abandonavam
a cidade e passavam a viver no campo em comunidades, longe da fa-
mlia, preferiam produzir o que necessitavam. Sua filosofia era o "drop
out" ou "cair fora".


                ATIVIDADE

    Segundo o texto 2 do historiador britnico Eric Hobsbwam  qual a principal forma de luta adotada
     pelos jovens em maio de 1968? Em que se diferia das formas de lutas antes adotadas?


                 Movimentossociais,polticoseculturaisnasociedadecontempornea:proibidoproibir? 387
         EnsinoMdio


         A que aspectos o autor do texto 2 relaciona as manifestaes de jovens em maio de 1968?



                       PESQUISA

         Sobre a atuao do movimento estudantil  luz do contexto scio-histrico da ditadura militar brasi-
          leira nas dcadas de 1960 e 1970 e da cano composta por Chico Buarque de Holanda, presen-
          te no documento 5.




                       DEBATE

         " proibido proibir" foi o lema dos jovens rebeldes de Paris em maio de 1968. Leia a letra da msica
          de Caetano Veloso, presente no documento 6, e discuta com seus colegas:
          a) Que significado essa msica teve para os jovens do passado?
          b) Essa msica tem significado para os jovens de hoje em dia? Justifique.


                                   O Rap e o Movimento Hip hop
                                   O rap surgiu nos bairros pobres de Nova York, como o Bronx, de
                               populao negra e latina na dcada de 1960, no Brasil s ficou conhe-
                               cido a partir dos anos 1980 conforme voc pode ler no texto sobre a
                               histria do rap:

          Documento 7
                                                  Histria do RAP
          Criado nos Estados Unidos, o rap - uma abreviao para rhythm and poetry (ritmo e poesia) -  um
     gnero musical nascido entre negros e caracterizado pelo ritmo acelerado e pela melodia bastante sin-
     gular. As longas letras so quase recitadas e tratam, em geral, de questes cotidianas da comunidade
     negra, servindo-se muitas vezes das grias correntes nos guetos das grandes cidades. Chegou ao Bra-
     sil na dcada de 80, mas somente na dcada seguinte ganhou espao na indstria fonogrfica.
         Diz-se que o Rap surgiu na Jamaica mais ou menos na dcada de 60, quando surgiram os "Sound
     Systems", que eram colocados nas ruas dos guetos jamaicanos para animar bailes. Esses bailes ser-
     viam de fundo para o discurso dos "toasters", autnticos mestres de cerimnia que comentavam, nas
     suas intervenes, assuntos como a violncia das favelas de Kingston e a situao poltica da Ilha, sem
     deixar de falar,  claro, de temas mais prosaicos, como sexo e drogas.
        No incio da dcada de 70, muitos jovens jamaicanos foram obrigados a emigrar para os EUA, devi-
     do a uma crise econmica e social que se abateu sobre a ilha. E um em especial, o DJ jamaicano Kool
     Herc, introduziu em Nova Iorque a tradio dos "Sound Systems" e do canto falado, que se sofisticou
     com a inveno do scratch, um discpulo de Herc.




388 RelaesCulturais
                                                                                                                        Histria


     O primeiro disco de Rap que se tem notcia foi registrado em vinil e dirigido ao grande mercado (as
 gravaes anteriores eram piratas) por volta de 1978, contendo a clebre "King Tim III" da banda Fat-
 back.
      O Rap, a princpio chamado de "tagarela", ascende e os breakers formam grupos de Rap. Em 1988
 foi lanado o primeiro registro fonogrfico de Rap Nacional, a coletnea "Hip-Hop Cultura de Rua", pe-
 la gravadora Eldorado. Desta coletnea participaram Thaide & DJ Hum, MC/DJ Jack, Cdigo 13 e ou-
 tros grupos iniciantes.
     Nesse perodo de ascenso do Rap, a capital paulista passou a ser governada por uma prefeitura
 petista, o que muito auxiliou na divulgao do movimento Hip-Hop e na organizao dos grupos. Por
 esse motivo foi criado, em agosto de 89, o MH2O  Movimento Hip-Hop Organizado, por iniciativa e
 sugesto de Milton Salles, produtor do grupo Racionais MC's at 1995. O MH2O organizou e dividiu o
 movimento no Brasil. Ele definiu as posses, gangues e suas respectivas funes.
    Nesse trabalho de divulgao do Hip-Hop e organizao de oficinas culturais para profissionaliza-
 o dos novos integrantes, no podemos esquecer de citar a participao do msico de reggae Toni-
 nho Crespo. Este trabalho teve sua continuidade no municpio de Diadema com o profissionalismo de
 Sueli Chan (membro do MNU - Movimento Negro Unificado).
      Desde seu surgimento, nos anos 70, numa Nova Iorque violenta como nunca, o rap imps a dis-
 cusso de questo negra. Os Estados Unidos viviam ento a ressaca de conflitos raciais que incluram
 desde o pacfico movimento pelos direitos civis de Martin Luther King at a militncia armada dos Pan-
 teras Negras. No Brasil, o debate se intensificou aps a projeo do grupo americano Public Enemy, na
 segunda metade dos anos 80. Seus clipes mostraram um novo mundo de idias para os rappers brasi-
 leiros. Grupos como Racionais e DMN admitem Chuck D & Cia. como influncia maior. Os cones Mal-
 colm X e Martin Luther King tornaram-se leitura de cabeceira.
                                                n (Extrado de: http://www.cuca.org.br/musicarap.htm . Acesso em: 17 dez. 2005).


    No final dos anos 1960, surgiu nas ruas pobres de Nova Iorque,
produzido por jovens negros e latinos, um movimento cultural chama-
do Hip Hop. Porm, o Hip Hop s tornou-se conhecido para a maio-
ria da populao a partir da dcada de 1980, quando passou a ser va-
lorizado pela indstria cultural.
    O Hip Hop conquistou uma parcela grande dos jovens das perife-
rias das grandes cidades atualmente, por constituir-se um espao de
expresso livre para os excludos de outros circuitos de lazer, arte e
educao. A maioria dos integrantes do movimento Hip Hop buscam
denunciar sua dura realidade com o objetivo de gerar conscincia e a
transformao da sociedade.
    So trs os elementos que compe o Hip Hop: o gnero musi-
cal do Rap  nome formado pelas iniciais rhythm and poetry (ritmo e
poesia); a dana break, que significa "quebrar" em ingls, caracteri-
zados por movimentos "quebrados", animados pelo som dos DJs , ou
Disc-Jqueis, presentes nos bailes e festas; e o ltimo elemento esta-
va identificado com a liberdade da arte de rua, o Graffiti, que realiza-
va pinturas coloridas nos murros das cidades.



                Movimentossociais,polticoseculturaisnasociedadecontempornea:proibidoproibir? 389
                      EnsinoMdio


                            Texto 3
                            Graffiti e educao
          No Projeto Quixote, na zona sul de So Paulo, o Hip Hop tornou-se um valioso aliado na constru-
     o da cidadania entre os adolescentes em situao de excluso social. Numa iniciativa inovadora, o
     projeto lanou, em maio do ano passado, a Agncia Quixote Spray Arte, que une a arte do graffiti e a
     educao para o trabalho. No papel de aprendizes, os adolescentes recebem uma bolsa-auxlio e par-
     ticipam de um completo programa pedaggico, conduzidos por educadores, psiclogos e grafiteiros
     profissionais.
         Ligado a Universidade Federal de So Paulo, o Quixote dedica-se a preveno do uso de drogas
     entre crianas e adolescentes atravs da promoo do direito  sade, arte e educao. Entre outros
     desafios, busca criar oportunidade de renda e trabalho para garotos e garotas que tm baixa escolari-
     dade.(...) (Adaptao de LOPES, 2002, p.19).




                                       ATIVIDADE

                           Relacione a realidade e os respectivos projetos dos jovens das periferias das grandes cidades com
                            o documento 7 e o texto 3 referentes ao rap e ao hip hop.

                       Documento 8

                                                   OMovimentoNegroealutapordireitoscivis
                                                     Na dcada de 1950, a populao de afrodescendentes dos EUA,
                                                 principalmente nos estados do sul do pas, viviam em regime de se-
                                                 gregao racial. No tinham direito ao voto; de freqentar as mesmas
                                                 escolas que a populao branca e universidades; de usar instalaes
      n www.facom.ufba.br




                                                 pblicas; os vages de trens e nibus urbanos eram separados. Jun-
                                                 tamente com outros movimentos sociais deste perodo surgiu o Movi-
                                                 mento pelos Direitos Civis, que lutava para que estes direitos fossem
                                                 estendidos aos negros e outras minorias.
   n Martin Luther King (1929-1968)
                                                     O pastor protestante Martin Luther King (1929-1968) liderou protes-
                                                 tos e passeatas seguindo alguns princpios de Gandhi, na luta pela in-
                                                 dependncia da ndia, como a desobedincia civil e a no-violncia.
                                                 Com isto, em 1963, o presidente John Kennedy (1917-1963) apresen-
                                                 tou ao Congresso americano um projeto sobre as Leis dos Direitos Ci-
                                                 vis. Com a morte de Kennedy, neste mesmo ano, a questo racial agra-
                                                 vou-se, dividindo o Movimento Negro em duas correntes: a pacifista
                                                 (liderada por Martin Luther King) e a radical (liderada pelos Panteras
                                                 Negras - que utilizavam a violncia como recurso de luta).
                                                     No Brasil, o Movimento Negro intensificou-se na dcada de 1970,
                                                 motivado pelo acompanhamento dos movimentos nos EUA, pelas lu-
                                                 tas de libertao na frica e por acontecimentos internos, como a re-
                                                 presso dos governos militares. Neste contexto, os movimentos negros

390 RelaesCulturais
                                                                                                 Histria

utilizaram a questo da identidade tnica como instrumento de cons- Documento 9
cientizao de um grupo diferenciado, conduzindo a percepo das
desigualdades e carncias em relao aos outros grupos, favorecendo
a luta pela democracia.
    Em 1978, os movimentos negros se organizaram formando o Mo-
vimento Negro Unificado Contra a Discriminao Racial (MNUCDR).




                                                                                                            n www.pt.org.br/
Isto decorreu depois de vrios episdios que foraram a comunida-
de negra a se posicionar perante a sociedade e o Estado, como, por
exemplo: a expulso de quatro atletas negros do Clube Regatas Tiet
e a morte de Robson Silveira da Luz em uma delegacia em Guaiana- n Emblema do Movimento Negro
zes (So Paulo).
    A partir de ento, o MNUCDR vem discutindo questes de valoriza-
o e respeito  cultura de origem africana no Brasil, conquistando di-
reitos e denunciando aes de carter racista no pas.
    Algumas aes afirmativas passaram a ser realizadas por causa das
lutas promovidas pelo movimento negro, tais como: a poltica de cotas
em concursos e universidades pblicos.


                ATIVIDADE

    Construa uma narrativa histrica a partir de uma pesquisa sobre a condio de existncia dos ne-
     gros e de suas reivindicaes no Brasil da segunda metade do sculo XX.



  RevoltasdejovensemParis:outubrode2005
    A morte acidental de dois jovens negros, em 27 de outubro de
2005, aps perseguies por policiais, desencadearam protestos de jo-
vens imigrantes de diferentes etnias nas principais cidades da Frana
e de outros pases europeus, como a Blgica e a Alemanha. Os jovens
contestavam o modo como as pessoas de diferentes etnias e imigran-
tes eram tratados na Frana, reivindicam respeito e condies dignas
de trabalho e estudo, ou seja, protestavam contra  segregao social,
racial, cultural e econmica.

     Documento 10
     04/11/2005 - 08h56
             Paris tem nova noite de violncia e manifestantes queimam 400 carros
                                                                                       Da Folha Online
      Jovens franceses promoveram, nesta quinta-feira, mais uma noite de violncia nos subrbios de Pa-
 ris, e atearam fogo em mais de 400 carros, segundo o site do jornal francs "Le Monde". Apesar do n-
 mero elevado de veculos, houve menos confrontos entre manifestantes e policiais que os ocorridos na
 noite desta quarta-feira.


                Movimentossociais,polticoseculturaisnasociedadecontempornea:proibidoproibir? 391
        EnsinoMdio


         Pela primeira vez, em mais de uma semana de confrontos, a violncia tambm se espalhou pelas
     cidades provinciais ao redor de Paris. Jovens tambm queimaram carros em Dijon, Rouen e Bouches-
     du-Rhone.
         Seine-Saint-Denis, no norte de Paris, foi novamente a regio mais afetada pela violncia: segundo a
     polcia, ao menos 150 veculos foram destrudos nesse local. Nos departamentos de Essone (sudeste),
     Val d'Oise (norte) e Yvelines (oeste) tambm foram registrados atos de violncia.
          Autoridades locais disseram esperar que as celebraes pelo fim do Ramad [ms sagrado dos
     muulmanos, poca em que comer, beber e manter relaes sexuais so atividades proibidas entre a
     alvorada e anoitecer, que acontece no nono ms do calendrio islmico] fossem "acalmar os nimos"
     dos manifestantes, provindos de bairros pobres dos subrbios franceses, onde h muitos imigrantes
     africanos e oriundos de pases muulmanos.
         Em um dos episdios mais graves registrados na noite de ontem, segundo o "Le Monde", dois ve-
     culos da polcia francesa foram atacados "com tiros de pistola e granadas ", sem deixar feridos. Quase
     300 policiais e agentes de segurana ocuparam as ruas de Seine-Saint-Denis ontem.
         O primeiro-ministro francs, Dominique de Villepin, se encontrou com chefes da segurana france-
     sa na noite de ontem na tentativa de estabelecer um "plano de ao para os subrbios" que dever ser
     formalmente apresentado ainda neste ms.


          Desemprego
        Para se ter uma idia da pssima situao econmico-social enfrentada em Seine-Saint-Denis, uma
     das reas mais afetadas pelos confrontos, a taxa de desemprego  4% maior que a taxa nacional fran-
     cesa, que chega a 9,8%.
        Em algumas reas do subrbio parisiense, a taxa de desemprego chega a ser at um tero maior
     que os ndices do nmero de pessoas sem trabalho na Frana.
        A proporo de pessoas que no pertencem a pases da Unio Europia (UE) na regio de Paris 
     cerca de trs vezes maior que a mdia francesa.
         Os habitantes dessas periferias, onde vivem populaes originrias do Magreb (Marrocos, Arglia,
     Tunsia) e de outras partes da frica, afirmam ser vtimas de discriminao no mercado de trabalho. E se
     dizem frustrados, sobretudo os jovens, diante da falta de perspectiva para o futuro.
     n (Extrado de: http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u89238.shtml - Acesso em: 16 dez. 2005).
                                   mapa com as regies afetadas pela violncia na Frana




                                        n Extrado de: http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u89360.shtml


392 RelaesCulturais
                                                                                                Histria



                 ATIVIDADE

    Qual  o assunto principal do documento 10? Quando foi escrito? Que tipo de documento ele ?
    Para o autor do documento 10, que fatores estruturais da sociedade francesa estariam contribuin-
     do para a revolta dos jovens parisienses em outubro e novembro de 2005?
    Observe o mapa 1 e identifique a quantidade de revoltas e os principais lugares. A que concluses
     voc pode chegar sobre as propores destas revoltas?
    Compare as revoltas de Paris de 1968 com as de 2005, a partir dos seus respectivos contextos s-
     cio-histricos. Com estes elementos, construa uma narrativa histrica.



 RefernciasBibliogrficas:
    BIROU, A. Dicionrio das Cincias Sociais. Lisboa: Dom Quixote, 1982.
    Folha de So Paulo. So Paulo, 10 de maio de 1998, Caderno Mais.
    LOPES, I. Periferia em movimento. In: Problemas brasileiros, v. 40, n 350, maro/abril,2002.


 Obrasconsultadas
    ALVES, B. M. O que  feminismo. So Paulo: Abril Cultural/Brasiliense, 1985.
    CASTELLS, M. O poder da identidade. Lisboa: Fundao Calouste Gulbenkian, 2003.
    PEREIRA, C. A. M. O que  contra cultura. So Paulo: Brasiliense, 1983.
    PRIORE, M. D. Histria das mulheres no Brasil. So Paulo: Contexto, 1997.
    SILVA, M. A. G. Encontros e desencontros de um Movimento Negro. Braslia: Fundao Cultu-
    ral Palmares, 1994.


 DocumentosconsultadosOnline
    http://www.zapatuga.blogspot.com/. Acesso em: 12 dez. 2005.
    http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u89238.shtml. Acesso em: 16 dez. 2005.
    http://www.camara.gov.br/mercosul/blocos/NAFTA.htm . Acesso em: 16 dez. 2005.




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